maio 29, 2004
ARQUIVOS NA INTERNET COM INTERESSE PARA PORTUGAL: GRUPOS HOLANDESES DE SOLIDARIEDADE COM PORTUGAL
Secção: Arquivos, Bibliotecas, Fundos
Na mesma instituição, está igualmente o arquivo do Steungroep Landhervorming Portugal Nijmegen , de que existe um inventário feito por Cees Smit , Plaatsingslijst van het archief van de STEUNGROEP LANDHERVORMING PORTUGAL NIJMEGEN s(1973-) 1977-1990 .
Existem também no IISG os arquivos do Nederlands Portugal Comité , e do Portugal Comité mas não estão inventariados.
PÁGINAS SOBRE ÁLVARO CUNHAL NA TSF ONLINE
Secção: Biografias / Vidas
Com pretexto no nonagésimo aniversário de Álvaro Cunhal, a TSF Online tem uma série de páginas sobre o dirigente comunista.
Regista-se aqui o índice dessas páginas:
Retrato
Cunhal: O eterno combatente
Traições para a vida
Uma cabeça de cartaz, mas não de cara de cartaz
A primeira "Cassete"
A "Cassete" dos anos 90
Clandestino
O Homem Clandestino e o Jovem Comunista
A Educação do "filho adoptivo do proletariado"
As primeiras prisões
Fuga de Peniche
O guarda camarada
Regresso a Portugal
Com o povo e o MFA
Comunistas uni-vos
A estratégia de Cunhal
Todos marxistas, todos diferentes
Soares contra Cunhal
maio 28, 2004
MORTE DE JOSÉ AUGUSTO SEABRA
Secção: Biografias / VidasNotícia necrológica sobre este militante da oposição. activista do MUDJ, preso e exilado, que trabalhou na rádio de Moscovo e animou várias iniciativas culturais antes do 25 de Abril , no Público de 29/5/2004
Veja-se igualmente a nota In Memoriam do Almocreve das Petas.
maio 25, 2004
ARTIGOS DE HISTORIA ACTUAL ON-LINE
Secção: BibliografiaA revista electrónica Historia Actual On-line têm vários artigos com interesse para os Estudos:
Bruno Groppo, "Exilés et réfugiés. L'évolution de la notion de réfugié au XXe siècle". Historia Actual On-Line, 2 (2003)
Alfonso Pinilla García, "El asesinato de Carrero Blanco en la prensa. Desinformación, ruido y silencio". Historia Actual On-Line, 3 (2004)
Enrique Coraza de los Santos, "El exilio uruguayo en España: imagen y realidad.". Historia Actual On-Line, 4 (2004).
Júlio Prada Rodríguez, "Memoria 'da longa noite de pedra'. La represión franquista en Ourense (1936-1939)". Historia Actual On-Line, 4 (2004)
maio 16, 2004
MARCELLO CAETANO E A LIBERTAÇÃO DE FERNANDA PAIVA TOMÁS EM 1970
Secção: Biografias / Vidas
Presa em 6 de Fevereiro de 1961, fora julgada em 28 de Novembro e condenada a oito anos de prisão maior e a medidas de segurança. Terminada a sua pena, em Fevereiro de 1969, foram-lhe aplicadas as medidas de segurança que permitiam de forma arbitrária manter as pessoas presas para além do cumprimento da pena definida pelo tribunal. Em Setembro de 1969, no âmbito da aplicação das medidas de segurança, foi interrogada para se avaliar da sua “perigosidade”. Fernanda Paiva Tomás não deixou duvidas sobre o que pensava fazer caso fosse libertada:
“Que, mantendo indefectivelmente as suas ideias políticas e tencionando continuar como militante oposicionista ao actual regime em actividade legal de acordo com essas ideias, não fará qualquer discriminação nem em relação ao partido comunista português nem a qualquer outra organização como forças de carácter democrático e oposicionista”
Um ano depois, seu filho e de Joaquim Carreira, igualmente funcionário do PCP, Alberto Augusto Tomas Carreira , então com quinze anos, apela a Marcello Caetano para que a mãe fosse libertada. Marcello Caetano pede à PIDE uma informação sobre a situação da presa e recebe-a em 22 de Outubro de 1970. A PIDE chama a atenção do Presidente do Conselho para a disposição combativa de Fernanda Paiva Tomás. Marcello Caetano responde então uma semana depois a Alberto Carreira:
Presidência do Conselho
Lisboa
29 de Outubro de 1970
Ex.mo Senhor Alberto Augusto Tomas Carreira
Marinha Grande
Meu caro Alberto Augusto
Li a sua carta e por ela soube da existência de sua mãe. As pessoas pensam às vezes que os presidentes mandam prender pessoas e que está na sua mão soltá-las. Não é exacto. A sua mãe. Por exemplo, foi presa pela polícia por estar a agir contra a lei – e não por ter ideias diferentes das do governo. Foi julgada e condenada pelos tribunais. Informei-me do que se poderia agora fazer para a restituir à família: basta que ela se comprometa a dedicar-se ao filho a não voltar a praticar acções proibidas por lei. Já há meses lhe perguntaram se queria sair nessas condições, que são as da sentença, e ela respondeu que não, Vão fazer-lhe outra vez a pergunta.
Compreendo muito bem os seus sentimentos de filho, e desejo-lhe as maiores felicidades.
Marcello Caetano
É provável que, mesmo que a resposta de Fernanda Paiva Tomás à “pergunta” tenha sido a mesma que deu um ano antes, Marcello tenha tido qualquer forma de intervenção, porque esta foi libertada condicionalmente em 19 de Novembro de 1970, e obrigada a apresentar-se no posto de polícia de Mortágua, para onde foi residir. Continuou a militar no PCP.
Fontes: PIDE / DGS Proc. Cn. 386 / 61, NT 5369
maio 13, 2004
IDENTIFICADO O AUTOR DO DESENHO DE NATAL
Secção: Iconografia
“Este desenho é da autoria de João Abel Manta e foi editado pela Comissão do MUD Juvenil da Escola de Belas Artes de Lisboa de que o autor fazia parte.
Impulsionada por José Dias Coelho, aquela Comissão esteve activa fundamentalmente entre 1946/1952 e dela fizeram parte nomes como João Abel Manta, Rolando Sá Nogueira, Lima de Freitas, Alice Jorge, Bartolomeu Cid, António Alfredo, Margarida Tengarrinha, Raul Hestnes Ferreira, Augusto Sobral, Francisco Castro Rodrigues e muitos outros.
O original foi oferecido pelo autor ao seu grande amigo Dias Coelho e este, ao entrar para a clandestinidade em finais de 1955, ofereceu-a a uma pessoa amiga que ainda hoje o conserva.
João Abel viria a ser preso pela Pide em 1948.!"
Obrigado.
EDITORAS COMUNISTAS DO PORTO (1930-1)
Secção: Organizações - PCP
Beneficiando da menor repressão às actividades comunistas no Porto do que em Lisboa, apareceram na cidade duas “editoras” que publicaram livros de carácter marxista e pró-soviético, no início dos anos trinta. Uma, “Edições Era Nova”, sediada na Avenida dos Aliados, 156-8, publica o livro de M. Sherwood, As Mentiras Imperialistas ; Uma Cruzada Contra a Rússia, 1930, em versão portuguesa de Sousa Martins e Artur Roriz. A outra editora, “Editorial Moutinho”, pertencia a José Moutinho, militante comunista portuense. Moutinho, que tinha como profissão empregado de escritório, era membro do PCP desde pelo menos 1925, tendo tido vários cargos na estrutura comunista, membro do Comité Regional do Norte (1926), e da organização do Socorro Vermelho. Era igualmente activista sindical na União dos Empregados do Comércio do Porto. Foi redactor da Bandeira Vermelha (1925) e director de Resistência (1929). Em 1926 foi um dos delegados do Porto ao II Congresso do PCP. Posteriormente, e segundo testemunho de José da Silva, afastou-se da actividade política.
A Editorial Moutinho publicou uma das primeiras edições portuguesas do Manifesto Comunista, Porto, 1931, precedida da seguinte nota:
“EDITORIAL MOUTINHO apresenta o seu primeiro livro, Manifesto Comunista, obra formidável de extraordinária visão poética, escrita em 1848 por MARX e ENGELS.
Toda a doutrinação comunista tem por base esta importante obra, indispensável a todos os que desejem conhecer a sério as razões fundamentais do marxismo, como ponto de partida para um estudo completo sabre essa doutrina.”
Estas “editoras” desapareceram logo a seguir a estas publicações.
maio 12, 2004
TESE SOBRE O DIRIGENTE DO PCF CLAUDE POPEREN EM LINHA
Secção: Movimento comunista internacionalEstá em linha no Centre d'Histoire Sociale du XXème Siècle , a "mémoire de maîtrise" de Aude Marécaille sobre o dirigente do PCF Claude Poperen, intitulada : De l'engagement au détachement : itinéraire d'un dirigeant communiste, Claude Poperen.
Publica-se a seguir o seu índice:
SOMMAIRE
A) PREMIER VOLUME : mémoire de maîtrise de 173 pages
LISTE DES ABREVIATIONS….………………………………………………………4
INTRODUCTION
PREMIERE PARTIE :
SUR LE CHEMIN DE LA PROFESSIONNALISATION DE L’IDEAL : CURSUS HONORUM D’UN DIRIGEANT DU PCF
(1931-1967) 13
Chapitre 1 :
Aux origines, une famille, un nom : Poperen. 14
1.1. Maurice Poperen : un père, un personnage 14
1.2.Un frère pour modèle 18
1.3.A l’école de la politique 20
Chapitre 2 :
Une expérience professionnelle et syndicale essentielle : la CGT et la Régie Renault, une rencontre pourvoyeuse de promotion. 24
2.1. L’usine Renault : une école des luttes 24
2.2. Le militant en action 27
2.3. Une ascension syndicale fulgurante 30
Chapitre 3 :
Du dirigeant syndical au dirigeant politique : comment devient-on permanent du PCF ? 34
3.1. Les mécanismes de sélection 34
3.2. Le processus de formation 38
3.3. Les motivations d’un tel choix : le couronnement d’une carrière 40
DEUXIEME PARTIE :
« PROFESSION PERMANENT » : QUAND LA VIE POUR SOI CEDE LE PAS A LA VIE POUR LE PARTI
(1967-1980) 45
Chapitre 4 :
L’entrée dans un « corps consacré » : les permanents du PCF 46
4.1. Etre « révolutionnaire professionnel » 46
4.2. Etre permanent : une dette à l’égard du Parti 51
4.3. « Une trop vive illumination rend aveugle » 55
Chapitre 5 :
Le quotidien du permanent : une vie dévouée au Parti 60
5.1. Chargé des fédérations du PCF 60
5.2. Les entreprises et les Pays de Loire 64
5.3. Le rapporteur au comité central 66
Chapitre 6 :
Derrière le travail d’un individu, les rouages d’un appareil 71
6.1. Qui décide ? Où se situe le pouvoir ? 71
6.2. Les règles de fonctionnement du PCF 74
6.3. Une perceptibilité de la réalité en pleine évolution 78
TROISIEME PARTIE :
DES PREMIERS DOUTES A LA MARGINALISATION :
L’AUTRE VISAGE DU PARTI
(1981-1987) 83
Chapitre 7 :
Le processus de « désenchantement du monde », de son monde communiste 84
7.1. Les premières interrogations 84
7.2. Les désillusions idéologiques et les déconvenues affectives 89
7.3. Le dérivatif : Renault, regards de l’intérieur. 92
Chapitre 8 :
Le point de non-retour : le rapport de Claude Poperen au comité central des 26 et 27 juin 1984 96
8.1. Un raisonnement qui dérange : le rapport initial 96
8.2. La session du comité central des 26 et 27 juin 1984 100
8.3. L’impossible retour en arrière 104
Chapitre 9 :
La marginalisation au jour le jour : l’autre facette du métier 107
9.1. Un nouvel horizon 107
9.2. « Etre ou ne pas être, telle est la question » 111
9.3. Tenir malgré tout 115
QUATRIEME PARTIE :
D’UNE RUPTURE A L’AUTRE : L’ECHEC D’UNE ESPERANCE
(1987-1991) 119
Chapitre 10 :
Ne plus être permanent du PCF 120
10.1. Démissionner du bureau politique et du comité central 120
10.2. Plus qu’une rupture politique, une fracture affective et psychologique 123
10.3. Ecrire ses mémoires : une manière de se reconstruire 127
Chapitre 11 :
L’expérience des Reconstructeurs : l’espoir d’un changement 132
11.1. Qu’est-ce que le mouvement des Reconstructeurs ? 132
11.2. Claude Poperen, leader des Reconstructeurs 135
11.3. Epilogue d’un mouvement prometteur 138
Chapitre 12 :
La rupture finale : quitter le PCF 142
12.1. A l’épreuve d’un nouveau contexte politique 142
12.2. Rendre sa carte 144
12.3. S’engager encore et toujours 146
CONCLUSION 150
INDEX DES NOMS DE PERSONNES 157
SOURCES 159
BIBLIOGRAPHIE 164
B) DEUXIEME VOLUME : volume d’annexes de 191 pages
C) TROISIEME VOLUME : inventaire des archives de Claude Poperen (49 p.)
CARIMBOS USADOS PELA DELEGAÇÃO DO PCP EM MADRID (1937-8)
Secção: Iconografia

NOVA ACTUALIZAÇÃO DA BIBLIOGRAFIA DE 2004
Secção: BibliografiaForam feitas novas entradas na bibliografia sobre o PCP e a oposição, com publicações saídas em 2004.
LIVRO SOBRE AS "COMPANHEIRAS" CLANDESTINAS
Secção: Organizações - PCPSegue o índice :
Índice
Introdução
A clandestinidade do PCP, a oposição e a polícia fascista
Situação da mulher trabalhadora
A mulher, “esteio da família e da ordem social”
Oposição das mulheres ao regime
As casas do partido
As comunistas, o casamento e a família
2º Congresso: “abertura” para as mulheres
O 3Páginas
Como viviam as clandestinas
Tipografias do Partido
As comunistas e a moral sexual
Machismo no partido
Prisão, tortura, julgamento e condenação
Porque aderiam as mulheres ao Partido?
O partido que resistiu a regime
Prisões e lutas de mulheres. Repressão sobre as democratas e militantes
Notas biográficas de mulheres clandestinas
Bibliografia
maio 10, 2004
LANÇAMENTO DE LIVRO SOBRE HUMBERTO DELGADO
Secção: Bibliografia
A Fundação Humberto Delgado informa que o livro El otro caso Humberto Delgado: Archivos policiales y de información, de Juan Carlos Jiménez Redondo, será lançado no auditório da Fundação Mário Soares, na próxima Quarta-feira, 12 de Maio, pelas 18:30.
NOTAS BIOGRÁFICAS - Lista actualizada
Secção: Biografias / Vidas
Segue uma lista actualizada das notas biográficas incluídas nos Estudos :
Belmiro dos Santos Alves
José Neves Amado
Carlos de Araújo
José Maria Barge
Artur Batista Vieira Bastos
Raul Batista
João Ferreira Cabecinha
José Cabecinha
António João Caeiro
Manuel Calvário
António Maria Candeias
Álvaro Duarte Cerdeira
Francisco Dias da Costa
Alberto Couto
Maria Domingues ("Maria Botas")
Severiano Pedro Falcão
João Manuel da Costa Feijão
Américo Ferreira
Belmiro Ferreira
António Braz Perfeito Flamino
Celeste Santos Gomes
Domingos da Costa Gomes
Emília Guerreiro Geraldo Gomes
Policarpo Marcelino Gonçalves
Francisco Guerreiro
Júlio José Cristo Luz
Jacinto Ramos Martins
Óscar Augusto Martins
Amândio de Sena Cunhal de Melo
José Mendes
Inácio Ministro
José Morgado (Nota incompleta)
Carlos Nascimento
Zilda de Lurdes Alves Oliveira
António Rosa Palma (“Tonico”)
José Manuel Martins Palminha
Alberto Monteiro Rodrigues (“Ruivinho”)
Adrião Martins Roxo
Joaquim Victor Batista Gomes de Sá
Francisco Duarte Sacavém
António Seiça
Gracinda da Costa Vaz
NOTAS BIOGRÁFICAS – FRANCISCO GUERREIRO
Secção: Biografias / Vidas
Militante comunista, preso em diversas ocasiões desde o fim dos anos trinta. Na sua prisão de 1938, na sequência de uma razia policial à organização do Algarve, foi forçado a estar 28 horas seguidas em pé "sem comer nem beber".Num testemunho inédito que escreveu em Buenos Aires em 1952, descreveu como nos calabouços do Governo Civil de Lisboa permaneceu muitas noites sem dormir, "por não caberem deitados todos os reclusos”.
Depois do 25 de Abril fez parte da Comissão Administrativa da Câmara Municipal de Olhão e foi várias vezes presidente da Junta de Pechão, sua terra natal. Era autor de uma monografia sobre Pechão.
Fontes:
Francisco Guerreiro, Um Aporte e Testemunho, Buenos Aires, 1952. Trabalho manuscrito citado por Joaquim Manuel Vieira Rodrigues , O Algarve E O Estado Novo (1932-1939)
Francisco Guerreiro, Pequena Monografia de Pechão, Faro, Algarve em Foco Editora, 1988
Região Sul, 10/5/2004
Rui Silva - A PIDE E UMA EXPOSIÇÃO NO LICEU GIL VICENTE NOS ANOS SESSENTA
Secção: Vários"Estávamos nos idos anos de sessenta e frequentava o Liceu Nacional de Gil Vicente, em Lisboa.
Fazia parte da JEC ( Juventude Escolar Católica), núcleo do Gil Vicente.
A JEC era uma estrutura com alguma implantação no meio liceal e, se bem que vocacionada para a componente religiosa, não descurava a vivência do meio social em que se inseria.
Atentos que estávamos ao dia a dia, quer no domínio nacional ( a guerra colonial tudo sorvia), quer no domínio internacional ( o “Vietname” estava a matar, a África colonial inglesa, belga, francesa estava a ferver, a Argélia em ebulição, etc.), resolvemos fazer uma exposição sobre os malefícios das guerras, ajudados pelos padres de Religião e Moral afectados à JEC e, constando de textos da nossa autoria e de fotos que órgãos de informação nacionais e internacionais publicavam.
Naturalmente que a guerra nas colónias portuguesas era abordada, entre as outras, sem qualquer destaque especial.
A muito custo e, com muito trabalho lá foi inaugurada a exposição, na salão anexo à biblioteca, com o acordo e beneplácito do Reitor.
Não sei porquê nem porque não, os organizadores da exposição ( entre os quais eu, os meus colegas e os padres da JEC), fomos no dia seguinte chamados à presença do Reitor que, lamentando a decisão, nos pedia para retirar imediatamente a exposição, pois aquela não agradava à PIDE.
A exposição morria assim à nascença.
A PIDE era, sem dúvida, uma organização bem oleada, com olhos e ouvidos em todo o lugar.
A sua “dedicação” à coisa pública, melhor seria dizer ao Estado Novo, era absoluta.
Juntamente com o outro braço “intelectual” do Regime, a Censura, zelavam pela “Segurança e pelos Bons Costumes” da sociedade (deles).
É uma vivência pessoal, sem nenhum outro valor que não seja o de lembrar que a PIDE existiu e que fazia coisas que hoje nos fazem sorrir ( a quem a sentiu) e duvidar a quem nasceu depois da sua “morte”.
O que contei não foi protagonizado por “perigosos agitadores subversivos” ou por utópicos “pacifistas”. Eram apenas rapazes portugueses que mostravam aos colegas uma realidade, com a qual, como cristãos e católicos, não concordavam.
O nosso “erro” foi demonstrar publicamente que não concordávamos e, por isso, seríamos um mau exemplo. "
(Rui Silva)
NOTA SOBRE A BIBLIOGRAFIA DO PCP E DA OPOSIÇÃO - 2004
Secção: BibliografiaNOTAS BIOGRÁFICAS – JOSÉ NEVES AMADO
Secção: Biografias / Vidas(Aveiro, 1911- Maio 2004)
Marinheiro, 2º artilheiro da Armada, participou na revolta da ORA em 8 de Setembro de 1936, o que lhe motivou uma longa estadia de 14 anos no Campo do Tarrafal, entre 1936 e 1951. Quando regressou em 1951, foi internado na enfermaria da Cadeia Penitenciária de Lisboa. Depois do 25 de Abril foi reintegrado na Armada e, a 19 de Abril de 1999, agraciado com a comenda da Ordem da Liberdade. Militante comunista era conhecido pela sua "maneira de ser discreta e reservada”, pelo que nunca foi tão conhecido como outros tarrafalistas.
Fonte: Comunicado da Direcção da Organização Regional de Aveiro do PCP, 4/5/2004
EXPOSIÇÃO "AUTOBIOGRÁFICA" DE JÚLIO POMAR
Secção: Biografias / Vidas
Está em Sintra no Museu de Arte Moderna - Colecção Berardo, uma grande exposição "autobiográfica" de Júlio Pomar. Pomar foi uma figura central do neo-realismo, tendo pintado algumas das suas obras mais emblemáticas. Militante do PCP, participou activamente na luta política da oposição e esteve preso. Entre os quadros expostos encontra-se "Resistência", de 1946, apreendido em 1947 pela PIDE na II Exposição Geral de Artes Plásticas na Sociedade Nacional de Belas Artes, Lisboa.
maio 08, 2004
NOTAS BIOGRÁFICAS - SEVERIANO PEDRO FALCÃO
Secção: Biografias / Vidas
(Alhandra, 1/3/1923 – 5/5/2004)
Severiano Pedro Falcão, que tinha a alcunha de “Espanhol”, era filho de um “trabalhador sem profissão”, e de uma “operária têxtil”, que descreveu como “pessoas sérias” embora desinteressadas da política. Seus irmãos, pelo contrário, já tinham interesse pela política. Frequentou a escola primária e começou a trabalhar muito cedo numa oficina, cujo patrão era simpatizante dos republicanos espanhóis. Foi mudando de oficina e ofício em função das dificuldades. A sua profissão oficial era de carpinteiro, mas sempre se considerou marceneiro.
Jovem nos meios operários de Alhandra foi desportista e músico amador,– tocava clarinete na Sociedade Euterpe - , participou em actividades animadas por Soeiro Pereira Gomes. Foi recrutado para as Juventudes Comunistas em 1942 e permaneceu nessa situação até 1944, altura em que entrou para um organismo partidário. Depois das greves de 8 e 9 de Maio de 1944, foi chamado ao CL de Alhandra (?) para substituir elementos que tinham sido presos. Participou em actividades sindicais mas o seu nome era vetado pela PIDE para cargos nos Sindicatos. Em 1947, passou a ser membro do CR do Ribatejo e, nessa qualidade, participou, no ano seguinte, na agitação legal e semi-legal em apoio à candidatura do General Norton de Matos para a Presidência da República.
Quando morreu Soeiro Pereira Gomes, participou na organização da manifestação que se realizou quando da passagem do seu funeral em Alhandra, em 7 de Dezembro de 1949, e escreveu um texto distribuído na altura. Essas actividades colocaram-no em risco de ser preso. Passa à clandestinidade em fins de Dezembro de 1949.
O período em que passa à clandestinidade é dos mais críticos da história do PCP, ameaçado quase de desaparição por uma sucessão de traições e pela acção eficaz da PIDE. Falcão, com o pseudónimo de “Artur”, foi tomar conta de organizações em situação crítica no Alto e Baixo Alentejo. Substituindo Manuel Vital /”Teixeira”, assassinado pelo partido, e posteriormente Agostinho Saboga /”Jaime”, trabalhou numa zona muito afectada por prisões e traições. Um ano depois de passar à clandestinidade, foi vítima de uma traição e preso com a sua mulher Maria Beatriz Rodrigues, e um filho com três anos, numa casa na Amora/Seixal, a 30 de Dezembro de 1950.
Foi preso pela mais eficaz e brutal brigada da PIDE na perseguição ao PCP, que incluía José Gonçalves e Fernando Gouveia, e que estava envolvida na investigação do assassinato de Manuel Vital. Gouveia acusou-o imediatamente de ser responsável pelo assassinato de Vital. Após um período inicial em que Falcão não foi maltratado, a PIDE iria tortura-lo com mais violência do que era habitual. Foi espancado e colocado várias vezes de cabeça para baixo, provocando desmaios. Estas violências tem certamente a ver com a convicção da polícia de que Falcão, tendo substituído Vital, deveria conhecer as circunstâncias em que este fora morto. Severiano Falcão não prestou quaisquer declarações.
Condenado, foi enviado para Peniche de onde saiu em 1956. Voltou a trabalhar, agora na construção civil, passando a dirigir obras em Lisboa. Retoma o contacto com o PCP e participa na campanha de Humberto Delgado. É preso de novo em 21 de Agosto de 1958, julgado e condenado como militante do PCP. Volta à cadeia de onde só sai em 1966.
Regressa a Alhandra e vai trabalhar para uma empresa de Lisboa. Falcão era agora medidor e orçamentista e estudara na cadeia o método PERT de que era considerado especialista. Participou profissionalmente em obras da TAP no aeroporto e, à data do 25 de Abril, trabalhava na grande empresa de construção civil “Joaquim Francisco dos Santos”.
Depois do 25 de Abril, Severiano Falcão foi membro do CC de 1976 a 1992, deputado na Assembleia da República, de 1976 a 1979, onde foi vice-presidente da Comissão Especial de Trabalho. Em 1979, foi eleito Presidente da Câmara Municipal de Loures, reeleito várias vezes , até que renunciou ao cargo em Novembro de 1990. O seu afastamento da Câmara, contra a sua vontade e pressionado pelo PCP, foi-lhe muito penoso, e não se coibia de manifestar a sua “insatisfação” com o modo como fora tratado. No entanto, apoiou o candidato do PCP a Loures em 1993.
Fontes:
F. (Severiano Pedro Falcão?), Queridos camaradas..., 1/5/54
"Artur" / Severiano Pedro Falcão, Queridos camaradas , s/d,
PIDE / DGS, Processo 314/50, NT 5051
Severiano Falcão, “Depoimento sobre Soeiro Pereira Gomes”, Diário 12/4/1981
Ruben de Carvalho, “E disse-me Severiano…”, Avante!, , 29/11/1990
Público , 6/5/2004
Avante!, 6/5/2004
O ALGARVE E O ESTADO NOVO
Secção: Bibliografia
Um estudo de Joaquim Manuel Vieira Rodrigues intitulado "O Algarve e o Estado Novo (1932-1939)" pode ser consultado em linha aqui.
maio 03, 2004
NOTAS BIOGRÁFICAS – ÓSCAR AUGUSTO MARTINS
Secção: Biografias / Vidas
(1946 – Setúbal, Dezembro 2003)
Operário metalúrgico (Mague), emigrante em França, depois empresário. Membro do PCP desde 1968, regressou de França em 1975. Foi membro da CC do PCP de Setúbal, das Comissões de Trabalhadores da Mague e de comissões de moradores.
Fonte: Avante!, 18/12/2003
NOTAS BIOGRÁFICAS – ETELVINA LOPES DE ALMEIDA
Secção: Biografias / VidasMorreu a 30 de Abril de 2004, Etelvina Lopes de Almeida, escritora, jornalista e, depois do 25 de Abril, deputada pelo PS na Assembleia da República. Etelvina Lopes de Almeida esteve ligada à oposição, tendo colaborado com Maria Lamas, e as organizações de mulheres que esta animava. Estas actividades deram origem ao seu despedimento da Emissora Nacional.
Fonte: Depoimento autobiográfico em Faces de Eva, N.° 5, (2001): 209-216
"Morreu Etelvina Lopes de Almeida" , Público, 1/5/2004 (EM ANEXO)
Lista das suas intervenções parlamentares.
"A antiga jornalista e ex-deputada eleita pelo PS à Assembleia Constituinte e à Assembleia da República, Etelvina Lopes de Almeida, faleceu ontem, aos 88 anos, em Tábua, onde presidia à Fundação Sara Beirão/António Costa Carvalho, que fundou juntamente com o locutor, ex-deputado pelo PS à Assembleia da República e antigo vereador na Câmara de Cascais, Igrejas Caeiro.
O corpo está em câmara ardente na Basílica da Estrela, em Lisboa, a partir das 12 horas de hoje. Às 15 horas será celebrada missa de corpo presente seguindo o o cortejo funebre para o cemitério de Benfica.
Além de jornalista, Etelvina Lopes de Almeida foi deputada pelo PS à Assembleia Constituinte, em 1975, e presidiu em Estrasburgo a uma sessão do Parlamento Europeu para os Idosos, em 1993, durante a qual foi aprovada a Carta Europeia para os Idosos.
Em 1995 foi agraciada pelo então Presidente Mário Soares com a Comenda da Ordem de Mérito.
Etelvina Lopes de Almeida iniciou a sua carreira no jornal infantil "O Papagaio", tendo passado pelas redacções da Rádio Renascença e de O Século".
Sucedeu a Maria Lamas na direcção da revista "Modas e Bordados", de onde transitou para os microfones do Rádio Clube Português e da Emissora Nacional (em 1945). A jornalista foi também autora de livros infantis e romances, nomeadamente "Histórias que o mundo conta" e "Maria Verdade", bem como de o "ABC da Culinária".
Em declarações à Lusa, a socióloga Maria Antónia Fiadeiro recordou a generosidade e solidariedade da jornalista Etelvina Lopes de Almeida.
A socióloga, que a entrevistou para a realização da biografia de Maria Lamas, lançada o ano passado pela Bertrand Editora, afirmou que Etelvina Lopes de Almeida "não tinha, ou não queria ter, uma memória muito activa em relação ao passado".
Maria Antónia Fiadeiro recordou a jornalista e escritora como "a senhora que lhe oferecia bolos" para levar à mãe, Maria Stella Piteira Santos, quando esta esteve presa por razões políticas em 1961.
"Era uma senhora amável e solidária", disse a investigadora, referindo o livro de Etelvina Lopes de Almeida "Maria Verdade", que deu origem a um espectáculo no Teatro São Luiz, em Lisboa, e que a "marcou muito".
Etelvina Lopes de Almeida foi secretária de redacção da revista Modas e Bordados, cuja direcção assegurou quando Maria Lamas assumiu a presidência nacional do Conselho das Mulheres Portugueses.
"Nesta questão ela não me foi muito eficaz, não tinha ou não queria ter uma memória activa", afirmou a socióloga. "
Lusa
maio 02, 2004
CATÁLOGO DE LIVROS PROIBIDOS E OUTROS SOBRE O 25 DE ABRIL
Secção: BibliografiaEstá em linha o catálogo do alfarrabista In-Libris , intitulado Letras de Liberdade, que inclui muitos dos livros proibidos antes do 25 de Abril e outras edições relativas à luta pela liberdade.
ENTREVISTA DE VASCO DE CARVALHO
Secção: Biografias / VidasUma extensa entrevista a Vasco de Carvalho, o “secretário-geral apagado na história do PCP” de autoria de António Melo é publicada no Público de 2/5/2004.
A entrevista divide-se por várias partes:
“Vasco de Carvalho - o Secretário-geral Apagado na História do PCP”
“Entre "Liquidadores" e "Provocadores"
maio 01, 2004
NOTAS BIOGRÁFICAS – BELMIRO FERREIRA
Secção: Biografias / Vidas

Operário da CUF e da FISIPE, pintor autodidata. Tinha a 4ª classe, mas começou a trabalhar no têxtil da CUF, passando posteriormente aos escritórios. Mais tarde porque “no escritório via certas “extravagâncias” com as quais não podia conviver”, passou de novo aos “tecidos”. A partir dos anos setenta começou a pintar, centrando os seus quadros nas imagens do Barreiro, das suas ruas e edifícios.
Iniciou a sua militância comunista no Comité Local das Juventudes Comunistas na primeira metade dos anos trinta. Na data da sua morte era o militante do PCP mais antigo do Barreiro.
Fontes:
Em anexo reproduz-se a notícia de Miguel de Sousa, «Faleceu Belmiro Ferreira», Jornal do Barreiro, 30/4/2004
«Faleceu Belmiro Ferreira
Aos 92 anos, acaba de falecer o conhecido Belmiro Ferreira. Este antigo funcionário da CUF, que se reformou no posto de Encarregado na Zona Têxtil, atingiu grande notoriedade pelo seu talento de pintor da memória do Barreiro.
O que tem mais graça é que Belmiro só começou a pintar a cores aos 76 anos de idade, por estímulo insistente de Augusto Cabrita, seu grande amigo, que o foi sempre acarinhando e acabou por lhe promover uma curiosíssima exposição, dotada de um bom catálogo, editado pela Câmara Municipal do Barreiro, que posteriormente viria a adquirir grande número das suas obras.
Belmiro Ferreira dedicou-se, durante vários anos a pintar o Barreiro do seu tempo de juventude. Dotado de uma impressionante memória fotográfica e de um agudo sentido da cor pura, realizou cerca de 70 quadros, em estilo considerado "naif", retratando fielmente a configuração do Barreiro desses tempos.
Este valioso património encontra-se actualmente, na sua maioria, nas Reservas Museológicas Municipais, aguardando-se que um dia possam vir a ser patentes a público, que poderá apreciar a minúcia e o detalhe das suas reconstituições do passado.
Belmiro Ferreira passou os últimos anos da sua vida na Santa Casa da Misericórdia do Barreiro, onde por vezes conversámos com ele, recordando a aventura das suas pinturas, mas também os seus tempos de trompetista na Banda ds Penicheiros, em que foi um exímio executante, dotado de impressionante "swing", fazendo por vezes dueto com Augusto Cabrita, que o acompanhava ao piano, em momentos que nenhum deles esqueceu, e muito menos quem os ouviu.
O Barreiro perdeu um dos seus vultos mais curiosos, mas fica-nos a sua obra artística, que constitui um contributo importante para a Memória da Cidade.»
MATERIAIS SOBRE O 25 DE ABRIL NOS BLOGUES
Secção: Bibliografia
Faz-se aqui uma pequena recolha de elementos, testemunhos e outras textos que apareceram nos blogues sobre o 25 de Abril. Os elementos referenciados não são sobre a revolução de 25 de Abril em geral, mas sim sobre a sua relação com a luta da oposição e do PCP. A mais ampla recolha de textos aparecidos nos blogues sobre o 25 de Abril encontra-se em Aqui Posto de Comando.
Do blogue Barnabé
Textos e fotografia de Casimiro Ribeiro sobre o 25 de Abril em Caxias.
“Muito antes disso, o meu pai cantava-nos uma canção que para mim era uma canção infantil “Se eu fosse carpinteiro casava com uma ceifeira...” e que acabava mais ou menos assim “cinquenta de ditadura. Arre porra que é demais”, o meu avô ficava muito zangado com o meu pai e nós achávamos que era por causa do “arre porra”.(Isabel Prata)
“A minha recordação do 25 de Abril (à data do qual eu tinha 11 anos, já era consciente) é de um vizinho ter vindo visitar o meu pai, logo de manhã, às 8 horas, e dizerem "parece que agora isto vai". Ainda me lembro perfeitamente desta frase.”(Luís Lavoura)
O meu avô chamava-se José Ferreira
Nascido a 25 de Abril de 1910, viveu grande parte da sua vida debaixo de um regime opressivo onde a Liberdade não existia.
Fruto das circunstâncias e como aconteceu a tantos milhares de Portugueses, a escolha dos ideais de esquerda foram uma opção inevitável.
Foi preso várias vezes por ser dirigente sindical e levantar a voz em defesa de direitos básicos dos trabalhadores, sendo forcado a abandonar a esposa e os 4 filhos por períodos breves mas cheios de incerteza e preocupação.
O dia 25 de Abril de 1974, data do seu 65o aniversario, foi concerteza o dia
mais feliz da sua vida.(…) O meu avô chamava-se José Ferreira e nasceu 2 vezes a 25 de Abril. E eu todos os dias o recordo.(Rui Ferreira)
“O tio Elias!!! Militante do Partido Comunista, “bon vivant” e sempre com uma piada provocatória na ponta da língua. Grande dinamizador das comissões democráticas eleitorais e grande “pichador” de paredes e afins. “Abaixo o regime. Viva a Liberdade” valeram-lhe ficha na PIDE, várias noites a dormir de pé nos calabouços da esquadra de Alcains e um bilhete de ida para a guerra. O Padre Álvaro, seu irmão e tio do João, safara-o sempre. Por descargo de consciência, dizia. Lembrava-se da frase que, segundo o seu pai, o tio Elias disse ao Tio Álvaro logo após o 25 de Abril: “Olha, agora sou eu que te posso safar. Não te preocupes e diz aos teus amigos para não se preocuparem. A liberdade é para todos, irmão” (Rodion)
Confissões revolucionárias
"Nasci numa família de camponeses migrados para Lisboa nas décadas de 50 e 60. Poucos tinham mais do que a "instrução primária", mas a aldeia ribatejana de onde vieram tinha uma tradição republicana, oposicionista e de esquerda com raízes no início do século XX. Um dos meus tios foi preso diversas vezes, uma delas por participar em comemorações reviralhistas do 5 de Outubro, e mais tarde por suspeitas de pertencer ao Partido Comunista Português. Na verdade a única prova encontrada em casa dele havia sido um cabeçalho do Avante! que por azar tinha ficado esquecido, já não sei se debaixo de um colchão. O resto das coisas – cassetes, livros, etc. – tinha já sido enterrado num quintal insuspeito uns meses antes. Tudo isso tinha, contudo, pouquíssima importância, até porque o juiz que o condenou dormiu durante praticamente o tempo todo do julgamento. No fim abriu os olhos e proferiu as sentenças. O meu tio apanhou dois anos de prisão.
Em 1972, quando eu nasci, esse meu tio estava preso no forte de Peniche. No dia 15 de Agosto desse ano, com pouco mais de quinze dias, os meus pais levaram-me à cadeia para que ele pudesse ver o seu novo sobrinho. A minha mãe conta com orgulho que a dado momento os outros presos pediram aos familiares que se afastassem para que pudessem ver aquele recém-nascido enquanto ela me mudava as fraldas numa mesa ali mesmo no parlatório. Alguns daqueles presos estavam ali há anos; ver um bébé era ver um sinal da vida lá fora. Ou talvez, como eram comunistas, estivessem apenas a pensar no pequeno-almoço." (Rui Tavares)
Do blogue A Verdade da Mentira
Boicote à aula
Meses antes da Revolução que pôs termo à ditadura em Portugal, a Faculdade de Direito de Lisboa estava a ferro e fogo (como muitas outras na Universidade, o Técnico, por exemplo): Greves, boicotes às aulas, polícia, identificação de estudantes, meetings feitos à pressa a incitar à greve geral contra os chumbos e o sistema de ensino, reuniões de alunos interrompidas pelas matracas dos gorilas, prisões e espancamentos de alunos.
Os primeiros dias na Faculdade para os caloiros – especialmente os que, como eu, jovens e despolitizados, vinham de um Liceu na pasmaceira da província – eram feitos de espantos e curiosidades irreprimíveis perante tal ambiente.
Junto à mata densa que, nessa época, rodeava a Cidade Universitária havia sempre várias carrinhas azul-escuro estacionadas. Era a polícia de choque. O poiso preferido deles era por detrás da Faculdade de Letras, meio escondidos entre o arvoredo. De longe avistávamos os polícias e o brilho metálico dos cassetetes presos à cintura. Passavam ali os dias à espera de serem chamados, ao mínimo sinal de agitação dos estudantes, e irem a correr para as faculdades bater e prender os alunos suspeitos ou revoltosos.
À entrada de Direito, no cimo da escadaria, entre os portões envidraçados, passeavam-se sempre alguns gorilas, polícias-vigilantes à paisana que guardavam as faculdades e pediam a identificação aos alunos. Mostrávamos o cartão sem os olhar. Era a nossa forma de protesto. De resto, o fanfarrão exibicionismo dos corpos avantajados, as mangas arregaçadas em pleno inverno, o riso sarcástico e um não sei quê de emporcalhado e torpe nas caras de todos eles, levavam-nos instintivamente a baixar os olhos, sempre que passávamos perto.
Os gorilas tinham sido colocados nas faculdades pela PIDE-DGS, a polícia política do Estado, para espiar e denunciar os estudantes contestatários e reprimir, à bastonada e ao pontapé, se necessário, as manifestações subversivas. E, de facto, era isso que acontecia.
Direito tinha sido transformada em quartel-general e as instalações associativas confiscadas aos estudantes e ocupadas. Sabia-se que os gorilas passavam os dias a emborcar cerveja, ouvir rádio e jogar às cartas em altos berros. Às salas de aula e anfiteatros, nos andares superiores, chegavam as risadas e os gritos estridentes que atiravam uns aos outros.
Gorilas!... Quem lhe tinha posto o nome fizera-o num momento de inspiração. Famoso era o King-Kong, notório pela descomunal largura de ombros. Tinha sido estrela de cinema, Tarzan num qualquer filme de terceira classe, e apreciava sobremaneira mulheres com pêlos nas pernas, confessara, em entrevista, numa revista de actualidades que circulara de mão em mão e de aula para aula, para divertimento dos estudantes.
Um dia, no início do ano lectivo, estava sentada num recanto a conversar com uma amiga. Acercou-se de nós um colega e disse-nos, muito rapidamente, quase a falar-nos ao ouvido: Amanhã não faltem à aula de Economia Política. É importante. Vamos boicotar a aula do Martinez.
Que iria acontecer?, interrogamo-nos, a olhar uma para a outra, o coração em sobressalto.
Não faltamos à aula, claro. Ainda por cima detestávamos o cínico do professor, Director da Faculdade, que chumbava mais de oitenta por cento dos alunos. Corriam histórias sobre as orais onde o Martinez fazia as mais disparatadas e absurdas perguntas aos alunos – em que ano foi criado o Instituto Nacional de Estatística, quem esteve no funeral de Hugo Grócio, onde estão os restos mortais de Francisco Suarez, qual o número exacto de bordadeiras da ilha da Madeira.... Os alunos exorcizavam os rancores ridicularizando o conteúdo do manual, da autoria do próprio Martinez, apontando a dedo algumas passagens “iluminadas”. Uma das mais gozadas analisava a quebra de natalidade na raça branca e concluía: “...Dir-se-ia que, cansado de civilização, esgotado por um esforço de aperfeiçoamento de alguns milénios, o homem branco se recusa a realizar a sua missão de perpetuar a própria espécie.”
“Ó pá, ainda por cima, um gajo bem pode marrar a porcaria do manual de uma ponta à outra, pá, que o facho do Martinez, se lhe der na mona, trama-nos à mesma”, queixavam-se os colegas dos anos mais adiantados mas ainda com Economia, do primeiro ano, por fazer. Especialmente os rapazes, que andavam à rasca, a contabilizar os chumbos, as cadeiras em atraso, a perspectiva de lhes ser negado mais um adiamento militar e a ida para a tropa e para a guerra em África a aproximar-se em velocidade vertiginosa.
No dia do planeado boicote à aula de Economia Política, o anfiteatro estava cheio, a abarrotar. Até nos espaços laterais havia estudantes, de pé. O Professor Martinez entrou na sala, sentou-se à secretária, engravatado e superior, distante e solene. Levantou os olhos para o anfiteatro cheio em peso, fixou-os, austero, sobre a massa agitada dos estudantes e começou, devagar e com sílabas vincadas, a discursar sobre a matéria da aula.
Não demorou muito a fazer-se ouvir o som do matraquear de dedos nos tampos das carteiras. A princípio tudo se resumiu a batidas dispersas, subindo progressivamente, num crescendo ritmado que se sobrepôs à voz do professor.
Apanhado de surpresa, o catedrático levantou-se da cadeira e o barulho cessou por instantes breves.
“Abaixo a selecção burguesa”, atirou alguém no meio do anfiteatro. “Fascista”, acrescentou outra voz, aguda. “Nazi!...”, rosnavam os alunos.
De pé, as mãos hirtas sobre a secretária, o rosto congestionado, o professor fixava o anfiteatro. As palavras saíam-lhe apertadas: "Meus senhores..." Mas o matraquear de dedos recomeçou, mais intenso ainda, de mistura com o bater de sapatos no chão, e abafou-lhe a voz. Era uma sinfonia enraivecida. Os sons secos dos dedos que batiam alternavam com as vibrações pesadas dos pés que pateavam, de mistura com pancadas dispersas dadas por mãos abertas nos tampos das carteiras.
Os gorilas irromperam pelo anfiteatro de roldão, por ambas as portas, quatro e cinco de cada lado, e colocaram-se à frente da secretária do professor, em guarda, de pernas abertas, braços inchados, matracas nas mãos, a medirem os estudantes com os olhos. O catedrático, com um sorriso simuladamente calmo, disse qualquer coisa do género: “Os senhores que desejam assistir civilizadamente à aula façam favor de ficar. Os restantes, agradeço que se retirem. Eu espero... lá fora.”
Saiu vaiado por um coro de assobios agudos. Alguns gorilas subiram os primeiros degraus do anfiteatro, o peito tenso e as matracas a dançar, e muitos estudantes desataram a sair, empurrando-se uns aos outros. Um aluno pôs os braços no ar e pediu: "Colegas... vamos sair todos com calma." Um gorila fixou-o ameaçador e ele ripostou: "Estou só a pedir calma." Voltou-se para a turma, à direita e à esquerda e repetiu: "Colegas, vamos sair todos. Que não fique cá nenhum. Que não fique cá ninguém."
Não foi fácil atravessar a barreira compacta de estudantes que se amontoavam à porta do anfiteatro. Todos queriam sair mas todos queriam continuar a espreitar lá para dentro. Já estava do lado de fora quando se espalhou a notícia que os gorilas tinham desatado a bater e um estudante já estava ferido e a sangrar na cabeça com um golpe de matraca. Um grito tremendo irrompeu no burburinho agitado e ecoou pelos corredores da Faculdade: "Fim da guerra colonial. Independência às colónias".
Foi como uma onda avassaladora. Respondemos em coro, a uma só voz, em compasso repetido: "Fim da guerra colonial! Fim-da-gue-rra-co-lo-ni-al. Fim-da-gue-rra-co-lo-ni-al..."
A partir daí tudo ganhou velocidade. Os gorilas enraivecidos atirados aos estudantes, aos socos por tudo quanto era gente e sem olharem a quem. Gritos cruzados no ar, empurrões, encontrões, livros e cadernos espalhados pelo chão. Estudantes em fuga, cada um para seu lado, pelos corredores laterais, escadas abaixo e escadas acima, em direcção à saída ou ao refúgio das casas de banho, lá ao fundo. E um corpo compacto de polícias, fardados e com bastões, a entrar, em passo rápido e militar, pelo portão principal da Faculdade.
Ana
Nota: O Prof. Martinez foi saneado com o 25 de Abril. Alguns anos mais tarde voltou à Faculdade. Igual ao que sempre foi, ao que consta.
Do blogue Nelsu, uma preta
GUERRILHEIROS DAS PALAVRAS - III
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"Considero-me legítimo herdeiro de Edmundo Bettencourt e de Menano, que são os homens do fado de Coimbra. Toda a grande música que se faz hoje e que está preocupada em não abandonar a matriz da música tradicional começou em Coimbra, dentro das universidades. A que nasceu fora das universidades desembocou numa desgraça, mas isso é outra coisa, é música de feira". O autor destas palavras é Carlos Fausto Bordalo Gomes Dias, nascido em Novembro de 1948 em pleno Oceano Atlântico, a bordo do navio Pátria que navegava entre Portugal e Angola.
Fausto, por muitos considerado o mais importante compositor vivo da música popular portuguesa, teve um início de carreira recheado de indecisões. Estudante do Instituto Superior de Ciências Sociais e Política Ultramarina (ISCSPU), é em plena vida académica que grava o primeiro 45 rotações, a que se segue o álbum homónimo, Fausto.
Em declarações proferidas à revista Flama em 1970, Fausto hesita ainda na continuidade do trabalho musical: "nunca acreditei muito na minha voz, nem ainda hoje acredito. Já pensei várias vezes na data em que vou largar "isto". (...) Dizem-me que devo continuar, mas não sei bem se será até no próximo mês de Junho que porei o ponto final. Depois, cantarei apenas para os amigos e para mim próprio".
A realidade dos factos (e dos anos entretanto passados) encarregou-se de desfazer as dúvidas do então jovem estudante. Eleito presidente da direcção da Associação dos Estudantes do ISCSPU, Fausto viu o seu nome não ser homologado no cargo pelo Ministério da Educação, em consequência de um certo comprometimento político da sua actividade musical. E, como castigo, é chamado a cumprir o serviço militar, embora possuísse todas as condições para ter um adiamento. Em resultado, Fausto recusa-se a comparecer no quartel e é considerado refractário.
Vivendo quase clandestino, Fausto faz grande parte das gravações do seu segundo LP, P'ró Que Der e Vier, em Madrid. Nele, inclui letras de Eugênio de Andrade e Mário Henrique Leiria, num todo de características políticas muito acentuadas.(…)