março 29, 2005
BIBLIOGRAFIA
Secção: Bibliografiamarço 28, 2005
António Nabo - REPRESENTAÇÕES DO PRESENTE NO PCP DE MONTEMOR-O-NOVO
Secção: VáriosO nosso objectivo aquando da publicação do texto foi revelar um pouco do partido em Montemor, um concelho que foi fortemente marcado pelo PCP durante décadas."
PCP – Retratos do Partido, ontem, hoje e amanhã
O PCP é, só por si, um partido diferente dos outros. É diferente na idade, - foi fundado em 1921 -, é diferente na forma como pretende chegar ao poder – pela revolução e não necessariamente pelos votos -, é diferente na militância – uma vez comunista de verdade, para sempre comunista -, é diferente na atitude – é o único partido que se assume contra o capitalismo ao afirmar que este não é o fim da história e que a humanidade pode superá-lo, organizando um outro sistema onde não exista a exploração do homem pelo homem.
O momento actual não tem sido propício ao PCP. O partido não consegue suster a derrapagem dos votos. Nas últimas legislativas, a coligação com os verdes obteve o seu pior resultado de sempre, ao eleger apenas 12 deputados em 6 distritos, Lisboa, Setúbal, Porto, Santarém, Évora e Beja, todos os restantes distritos já não têm nenhum representante do PCP na Assembleia da República. Nas últimas eleições autárquicas as perdas de presidências de Câmaras deixaram marcas profundas, face ao que se passou em Évora e em Lisboa. As referências exteriores praticamente não existem, depois da queda do Muro de Berlim e do descalabro da União Soviética. Resta Cuba, a esperança chinesa e a Festa do Avante que continua a chamar um mar de gente.
Face a este cenário desfavorável, e sendo Montemor a praça mais forte do PCP em todo o Alentejo, a Folha foi falar com os representantes da concelhia do PCP- António Gervásio, Alexandre Pirata, Vatalina Roque e Maria Lourença -, para saber o que se passa na da vida deste partido.
O contexto
Gorbachev ficará para a História com o homem que acabou com a União Soviética, o que só por si constituiu o maior golpe que os partidos comunistas sofreram ao longo de toda a sua existência. Mas a vida e a sociedade soviética já denotavam algum mal-estar entre a população, o que era um indício de que algo de grave estava próximo de acontecer. Alvin Toffler, prevê a queda do sistema, mas é incapaz que prever o tempo em que tal irá acontecer, ao afirmar que “o socialismo chocou com o futuro” .
Todavia, esta não é a versão dos acontecimentos aceite pelo PCP. Para António Gervásio, o Partido Comunista da União Soviética degradou-se, abandonou a luta pela construção do socialismo. A “perestoika” foi um processo contra-revolucionário, atrás de si, tinha a contra-revolução. Quanto mais avançava a “perestroika” mais os chefes imperialistas esfregavam as mãos de contentes, mais se afundava o socialismo.
Ao longo dos anos, já desde a era de Brezhnev, eles - o mundo ocidental - foram degradando a produção, a produtividade e a própria sociedade, criando as condições para que o povo saísse para a rua. Em 19 de Agosto de 1991, essas forças saíram para a rua e triunfaram.
Por isso é importante questionar como é visto o último secretário geral do PC soviético pelo comunistas portugueses. António Gervásio não hesitou ao responder que a História irá dar a conhecer como se desmoronou o socialismo. Gorbachev deveria estar ao serviço de outras forças, forças anti-comunistas que entregaram o poder. Alguém acredita que num dia Gorbachev é o Secretário-Geral do PC Soviético e no dia seguinte assina a sua ilegalização e entrega o socialismo às foças do imperialismo. Não é um homem sério, é um homem que está ao serviço de alguma coisa que não é o socialismo. Por que é que ele, no ano seguinte, vai para a América e é eleito o homem do século XX que transformou o mundo.
Cuba, aparece assim como uma das últimas bandeiras onde o socialismo resiste, desde a revolução encetada por Fidel Castro, em 1959. Contudo, o que se irá passar quando este mítico dirigente morrer, será que o país tem capacidade de manter o rumo socialista? Será que Castro tem sucessor à altura? António Gervásio refere que Cuba há mais de 40 anos que está cercada, mas até agora ainda não caiu, e não se espera que vá cair. No plano da saúde são hoje dos países mais evoluídos do mundo, mas sofrem um bloqueio económico fortíssimo por parte dos americanos.
Todos os dirigentes têm sucessores. Não se pense que caindo Fidel que cai o socialismo em Cuba. O povo cubano é um povo aberto, onde não há racismo, onde o partido grita pelo povo. Eles têm consciência que se um dia perdem o poder são esmagados. Será mau para aquele povo que o comunismo caia, mas a luta não para.
Vitalina Roque, que já esteve em Cuba, não hesita em comentar que os cubanos comparam a vida que têm com a vida dos outros povos da América Latina e não com a vida dos EUA.
Na queda dos regimes comunistas existem imagens que impressionam: quando o Muro de Berlim caiu, as pessoas foram todas no mesmo sentido, do mundo socialista, para o mundo capitalista.
Alexandre Pirata - É verdade. Mas isso foi como a impulsão de um prédio, só se faz ruir os alicerces, e ele cai sobre si próprio. E aqui foi um trabalho dos monopólios e do imperialismo ao longo de muitos anos, e quando conseguiram minar os alicerces todos, o sistema caiu sobre si. Eu que viva lá os seis anos mais felizes da minha vida, ainda hoje me interrogo. Como é que é possível? Um país daqueles, com um aparente domínio de tudo, como é que é possível se entregarem, se venderem. Estes dez anos de retrocesso aqui vão representar umas dezenas largas de anos para repor o que se andou para trás.
Face à situação que hoje se vive no mundo, onde a globalização é uma realidade, e a União Europeia faz parte do nosso dia-a-dia, questiona-se se o PCP ainda faz falta à sociedade portuguesa?
A. Gervásio - Se não existisse o PCP não teríamos derrubado o fascismo em 1974, nem a Revolução de Abril teria triunfado, porque existia um luta revolucionária que foi organizada, dirigida e influenciada pelo PCP. Não houve nenhuma luta económica ou social que não tivesse a mão do PCP. O nosso povo pode agradecer ao PCP ter conquistado a liberdade em 1974.
Hoje o PCP não está fora do contexto, a vida provou que cada vez faz mais falta às classes trabalhadoras, um partido revolucionário. Esta palavra não deve assustar ninguém, revolucionar é transformar a vida, é avançar para um mundo novo e melhor.
Agora, há partidos que se auto-destruiram, que degeneraram, mesmo aqueles que estavam no poder socialista, como a queda do PC italiano, a desagregação do PC francês, a morte do PC espanhol. As forças que combatem os partidos comunistas conseguiram penetrar. Pode pensar-se que o comunismo caiu na União Soviética porque o modelo era um modelo estatizado. Tudo isso é mentira, quando se vai analisar a situação, verifica-se que a contra-revolução não começou por baixo, mas por cima. A queda dos regimes socialistas trouxe muitas ameaças à humanidade, mais desemprego, mais fome, mais guerras, há mais esmagamentos de povos e de países. Isso não seria possível se existisse o campo socialista.
A conquista do poder
Todavia, apesar do que os seus dirigentes afirmam, as eleições indicam que o país se está a afastar do PCP, pelo que A. Gervásio afirma que não é essa a baliza para se avaliar a força do PCP. Não quero avaliar a força do PCP na base de votos, porque essa é uma análise errada. Nós não somos um partido eleitoralista. Consideramos que a frente eleitoral institucional é importante, mas não é a decisiva. A decisiva é a luta de massas, a luta social, os problemas sociais e a nossa força no movimento social, nas empresas e, nos sindicatos. Essa é a luta determinante.
Por que nós não somos um partido que aceitamos o sistema, tal como é, nós forçamos as fronteiras do sistema. Todos os outros partidos são partidos do sistema, não passam daqui, não querem transformar a sociedade, não querem que a exploração do homem pelo homem acabe. Nós pensamos sempre que a sociedade deve acabar com a exploração do homem pelo homem, achamos que essa situação não é necessária. O nosso objectivo é a transformação da sociedade, conduzindo a luta nesse caminho.
Como é que chega ao poder? Pela revolução ou pelos votos? Depende, muitos têm chegado por votos. Allende, chegou ao poder pelos votos, mas o imperialismo derrubou-o. Nós derrubámos a ditadura fascista, sem que tenha sido preciso um golpe muito forte. Podíamos ter passado para o socialismo, estivemos à beirinha. Mas podem-se sempre criar resultados eleitorais, de alianças de forças democráticas, que alteram o poder, sem necessidade de convulsões violentas.
Nas últimas eleições o PCP teve o pior resultado de sempre. Elegeu 12 deputados e 8 pertencem a Lisboa e a Setúbal. Do ponto de vista da realidade democrática, onde o poder do povo se expressa através do voto, ainda se pode afirmar que o PCP continua a ser um partido nacional?
A. Gervásio - O PCP faz falta, o povo não terá a defesa dos seus interesses se não houver um PCP mais forte. Não devem ter medo do PCP, o PCP não é um papão, tudo isso são fantasias, isso não é verdade, pelo contrário, o PCP é um partido aberto. Se forem às listas do Partido podem encontrar muita gente que não pertence ao partido. Nas listas da CDU, metade não pertence ao partido. Sozinhos não construímos uma vida melhor, é com todos, com todos os que querem o progresso. Por isso estamos a trabalhar para um PCP mais forte, não é para servir os comunistas é para servir o país.
Eu gostava de sublinhar que nós não subestimamos a luta eleitoral institucional. É importante para o nosso povo transmitir a nossa mensagem, a nossa influência, mas não a consideramos a decisiva, por isso não abandonamos as outras. Neste momento, damos prioridade à luta social contra esta política que arrasta o país para uma ruína completa.
A nossa mensagem não passa pela comunicação social, porque eles isolam-nos, silenciam-nos, deturpam. Assim temos muito mais dificuldade em transmitir a nossa mensagem através dos meios oficiais, daí termos que utilizar os nossos meios, mas não têm a mesma eficácia.
A influência da PCP
O PCP sempre teve uma influência muito significativa no Alentejo, devido principalmente à forma como nesta região estava implantada a posse da terra. Um reduzido número de pessoas detinha a grande maioria das terras e um grande universo de pessoas não tinha mais do que a sua força de braços para poder sobreviver.
Montemor, não fugiu a esta situação e foi, ao longo dos quase 50 anos de ditadura, uma localidade onde a luta de classes se desenvolveu de forma contínua, mesmo quando tudo parecia perdido, e as forças governamentais provocavam sérios golpes na estrutura local, como aconteceu aquando da morte de Germano Vidigal, havia sempre alguém que tinha a coragem de se levantar.
Hoje com a diminuição de votos e de influência o Alentejo parece estar está a voltar as costas ao PCP? A. Gervásio não vê a situação com a mesma perspectiva e afirma que não está, e vamos a ver, se houver lutas quem é que lá está. As lutas que existem nas questões da saúde, do emprego, do ambiente, dos problemas vivos do nosso povo, quem é que lá está? Não é o CDS, podem estar alguns socialistas, mas os militantes comunistas estão lá.
Alexandre Pirata comenta que, o nosso principal eleitorado são aquelas pessoas que passaram toda a sua vida com ocupações agrícolas e a sua perda também nos leva alguns votos, mas a segunda causa são os meios de comunicação ao dispor de cada força política. Ora nós não temos a possibilidade de ter o mesmo acesso à televisão e à rádio, e são esses meios que formam a opinião.
A abstenção é hoje um problema para todos os partidos e uma situação reveladora do desinteresse de uma faixa importante da população que sistematicamente não vota. Vitalina Roque os jovens são muito críticos e têm muito pouca confiança nos políticos. Temos que reconhecer que existem muitos políticos que desiludiram completamente o que torna natural que muitos jovens se abstenham. Nós vemos os jovens de aqui participar nas actividades proporcionadas, mas depois não votam.
Alterar o actual cenário da abstenção é uma tarefa enorme que não se consegue de um dia para o outro. Vitalina Roque acha que a situação só se pode alterar com a possibilidade de participar. Nós temos uma quantidade de gente nova nas listas da CDU para as autarquias. Começa a notar-se uma nova vontade de participar e um maior interesse por estas questões.
As autarquias comunistas
Uma das áreas onde o PCP tem marcado mais influência em termos de poder é a área autárquica. Que diferenças têm as autarquias comunistas das outras?
A. Gervásio comenta que se se for ao Norte e se se fizer uma visita às autarquias do PS ou do PSD ou CDS nota logo as diferenças: nos contactos com as populações, na solução dos problemas do saneamento básico, no apoio às estruturas, por que nós existimos para servir as populações, não é para servir lobbies, grupos da construção civil ou outros.
Repare, em Évora, ganhou o Partido Socialista, os comunistas já não puderam ter um pavilhão na Feira de S. João. Em Grândola, também ganharam os socialistas e os comunistas também já não puderam ter um pavilhão na Feira.
Para Vitalina Roque, que fez parte do anterior executivo camarário, uma das diferenças, nos primeiros anos de poder local democrático, foi a preocupação com as questões básicas essenciais. Actualmente, a maior parte destes problemas estão resolvidos, por quase todo o país, por isso nessas questões já não existem muitas diferenças. Mas existe uma diferença que nós, nomeadamente aqui no concelho, tentamos implementar que é a participação das populações, e que se traduz numa gestão participada que me parece não acontece noutras autarquias lideradas por outras forças políticas. Nas autarquias da CDU uma outra diferença é a descentralização das câmaras para as freguesias.
Maria Lourença acrescenta que o que distingue os comunistas é a forma de chegar às pessoas, é querer que as pessoas sejam elas próprias. Esta é a nossa maneira de estar, e é esta a nossa diferença, que se traduz numa vontade de transformar a sociedade.
Alexandre Pirata, actual presidente da junta de freguesia de Nossa Senhora da Vila, afirma que um outro aspecto que também define a gestão participada da CDU é a forma de gerir os interesses da população, de toda a população e não fazer qualquer tipo de discriminação sobre cores políticas. Depois de sermos eleitos servimos os interesses de toda a população. Outro aspecto a referir é a entrega total dos nossos eleitos à gestão autárquica.
Mesmo assim, apesar das vantagens e diferenças positivas aqui apontadas, nas últimas eleições o número de Câmaras do PCP diminuiu. A. Pirata justifica, ao apontar várias causas, tais como, perdemos algumas por erros nossos, da nossa gestão e também por questões partidárias. Por exemplo, em Évora, não fomos capazes de aguentar aquele embate.
A. Gervásio alarga a análise ao afirmar que o Alentejo sofre as transformações mais profundas de toda a sua história. Nunca o Alentejo sofreu a desertificação que está a sofrer hoje. A população activa desapareceu do Alentejo, já não existe actividade produtiva, as terras estão cercadas de arame farpado, de coutadas e não dão emprego. O eleitorado que votava PCP já cá não está, e isso reflecte-se na votação do PCP. Hoje o eleitorado é outro e algum eleitorado que tem vindo, não se identifica com a esquerda.
Por outro lado, nalguns sítios onde o caciquismo de direita tem mais força a abstenção ainda é maior, na Madeira, onde está o Jardim, por exemplo, é a região onde a abstenção é mais alta.
O que seria da oposição em Portugal se não houvesse um partido comunista? o que da seria da Assembleia da República? Mesmo quando não estão no poder, quem é que mais diplomas propõe, que mais trabalho de casa faz, quem mais se empenha em todos os órgãos políticos onde está.
E sempre tem estado, infelizmente, na oposição, com excepção do período logo a seguir ao 25 de Abril, isso mostra que nós, mesmo quando não estão criadas as condições de acesso ao poder, o nosso trabalho é importantíssimo na oposição, pelo menos para impedir que se criem situações políticas contra os trabalhadores, contra os direitos dos cidadãos, em privilégio de um estrato da sociedade que não são aqueles que mais produzem e que mais a representam no seu todo.
A Reforma Agrária
A Reforma Agrária é, sem dúvida, a maior bandeira do PCP. O impacto deste processo no Alentejo foi enorme, embora de curta duração. O que é que falhou na Reforma Agrária?
AG – A Reforma Agrária não falhou, o que falhou foi um governo de esquerda, falhou um governo democrático avançado.
Como é que chegava a esse governo?
AG – Se os militares de Abril não se tivessem vendido ao partido socialista – alguns deles.
A Reforma Agrária foi legítima?
AG - Foi, principalmente para esta região. Repare, eu tenho um conceito de legitimidade, talvez diferente do seu.
Quando se deu o processo revolucionário, o comportamento dos grandes proprietários foi despedir tudo, deixar de dar trabalho, deixar de produzir, fugir para outras regiões e até para Espanha.
Então os trabalhadores colocaram-se perante a questão: que fazer? Não há trabalho, as terras estão incultas e abandonadas. Por essa razão o partido promoveu a primeira conferência dos trabalhadores agrícolas do sul, em 9 de Fevereiro de 1975, para discutir esta situação: que fazer perante esta situação e este comportamento contra-revolucionário que se estava a opor à Revolução de Abril.
A decisão foi: avançar para as terras incultas. Mas igualmente propor uma nova lei. Aqui o Partido Socialista e Mário Soares foram aqueles que mais bloquearam a saída da Lei. Em meados de 1975 havia meio milhão de hectares ocupados, embora ainda não existisse lei, depois com a saída da lei são ocupados mais meio milhão.
Isto para dizer que o processo revolucionário é legítimo, por isso a Reforma Agrária foi legítima, e só não avançou com base na lei porque não houve um governo democrático. Se os agrários dão trabalho e produzem, não se teria avançado assim. O comportamento dos grandes proprietários, que é a classe mais retrógrada da sociedade, foi de arrogância. Por outro lado, aqui em Montemor, na Quinta dos Pretos, ninguém a ocupou, ele trabalhava a terra e misturava-se com o pessoal.
A.P. – Ao longo do processo da Reforma Agrária também houve falhas, porque foi um processo sobre o qual não havia experiência e muitas vezes foi necessário aprender à custa dos próprios erros, mas estes foram erros de percurso, não erros de princípio.
Esta foi a conquista de Abril que regionalmente mais impacto teve no Alentejo. Foi com base na Reforma Agrária que as populações das aldeias, dos lugarejos, de toda a região do Alentejo se desenvolveram tendo, ao longo dos 10 ou 15 anos, aumentado exponencialmente o seu nível de vida. Para muitos deles foi a única possibilidade de poder adquirir a sua casa, de poder adquirir bens de consumo necessários, o seu carro, a sua mobília. Do ponto de vista social foi o acontecimento mais importante do último século, a partir do qual a população veio a ter as melhores condições de vida de sempre e a garantia de estabilidade laboral, coisa que nunca tinha tido antes e que nunca mais veio a ter, com o termo da Reforma Agrária.
Ainda relativamente à questão da legitimidade eu acho que foi completamente legítima a partida para as terras e o direito que trabalhadores tinham de que essas terras fossem colocadas a produzir em prol das sociedades locais.
Por outro lado, a Reforma Agrária, foi uma mina para muitos agrários que, no início, limparam as dívidas que tinham perante a banca, com tudo hipotecado. Por outro lado, com o seu termo, veio a indemnização de 60 milhões de contos distribuídos ao latifúndio, para o tempo que não tiveram as terras na sua posse. Foi como que a lotaria que lhes saiu nestes 10 anos de Reforma Agrária. Como é lógico eles não o reconhecem, mas é a realidade.
O desenvolvimento do Alentejo
O Alentejo tem futuro? E esse futuro passa pela Agricultura?
A.P. – A agricultura é o sector económico estratégico para esta região. A própria estrutura agrária daqui e o papel que pode ter no desenvolvimento económico desta região é indispensável. O progresso passará necessariamente pelo desenvolvimento sustentado da agricultura.
O que é necessário é partir para uma agricultura sustentada de aproveitamento do solo agrícola, com rotações de culturas. Jamais pudemos pensar num futuro melhor para esta região sem colocar nos primeiros lugares o sector agrícola. Por que é impossível que o sector fabril abandone, de um dia para o outro, a faixa litoral, onde está instalado e onde tem escoamento com custos mais baixos, para criar aqui implantação.
Que ninguém tenha ilusões que conseguiremos, nos próximos anos trazer para aqui indústrias, porque não é só a localização e as vias de acesso, são também os hábitos e as mentalidades das populações. Vendas Novas conseguiu prosperar nesta área porque já tem estes hábitos enraizados, tem 50 anos de indústria!
O PCP está em crise?
Confrontados com a questão sobre se o PCP está em crise, quer em crise política, ideológica ou crise de direcção, António Gervásio responde directamente que não e que a Festa do Avante foi a maior demonstração de que o partido não está em crise.
Todavia, novamente, um grupo de destacados dirigentes comunistas têm vindo para a praça pública contestar a actual direcção.
A.G – Esta questão dos chamados reformistas ou renovadores tem tido o apoio da comunicação social. Estes membros do partido defendem uma outra teoria, de que o partido deveria deixar de ser marxista-leninista, defendendo um outro funcionamento, um outro método de eleição dos seus órgãos dirigentes, uma concepção que consiste em alterar toda a matriz ideológica, de classe, todos os princípios e apresentam-se à opinião pública como vitimas de perseguição e de delito de opinião, num partido onde sempre houve as opiniões mais disparatadas e nunca ninguém foi sancionado por ter opiniões diferentes. Todos têm direito a ter a sua opinião e a defende-la, desde que não entrem em trabalho fraccionário, foi sempre assim e será assim. Agora, este grupo tem um trabalho fraccionário organizado dentro do PCP.
Por que razão os renovadores têm pressa em realizar um novo Congresso, quando o último foi há dois anos e prazo para a realização do próximo está definido nos estatutos do partido?
A.G. – Em primeiro lugar para ganhar tempo e para a gente se entreter com estas coisas e poderem ter a esperança de mudar alguma coisa. No último Congresso já puseram as opiniões deles, bateram-se ali por elas, mas foram rejeitadas. Em 1300 delegados não chegaram a 100 os que se abstiveram e votaram a favor. Isto não tem impacto dentro do partido, mas faz mal e nas últimas eleições fomos prejudicados por isso.
As pessoas não sabem como é que funciona o PCP e pensam que não se pode ter opiniões diferentes. Claro que pode e têm o direito de ter, que está assegurado nos estatutos.
A.P. – Mais uma vez, nesta questão, os órgãos de comunicação social, fazedores de opinião, e os grandes grupos económicos, dão sobre esta questão uma imagem que pode vir a debilitar o partido, dando voz a este pequeno grupo e não a todo o trabalho de luta do partido, de organização nas fábricas, nos campos, na Assembleia da República.
Em todos os lados onde está presente a actividade do partido, não há uma palavra na comunicação social e só é dada ênfase a estes, como se eles representassem alguma coisa. Para quem esteja menos informado politicamente, pensa que é aquele o clima que se vive dentro do partido. Não é verdade nem nunca foi. É muito forçado chamar a isto uma crise, a imagem que se transporta para o exterior aparenta uma crise, mas na prática, a vida do partido é do mais normal que pode haver.
A sociedade em que hoje vivemos, é uma desilusão, principalmente para quem viveu toda a vida ligado ao PCP, com uma visão de sociedade própria do PCP?
A.G. - Não, não é. Quando olho para o meu partido vejo que o XVI Congresso trouxe uma fornada de jovens para o partido, mas todos com a consciência do seu papel, da sua responsabilidade. Olhando para a sociedade, vejo-a por isso com uma certa alegria.
Mas acha essa sociedade próxima do socialismo ou cada vez mais afastada?
A.G - Nessa perspectiva não. Vamos ter anos duros e negros pela nossa frente, lutas muito duras, por que o imperialismo está livre, faz o que quer, atreve-se a destruir países, o que parece impossível. No nosso país, ou no mundo, não vejo grandes perspectivas. A luta vai-se agudizar, a História não anda para trás, às vezes anda aos ziguezagues, mas sempre caminhando para a frente.
Hoje, o capitalismo tem uma capacidade de alienar as pessoas para o consumismo, para uma vida fácil, para o dia-a-dia, onde não se pensa em nada. O que se vê é uma desumanização da própria sociedade, onde cada um quer é ter um bom carro, e não pensa nas questões sociais, na solidariedade.
A História é uma luta de classes?
A.P. – É isso mesmo. A história é uma luta de classe e terá sempre a pressão de um lado e do outro. Haverá sempre uma força dominante. Neste nosso mundo é o dinheiro, é ele que manda, que impõe ao poder político a sua vontade. Um equilíbrio raramente haverá.
No livro “Até Amanhã Camaradas”, Rosa diz a Vaz, “temos que fazer um mundo novo”, esse continua a ser um objectivo do PCP?
AG – Exactamente, se não, não fazia sentido sacrificar tanto a nossa vida familiar, profissional, se não tivéssemos essa perspectiva. Não será já no nosso tempo. Muitos queriam ver derrubar o fascismo, não viram, mas outros viram. Eu já não vejo o socialismo no meu país, mas tenho a certeza que é para aí que a Humanidade caminha.
A Humanidade não precisa de homens a explorar outros homens, não precisamos disso, queremos outra vida sem ser explorados, uma vida melhor, cada vez trabalhar menos mas produzindo mais, com novas tecnologias. Eu não luto por uma sociedade burguesa, não espero que os capitalistas se democratizem e vão ceder mais regalias e mais direitos aos trabalhadores. É preciso transformar esta sociedade, para acabar com os erros a que hoje assistimos.
Estas são as minhas convicções políticas, assentes na história da vida.
A.M. Santos Nabo
antonio.nabo@sapo.pt
Novembro, 2002
março 26, 2005
CARTA DE CANSADO GONÇALVES SOBRE O JOVEM CUNHAL
Secção: Biografias / VidasA carta inédita que se publica em seguida foi escrita por Cansado Gonçalves a José Pacheco Pereira em 31 de Julho de 1983. Nela se relata um episódio envolvendo o jovem Cunhal, que Cansado Gonçalves, um dos dirigentes do PCP no início da década de trinta, conheceu bem.


março 20, 2005
BIOGRAFIA DE ABEL SALAZAR NAS "VIDAS LUSÓFONAS"
Secção: Biografias / VidasDe autoria de Carlos Vieira Reis foi colocada em linha no "Vidas Lusofonas" uma nova biografia de Abel Salazar.
março 18, 2005
Natália Santos - "CATARINA EUFÉMIA: (DES) MONTAGEM DE UM MITO"
Secção: Biografias / Vidas
"Catarina Eufémia: (Des) Montagem de um Mito" - Conclusão
Morta em 1954, imortalizada desde então, Catarina Eufémia, o mito, torna-se o símbolo de um país em luta, de classes sociais que reivindicam o fim da ditadura salazarista-marcelista, em todas as suas implicações. Ganhando dimensões de fenómeno internacional, com a publicação de um artigo sobre si na revista Mulher Soviética (1) , em torno da sua figura o Partido Comunista Português (2) tenta, ao longo dos anos, promover a coesão, a união, a identificação entre as massas camponesas, em particular, e entre as classes trabalhadoras, numa dimensão mais lata, apresentando-a como paradigma de combate à repressão, à exploração económica e ao atropelamento dos direitos dos trabalhadores. ”Exemplo que não esquece e frutifica” (3) ; é-o a camponesa recordada, lembrada e comemorada por comunistas e anónimos que se deslocam a Baleizão, todos os anos, numa autêntica romaria, criando um cenário onde vários conceitos participam e permitem compreender a finalidade de tal iniciativa, de tal ritual. De facto, pensando nas homenagens a Catarina de Baleizão, eis que surgem realidades associadas, como as de tradição, passado, presente, futuro, comemoração, culto ou, mesmo, religião cívica. Neste quadro, todas estas noções se conjugam, participando na construção do mito político tão prezado pelos comunistas, especialmente após 1974.
Assim que a jovem camponesa perece, o PCP procura apropriar-se da sua estória, escrita por linhas de tragédia e infelicidade (4) , fazendo (frequentemente) sobrepor à Catarina-mãe e à Catarina-mulher a Catarina-camarada, a Catarina-trabalhadora e a Catarina-comunista. A partir de então, as visitas à sua campa sucedem-se anualmente, ganhando estatuto de ritual, acompanhadas de comícios, onde, quase sem excepção, o secretário-geral do PCP tem presença obrigatória. Entre o partido, que promove tais encontros, e a multidão que se forma para neles participar, Catarina Eufémia e os símbolos que consigo arrasta (as bandeiras vermelhas, os cravos da revolução…) fazem a ponte entre ambas as partes, desencadeando, quase de imediato, um processo colectivo de identificação entre estas. Desse modo, as grandes causas do Partido Comunista Português tornam-se, natural e consequentemente, as do proletariado. A democracia, a liberdade, a reforma agrária, o poder das massas trabalhadoras na luta pelos seus direitos constituem-se como palavras de ordem comuns aos celebrantes de Catarina Eufémia, tendo nela o símbolo máximo e superior de dedicação aos ideais referidos. Num misto de apropriação de termos religiosos (como o de “mártir”) e de uso de uma linguagem fortemente política, onde uma visão tripla de presente/passado/futuro é posta em relevo, assim têm lugar os comícios de Baleizão dirigidos ao povo, destinados ao povo, feitos a pensar no povo e nos interesses partidários… e não somente em Catarina.
Embora Catarina Eufémia seja, afinal, mais um pretexto para fazer aproximar o comunismo das classes mais desfavorecidas, dirigindo-se em especial o PCP àquela de que a camponesa era oriunda, a verdade é que ela permite passar a imagem de um Alentejo fortemente comunizante ou comunista; para tal, promove as comemorações anuais do aniversário da sua morte e dando-lhe grande relevância na imprensa, a partir de 1974, variando, todavia, consoante o momento político vivido em Portugal nessa altura, como já verificámos atrás.
Além de referida pela dimensão meramente política que Catarina Eufémia adquiriu pelo Partido Comunista, a jovem camponesa assassinada fica, no imaginário social português, como mãe e mulher. Em romances, peças de teatro, poemas (5) , imagens e canções, aquela dupla condição é invocada, numa combinação de bela mulher e heroína trágica, numa conjugação de tristeza pela sua prematura morte e esperança na justiça futura. Acima de tudo, fica a imagem de uma mulher, uma jovem mulher, mãe e companheira, a quem o Fado foi injusto, ceifando-lha a vida demasiado cedo e em circunstâncias inaceitáveis. Acima de tudo, fica, em sua memória, uma das canções simbólicas do nascer da Liberdade em Portugal, baseada num poema de Vicente Campinas e interpretada por José Afonso:
“Chamava-se Catarina
O Alentejo a viu nascer
Serranas viram-na em vida
Baleizão a viu morrer
Ceifeiras na manhã fria
Flores na campa lhe vão pôr
Ficou vermelha a campina
Do sangue que então brotou
Acalma o furor campina
Que o teu pranto não findou
Quem viu morrer Catarina
Não perdoa a quem matou
Aquela pomba tão branca
Todos a querem p’ra si
Ó Alentejo queimado
Ninguém se lembra de ti
Aquela andorinha negra
Bate as asas p’ra voar
Ó Alentejo esquecido
Inda um dia hás-de cantar” (6)
__________________________________________________________________
(1) Certamente sob iniciativa do PCP.
(2) A par deste partido, um outro, a UDP, também reivindicou Catarina Eufémia como sua militante. Deu, aliás, origem a um conflito entre ambos os partidos que se radicalizou “no dia 23 de Maio de 1976, quando (…) foi destruído um pequeno monumento à sua memória, erigido em Baleizão por iniciativa dos simpatizantes da U.D.P”. Vide A Morte de Catarina Eufémia. A Grande Dúvida de Um Grande Drama, Beja, Associação de Municípios do Distrito, 1974, p. 58
(3) Avante, 17 de Maio de 1974
(4) Devido a vários factos que envolvem a sua imagem: a sua juventude (teria cerca de 26 anos quando morreu); os filhos e o viúvo que deixou; as circunstâncias da sua morte…
(5) Para uma leitura das principais e mais conhecidas composições poéticas dedicadas a Catarina Eufémia, vide 50 Anos depois da Morte. Catarina de Baleizão…
(6) 50 Anos depois da Morte. Catarina de Baleizão…, p. 54
março 10, 2005
Vanessa de Almeida - ACÁCIO JOSÉ DA COSTA E O 28 DE FEVEREIRO DE 1935 NO BARREIRO
Secção: Biografias / VidasInterrogado pela primeira vez no Posto Policial do Barreiro no dia 10 de Março de 1935, Acácio José da Costa começaria por negar qualquer filiação partidária, assim como qualquer envolvimento nos acontecimentos de 28 de Fevereiro (1) , afirmando que «só teve conhecimento do que se tinha passado no outro dia quando tomou o trabalho, tendo visto na Secção de Ferraria Nova, os armários cheios de dísticos comunistas.»
Esta situação viria a alterar-se durante o segundo interrogatório ocorrido em 3 de Abril, ainda durante a sua permanência no Barreiro. Denota-se então um comportamento típico dos comunistas na época face à polícia, o contar de meias verdades, numa tentativa como o próprio esclareceu durante o seu terceiro e último interrogatório «Que mentiu e não esclareceu a verdade quando dos seus primeiros depoimentos, por querer ocultar a responsabilidade que lhe cabe nos acontecimentos (...)». Refere então ter participado em reuniões com o Delegado do Comité Central do Socorro Vermelho Internacional, de pseudónimo Crispim, que descreve como sendo um «indivíduo baixo, de tez branca, barba e bigode loiro, sardento, usando óculos com vidros claros», o qual teria conhecido em Maio de 1934, aquando de uma visita deste último ao Instituto Ferroviário, acompanhado por mais nove arsenalistas. Posteriormente a esta visita, o mencionado Delegado do CC do SVI teria vindo por duas vezes ao Barreiro em princípios e meados de Novembro de 1934, tendo reunido com Acácio José da Costa junto ao Largo Gago Coutinho e Sacadura Cabral, reuniões em que havia participado José Simões/”José da Mina”.
Neste segundo interrogatório, Acácio José da Costa refere que o intuito destas reuniões seria convencê-lo a formar um Comité de Empresa do Socorro Vermelho Internacional nas Oficinas Gerais dos Caminhos de Ferro, devendo para o efeito aliciar mais dois colegas, o que ele afirma ter-se recusado a fazer, informando ainda que muito possivelmente o contactado depois da sua recusa teria sido um operário das Oficinas de nome Virgílio, declarando «ter visto o citado Virgílio entregar ao operário Angelo Couto selos do Socorro Vermelho no momento que o respondente se dirigia para a sua oficina (...)».
O interesse deste segundo depoimento está exactamente nas meias verdades mencionadas acima, que ganharão uma nova dimensão após o terceiro interrogatório, em 15 de Abril de 1935, ocorrido já na PVDE, em Lisboa. Neste, começará por assumir estar filiado no Partido Comunista Português há cerca de ano e meio, tendo sido aliciado por Bento Gonçalves, conhecido pelos pseudónimos de “Albino” e “Mendonça”, durante uma visita deste último ao Instituto dos Ferroviários. O Delegado do CC do SVI de pseudónimo “Crispim” mencionado durante o segundo interrogatório não era outro afinal que o principal dirigente do PCP à época, referindo que era com ele que estabelecia as ligações.
Acácio José da Costa descreve então o seu percurso no interior do PCP do Barreiro. Primeiro ingressou no núcleo secretariado por um outro operário das Oficinas dos Caminhos de Ferro – José Elias Guerreiro -, no qual viria a permanecer por três meses, transitando de seguida para o Comité Local, o qual era constituído por si, por Joaquim Jorge (agulheiro dos Caminhos de Ferro) e por José Simões (operário na CUF). Para além da constituição do Comité Local, Acácio José da Costa discrimina as responsabilidades de cada um dos elementos que o constituía. Assim, Acácio Costa era o Secretário Responsável Político, Joaquim Jorge o Secretário Responsável da Organização e o “José da Mina” o Secretário Responsável da Agitação e Propaganda, referindo ainda que era ele, Acácio Costa «quem transmitia as ordens do Comité Executivo do Partido Comunista Português, aos secretários responsáveis do Comité Local, assim como a orientação a dar aos núcleos, quando estes estivessem a trabalhar mal.»
Acácio José da Costa refere que o Comité Local do Barreiro viria a ser destituído por falta de elementos, funcionando em seu lugar uma Comissão de Controle, constituída pelos mesmos elementos ou seja, Acácio José da Costa, Joaquim Jorge e José Simões, os quais mantinham as mesmas funções. Refere ainda que em Janeiro de 1935 decorrera um Pleno do Partido, durante o qual foi destituído do seu cargo por incompetência, sendo substituído por Joaquim Jorge, o qual passou a acumular funções, informação que, todavia, não nos foi possível confirmar, nem através dos depoimentos prestados por Joaquim Jorge à PVDE.
No que concerne à acção por si desenvolvida na noite de 28 de Fevereiro, Acácio José da Costa assume a sua responsabilidade na afixação de dísticos comunistas nas secções 1 e 4 das Oficinas dos Caminhos de Ferro, assim como o facto de ter sido ele quem hasteou a bandeira encarnada na chaminé das mesmas, tendo sido auxiliado nessa tarefa pelo “Joaquim da Aldeia”, que identifica como trabalhador na ponte rolante, por António Fernandes, também serralheiro nas Oficinas Gerais e ainda por José João Rodrigues, este último operário da CUF. Acácio Costa assume ainda a responsabilidade pela sabotagem do ponto de transformação da electricidade situado na Avenida da Bélgica.
Acácio José da Costa foi quem distribuiu à organização comunista da CUF, através do secretário desta – Flávio Alves – o material de afixação e bandeiras que deveria ser distribuído pelos diferentes núcleos da empresa para ser afixado na noite de 28 de Fevereiro.
Antes de ser julgado pelo Tribunal Militar Especial em 15 de Fevereiro de 1936, Acácio José da Costa, estaria detido no Aljube e posteriormente em Peniche. Julgado, ser-lhe-ia atribuída a pena de 18 meses de prisão correccional, assim como a perda dos direitos políticos por cinco anos. Dado o tempo de detenção, faltar-lhe-iam cumprir 204 dias quando foi transferido para o Reduto Norte de Caxias.
Acácio José da Costa viria a ser enviado para o Tarrafal em 17 de Outubro de 1936 (2) , um mês depois de haver cumprido a pena imposta pelo TME, de onde só viria a regressar em Outubro de 1944.
(1) Jornada de agitação levada a cabo no Barreiro na noite de 28 de Fevereiro de 1935, em resposta ao apelo lançado pelo PCP, para uma «semana de agitação e de luta contra a fome, a guerra e o fascismo», a qual deveria decorrer entre 25 de Fevereiro e 2 de Março.
(2) O campo de concentração do Tarrafal, designado oficialmente por colónia penal para presos políticos e sociais no ultramar, na Ilha de Santiago em Cabo Verde, foi criado pelo decreto-lei nº 26-539 de 23 de Abril de 1936, sendo inaugurado em 29 de Outubro de 1936, com a chegada dos primeiros 150 prisioneiros, entre os quais encontrava-se Acácio José da Costa.
NOVO VOLUME DE POLITICAS DE LA MEMÓRIA
Secção: Bibliografia
Políticas de la Memoria
Anuario de Investigación del CeDInCI
Buenos Aires, diciembre de 2004, 192 p.
SUMARIO
»EDITORIAL
Dossier: En torno a las representaciones del pasado reciente
Alejandra Oberti / Roberto Pittaluga, Temas para una agenda de debate en torno al pasado reciente.
Ana Amado, El documental político como herramienta de historia.
Federico Lorenz, Pensar los setenta desde los trabajadores.
Dossier: Utopías tardías, entre Europa y América Latina
Robert Paris Utopía y ciencia en el imaginario socialista.
Tony Burns, Marxismo y ciencia ficción. Un homenaje a la obra de Úrsula K. Le Guin.
Adriana Petra, La utopía del individuo integral o el mito de la Arcadia sudamericana. Anarquismo, eugenesia y naturismo en el Viaje al país de Macrobia.
Laura Fernández Cordero, Una utopía amorosa en Colonia Cecilia.
Documento: Giovani Rossi, Un episodio de amor en la Colonia Cecilia.
Dossier: Militancia y vida cotidiana en los 60/70
Alejandra Oberti, La moral según los revolucionarios.
Alejandra Ciriza/Eva Rodríguez, Militancia, política y subjetividad. La moral del PRT-ERP.
Documento: Luis Ortolani, Moral y proletarización.
Dossier: El Club alemán socialista Vorwärts y los orígenes del movimiento obrero argentino (1882-1901)
Horacio Tarcus, Entre Lassalle y Marx. Los exiliados alemanes en la Argentina de 1890 y la recepción del socialismo europeo.
Jessica Zeller, Entre la tradición y la innovación. La experiencia del Vorwärts en Buenos Aires.
Documento: Augusto Kühn, Apuntes para la historia del movimiento obrero socialista en la República Argentina.
Ideas y figuras de la izquierda argentina
H. T., Simón Radowitzky y Salvadora Medina Onrubia. Anarquismo y Teosofía.
Simón Radowitzky, Catorce cartas inéditas de S. Radowitzky a S. Medina Onrubia.
Martín Bergel, Mariana Canavese y Cecilia Tossounian, Práctica política e inserción académica en la historiografía del joven Laclau.
Claudia Bacci, Las políticas culturales del progresismo judío argentino. La revista Aporte y el ICUF en la década de 1950.
Vida del CeDInCI
Catálogos del CeDinCI:
Graciela Karababikian (ed.):
Catálogo de movimientos sociales de Argentina y
Adriana Petra (ed.):
Los socialistas argentinos a través de su correspondencia.
Microfilmación 2004/ Ediciones digitales
III Jornadas de Historia de la Izquierda: Los exilios en la historia argentina y latinoamericana
Reseñas críticas
Daniel Paradeda, a propósito de Silvia Licht, Agustín Tosco y Susana Funes, historia de una pasión militante/ Analía Minteguiaga, sobre Maristella Svampa y Sebastián Pereyra, Entre la ruta y el barrio. La experiencia de las organizaciones/ Damián López, a propósito de Roberto Bardini, Tacuara. La pólvora y la sangre, y Daniel Gutman, Tacuara. Historia de la primera guerrilla urbana argentina/ Guillermo David, sobre Gustavo Plis-Sterenberg, Monte Chingolo. La mayor batalla de la guerrilla argentina/ Laura Fernández Cordero, a propósito de Louis Auguste Blanqui, La eternidad por los astros/ Gabriel Lerman, sobre Beatriz Sarlo, La pasión y la excepción/ Andrés Bisso, a propósito de Tulio Halperin Donghi, La República imposible (1930-1945)/ Ernesto Bohoslavsky, sobre Sandra McGee Deutsch, Las derechas. The Extreme Right in Argentina, Brazil and Chile, 1890-1939/ Mauro Spagnolo, a propósito de Federico Neiburg y Mariano Plotkin (comp.), Intelectuales y expertos. La constitución del conocimiento social en Argentina/ Emmanuel N. Kahan, sobre Daniel Lvovich, Nacionalismo y Antisemitismo en la Argentina, y de Graciela Ben-Dror, Católicos, Nazis y Judíos. La Iglesia Argentina en tiempos del Tercer Reich.
Con ilustraciones de Manuel Kantor
SOBRE PETER BENENSON
Secção: Biografias / Vidas
A Amnistia Internacional publicou uma pequena biografia em que se refere o papel da repressão em Portugal na fundação da organização, que se reproduz em seguida. Um dos artigos sobre os "prisioneiros políticos esquecidos" que suscitou a revolta de Benenson nomeia Agostinho Neto e está aqui reproduzido.
Press release, 02/26/2005
Peter Benenson, the founder of the worldwide human rights organisation Amnesty International, died yesterday evening. He was 83.
Mr Benenson founded and inspired Amnesty International in 1961 first as a one-year campaign for the release of six prisoners of conscience. But from there came a worldwide movement for human rights and in its midst an international organisation -- Amnesty International -- which has taken up the cases of many thousands of victims of human rights violations and inspired millions to human rights defence the world round.
"Peter Benenson’s life was a courageous testament to his visionary commitment to fight injustice around the world," said Irene Khan, Secretary General of Amnesty International.
"He brought light into the darkness of prisons, the horror of torture chambers and tragedy of death camps around the world. This was a man whose conscience shone in a cruel and terrifying world, who believed in the power of ordinary people to bring about extraordinary change and, by creating Amnesty International, he gave each of us the opportunity to make a difference."
"In 1961 his vision gave birth to human rights activism. In 2005 his legacy is a world wide movement for human rights which will never die."
The one-year Appeal for Amnesty was launched on 28 May 1961, in an article in the British newspaper, The Observer, called "The Forgotten Prisoners". That appeal attracted thousands of supporters, and started a worldwide human rights movement.
The catalyst for the original campaign was Mr Benenson's sense of outrage after reading an article about the arrest and imprisonment of two students in a café in Lisbon, Portugal, who had drunk a toast to liberty.
In the first few years of Amnesty International's existence, Mr Benenson supplied much of the funding for the movement, went on research missions and was involved in all aspects of the organisation's affairs.
Other activities that Mr Benenson was involved in during his lifetime included; adopting orphans from the Spanish Civil War, bringing Jews who had fled Hitler's Germany to Britain, observing trials as a member of the Society of Labour Lawyers, helping to set up the organisation "Justice" and establishing a society for people with coeliac disease.
At a ceremony to mark Amnesty International's 25th anniversary, Mr Benenson lit what has become the organisation's symbol -- a candle entwined in barbed wire -- with the words:
"The candle burns not for us, but for all those whom we failed to rescue from prison, who were shot on the way to prison, who were tortured, who were kidnapped, who ‘disappeared’. That is what the candle is for."
Today Amnesty International is into its 44th year. It has become the world’s largest independent human rights organisation, with more than 1.8 million members and committed supporters worldwide.
ACTUALIZAÇÃO DAS LIGAÇÕES
Secção: VáriosEm curso, com novas entradas e retirada das desactualizadas.
março 09, 2005
UM DISCURSO ANTI-COMUNISTA NA ASSEMBLEIA NACIONAL EM 1959
Secção: FontesO discurso encontra-se no endereço da Assembleia da República de onde retiramos o texto corrigindo alguns dos erros de ortografia e de datação mais importantes.
Diário das Sessões da Assembleia Nacional, VII Legislatura 114, 2/6/1959
O Sr. André Navarro: - Sr. Presidente: está ainda bem presente na nossa retina a admirável manifestação da tarde de 28 de Abril, manifestação de fé nos destinos de Portugal, e será também difícil esquecer, nessa memorável jornada patriótica, a fisionomia de plena confiança no futuro dessa multidão infinda - fisionomia do mais puro e devotado agradecimento ao grande construtor do Portugal contemporâneo.E quando nos lembramos de que nessa atitude colectiva de amor e de paz sé simbolizam as grandes virtudes do povo português, bem expressas nas admiráveis cerimónias em honra de Cristo-Rei, mais se desenha em todas as almas bem formadas o contraste com certas máscaras de ódio de conhecida populaça revolucionária e dos seus responsáveis instigadores- untes que, vivendo dentro ou fora dos nossos muros, realizam há muito, segundo normas e métodos dissolventes adequados, um profundo trabalho de dissolução social.
Têm-se imiscuído esses perniciosos agentes das forças internacionais comunistas e maçónicas no seio do honrado e devotado funcionalismo técnico e administrativo do Estado e das organizações corporativas e também ainda em algumas empresas privadas, especialmente - e parecerá esta verificação um contra-senso - naquelas que melhor vêm remunerando o seu pessoal, lançando e espalhando, sistematicamente, aleivosias e boatos, de mistura com anedotas de finalidade preconcebidamente demolidora; levam a cabo vasta acção psicológica, criando um clima de incertezas susceptível de provocar as fugas do capital, desviando este de investimentos de maior risco, anos de maior improdutividade, para outros mais seguros mas de menor interesse social; procuram também nos locais, de trabalho - escolas, oficinas e campos- provocar perturbações, dissídios e desordens e ainda movimentos precipitados de natureza reivindicativa; divulgam, por outro lado, através de publicações várias, as belezas enganadoras do paraíso soviético, de resto nunca por eles vivido, bem como das escravizadas comunas colectivizadas da China Continental ; propagam por via de edições de baixo preço erradas doutrinas, que conduzem à dissolução dos vários elementos de estrutura das sociedades; recitam incríveis poemas das glórias de lutas desleais que têm sacrificado muitas centenas de mulheres e de crianças indefesas nesse admirável país que é obra da imortal França nas paragens norte-americanas; cantam as vitórias de «fideis» e «infideis» vários que têm reconstituído, no século que decorre, bárbaras cenas do Coliseu de Roma, ultrapassando em muito os desvarios que dizem combater; servem-se dos escritos da imprensa clandestina, do Avante!, de O Militante e doutros pasquins, para divulgar escritos não menos irresponsáveis; utilizam o cinema, nos clubes ou fora deles, para confundirem, com belas imagens panorâmicas, o triste cenário da escravatura de todas as cores, e ainda a rádio, para o- sistemático elogio dos seus valores - digo melhor dos que dedicam a sua acção demolidora aos domínios das letras, das artes e das ciências; valores aparecidos, decerto, par via de geração espontânea, já que neste país, sujeito segundo afirmam a uma clorose, demolidora das manifestações do espírito, eles não poderiam ter evoluído até atingirem a maturação actual.
O Sr. Ramiro Valadão: - Muito bem!
O Orador: - Levam mesmo a cabo, quando o ambiente. é propício, acções subversivas de vária índole, como aquelas a que assistimos no decorrer do período eleitoral de Maio-Junho de 1958, seguidas pela vaga de greves de natureza política que surgiram em diferentes regiões do País e que abortaram, logo no seu início, um face da pronta reacção da grande maioria dos trabalhadores patriotas e de consciência sã.
Apertam ainda, como se fossem velhos amigos, as mãos honradas daqueles homens bons que lhas estendem, ingenuamente é um facto, numa atitude sincera de desejo de conquistar mais almas para o Reino de Deus, pois assim esperam conhecer melhor os recônditos das almas puras para, quando soar a hora da destruição, poderem vibrar golpes mortais no elevado mundo do espírito.
Tudo processos, em suma, para criar climas de agitação e situações emocionais das massas favoráveis aos seus desígnios estratégicos e tácticos.
Eis, em suma, a ofensiva a que estamos assistindo, ofensiva de uma guerra fria movida pelo império moscovita nos mais variados campos, concebida por diabólicos e hábeis estratagemas; guerra que tem consumido, nesta última década, somas avultadas de dinheiro dos trabalhadores, a maior parte dele sugado a essa multidão de escravos que labuta em cerca de um terço da superfície do globo - fruto, digo, da espoliação de operários húngaros, checoslovacos, polacos, búlgaros, romenos, lituanos, estonianos e letões e dessas dezenas de milhões de russos, ucranianos, arménios, caucasianos e tantos outros povos hoje vivendo vida mais dura que nos tempos ainda não esquecidos dos autocratas de todas as Rússias.
E já não falamos desse Celeste Império, submetido, em escala nunca vista, por leninistas ortodoxos preparados nas escolas soviéticas, a um sistema de industrialização forçada que toca as raias do desumano. colectivização e materialização da vida levada à última, expressão do retrógrado com a supressão dos próprios laços da vida familiar; regresso da vida humana u formas primitivas, acentuado aí, nas suas consequências trágicas, pela degradação do meio físico, sujeito, a milénios de intenso uso.
Eis a ofensiva monstruosa em que colaboram também, com quantias avultadas e achegas várias, alguns magnates do sórdido capitalismo internacional - o temos por cá alguns, embora felizmente raros, exemplares dessa fauna bem conhecida no mundo da iniciativa privada, esperançados talvez em conquistar a boa vontade da gente trabalhadora para a continuação da sua vil acção parasitária.
E, perante tais atitudes, apenas, como sempre tem acontecido, a nossa perigosa benevolência e o esquecimento a curto prazo, logo que as situações se tornam menos vivas, dos ataques desses lobos sequiosos de sangue e de outros, não menos perigosos, disfarçados de mansos cordeiros.
Destina-se este escrito a pôr de sobreaviso «neutralistas» - incautos uns, embora por vezes bem intencionados, e também alguns amantes da demagogia fácil, cujas atitudes têm concedido, por vezes, fortes- achegas ao inimigo. Os que lutam sempre cheios de fé do mesmo lado da barricada não necessitam da nossa palavra esclarecedora.
O que passamos a dizer demonstrará, porém, que é necessário combater sem descanso, numa frente bem unida, o inimigo-comum, nos mais variados sectores da sociedade. E preciso: o dos falsos intelectuais aparentemente inocentes, mas profundamente dissolventes do mundo do 'espírito, que assentaram já há longo tempo arraiais nas escolas, nos oficinas e no campo, com a satânica missão de deformar essa multidão de jovens indefesos, que o excepcional desenvolvimento cultural e económico do País atirou nestes últimos vinte anos para um nível onde a maturação intelectual e social, que exige sedimentação calma, não pode ainda ter dado expressão definitiva; são ainda esses ingénuos pastores também, apostados em constituir grandes rebanhos onde lobos- esfaimados, difíceis de saciar, possam viver em boa paz com a multidão de mansos cordeiros.
O mundo das gerações que despontam para a vida não admite, presentemente, na realidade, mais do que dois partidos, e estes não são também conciliáveis: o dos que são pela Nação e o dos que são contra ela.
E neste momento o império soviético está desferindo os seus mais rudes golpes de uma guerra fria sobre os principais baluartes da defesa ocidental.
Vejamos, assim, para melhor compreensão da estratégia e dos noções tácticas do inimigo -única forma de se organizar solidamente a nossa defesa-, o processo evolutivo em que se enxerta a acção comunista contemporânea.
Não constitui segredo para ninguém a existência de um movimento de índole comunista em Portugal. Qualquer observador atento às nossas realidades político-sociais pode verificar, na verdade, diversas manifestações dessas actividades subversivas.
Da leitura, mesmo que superficial, da imprensa clandestina comunista reconhece-se também imediatamente o grau de subserviência em que se encontram os seus agentes perante os dirigentes soviéticos.
Os panfletos clandestinos são na realidade, salvo raras excepções, simples traduções, por vezes inadaptadas ao nosso ambiente político-social, de publicações congéneres soviéticas, e em todas as palavras de ordem que difundem, declarações que proferem ou comentários que contêm encontra-se sempre marca inconfundível da direcção suprema do Kremelin. Os comunistas em Portugal não tentam assim, no prosseguimento de uma política subversiva, utilizar uma táctica de acção própria, não tomando qualquer posição definida sem terem prévio conhecimento da aprovação dos seus chefes moscovitas. E essa dependência total tem-se manifestado tanto mais claramente quanto mais decisiva se tem revelado a política nacional na intransigente defesa da civilização do Ocidente.
Vejamos um pouco de história deste movimento, para melhor nos apercebermos do sentido actual da sua evolução.
Desde que se constituiu, em 1921, o movimento comunista português procurou ligar-se desde logo estreitamente a Moscovo. E, assim, durante o período de 1921-1929 foram várias as delegações que partiram com rumo à capital da Rússia Soviética, quer por ocasião dos congressos do Komintern, quer ainda dos aniversários mais destacados da história do bolchevismo. Aí beberam as primeiras palavras de ordem. Como pagamento de visitas, o nosso país foi também visitado algumas vezes por vários agentes do aparelho internacional do Komintern.
Em 1929, depois da reorganização que o então secretário-geral Bento Gonçalves imprimiu ao movimento comunista, este começou a intitular-se oficialmente Secção Portuguesa da Internacional Comunista (S.P.I.C.). As principais organizações satélites que criou então eram apenas secções portuguesas de organizações satélites comunistas internacionais: Comissão Intersindical (C.I.S. - secção portuguesa da Profintern), Federação Juvenil Comunista Portuguesa (F.J.C.P. - secção portuguesa da Internacional Juvenil Comunista), Liga dos Amigos da U.B.S.S., Liga contra a Guerra e contra o Fascismo e Socorro Vermelho Internacional. E em grande parte estas organizações satélites foram estruturadas com a ajuda eficaz de agentes estrangeiros. Em 1934, uma delegação portuguesa, presidida por Álvaro Cunhal, então secretário--geral da Federação Juvenil Comunista Portuguesa, foi de novo a Moscovo participar no VI Congresso da Internacional Juvenil Comunista e no ano imediato uma delegação presidida pelo secretário-geral Bento Gonçalves deslocou-se à U. B. S. S. para assistir ao Vil Congresso do Komintern e recebeu então pessoalmente de Dimitroff as directrizes para o trabalho subversivo a realizar em Portugal e, em especial, as normas para a criação de uma Frente Popular e ainda para a infiltração de elementos comunistas nos sindicatos nacionais e em outras instituições recém-criadas. A leitura da imprensa comunista da época revela bem como este movimento antinacional procurou atingir estas finalidades.
Com o desencadeamento da guerra civil de Espanha este movimento antinacional adquiriu, como era de prever, uma importância bastante maior no seio do comunismo internacional. Assim, o Bureau Latino do Komintern impôs, instruções precisas a respeito das tácticas a seguir em Portugal durante este agitado e crítico período para a civilização ocidental, período que o comunismo russo antevia como muito frutuoso para a sua estratégia.
Eram elas, entre outras, as seguintes:
a) Criar na opinião pública nacional um estado de espírito de simpatia pela luta dos vermelhos espanhóis, procurando esconder a origem comunista do movimento, para apenas realçar a luta pelos ideais democráticos;
b) Ajudar por todos os processos as milícias armadas dos comunistas espanhóis e as brigadas internacionais;
c) Sabotar qualquer eventual ajuda às tropas nacionalistas ;
d) Procurar estender ao nosso país a guerra revolucionária que se desenrolava já no país vizinho.
Para dar maior força a estas instruções, deslocaram-se especialmente a Portugal alguns agentes importantes do comunismo internacional, entre os quais um de pseudónimo «Pavel», que tomou virtualmente nas suas mãos a direcção do movimento comunista português. Por outro lado, outros dirigentes comunistas continuaram a seguir clandestinamente para a Espanha vermelha, e entre eles o Dr. Álvaro Cunhal, este tendo ido a Madrid especialmente com a missão de reunir os emigrados políticos portugueses numa única frente a favor do que dizia «a causa dos republicanos espanhóis». Aí tomou parte activa na noção das criminosas brigadas internacionais, que prenderam e assassinaram milhares de nacionalistas espanhóis. Que conste, foi essa então a única missão realizada com êxito por esse destacado dirigente.
Porém, continuava a ser preparada pelos comunistas portugueses, em grande parte, a execução das ordens moscovitas. E, assim, na madrugada de 8 de Setembro de 1936, rebentou a revolta de duas unidades navais roo Tejo e verificaram-se os atentados bombistas do dia 20 de Janeiro de 1937, bem como o planeado para o dia 4 de Julho do mesmo ano, todos eles decididos pela direcção internacional do movimento comunista. Dizemos em grande parte, porque nos dois últimos actos subversivos colaboraram também alguns elementos anarco-sindicalistas.
Mas a Polícia de Defesa do Estado estava vigilante. Foi prendendo, sucessivamente, todos os dirigentes do movimento antinacional português, quer nascidos em território pátrio, quer estrangeiros, e assaltando as sedes do movimento e as tipografias clandestinas. E assim é que no final do ano de 1938 podia considerar-se de facto que o movimento comunista em Portugal estava em grande parte desarticulado e tinha deixado de existir como um todo orgânico. No ano de 1939 o Komintern constatava este facto, isto é, que o movimento comunista português não tinha cumprido as intruções que lhe tinham sido dadas e não pudera assim defender, com suficiente vigilância revolucionária, o seu aparelho clandestino, e como consequência dessas faltas expulsa este partido do movimento comunista internacional.
O que acabamos de expor mostra bem, como já afirmámos, n estreita dependência que sempre existiu entre o comunismo português e a direcção da Internacional Comunista dominada por Estaline.
Foram assim, em última análise, os dirigentes do Kremlin, por intermédio do aparelho comunista internacional, que tentaram espalhar a desordem e a subversão na nossa terra, e se essas finalidades falharam' isso deve-se unicamente a três factores dominantes: à alergia do nosso povo a movimentos antinacionais, à acção enérgica do nosso Governo e à perfeita eficiência de actuação da Polícia de Defesa do Estado:
Vozes: - Muito bem !
O Orador: - Ao deixarem-se manobrar deste modo por Moscovo, os comunistas em Portugal só mostraram mais uma vez serem apenas traidores à Pátria.
Vozes: - Muito bem!
O Orador: - Depois de 1941, isto é, depois da segunda reorganização do movimento antinacional comunista, essa atitude de traição à Pátria ainda mais se acentuou. Na realidade, o movimento que surgiu da reorganização de 1941 executou ainda mais fielmente, se é possível, as ordens de Moscovo. E, assim, o perigo que representava para a unidade e progresso social da Nação aumentou na medida em que os seus métodos de acção se foram torna ado mais eficazes, adquirindo crescentes características leninistas.
O perfeito alinhamento da estratégia e da táctica deste movimento antinacional português com a política moscovita foi então posto em foco por S. Ex.ª o Presidente do Conselho ao escrever estas palavras lapidares: «Mandaram-nos ser aqui germanófilos no começo da guerra, e foram; mandaram-nos ser aliadófilos depois, e foram. Mandaram-nos admitir a independência das repúblicas soviéticas, e admitiram-na; mandaram-nos aceitar a absorção das mesmas repúblicas, e aceitaram--na. São colonialistas para engrandecer o Estado socialista nisso e anticolonistas para diminuir o seu próprio país. Não procuremos lógica, mas obediência; não esperemos patriotismo, mas serviços a uma política estrangeira.»
Partido nacionalista estrangeiro eis o que é e foi sempre o movimento comunista português.
Vejamos agora, com um pouco mais de pormenor, como o' movimento comunista executou nessa época subservientemente todas as viragens da estratégia soviética.
Assim, em manifestos comunistas aparecidos nos fins de 1940 e princípios de 1941 podem ler-se violentos ataques contra os imperialistas anglo-saxões e contra a guerra imperialista que a Inglaterra e a França estavam impondo à Alemanha nazi; pode ler-se ainda uma defesa calorosa da aliança germano-russa!
Porém, logo após os primeiros dias da invasão do território russo pelo exército alemão tudo se modificou como por encanto. O que interessava realçar agora eram apenas as virtudes tradicionais do povo russo e a ajuda que estava sendo dada pelas democracias ocidentais contra os tiranos nazis. Era assim necessário, segundo a propaganda russa, auxiliar por todos os meios os exércitos aliados e, em especial, o exército vermelho. E veja-se, por exemplo, apenas para notar o tom, o elogio póstumo do Presidente Roosevelt e do povo americano publicado no Avante! da 1.º quinzena de Maio de 1945.
Toda a propaganda comunista dessa época é feita assim- sob o signo da unidade aliada e, como a táctica do comunismo internacional preconizava a constituição de vastas frentes nacionais ou patrióticas de unidade antifascista, o movimento comunista português segue obedientemente essa linha de rumo e cria sob a sua direcção, em 1943, o Movimento de Unidade Nacional Antifascista, a que aderiram inúmeras personalidades demo-liberais e mais tarde os G.A.C. (grupos antifascistas de combate), verdadeiras milícias de choque preparadas para a insurreição armada e que o movimento comunista julgava então poder realizar- em Portugal, com êxito, uma vez terminada a guerra.
Todas as greves, tumultos e actos insurreccionais que se verificaram no nosso país no decurso dos anos de 1942, 1943 e 1944 podem atribuir-se assim, na realidade, a esta intenção. Em 8 e 9 de Maio deste último ano o movimento comunista português conseguia, de facto, mobilizar em grande parte a seu favor as manifestações da vitória.
Começam, porém, a surgir conflitos graves, logo após o findar da guerra, entre a U.B.S.S. e os seus aliados ocidentais. Os comunistas portugueses fazem-se imediatamente eco dessas desinteligências. E, assim, no Avante! começam a aparecer frequentemente ataques contra o imperialismo anglo-saxão e, especialmente, contra os mais destacados governantes ingleses e Norte-americanos. Assim, por exemplo, no Avante! da 2f quinzena de Abril de 1946 lê-se: «A Grã-Bretanha impõe um governo fascista ao povo grego» e «Churchill e os seus amigos procuram fomentar uma nova cruzada anti-soviética».
Esta viragem táctica do comunismo internacional inaugura o período da guerra fria. Devemos situá-lo, no que se refere ao movimento comunista português, em Maio de 1947, quando da reunião do seu comité central.
O Governo da Nação, que durante a guerra era acusado de ser hostil às democracias ocidentais, passou então a ser criticado precisamente pelo contrário. No Avante! da l.ª quinzena de Julho de 1947 já se lia:
O Governo enfeuda-se aos monopólios anglo-norte-americanos, e não hesitará em recorrer cada vez mais à ingerência estrangeira contra o povo português».
A táctica da guerra fria em Portugal desfez, contudo, a fraca unidade oposicionista conseguida através do M.U.N.A.F. e, depois do período eleitoral de 1945, do Movimento de Unidade Democrática (M.U.D.). J H os dirigentes não comunistas do- M. U. D. eram atacados como traidores num curioso folheto comunista difundido em Dezembro de 1946 e intitulado «O Partido Comunista ante algumas tendências prejudiciais dentro do Movimento de Unidade Democrática».
E esses ataques aos políticos oposicionistas intensificam-se no decurso do ano de 1948, quando se desenrolavam os trabalhos preparatórios para a apresentação da candidatura oposicionista às eleições de 1949. E hoje está perfeitamente demonstrado que a escolha definitiva do candidato da oposição foi da exclusiva responsabilidade do movimento comunista.
Personalidades demo-liberais das mais destacadas no sector da oposição, como disse, foram então grosseiramente difamadas e insultadas nas colunas dos números do Avante! dessa época; assim, o Sr. António Sérgio, por exemplo, chega a ser acusado no Avante! da 2.º quinzena de Outubro de 1949 de ser «informador da Polícia de Defesa do Estado».
Findo este período eleitoral, quebrou-se, de facto, a unidade da oposição e o movimento comunista resolveu criar uma nova organização satélite, com aparência democrática, mas inteiramente dominada por ele: essa organização chamou-se «Movimento Nacional Democrático», organização que em todas as suas manifestações, até Janeiro de 1957, data em que a direcção do partido resolveu dissolvê-la, foi inteiramente dominada pelas palavras de ordem do comunismo russo. O M.N.D. foi assim apenas mais um instrumento da política da traição à Pátria dos comunistas nascidos no solo pátrio.
Mas o predomínio da política soviética em relação ao movimento comunista português vai-se revelando cada vez mais forte. Gomo nos fins de 1948 Estaline impusesse a todos os partidos comunistas do Mundo um acto de submissão absoluta, logo os seus párias portugueses escrevem no Avante! da 2.ª quinzena de Março de 1949:
« O povo português não pegará em armas contra a URSS e o exército soviético», e ainda o se o exército soviético, perseguindo agressores, atravessar as fronteiras de outros estados será recebido como libertador».
Assim, os comunistas portugueses não hesitaram em afirmar claramente que, se Portugal se erguesse com armas na mão para a defesa das suas fronteiras contra o imperialismo totalitário soviético, eles, digo, as hordas comunistas, estariam completamente ao lado desse imperialismo.
Em 1948 Moscovo, temendo, porém, os preparativos de defesa do Ocidente, que nessa altura se começavam a esboçar, lançou o primeiro movimento dos partidários, da paz por meio da organização satélite comunista: o Conselho Mundial da Paz. Logo também a propaganda da paz passa a ser a palavra de ordem do comunismo português e também das suas duas organizações satélites - o M.N.D. e o M.U.D.J.
E em Julho de 1950 constituiu-se em Portugal a Comissão Nacional para a Defesa da Paz, após uma assembleia magna realizada numa escola particular de Lisboa.
E conforme um dos arautos dessa época, «o partido comunista português... apoia sem reservas a comissão nacional para a defesa da paz e incita todos os seus militantes e simpatizantes a apoiarem igualmente sem reservas todas as iniciativas, etc.».
Foi de facto como candidato da paz que um antigo professor da Universidade do Porto se apresentou às eleições presidenciais de Julho de 1951, o que levou S. Ex.ª o Presidente do Conselho a declarar então:
«Como se explica ser a paz almejada por todos e constituir bandeira apenas de alguns?»
Não pode negar-se a ânsia s necessidade de paz sentidas em todo o Mundo. Quem fez a guerra, quem viveu a guerra, quem directa ou indirectamente lhe sofreu as repercussões económicas ou assistiu e participou nos inenarráveis sofrimentos a que deu causa não pode deixar de querer varrê-la da face do Mundo.
Com uma ingenuidade, porém, que abona os seus sentimentos pacíficos, mas não por igual forma a clarividência da sua política, as chamadas potências ocidentais pensaram atingir aquele objectivo desarmando e desmobilizando, enquanto a Rússia adoptara o processo mais realista e seguro de multiplicar as armas e reforçar as posições, não já como política de paz, mas como base de uma política de expansionismo e de hegemonia. E, tendo acontecido que muitos factos se encarregaram de matar as últimas ilusões acerca do que ela pretenderia, o Ocidente teve de rever as suas atitudes e começou o reforço intensivo dos seus meios de defesa. Então o objectivo russo da paz passou a ser prosseguido por duas políticas contrárias: uma por força da qual a Rússia comunista e os seus satélites se armam ; outra por meio do qual se pretende que o Ocidente desarme. Esta é a política da paz, e quando prosseguida para cá do pano de ferro sinal do comunismo, bandeira da sua expansão.
E desta posição-base que havia de derivar a acção resta ate. Ninguém conhecedor dos dados fundamentais destas questões pode acreditar na possibilidade de um governo comunista em Portugal. Pouco importa; havia de fazer-se o que se pudesse. O comunismo teria de ser um dos grupos aglutinados em Frente Popular e esforçando-se através dela por dissolver e fazer ruir, desde a moral à economia, as defesas da Nação. Sem falar em comunismo, sem decretar comunismo, sem operar, as grandes reformas agrárias, possivelmente mesmo evitando as nacionalizações, se não visse preferência em promovê-las para arruinar os respectivos sectores da produção, desviando o comércio para rumos convenientes, deixando cair a força armada, abrindo as portas à espionagem organizada através de representação diplomática e consular, a política do «candidato da paz» constituiria, com graves consequências imediatas ou futuras a que nem quero aludir, o grande serviço a Moscovo. Ela abriria uma falha no dispositivo ocidental de defesa e constituiria potencialmente séria ameaça para os planos desta.
O candidato da paz é também pela liberdade, sem dúvida a liberdade de preparar a sujeição a Moscovo. Mas, preparando e aceitando esta, evitaria ao menos a guerra? Meu Deus! Não. Tal política colocava-nos, pela sua cegueira, precisamente dos objectivos da luta, com o gravíssimo inconveniente de nos colocar do lado contrário àquele em que se situam os nossos interesses permanentes.
Contudo, a recolha de assinaturas para a propaganda da paz não foi apoiada com interesse por outros sectores da oposição demo-liberal e o Avante!, na sequência rígida da- política moscovita, inicia, como era fatal, o ataque contra todos os políticos que se recusaram, diga--se de passagem, patrioticamente, a fazer o jogo soviético.
A luta entre comunistas e não comunistas no seio da oposição acentuou-se então no período eleitoral de Outubro e Novembro de 1953. Novamente conhecidos oposicionistas são insultados no Avante! e entre eles o candidato às eleições de Fevereiro de 1949 e que se tinha submetido por completo ti sua política.
Entretanto tinha-se dado um facto da maior transcendência para o movimento comunista internacional: a morte do grande ditador de todos as Rússias, o marechal Estaline, anunciada ao Mundo em 5 de Março de 1953.
Em toda a imprensa clandestina portuguesa, exactamente como na, imprensa soviética, Estaline tinha sido até então incensado com os mas extravagantes elogios.
Na mensagem de condolências que o comité central do movimento comunista português enviou ao comité central do partido comunista da União Soviética e publicado no número especial dedicado a Estaline (n.º 176, de Março de 1953) lia-se, por exemplo:
A vida radiosa do grande e amado filho do povo soviético, do forjador, juntamente com Lenine, do invencível partido comunista da União Soviética, do seguro condutor das massas revolucionárias nos dias decisivos do grande Outubro, do genial estrategista do exército soviético na luta vitoriosa contra os intervencionistas, guardas brancos e invasores hitlerianos, do incansável defensor da pureza dos sólidos princípios do marxismo-leninismo e do internacionalismo proletário, do sábio construtor da sociedade socialista e genial construtor do comunismo - a vida de Estaline é um exemple magnífico, um incentivo poderoso e uma força mobilizadora das vastas massas populacionais na luta pela paz e pelo comunismo».
E na mensagem acrescentava-se:
«O partido comunista português garante aos trabalhadores portugueses e aos partidos comunistas irmãos que se manterá fiel aos ensinamentos de Lenine e de Estaline ... e que o povo português não participará numa guerra contra a União Soviética».
Mas em Fevereiro de 1956 realiza-se o XX Congresso do Partido Comunista da União Soviética e Krustchev é o novo chefe e o movimento comunista português procura logo mostrar v subserviência perante o novo secretário-geral, como se reconhece pelos artigos escritos nos n.os 209, 211 e 212 do Avante! Em todo o caso, o movimento antinacional procura ainda esconder os ataques que 110 XX Congresso se fizeram contra Estaline. Mas é inútil essa tentativa; no Avante! da 2.ª quinzena de Julho de 1056 já é clara a nova posição perante o novo ditador do império moscovita. E, assim, escrevia-se:
«O camarada Estaline não era um comunista modesto ... Estaline violou a legalidade socialista e permitiu que um bando de criminosos chefiado pelo traidor Béria (Béria, que o Avante! anteriormente tanto tinha, incensado) se servisse de uma tese falsa para cometer toda uma série de crimes e aniquilar bons militantes do partido e cidadãos soviéticos honrados, etc.»
Com a morte de Estaline terminou o período táctico do comunismo internacional que ficou sendo conhecido com u nome de «período de guerra fria»; isto não significa que ela ainda hoje nau se mantenha, embora com outros aspectos s designações. Mas os dirigentes do Kremlin, a pretexto da destalinização e da coexistência pacífica, estabeleceram um novo rumo táctico em que. procuram desagregar as potências ocidentais pela formação de amplos movimentos de unidade política e sob a direcção camuflada dos respectivos partidos comunistas locais. Essa nova táctica revolucionária foi iniciada pouco tempo depois da morte de Estaline e plenamente defendida por Krustchev no XX Congresso do Partido Comunista Russo.
Em Portugal o movimento comunista inaugura, também, logo que recebe instruções nesse sentido, um período táctico semelhante ao «de unidade ampla». Para esse «feito é convocada, em, Agosto de 1950, uma reunião clandestina do comité central, que os comunistas designam por II Reunião Ampliada, a partir da qual começa de facto a viragem decisiva. Até essa data, como foi dito, os comunistas mantiveram uma política, de dureza dentro do movimento oposicionista; todos aqueles políticos oposicionistas que não estivessem resolvidos a aceitar o seu comando eram, como vimos, insultados na imprensa clandestina. A posição do movimento comunista português perante os netos eleitorais era sempre a mesma: abstenção! E todos os que não concordassem com esta posição eram denunciados como «inimigos do povo» e «agentes do fascismo ou do imperialismo norte-americano».
Depois da VI Reunião Ampliada a táctica modifica--se por completo. «O partido preconiza desde então a ida às eleições», e para ter êxito esta nova política aconselha um largo entendimento entre todas as correntes antinacionais, «com vistas á condução da batalha eleitoral».
«Que as massas populares, em especial a classe operária, se Lancem ardorosamente na batalha eleitoral», diziam, e «se organizem em comissões eleitorais nas cidades, nas vilas e aldeias, nas fábricas e nos campos, em toda a parte. A criação de uma vasta organização de massas constitui a mais sólida base de apoio de uma campanha eleitoral séria», afirmam os seus órgãos clandestinos.
«Que se trave desde já luta acesa pela mais ampla liberdade de propaganda e reunião durante a campanha eleitoral e pela fiscalização das eleições pula oposição».
«Que as massas populares se lancem abertamente na luta por reivindicações económicas e políticas de toda a espécie».
A reivindicação aparece assim unicamente como um simples método de agitação, e não como objectivo de obter qualquer melhoramento social. E, como era de esperar, começam também sensíveis corações neutralistas a pulsar em uníssono ao ritmo marxista. E em que condições se estabeleceria a desejada unidade?
Estas condições foram determinadas na reunião clandestina do comité central de Maio de 1956, após, como se disse na sua imprensa clandestina, «a luminosa análise do XX Congresso do Partido Comunista da União Soviética ter trazido uma contribuição decisiva», eufemismo, que significa apenas normas totalmente impostas por Moscovo.
Mas como seria possível atrair claramente os democratas oposicionistas não comunistas a este a vá s to movimento de unidade.» depois dos insultos que lhes foram dirigidos nas colunas do Avante!? O próprio Avante! reconhece que «a unidade não seria fácil, mas era necessária» (Avante!, 2.ª quinzena de Fevereiro de 1957). Para isso, o movimento antinacional tenta:
a) Desenvolver toda uma dialéctica de atracção - e é interessante a este respeito citarem-se algumas, das inúmeras palavras de ordem que aparecem na imprensa comunista para captar ingénuos e inocentes:
«A todos os democratas! A todos os anti-salazaristas! A união faz a força, o que divide enfraquece!» (Avante! n.º 226, 1.ª quinzena de Janeiro de 1957).
«Hoje e sempre lutaremos pela unidade nacional» (Avante! n.º 230, 1.ª quinzena de Março de 1957).
«A unidade da classe operária é uma necessidade histórica» (Avante! n.º 232, l.ª quinzena de Abri de 1957).
«Não nos deixemos arrastar para uma luta entre monárquicos e republicanos. Unamo-nos uns e outros contra Salazar» (Avante! n.º 237, 2.º quinzena de Junho de 1957).
«Por um bloco eleitoral anti-salazarista. A unidade é necessária. Organizemos a luta eleitoral. Em cada distrito uma só lista da oposição contra Salazar» (Avante! n.º 238, 1.ª quinzena de Junho de 1957), etc.
b) Fazer, por outro lado, uma «autocrítica» à sua actuação passaria, afirmando que errou e que esse erro se deve em grande parte ao «culto da personalidade», que em Portugal se traduziu pelo «culto do secretariado» e ainda pela «falta de direcção colectiva».
Nas «conclusões e decisões do comité central» na sua reunião clandestina nos princípios de 1907 e publicadas em O Militante de Fevereiro desse ano pode ler-se:
«O comité central conclui que no nosso partido existiu, a par do culto da personalidade em geral, o culto do secretariado em particular».
E esse artigo conclui que foi o culto da personalidade do secretariado o maior responsável pela atitude intransigente do partido perante os democratas, oposicionistas não comunistas desde 1948. São estes os primeiros acenos de amor ao demo-liberalisino republicano e monárquico.
Afirma-se mais nesse manifesto:
I) «Coube ao partido comunista da "União Soviética o grande mérito de contribuir decisivamente para a eliminação do culto da personalidade e das suas consequências ao descobrir e denunciar as raízes históricas e ideológicas deste fenómeno estranho do marxismo-leninismo. O grande mérito de armar ideologicamente os partidos comunistas e o movimento operário internacional contra esta grave deformação dos princípios do marxismo-leninismo coube ainda ao partido comunista da União Soviética com a discussão traçada no XX Congresso e a publicação da «Resolução sobre a eliminação do culto da personalidade e das suas consequências, cujo estudo atento se recomenda a todos membros do nosso partido».
II) «... o comité central do partido comunista, português aprova a declaração da comissão política do comité central do nosso partido que reafirma a sua confiança, no partido comunista da União Soviética e no seu comité central ante a sua posição leninista e mostra o seu reconhecimento pela sua preciosa contribuição ao movimento operário internacional e au nosso próprio partido ao denunciarem o culto da personalidade e as suas consequências e. au rectificarem-se algumas das suas teses que não eram acertadas»
III) «Coube ainda ao XX Congresso do Partido Comunista da União Soviética o mérito de não ter ensinado a compreender o erro dogmático ...»
Não se pode ser mais claro, de novo, sobre o comando que o partido comunista da União Soviética continua-a exercer em todos os movimentos dos comunistas portugueses.
E esta autocrítica foi a forma hábil de se efectuar a viragem para a política de atracção dos oposicionistas demo-liberais. Foi o estender e o primeiro apertar de mão.
E como epílogo de um período táctico não se hesitou, como, de resto, é costume, em lançar às feras, como principal responsável pelo desvio, o Prof. Rui Luís Gomes, que, a como representante dos sectores mais radicais das forças democráticas, não podia, como não pode realmente, agrupar à sua volta todas as correntes políticas interessadas numa mudança de regime», segundo se diz em O Militante n.º 91. Em necessário, de facto, ampliar os horizontes do paraíso soviético até onde pudessem caber tantos democratas desejosos da paz social oferecida pela Rússia a todos os contrários ao culto da personalidade.
E assim se alargou o ambiente de recepção para mais umas centenas de candidatos suicidas.
O movimento comunista planeava assim o estabelecimento de «uma nova posição em relação aos próximos actos eleitorais», de harmonia com a qual, este movimento antinacional pudesse «aceitar a ida às eleições sem exigência prévia de condições mínimas», sendo ainda fundamental que se estabelecesse um largo entendimento entre todas as correntes oposicionistas, com vista à condução da batalha eleitoral. A criação de uma ampla frente eleitoral à volta de um programa mínimo, abarcando não somente os democratas da esquerda e da direita,- era assim a directriz da nova táctica do comunismo internacional.
E para tal era preciso que se desenvolvesse uma luta activa por reivindicações económicas e políticas de toda a espécie.
Surgiram assim palavras de ordem da seguinte índole:
Luta pelo aumento imediato de salários, jornas e vencimentos.
Luta contra os elevados impostos.
Luta contra os monopólios.
Luta pela elevação do bem-estar material do povo português.
Luta contra a censura.
Luta por uma amnistia imediata a todos os presos políticos e sociais.
Luta pela defesa da paz.
Sérgio Vilarigues, sob o pseudónimo de Amílcar, afirma que esta condição seria decisiva para elevar a combatividade das massas populares e para enfraquecer e desagregar a infra-estrutura nacional, garantindo assim a participação de uma larga massa de indivíduos no acto eleitoral.
Para realizar estes diabólicos desígnios o movimento decidiu, como disse em Janeiro de 1957, dissolver o desacreditado M.N.D. (Movimento Nacional Democrático), encabeçado pelo Prof. Rui Luís Gomes, instituído em Fevereiro de 1949, após a queda do Movimento de Unidade Democrática (M.U.D.).
Como; porém, o partido não poderia manter-se nem agir sem organização nem quadros, era necessário também estabelecer nova estrutura e enquadrar os seus elementos militantes. Assim, foi logo preconizada a formação de «comissões eleitorais nas cidades, vilas e aldeias, nas fábricas e campos, e em toda a parte», no decurso do espaço de tempo que medeia entre Outubro de 1957 e a campanha presidencial do Verão de 1958.
Foi assim que, num manifesto comunista publicado nessa altura, se dá notícia dos funcionários da nova estrutura orgânica das forças antinacionais.
Assim propunha-se:
1.º A imediata constituição de comissões cívicas eleitorais em todos os distritos;
2.º A promoção, em breve prazo, de assembleias distritais oposicionistas para a aceitação dos candidatos da oposição;
3.º A urgente organização dos serviços eleitorais de cada distrito;
4.º A constituição dê unia comissão cívica eleitoral nacional, formada por um candidato de cada uma das listas da oposição que forem apresentadas ;
5.º A oportuna convocação pela comissão cívica eleitoral nacional de uma assembleia oposicionista do escalão nacional.
Estas palavras constituem matéria elucidativa para definir as características indiscutivelmente comunistas do movimento oposicionista que haveria de arregimentar tantos e tantos demo-liberais das esquerdas e das direitos.
Terminada a campanha de 1907, o movimento comunista prepara-se para a nova campanha eleitora] de 1958, para ele a mais importante, pois tratava-se de conseguir êxito no golpe de Estado constitucional. A táctica continua, porém, a ser a mesma. Mas agora aparece um elemento novo - um militar já conhecido pela inconstância das suas ideias políticas, mas que tinha dentro da sua carreira exercido funções de algum vulto no País e no estrangeiro. E, assim, no decorrer do período de preparação eleitoral, e mais tarde no decorrer dele, realizou o movimento comunista um hábil trabalho de Aglutinação das forças dispersas do demo-liberalismo português.
Porém, num manifesto reproduzindo uma declaração da comissão política do comité central do movimento comunista, datada de 7 de Fevereiro de 1958, e intitulada «Ao povo português, sobre as eleições à presidência da República», a candidatura do referido militar ainda era severamente condenada, pelo movimento comunista, denunciando-a até como uma manobra de divisão das forças salazaristas.
Assim, podia ler-se nesse documento:
«O general Humberto Delgado é o tipo de candidato que não interessa às forças da oposição. Ele tem sido desde sempre adepto de Sal azar e defensor do regime fascista. Igualmente tem insultado e caluniado publicamente a democracia ...».
«Nestes últimos meses, depois do seu regresso dos Estados Unidos, onde ocupou altos cargos de confiança dos Governos norte-americano e Português, o general
Humberto Delgado foi empossado de novo em altos
cargos e missões que mostravam que continuava a ser homem de confiança do regime e dos imperialistas americanos e ingleses ...».
«O partido comunista português penso que a candidatura do Sr. General Humberto Delgado representaria um grande prejuízo para a causa democrática e anti-salazarista. Uma tal candidatura corresponderia aos objectivos divisionistas s antidemocráticos dos salazaristas e dos seus patrões americanos».
«Estas são as razões mais do que suficientes para que o partido comunista português se pronuncie contra a candidatura do general Humberto Delgado ...».
Neste documento, que se refere várias vezes ao «general fascista», o movimento comunista português sugeriu ainda a escolha de «um candidato democrático que se apoiasse num forte movimento eleitoral de massas, para cortar o passo aos aventureiros políticos e assegurar êxito às forças da oposição».
A atitude dos comunistas é então clara: contra o general fascista!
Há, contudo, neste texto a que acabamos de nos referir uma pequeno passagem sobre a qual convém chamar u atenção, porque, apesar dos ataques dirigidos contra o referido militar, entreabre uma parta para uma possível aproximação com ele. Assim, reza o texto referido.
«Se entretanto o general Humberto Delgado desejar enfileirar ao lado dos anti-salazaristas, se deseja uma mudança de regime e de governo, que o mostre publicamente, por palavras e netos ...».
Algumas semanas mais tarde, após várias tentativas de elementos grados do falhado demo-liberalismo português, o movimento de oposição democrática decidiu escolher como candidato da oposição às eleições para a Presidência da República um cidadão, advogado e artista - o Dr. Arlindo Vicente. E os comentários do Avante! continuam a manter-se desfavoráveis para o general. Censura-lhe entoo asperamente ter exercido «funções dirigentes na milícia fascista da Legião Portuguesa»: Todavia, a linguagem é já um pouco mais conciliante e os apelos mais insistentes: «Não quer em as atribuir-lhe intenções ditatoriais de tipo fascista - escreve-se -, mas 03 objectivos da sua candidatura não são claros». Mais adiante, em caracteres destacados: «Isto significa que, apesar de não ter sido possível um entendimento entre as força democráticas e anti-salazaristas para a apresentação de uni único candidato, é possível unirem-se agora na luta. por objectivos que sejam comuns às duas candidaturas e a todos os
anti-salazaristas».
O número seguinte do Avante! (n.º 254, da l.ª quinzena de Maio de 1958) não contém já um único ataque contra Delgado e renova, pelo contrário, os insistentes apelos para uma acção comum.
A estes apelos o já referido militar não ficou insensível e os necessários contactos foram estabelecidos para uma acção comum. Um bloco eleitoral único foi então constituído após a retirada estratégica da candidatura do Dr. Arlindo Vicente, e o movimento comunista apoia com calor esta decisão nos seguintes termos, que se lêem no Avante! da 1.º quinzena de Junho de 1958: «A patriótica decisão de unificar as duas candidaturas oposicionistas em apoio do general Delgado, combativo candidato, etc.».
Como vemos, a autocrítica e consequente expurgo fascista demorou pouco tempo.
E a partir de então o candidato único beneficiou em toda a sua campanha do apoio total do movimento antinacional. Por ocasião das suas reuniões eleitorais o movimento comunista pôs à sua disposição todo o seu experimentado aparelho subversivo e mobilizou as milícias do Porto, de Lisboa e de outras cidades e, aproveitando hábeis reacções psicológicas segundo as regras de uma técnica já largamente experimentada noutros países, provocou as explosões emocionais e os tumultos do Porto e de Lisboa.
Logo que terminaram as eleições o movimento comunista desejou consolidar os resultados e principalmente as suas ligações com as «massas». Tentou assim mobilizar grupos de trabalhadores por meio de greves gerais. A violência da acção originou os necessárias medidas de defesa da ordem pública e o candidato oposicionista mantém-se sempre solidário com os comunistas. Honra lhe seja feita. Paralelamente, o movimento comunista multiplica as suas tentativas para dirigir todo o movimento de resistência anti-salazarista.
Em l de Julho a comissão política do convite central do partido comunista português publica mais um apelo para a unificação da resistência e criação de uma direcção única e ao mesmo tempo provoca várias perturbações no decorrer do Verão e do Outono em todo o País:
Na reunião do comité central que teve lugar em Agosto de ]958 o «camarada Freitas», pseudónimo de Jaime Serra, membro do comité central preso depois, fez no seu relatório, a crítica das greves de Junho e Julho nos seguintes termos: «a ordem de greve foi justa e oportuna, mas houve muitos erros na. sua apresentação». O movimento comunista português não podia, porém, apreciar o exacto valor da luta, das massas, porque untes de 8 de Julho não tinha organizado nenhuma luta reivindicativa de carácter económico. Além disso, a ordem de greve fez realçar, segundo Freitas, «falta de entusiasmo entre os militantes comunistas, e até nalguns quadros altamente responsáveis». Também alguns membros do partido manifestaram, segundo ele, «um sectarismo que impediu os trabalhadores de seguir em mossa o movimento». Finalmente, segundo o mesmo dirigente comunista, «o papel de motor dos comités de greve foi muitas vezes desconhecido e o movimento traduziu a grande fraqueza das organizações do partido, sobretudo na região de Lisboa».
Na l.ª quinzena de Agosto o Avante! publicava uma curta pessoal do general Delgado ao Ministro do Interior. Era o verdadeiro epílogo da triste aliança com os elementos da anti-Nação.
No começo de Dezembro o movimento comunista sofre mais um grande revés. A polícia prendeu numerosos instigadores dos movimentos do Verão e do Outono, entre os quais três membros do comité central: Pedro Soares, Joaquim Gomes e Jaime Serra (aliás Freitas), sendo este último o principal responsável pela agitação e pelas greves.
Numerosas casas clandestinas foram então também ocupadas no Porto, Coimbra e Lisboa, e entre elas um atelier tipográfico.
Entre os documentos apanhados encontravam-se listas de subscritores do partido e, facto característico, a documentação do M.N.I. (Movimento Nacional Independente), nova organização satélite comunista, que, em manifestos clandestinos, apontava como presidente o general Delgado.
O movimento comunista, deixado a si próprio, pouca importância teria ainda hoje em Portugal. O perigo reside apenas no facto de a Rússia se estar a interessar cada. vez mais pelo comunismo peninsular, e este interesse dá forças a movimentos subversivos e lança a confusão nos espíritos de alguns, atrai mesmo ingénuos e almas simples, que nada sabem sobre n espantosa tirania dos governos comunistas; desorienta alguns espíritos jovens ainda não completamente formados e alicia certos intelectuais desejosos de emoções fortes.
Não é, pois, contra nacionais que teremos de lutar; é, sim, contra os agentes das escolas soviéticas, especialistas em técnicas científicas de agitação de massas e de propaganda, que se infiltram constantemente nos mais diversos meios, provocando climas emocionais favoráveis à subversão e à insurreição, e que só têm por objectivo único lançar-nos na escravatura do imperialismo soviético.
Depois da subida do general De Gaulle ao poder, grande parte do aparelho comunista internacional deslocou-se para Roma.
Correios misteriosos, constituídos por jovens ou intelectuais de que pouco se poderia suspeitar, fazem, com frequência, viagens entre essas capitais e Lisboa, levando informações e trazendo ordens, directrizes e dinheiro.
Nas escolas de subversão de Praga s da U.B.S.S., jovens nascidos em Portugal, alguns das nossas províncias ultramarinas, seguem os cursos de subversão e aprendem as técnicas insurreccionais para semear o ódio e a guerra civil entre irmãos.
Por vezes, agentes estrangeiros do aparelho comunista internacional continuam a deslocar-se também ao território nacional. Isto aconteceu, por exemplo, durante o período eleitoral de Maio de 1958, e a decisão tomada na reunião clandestina de 2 de Maio desse ano do comité central do movimento comunista português de apoiar a reunificação das duas candidaturas da oposição foi decidida após a aprovação de um dos tais agentes que se deslocou ao nosso país como caixeiro viajante de uma casa estrangeira de aparelhagem eléctrica.
A preparação das acções insurreccionais durante essa campanha eleitoral, principalmente a da noite de domingo 18 de Maio, a propósito da sessão de propaganda da oposição a favor da candidatura do general Delgado, foi tão minuciosa que bem denunciou a intervenção de verdadeiros peritos em tal matéria.
E a traição continua. Ao XXI Congresso do Partido Comunista da União Soviética, realizado nos princípios deste ano, assistiu uma delegação comunista portuguesa e grupos de jovens comunistas e criptocomunistas aqui nascidos vão todas as férias grandes aos países para além da «cortina de ferro», indo alguns até à China Popular beber as últimas novidades dessa escravatura amarela.
Tudo isto nos mostra que a acção soviética contra Portugal não revela tendência para diminuir, antes, pelo contrário, está a intensificar-se. S. Ex.ª o Sr. Presidente do Conselho, com o seu admirável poder de antevisão, pôs bem, em recente e notabilíssimo discurso, o dedo na ferida. E é esta acção que torna extremamente perigoso o movimento comunista português, que, deixado aos seus próprios meios, rapidamente se desagregaria.
Aliás, não temos de nos admirar com isso. O comunismo, impedido de penetrar frontalmente na Europa Ocidental, procura hoje actuar nos países periféricos deste continente. Assim se explica igual actividade na Finlândia, na Grécia e na Islândia.
Mas o caso português apresenta outras características que explicam a maior intensidade do ataque do comunismo internacional sobre o País.
O regime nacional é, por sua essência, pelos seus princípios e pela forma como conseguiu os êxitos indiscutíveis da sua política, profundamente anticomunista. Fomos doutrinariamente os pioneiros do anticomunismo na Europa. Salazar é o representante máximo dessa luta. O seu exemplo é considerado, por isso, como muito perigoso para os sovietes. Daí a campanha anti-salazarista da oposição portuguesa.
Portugal não é também só esta pequena faixa atlântica da Península Ibérica. O território nacional estende-se largamente por mais três continentes. As províncias ultramarinas de Angola e Moçambique, principalmente, são bastiões fundamentais contra a infiltração comunista em vasta zona africana. Há que derrubar esses bastiões. Mas isso será impossível enquanto a política do regime for uma política nacional. Este o motivo fundamental para os comunistas quererem por todos os meios desagregar a Nação Portuguesa.
E, enquanto actuam nesse sentido, vão procurando infiltrar-se nas províncias ultramarinas. Este aspecto será tema de uma próxima intervenção nesta Assembleia.
Tenho dito.
Vozes: - Muito bem, muito bem !
O orador foi muito cumprimentado.
EXPOSIÇÃO E CICLO DE PALESTRAS SOBRE MARIA LAMAS NO MUSEU DA REPÚBLICA E DA RESISTÊNCIA (MARÇO 2005)
Secção: Biografias / VidasEstá patente uma exposição e vai realizar-se um ciclo de palestras sobre Maria Lamas no Museu da República e da Resistência. Foi publicado para servir de apoio a estas actividades um catálogo de responsabilidade de João Mascarenhas e Regina Marques, Maria Lamas Uma Mulher do Nosso Tempo, Lisboa, 2005.
O programa das palestras é o seguinte:
Terça - 8 Março
18.30 – Inauguração da Exposição
"Maria Lamas – Uma Mulher do nosso Tempo".
Quinta - 10 Março.
18.30 – Ciclo de Conferências
"Maria Lamas – Maria Lamas e o combate pela Liberade"
por Margarida Tengarrinha e Dulce Rebelo.
Quinta - 17 Março
18.30 – Ciclo de Conferências
"Maria Lamas e a Cidadania"
por Regina Marques e Eugénia Vasques.
15.00 – Ciclo de Conferências
"Maria Lamas e a Escrita"
MORTE DA COMUNISTA CHILENA GLADYS MARÍN
Secção: Biografias / Vidas , Movimento comunista internacional
A morte da comunista chilena Gladys Marín, em 6 de Março de 2005, é evocada por uma biografia panegírica e por uma selecção dos seus textos , aqui. Outra documentação inclui o comunicado oficial do PC do Chile e um artigo de recordação pessoal da sua acção .
A biografia do Mundo Posible reproduz-se em seguida:
Homenaje a Gladys Marín
Homenaje a la gran revolucionaria chilena
"LA IMPORTANCIA EN LA VIDA ES LUCHAR"
Gladys Marín
Los pueblos de Nuestra América dicen ¡Presente!
Congreso Bolivariano de los Pueblos / 17 feb 05
CHILE: VIDA DE UNA REVOLUCIONARIA. Biografía de Gladys Marín, de Mundo Posible.
CHILE: VIDA DE UNA REVOLUCIONARIA.
Biografía de Gladys Marín, de Mundo Posible.
Gladys Marín Millie, nació el 16 de Julio de 1941 en la Ciudad de Curepto, en la VII Región, cerca de Curicó. Sus padres fueron Adriana Millie y Heraclio Marín. Él era campesino y ella una profesora primaria. El padre abandonó el hogar, ante lo cual, su madre debió hacerse cargo de criar a sus cuatro hijas.
Cuando Gladys Marín tenía 4 años, la familia emigró al pueblo de Sarmiento y, más tarde a Talagante, lugar donde Gladys fue a la escuela primaria. Participó activamente en movimientos juveniles cristianos, llegó a ser presidenta de la Acción Católica de Talagante.
A la edad de 11 años llegó a vivir, sola, a Santiago. Vivía en una pensión de la calle Recoleta. Estudió en primero en el Liceo 5 de niñas y luego comenzó su formación como profesora en la Escuela Normal # 2.
Es en la Escuela Normal donde Gladys comienza a asistir a las reuniones de la Federación de Estudiante Normalistas. Conoció allí a Rosendo Rojas, dirigente de las Juventudes Comunistas. Un día le propusieron ingresar a las Juventudes Comunistas, asunto que ella aceptó sin vacilar. Recibió su carnet de militante el año 1958.
Después de eso fue elegida Presidenta de la Federación de Estudiantes Normalistas. Una reivindicación principal de los estudiantes era la lucha por modificar los vetustos criterios pedagógicos de las Escuelas Normales.
En 1957 recibió su título de maestra. La destinaron a la Escuela N° 130 para niños con deficiencias mentales que funcionaba en el interior del Hospital Psiquiátrico en la Avenida Santos Dumont.
Para entonces, Gladys Marín era miembro del Comité Regional Capital de las Juventudes Comunistas, allí cumple tareas en la Comisión Femenina. Además estaba ligada a la organización de maestros de la Sexta Comuna. En 1960 es elegida en el Comité Central de las JJ.CC.
En esa época las Juventudes Comunistas buscaban convertirse en un destacamento de masas, que vibrara con las inquietudes de los jóvenes. El Partido Comunista venía saliendo de 10 años de ilegalidad producto de la “Ley de Defensa de la Democracia”, más conocida como “Ley Maldita”, que fuera impuesta por Gabriel González Videla.
En 1963, Gladys Marín, es dirigente del Comando Juvenil de Salvador Allende, impulsando múltiples iniciativas, como la construcción de parques infantiles en muchas ciudades del país, canchas deportivas, lugares para pasear o bailar. Se organizaron las primera brigadas de muralistas, antecedente inmediato de lo que más tarde serian las Brigadas Ramona Parra. En las elecciones de 1964, resulta elegido Eduardo Frei Montalva.
El año 1963 Gladys Marín se casa Jorge Muñoz Poutays, entonces estudiante de ingeniería. De este matrimonio nacen Alvaro y Rodrigo.
El año 1963, después de una Conferencia Nacional de las Juventudes Comunistas, Gladys Marín es elegida Secretaria General de dicha organización, sucediendo en el cargo a Mario Zamorano (actualmente detenido desaparecido a partir del llamado caso de la calle Conferencia). El mismo año 1965, es elegida Diputada por el segundo distrito de Santiago, el que en ese entonces comprendía las comunas de Renca, Conchalí, Recoleta, Independencia, Colina, Til Til, Talagante, Curacaví, Quinta Normal y Barrancas, todas de clara composición proletaria. Posteriormente es reelegida con una alta votación; su mandato de Diputada es abruptamente interrumpido por el Golpe Militar de 1973.
Durante el periodo en que Gladys encabeza las Juventudes Comunistas, se desarrolla un fuerte movimiento estudiantil bajo la consigna de la Reforma Universitaria. Las JJ.CC. se colocan a la cabeza de esas luchas. Es en ese tiempo cuando el Comité Central, tras reiterados cambios de opinión, resuelve lanzar como símbolo de la JOTA, la camisa amaranto.
Ese es también el tiempo de la solidaridad con Vietnam. La movilización solidaria alcanzó enormes proporciones, una cantidad importante de jóvenes adquiere, al calor de ella, una fuerte conciencia anti imperialista. Se donaba sangre, se recolectó dinero para un hospital en Vietnam, se realizaran dos marchas por Vietnam desde Valparaíso a Santiago, la primera el año 1967 y la segunda el año 1969, alcanzando esta última una gran masividad.
Surge la Unidad Popular, que levanta como su abanderado a Salvador Allende, candidato con el que triunfa el 04 de septiembre de 1970.
La juventud chilena se convierte en protagonista de ese tiempo: Las Brigadas de Trabajo Voluntario comprometidas en tareas como la construcción de canales de regadío, de balnearios populares, la participación en la distribución de productos de primera necesidad. Se realizó la marcha de Arica a Magallanes contra el Fascismo y contra la guerra civil.
En 1973 se produce el golpe militar y Gladys Marín debe pasar a la clandestinidad. En diciembre de 1973, por decisión del Partido, y en contra de su voluntad, Gladys Marín se asila en la embajada de Holanda en Santiago, allí permaneció 8 meses debido a que la Junta le negaba el salvo conducto.
En el exilio asume las tareas de la solidaridad con la causa chilena. Recorre distintos lugares denunciando los crímenes que en Chile se cometen.
En 1976, cae detenido en Chile su esposo Jorge Muñoz, quien era miembro de la Comisión Política del Partido. Ella conoce la noticia mientras se encuentra en Costa Rica, en actividades de solidaridad con Chile. Hasta ahora no se conoce el paradero de Jorge Muñoz.
Al inicio del año 1978, regresa clandestinamente al País y encabeza el trabajo de dirección en el interior
En 1984 asume como Sub Secretaria del Partido.
Después del XX Congreso del Partido Comunista, Realizado en el año 1994, Gladys Marín es elegida Secretaria General (Presidenta) de este Partido.
En junio de 1998 es proclamada candidata a la Presidencia de la República. Se trata de una candidatura de la izquierda chilena, que busca, como objetivo principal, el instalar en nuestro país la existencia de una alternativa al sistema; se trata de crear, de organizar, de lograr que se exprese un movimiento social y político por los cambios de fondo que Chile requiere.
En 1997 había sido candidata a senadora por la circunscripción senatorial poniente de Santiago, obteniendo una votación que la ubica en el octavo lugar en el ámbito nacional. No sale elegida como resultado del antidemocrático sistema binominal imperante que apunta a evitar que las fuerzas de izquierda tengan representación parlamentaria.
Gladys Marín es la única mujer que encabeza un Partido Político en nuestro país.
El 25 de septiembre de 2003 es internada en la Clínica Tabancura donde el equipo médico del doctor neurólogo Eduardo Larraech