junho 25, 2005
José Pacheco Pereira - UM INÉDITO DE CUNHAL
Secção: Biografias / VidasDepois de ser preso em 1949, Cunhal foi sujeito não apenas a um único processo, mas a vários. O mais conhecido foi aquele que foi julgado em Maio de 1950, e que diz respeito à sua actividade como comunista, pela qual foi condenado. Foi nesse processo que Cunhal proferiu uma célebre defesa de várias horas, e que representa a sua mais completa análise do comunismo e do PCP face ao início da guerra-fria. Mas Cunhal esteve envolvido em vários outros processos quer como acusado, quer como acusador (Cunhal acusou um PIDE de ter roubado uma quantia de dinheiro que se encontrava escondida no forro de um casaco de Sofia Ferreira, também presa na mesma casa.). Um processo contra Cunhal arrastou-se de 1950 até fins de 1955, devido ao facto de este se ter recusado a responder à pergunta sobre se alguma vez tinha estado preso ou respondera em tribunal. A ausência de resposta a esta pergunta constituía crime, pelo que Cunhal foi acusado e só não foi condenado porque entretanto o processo prescrevera.
A pergunta e as circunstâncias em que foi feita eram tudo menos inocente. Cunhal alegava que a pergunta lhe fora feita por um subalterno da PIDE e não pelo subdirector, e que só fora feita depois de ter declarado que “não tinha quaisquer declarações a fazer à polícia”. Na carta inédita que a seguir se publica, Cunhal utiliza este pretexto processual, para fazer considerações sobre a justiça, e sobre o comportamento dos comunistas face à polícia, uma matéria central não só do seu pensamento político, mas também do seu ethos pessoal.
Cunhal escreve esta carta na Penitenciária em 19 de Junho de 1950, e fá-lo na convicção que a PIDE não autorizará a sua presença em tribunal, como desejava. A PIDE opôs-se à sua presença, percebendo que Cunhal se preparava mais uma vez para utilizar a defesa como instrumento de agitação política, e a experiência do julgamento de Maio, mostrava a capacidade que Cunhal tinha para usar as suas intervenções como armas tribunícias para a sua causa.
A carta revela as qualidades de Cunhal como dirigente político revolucionário, que ajuda a explicar o antigo e actual fenómeno de culto de personalidade, que não se ficou pelo século XX e que se estende, embora de forma diferente, no século XXI. No século passado, a sua persona política era indissociável do seu papel na acção política, na luta contra a ditadura, antes do 25 de Abril como resistente, no PREC como comunista. Cunhal era admirado na divisão das águas, logo era odiado também. Hoje essa divisão perdeu sentido, porque se perdeu um lado, os comunistas já não são o que eram, tornaram-se outra coisa depois do fim da URSS. E é de facto o valor simbólico, ou icónico que prevalece. A carta é por isso lida como sendo essencialmente um retrato moral, em tempos de pouca moral. O conteúdo político desvaneceu-se na sua explicitude, ficou o comportamento. Os milhares e milhares de pessoas que saíram à rua por Cunhal vêm pelo símbolo, não pela revolução, e muito menos pelo comunismo.
Senhores juízes:
(…)1º - Sou acusado de “ na Subdirectoria da PIDE do Porto, ao ser submetido a perguntas pelo respectivo Sub-director, me ter recusado a responder á pergunta se alguma vez estivera preso, quando e porquê e se já alguma vez respondera em algum tribunal”. Isto não é exacto. Essa pergunta foi-me feita, não pelo referido subdirector mas por um funcionário subalterno da mesma Policia. – devo esclarecer que, se essa pergunta tivesse sido feita pelo referido subdirector ter-me-ia igualmente recusado a responder. Mas não foi. Os preceitos legais invocados não são pois de aplicar e o envio deste processo ao tribunal é assim um pequeno exemplo de abusos, e ilegalidades e atropelos cometidos pelas entidades instrutoras dos processos políticos...
2º - Não foi essa a única pergunta a que me recusei a responder. Não respondi a essa nem a qualquer outra, directa ou indirectamente relacionada com a minha actividade política. – Repetidas vezes sublinhei que o faria porque “como membro do partido comunista português, não tinha quaisquer declarações a fazer à polícia”. – Por insistência minha, esta declaração foi reduzida a auto. O auto de perguntas em que figura esta declaração foi o único que assinei e o único autêntico.
3º - No meu caso (como na generalidade dos casos políticos) a pergunta em questão não tinha qualquer valor para a entidade instrutora e, se foi feita, foi depois de eu ter afirmado repetidas vezes que me recusava a responder a qualquer pergunta e com o único objectivo de tentar “quebrar” essa minha atitude ao instaurar um novo processo. – Mantive a mesma atitude e recusei-me a responder a essa pergunta como ás outras. Instaurou-se então este processo. – Qual a finalidade deste processo? Ele é apenas uma forma de intimidação (bem débil é certo) contra os que, ante a polícia se recusam a prestar declarações. Creio que o resultado será contrário ao desejado pelos acusadores. Quanto a mim, julgo necessário que o tribunal saiba que me orgulha ser novamente julgado pelo único facto de ter sabido tomar ante a policia uma atitude intransigente de defesa do meu Partido, dos meus camaradas, dos meus ideais.
4º - Nas “notas” e “artigos” que a PIDE fez publicar nos jornais depois da minha prisão, é dito (entre abundantes inexactidões, mentiras e calúnias) que o mutismo dos comunistas presos (e por consequência o meu próprio mutismo) resulta da “rigorosa disciplina do partido” e de “receio das sanções”.- Diz, por exemplo a “nota” da PIDE publicada em 15 de Abril de 1949: “Mais que o terror da Policia, influi neles a aplicação de sanções contra os que, uma vez presos, façam declarações que possam comprometer os companheiros”.- Neste ponto, a PIDE falou quase verdade. Um comunista que se encontra preso prefere a tortura ou a morte a fazer quaisquer declarações prejudiciais ao seu Partido. Muitos comunistas têm sido torturados, muitos têm morrido na incomunicabilidade, por se negarem a prestar declarações.
- Aqueles que o fazem, fazem-no por entenderem ser esse o seu dever; porque defendem com honradez a sua causa; porque querem conservar um nome honrado e a confiança do Partido e do povo; porque o terror da policia “ (como diz a “nota” da PIDE) não vence o seu animo e a sua firmeza de bons cidadãos e bons patriotas Há de facto, uma disciplina no Partido Comunista Português. E aqueles que fraquejam perante o inimigo sofrem sanções como resultado. Que sanções? A critica, a censura pública, a limitação de responsabilidade ou expulsão Essa disciplina educa os membros do Partido na fidelidade aos seus princípios e auxilia o desenvolvimento das suas capacidades morais, da ideia, da responsabilidade, da confiança nas próprias forças íntimas, da altivez e coragem perante os adversários. Os que mais atacam são os que mais a invejam.
5º- Uma condenação neste processo significaria, não só uma abusiva aplicação da lei (dado que se não verificou o facto que serve de base a acusação), como ainda e fundamentalmente que a justiça se decidiria a castigar a honradez e a premiar a cobardia. Mal do regime que as coloque dentro de tal quadro de valores morais. E mal da justiça que os adopte.
Álvaro Cunhal
junho 22, 2005
PROPAGANDA ANTICOMUNISTA EM LOULÉ (1947)
Secção: FontesEste Relatório de 6 páginas, foi elaborado por Raul Pinto, Chefe da Secretaria da Câmara Municipal de Loulé e Vogal da Comissão Concelhia da U.N., homem influente nos meios políticos de então, ao ponto de constar que foi graças ás suas diligências e conhecimentos que Salazar veio a Loulé em 1953 (penso que foi a única visita oficial que fez ao Algarve) inaugurar o Monumento a Eng. Duarte Pacheco. Este documento foi enviado na altura para o Secretário Geral da Comissão Central da U.N. , Governo, PIDE, etc.
(Luís Guerreiro – Chefe de Divisão de Cultura e Património Histórico da Câmara Municipal de Loulé)
Loulé, 9 / 5 / 47 I
NOTÍCIA SOBRE O ACTUAL AMBIENTE POLÍTICO NOS MEIOS
PROVINCIANOS E RURAIS - Sugestões e Alvitres
"Definições de Classes"
A clássica designação de Clero, Nobreza e Povo cedeu o seu lugar aos neologismos de " Ricos e Pobres " que criam um ambiente de hostilidade latente onde medra a propaganda subversiva, aglutinando grande volume de população que, por princípios, interesses materiais e até por instinto de legítima defesa, deviam estar connosco.
Não pretendo fazer literatura e, portanto, ao justificar o epíteto de neologismos às palavras Ricos e Pobres, quero apenas esclarecer que o sentido de Neologia lhes advém do sabor político que hoje se lhes empresta em prejuízo do vulgar e normal valor etimológico.
Na verdade, encontramos hoje a sociedade provinciana dividida pelas seguintes classes, que arrumamos por ordem:
Classe A ou Superior : Profissões liberais, intelectuais, grandes proprietários industriais, grandes industriais, magistratura e alto funcionalismo ;
Classe B ou Média : Empregados de escritório, médio funcionalismo, empregados bancários, professores primários e proprietários, lavradores e industriais remediados;
Classe C ou Elite Proletária : Caixeiros, barbeiros, operários especializados, pessoal menor do funcionalismo, pessoal da construção civil, pequenos proprietários, lavradores e industriais;
Classe D ou Classe Humilde : Jornaleiros, descarregadores, pequenos operários, trabalhadores rurais, serventes.
Em face do aglomerado populacional, dividiremos estas classes por percentagens:
Classe A - 5 %
Classe B - 30 %
Classe C - 25 %
Classe D - 40 %
Na classe A - Equilibram-se os contentes com os discordantes ;
Na classe B - Há muito descontentamento, mas, pode dizer-se, é classe onde devemos trabalhar activamente para ganhar amigos;
Na classe C - Isto é, a classe perigosa, pouca há a fazer ; é de todas a mais contaminada e perniciosa. É o alfobre dos revoltados com ou sem razão;
N classe D - Devemos entregar-nos à cruzada da sua emancipação da influência que a classe C vem exercendo.
De uma maneira geral são as classes B e D que devemos trabalhar por excelência e nelas achamos 70 % da população. Se, com vontade, inteligência, persistência e profunda abdicação de certos princípios e normas a que nos temos ligado, conseguirmos catequizar estas classes, temos conseguido salvar a nossa gente do flagelo do comunismo.
II
" Causas e Razões de Descontentamento "
A primeira, fundamental e basilar tem sido a falta de POLÍTICA.O nosso Governo, depois da revolução profunda de processos, da obra ingente de reconstrução e recuperação nacional, da sua extravasante acção de carácter social, não tem quem lhes faça realçar os méritos, não tem um corpo de amigos dedicados e suficientemente convictos para fazer a propaganda da sua acção.
Lembra-me isto aquela história do rico que deixou de dar as suas esmolas quando lhe disseram que tinha de as dar discretamente à polícia e acabar com o espectáculo indecoroso da bicha dos mendigos, à porta. Ficou zangado o rico ! E não ficaram satisfeitos os pobres !!
Porque, uns e outros queriam era propaganda. O primeiro queria fazer alarde da sua (?) caridade, os segundos - na maioria falsos mendigos - queriam continuar a fazer de pobres.
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Porque a propaganda política não se deve confinar às notas oficiosas que dizem : " Tantos Contos para Bairros Sociais !" , " Tantos Contos para Melhoramentos Rurais!", " Tantos Contos para Reconstrução de Monumentos !".
Esta propaganda do Estado, nua e crua, não impressiona a mentalidade geral do povo, porque, infelizmente, a cultura do mesmo não acompanhou o avanço material da Nação. E, em geral, o jornal não chega até ao povo do campo, da serra e do mar. Há que fazer propaganda política em ambiente mais rasteiro, mais junto do povo, digamos, mais demagogicamente. E isto porque as armas de traição, vemo-nos obrigados, para não sucumbir, a sacrificar princípios que reputamos de puro ideal.
É preciso dizer ao povo: “Olha, o governo deu tantos contos, Desses, tantos são para fazer a fonte de tal, porque à frente do Governo está o Sr. Dr. Oliveira Salazar que quer que todos os povos tenham a sua fonte. Outros tantos são para a escola de tal porque o Sr. Dr. Salazar quer que todos saibam ler, etc..”. A propaganda política é, por assim dizer, o elo que liga o governado à governação. Sem ela, há governantes e governados, mas entre uns e outros há o vácuo.
Dir-se-á, como obviar a isso? Criando elementos de ligação. Quais? As Câmaras Municipais. Mas elas sempre existiram, objectar-se-á, e nada fizeram? É verdade.
O Município, a quem sempre pertenceu, por excelência, uma alta missão política, foi absorvido pela máquina burocrática do Estado, a tal ponto, (com inspecções de finanças, Tribunal de Contas, fiscalização apertada de obras e elemento informativos da organização) que perdeu toda a feição política e se transformou em instrumento quáse amorfo e até odioso com as exigências da engenharia, dos serviços técnicos, dos planos de urbanização, etc..
Dir-se-á que tudo foi progresso e que todas essas coisas são preciosas e louváveis como consequências da administração honesta de Salazar ! SIM, mas os resultados políticos estão à vista! E até há excessos. Citemos pequenos exemplo de grandes resultados:
O Presidente da Câmara ou o Administrador do Concelho resolvia pequenos delitos, como uma bofetada, um insulto ligeiro, um pequeno furto, obrigando os delinquentos a pagar pequenas multas, à semelhança do que se faz no tribunal dos Pequenos delitos. Isto era uma arma política de grande alcance. A autoridade ouvia o povo, compunha na generalidade as partes e arranjava dois amigos.
Hoje, o pobre aldeão reclama a intervenção da autoridade administrativa, para esses pequenos nadas – que, para ele são tudo na modéstia do seu viver – e sente-se desamparado quando lhe dizem: “Vá para Juizo! Corra os seus meios”. Tudo isto o divorcia de quem governa. Vejamos porém o que se lucrou. Com o produto dessas pequenas multas, fazia-se assistência. Pagavam-se remédios a muitos doentes pobres, auxiliavam-se operários sem trabalho, custeava-se o transporte de muitos desgraçados para as suas freguesias, auxiliavam-se muitas mulheres em perigo moral por falta de meios e tudo isto era um rosário de benções e de boas vontades que se encontravam quando lhes batíamos à porta em véspera de eleições. Enfim...isto era política.
Vieram as Inspecções de Finanças e isto automaticamente passou a ser com toda a crueza e horror do seu significado: “Grave e punível irregularidade!”
A Câmara, no louvável desejo de assegurar assistência médica a uma freguesia longínqua e desprovida de transportes regulares, não viu outra solução que custear o transporte do médico do partido, visto que este não podia suportar esse encargo apenas com o vencimento. Assim se fez, um dois, três meses... O Tribunal de Contas ao julgar rigidamente, mecanicamente, a conta de Câmara, condenou os vereadores a reporem a verba que se havia gasto com a assistência aos pobres da freguesia, grande passo político e grande obra de misericórdia para tanta gente. O resultado político foi de presumir...
Outro exemplo: Uma derrocada, causando a morte de dois homens enlutou a freguesia. As autoridades visitam a localidade e como os sinistrados eram extremamente pobres, ordenou que se levantassem os cadáveres e se lhes adquirissem as urnas. Medida louvável e largamente apreciada e comentada pela população. O Tribunal de Contas condena a Câmara, porque, dentro a rígida mecânica em que se desenvolve, pagar urnas a indigentes não cabe dentro das atribuições de assistência!!! De futuro, em caso idêntico, quem é que ordena o enterramento dos mortos e arrosta com o ódio da população?
Ainda outro exemplo: A povoação de ... fica no alto do cêrro Não há um caminho transitável para qualquer veículo. Os lavradores numa louvável ância de progresso e bem-estar e para que o automóvel do Sr. Sr. chegue lá em cima, resolveram cotizar-se e arranjarem 15 contos que vieram trazer à Câmara, para se fazer um caminho capaz de servir para carros. A Câmara acarinhou a pretensão. Mas é preciso um projecto feito por engenheiro... O engenheiro embora recomendado que se tratava de obra modesta e humilde foi respondendo que não podia, sem prejuízo dos seus créditos de diplomado, fazer um estudo sem um mínimo indispensável de exigências técnicas. Apresentado o projecto que levou 6 meses ( e...vamos lá) a elaborar, é remetido às instâncias competentes, envergonhado na sua modéstia que a memória descritiva dizia ser “apenas o meio de acesso a uma povoação, que ficava num ninho de águias e que não tinha qualquer outro”. Passado um ano a Repartição competente informa: O projecto do caminho de... não pode ter andamento porque está elaborado em deficientes condições técnicas, pelo que deverá a Câmara mandar elaborar um novo projecto que remeterá até 30 de Setembro do corrente ano a fim de ser considerado no plano do ano seguinte! E isto, se não acontece o novo estudo levar um ano. A repartição na pujança do seu orgulho de saber de engenharia – o que ninguém poz em dúvida – entendeu que o caminho devia ter as características de uma estrada nacional.
Quanta revolta produz isto? Os pobres que à custa de dolorosa subscrição conseguiram o dinheiro! A Câmara que dentro das suas fracas disponibilidades estava disposta a gastar 20 ou 30 contos, tem de esperar uma nova oportunidade que ... sabe-se lá, quando virá, para gastar 80 ou 100, sem que ninguém agradeça, antes se tire todo o efeito do melhoramento ?
Quantas vezes não é preferível dispensar a comparticipação ?
E isto com caminhos, porque então em melhoramentos de águas e saneamento !? Precisa-se de uma fonte de água potável na sede da freguesia de ... A água do velho poço inquinou. Comunica-se o facto e a urgência. Vem um engenheiro, que estuda, toma apontamentos e retira. Passado tempo, vem o relatório ( isto depois de terem sido solicitados `a Câmara, elementos sobre o nº de prédios, o seu valor matricial etc. Preconisa a abertura de um furo artesiano ate 30 metros, com material que só duas ou três empresas têm na Paiz (!) a compra de motor o estabelecimento de uma rede domiciliária, eu sei lá ... A Câmara olha por vezes esgaseada para tudo aquilo. A povoação continua sem água potável. Há mais casos tíficos. A Câmara acaba por concluir que, possuindo mais 4 ou 5 freguesias se fosse arcar com o encargo da distribuição de agua pelo método preconizado, nem daí a 5 anos poderia fazer outra rede domiciliaria em qualquer outra freguesia, porque o encargo daquela, obtida a receita por empréstimo, durará 20 ou 25 anos.
Será ou não preferível dispensar a comparticipação a abrir imediatamente o poço, sem engenheiros nem redes domiciliárias, digamos ... sem ilusionismo ?
Não há aquilo que parece chamar-se o sentido das realidades. E isto é de péssima política. Quanto contentamento não teria logo dado um simples poço, com uma bomba manual, coberto com uma placa de cimento ou com a agua canalizada para um marco? Deixemos para tanto grande centro urbana, onde ainda não existe esses benefícios das redes domiciliarias e não os impunhamos às pobres freguesia rurais, onde falta tudo, por assim dizer.
Os planos de urbanização. O falecido Ministro Duarte Pacheco, num rasgado espirito de visão pensou impor a todas as sedes de concelho planos de urbanização no louvável eritério de impor normas técnicas e estéticas ao desenvolvimento urbano das povoações. Posteriormente tem-se posto em prática este propósito louvável. Mas com o sentido relativo das possibilidades ? Não. Criou-se um proto- tipo de plano de urbanização que é igual para Lisboa, Porto ou ... Alcoutim!
Isto tem sido objecto dos mais acérrimos comentários. Para fazer o plano de urbanização, é preciso um arquitecto. Este em geral tem vários planos a seu cargo, porque os planos são muitos e os arquitecto poucos. Começa-se por se pedir a planta da localidade, cujo levantamento topográfico, levou anos a conseguir, e no remanso do "atelier" começam a esboçar-se as linhas do plano. Por vezes cada linha é um quarteirão de casas abaixo ... E o plano ao fim e ao cabo, aparece, esticamente, uma maravilha, praticamente, um cataclismo !.
Conheço um plano em que onde estavam casas ficam ruas e as ruas foram postas em praças, como talhões de construção !
Que se exijam planos de alinhamentos para as zonas construídas e planos de urbanização para as zonas a construir, compreende-se. Mas que se pretenda alterar tudo o que está, sacrificado à beleza de um desenho, sem reparo pelos prejuízos e clamores de toda uma povoação, não !
Esta iconoclasia aplicada aos pequenos meios provincianos é detestável e irritante. É não ter sentido algum da possibilidade ou capacidade de construção da província.
Na província a construção é muito difícil. Não se constrói com fins especulativos ou de rendimento. O pouco, o muito pouco, que em geral se constrói, é de casas de habitação para o próprio dono que arranjou um pecúlio e deseja construir o seu lar, dentro das possibilidades desse pecúlio. Para uns maior, para outros menor. Como impor a todos que os prédios tenham as mesmas características estéticas, a mesma área de ocupação, a mesma característica de riqueza ?
Sucede que se não constrói, e eu conheço no Algarve uma localidade onde toda a enorme riqueza arrecada durante a guerra, fugiu para Lisboa, para não construir na própria terra com as imposições do plana de urbanização.
Se nessa localidade de disser: " Vamos suspender o plano de urbanização, definitivamente aprovado" , parece-me que a situação adquiria milhares de bons amigos.
Em suma, o plano de urbanização deve ser orientado de forma que na parte existente não seja mais que em plano de alinhamento, com uma ligeira concatenação de princípios de caracter estético em harmonia com o tipo local, porque de contrario é o maior empecilho para o fomento de qualquer terra e uma fonte de discórdia e descontentamento.
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Como obviar porem aos males apontados?
Procurando um mais largo e criterioso conhecimento da vida da província, desenvolvendo uma legislação que proteja velhos costumes e hábitos, que reencarne o povo na tradição, isentando o Município de tanta fiscalização e exigência.
Libertá-lo das inspecções de finanças, do Tribunal de Contas, e dar-lhe em substituição uma inspecção mais política, menos mecânica.
Dar-lhe a inspecção administrativa aliás preconisada pelo codigo Administrativo.
Esta inspecçaõ alem do relatorio sôbre tudo o que a inspecção de Finanças e o Tribunal de Contas Costumam examinar, faria discretamente um relato sobre o ambiente politico da localidade, as aspirações dos povos, as suas impressões sobre a obra do Estado Novo, fornecendo elementos aos proprios Governadores Civis e às Repartições superiores no tocante a oportunidade e conveniência de certas obras, procurando no velho preceito "In medium virtus" a essencia da arte de administrar que outra coisa não é que... a política.
Bem entendido que seria um escol a fazer entre os amigos da Situação, selecionando pessoas dedicadas sérias, extremamente honestas e compenetradas do largo alcance da obra a realizar. Mas sobretudo pessoas que conheçam a vida provinciana.
E que se apresse isto, porque a onda desagregadora cada vez vive mais, agarrada à crítica contumaz dos nossos defeitos e das deficiencias da nossa administração.
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ALGUMAS SUGESTÕES E ALVITRES QUE PARECEM ACONSELHÁVEIS
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Propaganda. Precisamos de fazer intensa propaganda anti-comunista, através da rádio, do cinema, da imprensa, do manifesto e da palavra. Os sindicatos e as casas do Povo, devem receber visitas amiudadas dos senhores Delegados de Trabalho e êstes devem exercer uma violenta e persistente doutrinação daqueles meios. Propaganda sobretudo para as classes humildes. Atravez dos manifestos, bem redigidos, claros, intuitivos, de leitura fácil a gente rude. O manifesto para o lavrador seria, por exemplo, concebido em termos parecidos com os seguintes: "Certamente tens ouvido falar do comunismo. Sabes o que é? Já te disseram o que eles querem? Pois vamos nós dizer-to. O comunismo é uma doutrina dos que nada têm e querem que tu lhe dês parte do que tens, porque herdaste dos teus pais ou o ganhaste com o suor do rosto. Queixas-te contra o Grémio, porque este te obriga a entregar aquilo que te sobra das tuas necessidades. Mas não te disseram que, se viesse o comunismo, tinhas de entregar tudo o que a tua terra produz. Etc.Etc."
O manifesto para o operário versaria assunto que ao mesmo ininteressasse e assim, através das autoridades administrativas, dos grémios, das casas do povo e dos pescadores e dos sindicatos, existiria uma propaganda acessível, clara, contundente e persistente, com muito maior mérito e proveito da que se faz através do Jornal do Povo, que o povo não entende e nem por ela se deixa impressionar.
BIBLIOTECAS AMBULANTES, que percorrendo o País com frequência, apresentassem livros de propaganda anti-comunista e de acentuado sabor histórico ou nacionalista.
FESTAS DE CARÁCTER OPERÁRIO OU CAMPONÊS: subsidiar e fomentar a realização nas casas do povo e sindicatos de festas de glorificação do trabalho, com comissões constituidas pelos próprios artistas, orientadas pelos Delegados do Trabalho e com a informação da União Nacional.
Assim teria lugar a festa dos carpinteiros, dos sapateiros, dos caldeireiros, com exposição de obra de artesanato peculiar e prémios aos expositores. Por outro lado, desenvolvimento e protecção de grupos folclóricos e regionais porque tudo isto impressiona o povo e o aproxima dos governantes. Cursos nocturnos nas escolas, para adultos e adolescentes, com regentes indicados pela U. N. local.
ACÇÃO DO CLERO: Promover a criação, junto de cada diocese, de um pequeno grupo de sacerdotes, com cultura social e qualidades oratórias, a quem seria cometido o encargo de pregações alternadas, mas frequentes nas freguesias mais contaminadas.
Precisamente reservei para o fim desta exposição dois alvitres a fazer no sentido de se melhorarem os serviços de recenseamento eleitoral: O primeiro visando a evitar que todos os anos se tenham de gastar verbas importantes e dipender notáveis esforços com a revisão do recenseamento. Um dos elementos que influi de modo importante no recenseamento é a relação dos contribuintes enviada pela Secção de Finanças. Todos os anos aparecem os contribuintes que no ano findo se eliminaram do recenseamento por serem perigosos, falecidos ou ausentes de forma que se estabelecesse que a relação dos contribuintes do corrente ano fosse do futuro aditada apenas coma indicação dos novos que aparecem e dos velhos que percam aquela qualidade, a revisão do actual ano serviria para os anos futuros e o trabalho seria grandemente simplificado. Isto era até vantajoso sob o ponto de vista moral pois seria mais difícil determinar os cortes feitos no ano, indeterminado no futuro, do que repetir a manobra todos os anos.
O outro alvitre consistia em evitar que as unidades militares enviem relações dos soldados em serviço porque assim se força o recenseador a inscrever obrigatoriamente gregos e troianos, sem escolha possível. Aliás esta iniciativa de manter as relações dos soldados é nova e dela não advém qualquer vantagem porque é bem preferível haver menos eleitores, mas bons, do que muitos desconhecidos ou de política duvidosa.
Tais são, em síntese, as observações que o meu conhecimento da vida provinciana e da actividade política dos nossos adversários me sugerem no momento. Oxalá de entre eles alguns se aproveitem para bem da causa que defendemos e para demonstrar que muito pouco temos feito para cativar e demasiado para descontentar.
O Vogal da Comissão Concelhia da U.N., de Loulé,
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PARA A HISTÓRIA DA COMISSÃO PORTUGUESA PARA AS RELAÇÕES CULTURAIS EUROPEIAS
Secção: VáriosRealizou-se na Fundação Luso Americana para o Desenvolvimento, em colaboração com o Centro Nacional de Cultura, o colóquio
A CULTURA PROMOVE A LIBERDADE? - A importância da Comissão Portuguesa para as Relações Culturais Europeias no final do Salazarismo e no Marcelismo, 1965-1974
21 de Junho de 2005
P R O G R A M A:
História do Congresso para a Liberdade da Cultura e da sua sucessora,
a Associação Internacional para a Liberdade da Cultura
15h00 – Abertura
Dr. Guilherme d’Oliveira Martins, Presidente do Centro Nacional de Cultura
15h10 – As origens da Comissão Portuguesa para as Relações Culturais Europeias; comparação com a Comissão Espanhola.
Roselyne Chenu, ex-responsável do programa Europeu da Associação Internacional para a Liberdade da Cultura.
15h40 - A importância da Comissão Portuguesa para as Relações Culturais Europeias no final do Salazarismo e no Marcelismo, 1965-1974.
Dr. João Bénard da Costa, Ex-Secretário-Geral da Comissão Portuguesa.
16h10 – A comissão Portuguesa para as Relações Culturais Europeias – uma análise histórica.
Doutor Nicolau Andresen Leitão, Instituto de Ciências Sociais, Universidade de Lisboa.
16h30 – Coffee break
17h00 – Testemunhos:
João Bénard da Costa
Nuno Teotónio Pereira
João Salgueiro
Mário Murteira
João Cravinho
Manuel Lucena
José Pacheco Pereira
José Medeiros Ferreira
18h00 – Síntese
Dr. João Bénard da Costa, Presidente da Cinemateca Portuguesa.
18h15 – Encerramento
Dr. Rui Machete, Presidente da FLAD.
junho 19, 2005
José Pacheco Pereira - CUNHAL E GALVÃO ENTRE ASSASSINOS, LADRÕES E VIOLADORES
Secção: EstudosCunhal e Galvão entre assassinos, ladrões e violadores
(Fragmento do III volume da biografia de Álvaro Cunhal ainda inédito, simplificado e sem notas)
Em 29 de Agosto de 1952, Cunhal é transferido para a enfermaria da Penitenciária, onde vai permanecer até à sua ida para Peniche. Esta mudança faz terminar na prática o regime rigoroso de isolamento. Embora Cunhal pudesse alegar doença., as suas cólicas, a sua astenia, a verdade é que esta transferência era um acto deliberado para suavizar a pena de Cunhal. A situação de Cunhal era agora a de “preso doente, com baixa à enfermaria prisional, por falta de enfermaria em Peniche “.
A enfermaria da Penitenciária era (e é) um edifício nas traseiras da “estrela”, rodeado por um pequeno jardim, e do qual se domina não só a cadeia, como se pode ver a rua em frente. No seu interior há um longo corredor ladeado pelas celas individuais, mas o seu aspecto e abertura ao exterior nada tem em comum com o espaço fechado e claustrofóbico da Penitenciária. A luz entra normalmente e o aspecto cuidado da enfermaria contrasta com a sujidade pegajosa dos braços da “estrela”. A transferência devia ter parecido a Cunhal uma passagem para o paraíso.
O que essencialmente mudou indo para a enfermaria, foi o fim do isolamento. A ida para a enfermaria, “depois de muitas reclamações”, permitiu-lhe contactar com “dezenas, se não centenas “ de presos. Embora Cunhal lá estivesse cerca de um ano, na enfermaria a permanência média era de uma ou duas semanas e os presos não acamados podiam frequentar o “passeio”, um pequeno jardim limítrofe ao pavilhão. O “passeio” permitia um olhar sobre a liberdade único na cadeia:
“O passeio da enfermaria era o único lugar donde, para Ia dos telhados, dos armazéns, dos muros e das guaritas das sentinelas, se viam, a uns cento e tal metros, do outro lado da rua, casas da cidade. Os pátios afunilados nos triângulos asfaltados entre as seis alas em estrela e o arco circundante dos edifícios das oficinas tinham o céu como único horizonte para là da cadeia. O passeio da enfermaria era uma abertura para o exterior, a visão tentadora de um espaço de liberdade.”
O “passeio” permitia também ver nessa liberdade o reverso da privação sexual dos presos, porque das janelas em frente se podiam ver excepcionalmente… mulheres.
Nesse local de maior liberdade, Cunhal pode agora conviver com outros presos. Em Outubro de 1953, chega à enfermaria da Penitenciária, transferido de Peniche, o capitão Henrique Galvão. Galvão iniciou a sua queda em 1949 quando apresentou na Assembleia Nacional um relatório condenando a colonização em Angola. Em 1951, apoiou a candidatura de Quintão Meireles, colocando-se pela primeira vez do lado da oposição, embora mantendo o seu violento anticomunismo. Preso em 1952, por envolvimento numa conspiração que começara a preparar dentro da própria candidatura de Meireles, foi condenado a três anos de prisão maior.
Galvão tinha uma efectiva liberdade de movimentos e cumplicidades, que Cunhal nunca teve dentro da cadeia, e recebia quem queria. Na cadeia, Galvão, “beneficiando de um regime prisional pouco atento”, escreveu e divulgou, principalmente no Brasil, uma série de artigos muito hostis contra o regime. Escreveu igualmente um romance considerado “injurioso” e incitando à rebelião militar contra Salazar. Mais do que isso: conseguiu, com apoio de um estudante preso e cumplicidades no interior da cadeia, escrever vários panfletos e reproduzi-los num duplicador existente na Penitenciária, fazendo-os sair para distribuição no exterior. Segundo Mário Soares, o chefe dos guardas que colaborava com Galvão, veio a suicidar-se depois de descoberto.
A fúria da PIDE e dos elementos do regime que acusava, denunciando escândalos, compadrios e corrupções, foi enorme. A “benevolência” de que beneficiaria na cadeia motivou a repetição de incidentes entre os Ministérios da Justiça e Interior, assim como a queda em desgraça do director da cadeia. Cunhal aliás refere, sem associar o caso a Galvão, o fim de um breve clima de reformas no tratamento dos presos. Julgado e condenado a uma nova pena muito pesada, Galvão foi então transferido para Caxias e depois para Peniche. Após sete anos de prisão, fugiu, em 1959, do Hospital de Santa Maria.
Durante cerca de um ano, há agora dois presos ilustres na mesma cadeia, vindos de dois mundos muito diferentes e com concepções muito distintas da vida. O modo como se relacionaram, nos breves contactos que podiam ter, é controverso. Há testemunhos contraditórios sobre a atitude de Cunhal face a Galvão, afirmando alguns que Cunhal apreciava a coragem de Galvão e o respeitava na cadeia. Como sempre acontece com o olhar de Cunhal, depende da altura em que os formulou, do julgamento político que fazia sobre a personagem Galvão numa época dada. Ora, em 1953, Cunhal só podia ver Galvão com enorme suspeição, não só devido ao seu passado no regime de Salazar e ao seu anticomunismo militante, mas também pela sua colaboração com a candidatura Meireles, atacada pelos comunistas, entre outras coisas, por “colaborar” com dissidentes do regime.
Do que não restam dúvidas é que o tratamento que Cunhal dá a um Henrique Galvão, retratado ficcionalmente por “Manuel Tiago” como o “Capitão”, é profundamente hostil. Também o “Capitão” fora enviado para a Enfermaria Prisional devido aos “inconvenientes da manutenção de presos políticos em cadeias comuns”. Mas o “Capitão” não era personagem recomendável:
“O Catalão e o Capitão contavam as suas proezas. A bem dizer, do Capitão não se podia falar propriamente de proezas. Os roubos e fraudes tinham sido muitos e vultosos. Desfalques, abusos de confiança, assinaturas falsas, cheques sem cobertura, Quantias elevadas. Tudo só porém por processos demasiado conhecidos e rotineiros para darem reputação e prestigio.”
Para Cunhal, na pele de “Manuel Tiago”, a figura do “Capitão” servia também para se demarcar no comportamento face aos presos comuns. Fundamental na experiência prisional de Cunhal foi o facto de ter partilhado o seu espaço carcerário com presos comuns. Cunhal descreve o impacto da chegada de um grupo de presos políticos a uma Penitenciária cheia de criminosos, quase todos oriundos dos grupos sociais mais marginalizados da sociedade:
“A situação dos três políticos do terceiro varan¬dim da ala C prolongava se já há meses sem alte¬ração. Os presos sabiam disso, mas habituados a castigos e a situações complicadas comentavam pouco. Além do mais não apreciavam políticos. Os políticos, quando em casos raros iam para ali, não eram obrigados ao uniforme e não tinham número a marcá los. “
Esse aspecto de diferenciação social e consequente distanciação era acentuado pelo comportamento de Galvão. Cunhal anota que “um que por lá tinha passado (…) ao ser lhe concedi¬do passeio com os outros presos, não falava a ninguém e nem sequer dava os bons dias “. Galvão era sobranceiro para com os presos comuns e várias vezes protestou por ter que partilhar a enfermaria com presos tuberculosos e que considerava “loucos”. Cunhal assume a atitude completamente distinta de
“não tomar uma posição de soberba por ser o único preso que ali estava vestido à civil. Todos os outros estavam com as fardetas, com o barrete e o número nas costas. O facto de estar vestido com a minha roupa não prejudicou de nenhuma forma o falar com eles. Não estava com o preconceito de quem não tinha nada a ver com aqueles homens, de quem é um preso politico e por isso não convive com os presos comuns. Procurei falar com eles como se o crime que tivessem cometido não influísse no trato. (…) Eu não lhes falava de cima para baixo e procurava que eles não me falassem de baixo para cima”
Durante a estadia de Cunhal na Penitenciária, a maioria dos seus companheiros presos eram homicidas, ladrões, violadores. Cunhal retrata essa população prisional no seu livro, descrevendo os tipos mais ou menos distintos dos diferentes criminosos. Como a polícia, Cunhal trata-os pelos números ou pelas alcunhas: é o “Jardineiro”, o “Velhote”, o “Falua”, o “Serpentina”, ou então os nomes plebeus em que o nome pouco se distingue da alcunha: o Garino, o Parrama, o Virgolino. Na sua maioria são camponeses, ou de origem camponesa. As suas histórias e os seus crimes ou são narrados de uma vez só ou então surgem á medida que boatos ou confidências avulsas as revelam originando personagens completas.
Cunhal não é indiferente a este mundo complexo e violento, tem por ele um evidente fascínio. Evocando a “ sua longa experiência na Penitenciária, onde conviveu com "assassinos, ladrões, violado¬res" sempre repetiu que a sua culpabilidade é essencialmente social, que foram "levados pelo meio social a infringir a lei»:
"Nos quase oito anos que passei na Penitenciária de Lisboa estive sete anos isolado numa ceia, sem qualquer contacto com outros presos, e um ano em regime celular mas com uma ou duas horas por dia ao ar livre com outros presos. Conheci muito de perto dezenas, se não mesmo centenas de presos de delito comum. Encontrei casos de grande riqueza humana e, inclusivamente, de generosa solidariedade. E gente que não deixou de o ser embora, por uma razão ou por outra, por uma ou outra determinante, social ou individual, tenha cometido um crime.
Havia entre eles "muitas boas pessoas» e ele próprio não se considerava " melhor que eles". Afirmou muitas vezes, quer falando da sua experiência prisional, quer do contacto que teve no meio clandestino, por exemplo com contrabandistas e passadores, a sua “confiança em valores existentes em cada ser humano, mesmo que (…) se trate de seres humanos responsáveis por crimes graves”
Independentemente de se saber se o comportamento individual na prisão dos presos comuns lhe transmitiu uma forte impressão, o que escreve sobre eles emana de um ponto de vista fortemente rousseauneano, optimista sobre a natureza humana, que é um aspecto da esperança comunista ainda muito intenso nos anos trinta, os anos do “homem novo”.
“Para conhecer cada homem que ali está não basta dizer matou, roubou, assaltou, burlou, violou. Havia quem dissesse que não há crimes mas criminosos. Muitos que praticaram crimes poderiam ter passado a vida inteira sem os praticar”
Educado numa época onde teorias como as de Lombroso ainda tinham grande circulação, Cunhal considerava que “como comunista (...) não poderia deixar de ter confiança no ser humano “ e acreditar nas virtudes humanas mesmo dos mais cruéis criminosos. Falando dos homicidas distingue os “casos de ferocidade tocando o horror e a loucura a casos reveladores de aprumo cívico e mesmo coragem moral.”. Esse fascínio pelos criminosos comuns suscitava perplexidade nalguns dos seus companheiros comunistas.
Quando Cunhal se volta para as histórias concretas dos criminosos com quem convive, ele não deixa de as interpretar segundo um sistema rígido de valores ideológicos. Há uma enorme ambivalência nas histórias de crime contadas por Cunhal, e que ele insiste sempre terem um fundamento verídico ou serem inclusive transcrições de histórias reais. Nelas os “bons” e os “maus “ não dependem do crime cometido, mas do contexto social e do carácter dos que o cometem. Os “bons” são aqueles que tiveram uma forte motivação social para o cometimento do crime, ou que o fizeram num puro acto de revolta em que pesam as condições sociais. Os “maus” criminosos são os que actuaram por puro interesse próprio, ou traindo os seus próximos, ou que na prisão colaboram com a policia e com os guardas. Ou seja, os “bons” criminosos são quase protocomunistas sem o saberem, os “maus” são PIDEs em potência sabendo-o.
Na análise das condições sociais que geraram os “bons” criminosos – quase todos aliás, porque é da natureza humana que sejam bons – Cunhal enuncia uma análise mais próxima do anarquismo do que do comunismo, justificando o “banditismo social”. Cunhal, talvez sem se aperceber, aproxima-se aqui dos pontos de vista pré-marxistas do pai Avelino na sua ficção , retratando crimes ao acaso, suscitados pela injustiça social.
A história de Garino, que Cunhal já contara a Petrova como verdadeira, é típica do mundo mediterrânico, e tanto podia ser alentejana como andaluza ou siciliana. Ela retrata o paradigma do bandido social, o Robin Hood que rouba aos ricos para dar aos pobres:
“Passara-se num daqueles prolongados períodos de desemprego e fame que varriam o Alentejo dos latifúndios. Os trabalhadores faziam concentrações, iam as Câmaras exigir trabalho, protestavam contra o governo. A única resposta eram as cargas da GNR, a ida apressada de brigadas da PIDE, espancamentos e prisões. O desemprego ficava na mesma. Na mesma também a fome negra.
Então o Garino jogou mais forte. Com dois ou três jovens amigos do seu antigo grupo de assaltos às mercearias, realizou um plano audacioso. Primeiro foram de noite ao estábulo de um ricaço e trouxeram de lá dois machos corpulentos que arrearam como puderam. Depois foram a um monte que antes tinham vigiado para apurar das existências. Porta rebentada, foi só tirar e carregar. Alguns sacos de trigo, outros de batatas e feijão e ainda o que havia numa salgadeira que estava fornecida. E ai vão eles, as aldeias e casas dispersas distribuir aquela riqueza.”
Para Cunhal a verdadeira bondade destes homens, a chave do ethos da Estrela de Seis Pontas, está na sucessiva série de gestos de solidariedade que Cunhal descreve como tendo origem nos presos comuns dirigidos a ele, preso político. O laço entre estes homens e Cunhal vem da “camaradagem”, qualidade que une os comunistas com todos os que são “desinteressados”, que são motivados por um ideal altruísta:
“Um camarada significa muito na vida; significa tudo. Até no delinquente comum existe o sentimento de camaradagem, do respeito pelo homem desinteressado. Ele sabe que a luta travada pelos comunistas representa mais do que as coisas do dia de hoje, mais do que o dinheiro, mais do que a comida.”
É esta união pelo “desinteresse”, pelo altruísmo, que faz somar na ficção de Cunhal, gestos sobre gestos de reconhecimento, como se, naqueles criminosos existisse um resto da reverência popular para com aqueles por quem os comunistas lutam. Retrata-se assim uma revolta dos presos comuns com o longo isolamento do “político”
“ Então? arriscou em voz baixa. 0 Político ainda lá está? (...) Continua isolado?
Sim respondeu o Parrana. Só o Virgolino lhe pode levar o rancho. Não permitem que ninguém lá vá. Além do Virgolino ninguém mais lhe viu a cara.
0 Augusto abanou a cabeça.
É de mais. Há já mais de dois anos que o têm ali fechado. É de mais.
Mais de três anos corrigiu o Parrana “.
É a eles que Cunhal atribui os únicos contactos humanos que quebraram a dureza da sua incomunicabilidade e que ajudaram a suporta-la. Um deles foi o lançamento de tomates para a sua cela, episódio que contou a Petrova
“Quem sabe que teria sido de Cunhal na incomunicabilidade, se certa vez não tivessem lançado um tomate às grades da cela, e que se esborrachou contra as ferrugentas traves, es¬correndo pela parede suja? Outro tomate penetrou através das grades e caiu lhe directamente nas mãos (?), depois um mais e outro ainda... Os delinquentes comuns trabalhavam na horta e isso re¬presentava um presente deles a Cunhal. Lançaram tomates pa¬ra o terceiro andar.”
Ou uma leitura em voz alta
“Depois, um deles colocou se debaixo da janela e começou a ler em voz alta. Os delinquentes comuns podiam receber jornais e livros. Cunhal passou então, a não estar isolado do mundo; uma voz fanhosa, rouca, transmitia até Cunhal o eco da luta dos seus camaradas em companhia dos quais, ombro a ombro, passou a vida.”
Ou uma “troca de rancho”
“0 Virgolino era o único a ver o comunista iso¬lado lá em cima numa cela do terceiro varandim da ala C quando lhe levava o rancho. Não gostava de falar nisso. Tinha recomendações expressas para nada dizer e assim fazia. Abria excepção falando com o Parrana pois tinha confiança nele. Fora o Parrana quem lhe dissera da vinda da PIDE, quan¬do anos atrás trouxera para ali os três comunistas. O certo é que lá em cima no terceiro varandim o último dos três continuava isolado e nada recebia de fora.
0 Parrana pensou, pensou e falou ao Virgolino.
0 homem já deve estar enjoado do que lhe levas há tantos anos. Se tu metesses na lata do ran¬cho outra coísa, eu de vez em quando dava do meu comer,
Nem penses! reagiu o Virgolino. 0 Guar¬da vê tudo. Não quero sarilhos.
0 Parrana continuou a pensar e o Virgolino aca¬bou também por pensar. Demorou mais de um mês a decidir se, mas acabou por fazê lo.
Assim uma vez trocou o rancho destinado ao isolado no terceiro varandim por bacalhau com batatas oferecido pelo Parrana. Foi uma vez. Tudo correu bem. Depois ambos acharam natural ter cor¬rido o risco. E ficaram tão reconfortados com o próprio acto que de quando em quando voltaram a repeti lo.”
Ou o gesto do transmontano Gonçalo oferecendo-lhe abrigo
“Transmontano como o Augusto, o Gonçalo conversava com ele quando a ocasião se oferecia. Os casos eram semelhantes. Ambos vítimas de graves e revoltantes injustiças. Ambos involuntariamente envolvidos em situações que os levaram à cadeia por culpa de outros, não por culpa própria. Um morto num caso, um ferido grave no outro. A sociedade ou aqueles que aela mandam, de res¬ponsáveis tornam se acusadores. Fazem a lei e condenam.
Tenho andado a ver se falo contigo disse o Gonçalo ao Augusto quando nessa manhã o encontrou. Saio para a semana e lembrei me de ver contigo uma coisa.
Pensara muito naquilo. A ideia não o largava. Respeitava ao político isolado na ala C.
Sabes bem o que são as nossas serranias e as nossas aldeias. Ali ninguém dava com ele. Eu deixo te a minha direcção. Se conseguires um dia falar lhe, diz lhe que, quando sair, se me procurar, poderá viver por lá o tempo que quiser. Temos pouco, mas não lhe faltará nada.
0 Augusto tinha uma noção mais realista das coisas. Primeiro não sabia se alguma vez poderia transmitir a oferta. Depois não lhe parecia que o homem, se viesse a ser libertado, fosse refugiar se nas montanhas. Não quis entretanto desfazer a ilusão.
Está tranquilo. Se tiver ocasião, farei o que pedes.
0 Gonçalo saiu em liberdade pouco tempo depois. Nunca soube se o Augusto conseguiu ou não passar a mensagem. De qualquer forma é de presumir que durante muito tempo, lá por aldeias ser¬ranas de Trás-os-Montes, se sentisse intimamente estimulado pela oferta que fizera. É também de admitir que alimentasse a esperança de algum dia lhe bater à porta o comunista desconhecido há lon¬gos anos isolado na ala C”.
O carácter didáctico destes textos, sempre com uma lição sobre a natureza humana e a luta politica, torna-os estereotipados. Eles geraram-se na imaginação do seu autor e não custa perceber Cunhal prisioneiro, ligado como a um estranho cordão umbilical, com os seus companheiros de prisão, que lhe transmitia os ténues sinais de uma relação humana reconfortante. O isolamento é propício à efabulação e à idealização e, mais do que tudo, Cunhal desejava ver sinais do seu mundo, no momento em que mais afastado dele se encontrava
Num certo sentido é este o elo que funda a ficção da Estrela de Seis Pontas com a de Até Amanhã Camaradas, Cinco Dias Cinco Noites, e com o resto da obra ficcional de Cunhal – uma solidariedade telúrica, que representa uma visão do mundo na qual, do mesmo modo que a revolta é da natureza humana, a solidariedade entre os revoltados é o mais forte sentimento que une os homens. Cunhal descreve sempre de forma mais afectiva este sentimento do que outros, como por exemplo, o amor. Quando o amor não é descrito como uma forma superior de solidariedade, ele aparece sempre menorizado a esta partilha, a única que ele pensa ser verdadeiramente desinteressada. Mesmo nos seus textos políticos, a começar pelo que maior sucesso teve no imaginário comunista, o Se Fores Preso Camarada, é a solidariedade e a fé na humanidade que ela pressupõe, a ultima ratio para a conduta de cada um.
junho 18, 2005
LIVRO SOBRE O EUROCOMUNISMO NA BÉLGICA
Secção: BibliografiaA apresentação do livro de Naif :

Y eut-il jamais une voie belge au socialisme ? En d’autres termes, l’eurocommunisme fut-il la grande occasion ratée d’adapter aux conditions d’un pays occidental développé la doctrine qui avait enflammé les bolcheviks russes ?
Comment cette nouvelle offre politique, portée momentanément par une vague internationale, ne réussit-elle pas à trouver preneur dans les conditions particulières de la Belgique, laboratoire politique qui vit naître et prospérer à partir des années ’70 des initiatives inattendues. Face à l’ultra-libéralisme, au socialisme gestionnaire et à la décléricalisation des masses chrétiennes, une redistribution des cartes semblait possible.
L’eurocommunisme peut se lire, notamment, comme le douloureux arrachement au père. Mais cette lecture ne peut être univoque : l’eurocommunisme, terme dont les créateurs sont incertains, eut autant de significations que d’acteurs. Les analystes superficiels, les journalistes pressés, les commentateurs rapides rangèrent sous cette appellation diverses formes d’« hétérodoxie», tant ils étaient peu à même d’analyser les spécificités des communismes, n’ayant pour ce faire le plus souvent que la grille confortable du monolithisme et de ses hérésies.
L’eurocommunisme fut en réalité la réponse ébauchée par les partis communistes aux conditions de la décennie ’70, avec leur culture propre, fruit d’un passé spécifique. Chacune de ces réponses rencontra son opposition, souvent farouche et tranchante, mais le plus souvent mue par des motivations fort dissemblables.
Sommaire :
Préface (José Gotovitch) – Introduction (Nicolas Naif)
1. De la participation gouvernementale au congrès de Vilvorde (1944-1954) (pp. 25-40)
La Libération et l’entrée au gouvernement ; La Guerre Froide ; Le congrès de Vilvorde, un tournant décisif ?; Quelle fut la portée du XIème congrès ?
2. Une voie belge au socialisme ? (1954-1967) (pp. 41-82)
L’«inoubliable» année 1956 ; Le Mouvement Communiste International en crise ; Le XIIIème congrès du Parti communiste de Belgique ; La «Grève du siècle» ; La scission grippiste ; Une embellie ? ; Le XVIème congrès, les socialistes et la démocratie ; «A propos d’un procès» ; Un parti belge ?
3. Le Printemps de Prague et la crise du Mouvement Communiste International (1967-1969) (pp. 83-106)
La conférence de Karlovy Vary (avril 1967) ; Le Printemps de Prague ; Mai 68 et les communistes ; Le congrès d’Ostende : solidarité et critique ; Les conséquences de l’expérience tchécoslovaque ; La conférence mondiale de Moscou ( juin 1969).
4. Le Rassemblement des Progressistes (1969-1974) (pp. 107-128)
L’Appel de Léo Collard ; Le XXème congrès du PCB ; Les promesses de l’UDP ; Le modèle français ; L’unité du parti en danger ?; Le destin de l’UDP.
5. Une voie nouvelle au communisme ? (1974-1976) (pp. 129-146)
La conférence de Bruxelles des PC d’Europe capitaliste ; Les dissensions ne sont pas apaisées ; Gramsci en question ; De Lisbonne à Helsinki.
6. La longue route vers l’eurocommunisme (1976-1978) (pp. 147-208)
Un nouveau concept ?; « Notre Parti et l’Union Soviétique » ; Le PCF et le socialisme aux couleurs de la France ; Le XXVème congrès du PCUS ; La rupture est-elle consommée ? ; L'eurocommunisme sur les fonds baptismaux ; La conférence de Berlin (juin 1976) ; Critiques plutôt que solidaires ; Le sommet de Madrid (mars 1977) ; « ‘Eurocommunisme’ et état » ; Ce qui change en Flandre ; « L’eurocommunisme est une réalité positive ».
7. Une pratique de l’eurocommunisme ? (1978-1981) (pp. 209-236)
La dissidence et l’eurocommunisme en question ; L’eurocommunisme devant le XXIIIème congrès du PCB ; Les dernières illusions de l’eurocommunisme ? ; Le PCB vu de l’extérieur ; Détour par l’Afghanistan ; La révolte des eurocommunistes ; Les interrogations flamandes.
Epilogue : Les dernières illusions (pp. 237-244)
Conclusions générales (pp. 245-256)
Annexes (pp. 257-271) – Notes (pp. 273-327) - Index (pp. 329-336) – Bibliographie (pp. 337-356)
BIBLIOGRAFIA GRAMSCIANA
Secção: BibliografiaO projecto da Fundação Gramci é descrito nestes termos:
La Bibliografia gramsciana on line è un database pienamente interrogabile, sulla base di criteri bibliografici internazionali.
Il database include, corregge e integra i titoli già compresi nei volumi Bibliografia gramsciana: 1922-1988; Bibliografia gramsciana: Supplement Updated to 1993.
La banca dati conta attualmente oltre 15.000 titoli e comprende per la prima volta anche le pubblicazioni delle opere di Gramsci, sia in italiano che in traduzione (volumi e anticipazioni di brani apparsi per la prima volta su periodici).
Gli utenti possono compiere ricerche libere o guidate, con l’ausilio di Vocabolari e filtrare i risultati ottenuti.
junho 17, 2005
MORTE DE CORINO DE ANDRADE
Secção: Biografias / Vidas
"Cidadão de reconhecida intervenção cívica - fazendo muitas vezes questão de recordar que vivera os tempos da primeira e da segunda grandes guerras -, Corino de Andrade escapou ao nazismo mas não à polícia política (PIDE) do Estado Novo, que lhe moveu perseguições, no início da década de 1950, pelas suas convicções democráticas .
"Os meses que passei na cadeia serviram-me para muita informação e muita reflexão. Tirei disso muito proveito", dizia ao JN em 1991.
Apoiou a candidatura de Nórton de Matos à Presidência da República. Como opositor ao Estado Novo, fez parte do núcleo de homens de ciência do Porto, entre os quais se destacaram figuras notáveis, como Abel Salazar e Ruy Luís Gomes. Por isso, ao lado do professor Nuno Grande - um dos principais impulsionadores da criação, na Universidade do Porto, do Instituto de Ciências Biomédicas Abel Salazar (ICBAS) -, Corino de Andrade fez parte da respectiva Comissão Instaladora, entre 1974 e 1980.
Confessava-se agnóstico e admitia que a Terra há-de tornar-se um planeta morto. Afirmava pensar que não seria no Universo mais do que uma molécula era no seu corpo."
Biografia da Lusa:
Morreu Corino de Andrade, investigador que descobriu a “doença dos pezinhos”
16.06.2005 - 19h51 Lusa
Corino de Andrade, o investigador que descobriu a paramiloidose, mais conhecida como "doença dos pezinhos", morreu hoje, ao 99 anos de idade, disse fonte da Universidade do Porto.
O professor universitário, um dos mais destacados neurologistas nacionais, responsável pela descoberta da "doença dos pezinhos" e um dos principais impulsionadores da criação do Instituto de Ciências Biomédicas Abel Salazar da Universidade do Porto, faleceu às 15h10 devido a uma paragem cardiovascular, resultante de doença prolongada que há anos o obrigava a permanecer acamado.
Natural do Alentejo, Mário Corino da Costa Andrade licenciou-se em Medicina e Cirurgia em Lisboa, de onde partiu em 1931 para trabalhar no Laboratório de Neuropatologia da Faculdade de Medicina de Estrasburgo, onde recebeu o Prémio Déjerine, até então atribuído apenas a investigadores franceses.
Quando, em 1938, regressou a Portugal, instalou-se na cidade do Porto, onde, contratado como neurologista pelo Hospital Santo António, criou e dirigiu o respectivo Serviço de Neurologia a partir do início dos anos 40. Foi com base no trabalho de investigação realizado naquele hospital que Corino de Andrade se notabilizou mundialmente quando, em 1952, foi o primeiro a identificar e tipificar cientificamente a paramiloidose, vulgarmente designada por "doença dos pezinhos" ou mesmo "Doença de Andrade".
A paramiloidose é uma doença que se manifesta normalmente entre os 25 e os 35 anos e que é transmitida por via genética. Os primeiros sintomas são constantes formigueiros nos pés e uma perda de sensibilidade ao frio e ao calor. Esta doença neurológica era inicialmente típica das zonas piscatórias do Norte e Centro portuguesas, mas acabou por ser também identificada noutras regiões litorais do mundo.
Corino de Andrade detectou esta doença ao observar pescadores da zona da Póvoa de Varzim que não sentiam dor quando se cortavam nas cordas dos barcos e se queimavam com os cigarros.
Em 1976, após uma viagem de investigação aos Açores, Corino de Andrade identificou uma outra doença neurológica, a de Machado-Joseph.
Corino de Andrade recebeu várias distinções ao longo da vida, entre as quais o Grau de Grande Oficial de Santiago de Espada (1979), a Grã-Cruz da Ordem de Mérito (1990), o Grande Prémio Fundação Oriente de Ciência e, em 2000, o Prémio Excelência de Uma Vida e Obra da Fundação Glaxo Wellcome.
A morte do investigador levou a Universidade do Porto a colocar bandeiras a meia haste. O ministro da Ciência, Tecnologia e Ensino Superior, Mariano Gago, já enviou as condolências à família de Corino de Andrade.
junho 14, 2005
MATERIAIS SOBRE ÁLVARO CUNHAL
Secção: Biografias / Vidas

Entre o muito que está a ser publicado sobre Álvaro Cunhal, seguem-se algumas referências a materiais com informações novas e inéditas sobre a sua vida, ou interpretações analíticas originais:
Morreu líder do PCP - Últimos anos de Cunhal, Correio da Manhã, 14/5/2005
"Éramos irmãos de combate" (Entrevista com Dias Lourenço), Jornal de Notícias, 14/5/2005
Atirou-se ao mar para fugir de Peniche. Depois, ajudou Cunhal também a escapar da fortaleza. "Na prisão, tínhamos um lema quem puder fugir, fuja, colectivamente, ainda melhor". Em média, recorda, havia "quatro insucessos por cada êxito, que se pagava sempre muito caro".
Nove "camaradas" acompanharam Cunhal. Dias Lourenço era o elemento de ligação ao GNR que ajudou na fuga. Foi ele quem acalmou o guarda e antecipou a tentativa de escape quando a escala dos militares foi subitamente alterada. Ainda se lembra que nesse dia, à noite, quando chegou a casa de Pires Jorge, que acolheu o antigo líder, Cunhal brincou com ele, dizendo-lhe que "as coisas tinham corrido mal". Gelou e apanhou dos maiores sustos da sua vida, até que Cunhal, "com pena", saiu de dentro do quarto, onde estava escondido.
No 25 de Abril, estava no Hospital Prisional de Caxias. Estava tudo pronto para a segunda fuga. Iria tentar escapar vestido de mulher. Já tinha a roupa, duas perucas para escolher, "seios de algodão e ancas volumosas, até aprendido a andar de saltos altos", quando chegou a notícia da Revolução.
Há dois meses que não via o "amigo" Cunhal. Independentemente da grande dor pela sua perda, garante que não é a sua morte que irá diminuir ou enfraquecer "a luta".
"Era daquelas pessoas superiores" diz Manuel Rodrigues de Almeida, Comércio do Porto, 14/6/2005
Do contacto directo com Cunhal, Francisco Madruga recorda um em particular, ia a década de 80 pelos seus meados. "Era um congresso das juventudes comunistas, em Lisboa. Eu encontrava-me a dirigir a sessão de encerramento e perguntei-lhe se era para ler os nomes de todos os nomes dos eleitos para os diversos órgãos. ´Essas coisas preparam-se na véspera!´, respondeu de pronto". Madruga aprendeu a lição e, claro, leu os nomes todos.
Jorge Sampaio, Álvaro Cunhal, Diário de Notícias, 14/6/2005.
Conheci relativamente bem o Dr. Álvaro Cunhal, pois tive vários contactos e longas reuniões com ele, antes e depois do 25 de Abril. Lembro a reunião, particularmente relevante, que decorreu nos arredores de Paris e que o António Lopes Cardoso organizara. Nela falámos de tudo, da situação nacional e internacional, e também da necessidade de dar à Oposição novas frentes de combate perante um Regime Autoritário que se eternizava. Para situar esta reunião clandestina, devo dizer que quando finalmente chegámos a Paris soubemos, pela imprensa francesa, que Salazar tinha sofrido um grave acidente.
no Diário de Notícias, 14/6/2005

Cunhal, terceiro à esquerda, em foto de grupo na praia de S. Pedro de Muel
Perez Metelo, "Vão-se embora, já saíram todos!" , Diário de Notícias, 14/6/2005
O conflito sino-soviético motivou confrontos políticos e ideológicos tremendos entre comunistas e maoístas dentro do campo antifascista.
Um ódio intenso foi cavando uma rivalidade belicosa entre essas duas correntes políticas. Para os "marxistas-leninistas", os militantes do PCP eram "cunhalistas" ou "revisionistas". Aos olhos destes, os membros dos grupos "m-l" não passavam de "esquerdistas, provocadores".
No Forte de Peniche chegou mesmo a passar-se do insulto verbal a confrontos físicos no início dos anos setenta. Quando lá entrei, em Março de 1974, já os dois colectivos estavam separados em pisos incomunicáveis entre si. Chegada a hora da libertação, os presos do colectivo maoísta recusaram-se a ir saindo sem os camaradas que o general Spínola queria manter encarcerados por terem cometido delitos de sangue. Enquanto decorriam as negociações com advogados para resolver o impasse, os presos do PCP foram saindo ao longo da tarde e da noite de 26 de Abril.
Quando, finalmente, todos os presos maoístas passaram o portão exterior do Forte às três da manhã de dia 27, qual não foi o espanto quando ouvimos da boca das nossas famílias o que se passara horas antes. Ao completar a libertação dos seus presos, quadros do PCP disseram aos populares de Peniche, concentrados à saída da prisão, para irem para casa, pois lá dentro já não estava mais ninguém.
O sectarismo cego e obtuso tomou o freio nos dentes ao longo dos meses seguintes, mas veio logo ao de cima quando a liberdade dava os primeiros passos.
António Perez Metelo
Torcato Sepúlveda, A ficção de Cunhal/Tiago entre a lucidez e a missa ideológica, Público, 14/6/2005
Adelino Gomes, "CHAMAR-TE ESSE NOME SÓ NOSSO, CAMARADA", Público, 14/6/2005
Margarida, 84 anos, foi das primeiras. Está ainda sentada, um cravo vermelho na mão, na outra a bengala. Quer falar com alguém "da velha guarda". Mas estão todos para o enterro de Vasco Gonçalves.
Não é comunista. Às vezes vota PS. Da última vez, fê-lo no Bloco de Esquerda. Não veio, portanto, por si. Mas pelo marido, velho historiador antifascista, 15 anos de exílio, e o regresso à pátria no mesmo avião de Cunhal. Lembra-se bem. Dos dois "chochos" que lhe espetou na cara, no aeroporto Charles de Gaulle. Da mudança súbita de voo da Tap, de manhã, para um Air France, à tarde, para que Cunhal não fizesse todo aquele Paris-Lisboa "no mesmo avião em que estava previsto que viessem uns radicais" (José Mário Branco, entre outros), e assim se evitassem "complicações".
É em nome do marido, o historiador Joaquim Barradas de Carvalho, falecido no início da década de 80 e ele sim, comunista, que Margarida deixa no livro a recordação daquele dia 30 de Abril de 1974, em que viajou no mesmo avião da Air France, do exílio em Paris para Lisboa, onde o regime, enfim, caíra. Uma evocação que, coincidências que vá lá a gente perceber, não fica longe destoutra de Maria, "funcionária da TAP", que naquela mesma hora do regresso de há trinta anos o esperava "para lhe prestar assistência", no aeroporto da Portela. "Simples simpatizante", nesse tempo, ela aqui está agora a escrever-lhe "obrigada por tantos sonhos".
(...)
Margarida Tengarrinha, que veio do Algarve "porque não podia deixar de vir". Por causa de Vasco Gonçalves, "revolucionário, corajoso, lúcido, mas acima de tudo um homem puro".
E, claro, "por causa do Álvaro", a quem entreviu, pela primeira vez, "quando foi do julgamento de 1949, na Boa-Hora". E a quem passou a conhecer quando em 1960, o já então "herói mártir", acabado de fugir de Peniche, se apresentou ("louro, parecia um inglês"), na sua casa de Linda-a-Velha (Margarida era casada com o pintor José Dias Coelho, mais tarde assassinado pela PIDE), a pedir que lhe arranjassem um bilhete de identidade falso e, um ano mais tarde, um passaporte falso para abandonar o país.
Aurélio Santos, 74 anos, esteve com Margarida e reunia-se regularmente com Álvaro Cunhal em Bucareste, nos tempos da Rádio Portugal Livre. Hoje na Comissão Central de Controlo, integrou a partir de 1965 o Comité Central do partido. De regresso a Portugal, foi seu chefe de gabinete no imediato 25 de Abril, ficando impressionado com a "visão de estadista que ele demonstrou".
Rejeita com veemência a ideia de que amanhã se assistirá ao enterro de um líder derrotado. "Basta lembrar o programa do partido para a revolução democrática, aprovado no 6.º congresso, em 1965", argumenta, sustentando que praticamente tudo estava cumprido em 1976. Revolução socialista? "As revoluções raramente se fazem numa única tirada", responde, depois de citar os "períodos de avanços silenciosos" de Gramsci. "Estamos numa grande crise de civilização. Ao contrário do que se pensa, o salazarismo só caiu quando o modelo se revelou incapaz."
(...)
Na sala onde está o livro de condolências, por detrás da máquina onde se compram as senhas para o bar, Teodósia Gregório não quer falar. Talvez porque é tão grande a história que a liga à história. Essa, de um homem e de um partido, que ali mesmo, na vitrina em frente, se resume, no epitáfio do comité central, naqueles desenhos de prisão; naqueles livros; naqueles discursos de Cunhal, que sorri numa foto de há uns 20 anos, a bolsa apertada ao peito feito, por debaixo da camisa aberta.
"Abri esta sede, abri a Escola do Partido, fiz tudo aquilo de que fui capaz de fazer para o partido", diz Teodósia. Falou de jacto e parece que nada mais lhe sai, quando lhe perguntamos a data em que viu pela última vez Cunhal, a imagem que dele guarda. Entrou no partido aos 19, isto é, há 51 anos; pouco depois o marido, Afonso Gregório, é preso. "É complicado", diz. "É complicado explicar."
Ana Sá Lopes, "O ÁLVARO PARA NÓS É UM PAI", Público, 14/6/2005
Dina Góis é proprietária, com a mãe e o irmão, do café do Virgílio. É militante do PCP desde 1977 (tinha 14 anos) e amiga de Fernanda Barroso, mulher de Álvaro Cunhal e funcionária do PCP. Telefonou a Fernanda: "Que podemos nós fazer? Não te podemos largar nesta altura, temos que estar ao pé de ti". "Vamos ao funeral manifestar o nosso pesar o carinho por ela. Ela fica cá!" A diferença de idades entre Fernanda e Álvaro era imensa (Cunhal morreu com 91 anos, Fernanda Barroso não tem ainda 60), e Dina recorda ter havido sempre "muito amor entre os dois". "Há 30 anos que estão juntos. Ela vai sentir muito a falta dele, aquilo sempre foi "meu amor para aqui, meu amor para ali"". Maria José diz que ainda não está "bem mentalizada": "Estou a pensar que é um sonho." Dina Góis é realista: "A vida é assim. É a coisa mais natural da vida, a morte. É essa a realidade, é nisso que temos de pensar". Dina ainda esteve em casa de Álvaro Cunhal a 22 de Dezembro: "Fui lá mais uma camarada do Centro Vitória, que trabalha com a Fernanda. Ele já estava muito debilitado, mas mantinha a consciência. Já quase não andava, mas mantinha a lucidez".
junho 13, 2005
MORTE DE ÁLVARO CUNHAL (1913-2005)
Secção: Biografias / Vidas
Perfil de Álvaro Cunhal no Público, 13/6/2005.
Perfil de Álvaro Cunhal
Álvaro Barreirinhas Cunhal, nascido em Coimbra, em 10 de Novembro de 1913, hoje falecido aos 91 anos, morreu comunista como resolveu sê-lo aos 17 anos.
A sua vida confunde-se com a do Partido Comunista Português, para o qual foi sempre uma referência, mesmo depois de ter cedido a sua cadeira de secretário-geral, em Dezembro de 1992.
O pai de Álvaro, Avelino Cunhal, era advogado de província tendo chegado a governador civil da Guarda.Fez a primária em casa, mas aos 11 anos, a família mudou- se para Lisboa, tendo estudado nos liceus Pedro Nunes e Camões.
Em 1931, com 17 anos, ingressou na Faculdade de Direito de Lisboa e, eleito representante dos estudantes de Lisboa no Senado Universitário, a sua primeira proposta foi acabar com a Mocidade Portuguesa.
No mesmo ano filiou-se no PCP, entrou para a Liga dos Amigos da URSS e do Socorro Vermelho Internacional e depressa subiu os degraus da organização do partido.
Em 1935 já era secretário-geral das Juventudes Comunistas e no ano seguinte entrava para o Comité Central, que o enviou a Espanha, onde viveu os primeiros meses da guerra civil, uma experiência que o inspirou para o seu romance "A Casa de Eulália".
Aos 24 anos, em 1937, sofre a primeira prisão, no Aljube e Peniche.
Por questões políticas foi obrigado ao serviço militar (início de Dezembro de 1939) na Companhia Disciplinar de Penamacor, mas por motivos de saúde, a junta militar dispensou-o pouco depois.
Em Maio de 1940 foi novamente preso.
Estudou na cela e foi à Faculdade, sob escolta policial, defender a sua tese (100 páginas, confiscadas depois pela PIDE) sobre a realidade social do aborto e a sua despenalização.
Os examinadores Paulo Pita e Cunha, Cavaleiro Ferreira e Marcelo Caetano (que vieram a integrar o consulado de Salazar) deram-lhe 19 valores.
Em 1941, trabalhou como regente de estudos no Colégio Moderno, a convite de João Soares e chegou a dar explicações a Mário Soares, mas, no final do ano, passa à clandestinidade.
Até 1947 conseguiu pôr de pé o partido, restabelecer as relações com a Internacional Comunista (interrompidas em 1938) e ganhou todos os "desvios internos", sendo mesmo o responsável pelo relatório político apresentado no II e IV Congressos.
Preso de novo pela PIDE em 1949, no ano seguinte é levado a julgamento e é condenado a quatro anos de prisão maior celular, seguida de oito anos de degredo.
Na prisão escreve e desenha. Esteve mais de oito anos isolado numa cela.
"Quando se tem um ideal o mundo é grande em qualquer parte", lembraria mais tarde.
A 03 de Janeiro de 1960 foge, com outros camaradas, do Forte de Peniche, uma fuga espectacular e novo período de clandestinidade.
No ano seguinte é eleito secretário-geral (cargo vago desde 1942).
E, mesmo vivendo no exílio, entrou e saiu várias vezes do País e consegue publicar em 1964 o "Rumo à Vitória", cujas teses ainda perduram no núcleo duro do PCP.
Cinco dias após o 25 de Abril de 1974, Cunhal regressou a Lisboa, vindo de Paris, para a 15 de Maio tomar posse como ministro sem pasta no governo provisório.
Entre 1975 e 1992 foi deputado à Assembleia da República, mas só por curtos períodos ocupou o lugar na sua bancada.
Em 1982, torna-se membro do Conselho de Estado, cargo que abandonou em 1992, ano em que cedeu liderança do PCP a Carlos Carvalhas, para passar a presidente nacional do Conselho Nacional do partido, um cargo criado à sua medida e extinto anos depois.
Passou incólume aos desaires internos: o "grupo dos seis" e a "terceira via" em 1986; em 88 o caso Zita Seabra, que acaba por ser expulsa dois anos depois.
Foi operado a um aneurisma da aorta, em 1989, em Moscovo.
Quando regressa a Portugal, o partido sofre sucessivos contratempos: o grupo do INES e a "quarta via", a queda do muro de Berlim e a "perestroika".
Livre das luzes da ribalta partidária, nem por isso deixou de influenciar os destinos dos comunistas portugueses, embora tenha assumido claramente apenas a sua condição de romancista e esteta.
Os seus contactos com jovens multiplicaram-se, mas tiveram de passar 28 anos sobre o 25 de Abril para Cunhal ser convidado a falar na Universidade Católica (1997), onde surpreendeu todos ao dizer que Jesus Cristo se sentiria mais próximo dos comunistas.
Com obras publicadas como ideólogo do marxismo-leninismo (entre as quais "Rumo à Vitória" e "Partido com Paredes de Vidro"), só em 1995 reconheceu publicamente ser ele o Manuel Tiago da ficção literária "Até amanhã Camaradas", "Cinco Dias e Cinco Noites", "Estrela de Seis Pontas" e "A Casa de Eulália" e o António Vale que assinava temas plásticos e fazia desenhos como as suas célebres ceifeiras.
Após a aprovação no Comité Central do "Novo Impulso", um documento que em 1998 imprimia um sentido renovador às linhas de orientação do partido para os anos seguintes, Álvaro Cunhal fez uma ronda de sessões de esclarecimento pelo país, alertando contra as "tendências de social-democratização" no PCP.
Dois anos depois, e por motivos de saúde, Cunhal faltou pela primeira vez à Festa do Avante e pela mesma razão ao XVI Congresso do PCP.
Mesmo ausente, marcou os trabalhos, ao enviar um documento em que reafirmava a actualidade do marxismo-leninismo.
Nos últimos anos esteve sempre afastado da cena política devido à sua avançada idade e ao seu estado de saúde.
Em Novembro último, voltou a enviar uma nova mensagem ao XVII Congresso, também saudada de pé pelos militantes.
Álvaro Cunhal teve uma filha única, Ana (a mãe foi a sua companheira de exílio Isaura Dias) embora a mulher dos seus últimos anos fosse Fernanda Barroso.
junho 12, 2005
NOVO SÍTIO SOBRE A GUERRA CIVIL ESPANHOLA E AS BRIGADAS INTERNACIONAIS
Secção:O Centro de Estudios y Documentación de las Brigadas Internacionales iniciou um sítio na rede que pretende "el impulso y difusión del conocimiento de las Brigadas, por lo que desea entrar en contacto con investigadores que estén trabajando cualquier aspecto de las Brigadas Internacionales."
A ligação será acrescentada à lista dos ESC.