dezembro 18, 2005
COMEMORAÇÕES DO CENTENÁRIO DE FERNANDO LOPES-GRAÇA
"Da música à dança nos 100 anos de Fernando Lopes-Graça", no Público.
Teatro, dança, documentários, edição de partituras e livros nas comemorações. São muitas as propostas
Os cem anos do nascimento do compositor Fernando Lopes-Graça, que se cumprem a 17 de Dezembro de 2006, vão ser comemorados ao longo do próximo ano com iniciativas que se estendem às mais variadas áreas, desde a música ao teatro e à dança.
"Uma grande diversidade que se destina a responder à dimensão plural e multifacetada de Lopes-Graça", disse ontem a ministra da Cultura, Isabel Pires de Lima, na sessão de apresentação à imprensa do programa de comemorações, onde esteve também o ministro dos Assuntos Parlamentares, Augusto Santos Silva, e o secretário de Estado da Cultura. Mário Vieira de Carvalho qualificou Lopes-Graça como "uma figura nacional que marcou o século XX".
No programa, a música tem um papel preponderante. O Teatro São Carlos, em colaboração com a Orquestra Sinfónica Portuguesa, realiza cerca de uma dezena de concertos com a obra de Lopes-Graça, destacando-se o concerto de 22 de Julho (Concertino para piano, cordas, metais e percussão e Poema de Dezembro) e 12 de Outubro, que contará com os solistas Ana Bela Chaves (viola) e Salvatore Accardo (violino).
A Casa da Música também se associa às comemorações, com a Orquestra Nacional do Porto a dedicar-lhe o concerto do Dia Mundial da Música (1 Outubro), onde se inclui a primeira audição mundial de Prelúdio, Pastoral e Dança. Em Dezembro, dias 16 e 17, realiza-se a Maratona Lopes-Graça, em que participará o pianista António Rosado com Integral de Sonatas para Piano.
A Companhia Nacional de Bailado vai criar uma produção baseada em obras musicais de Lopes-Graça destinadas à dança para apresentar no início de 2007. Na Comuna, João Mota encenará a peça Lopes-Graça e Amigos, com texto de António Torrado.
A produção de um documentário sobre o compositor pela RTP e a edição de oito CD a partir de 300 registos fonográficos encontrados nos arquivos sonoros da RDP são outras das iniciativas agendadas. Augusto Santos Silva (ministro responsável pelo serviço público de rádio e televisão) referiu que as pesquisas efectuadas para o centenário serviram para "valorizar e preservar o riquíssimo manancial que tem a RDP", "mais um passo na constituição do arquivo fonográfico português".
A nível editorial, o Ministério da Cultura vai publicar algumas partituras do compositor, uma vez que muitas delas ainda estão em manuscrito, o que dificulta a interpretação das obras. A edição de uma fotobiografia é outro dos projectos, assim como de volumes da sua correspondência, nomeadamente com o poeta João José Cochofel. A Editorial Caminho está a preparar In Memoriam, uma biografia do compositor com depoimentos de gente que o conheceu e a Cosmos vai compilar textos de Lopes-Graça no livro Reflexões sobre Música.
A inauguração em Abril de um site destinado a divulgar a vida e obra de Fernando Lopes-Graça, que integrará uma rádio on-line onde será possível ouvir a obra gravada é outra das propostas, estando também prevista uma exposição itinerante com vários painéis ilustrativos do seu papel na vida cultural do país. Há ainda iniciativas em Tomar (onde nasceu), Matosinhos e Cascais.
Compositor, maestro e pianista (estudou com Tomás Borba e Vianna da Motta), Lopes-Graça teve vasta produção literária, filosófica e política, tendo publicado ensaios de crítica musical, teatral e de bailado em vários periódicos, como a revista Seara Nova ou o jornal O Diabo. Textos que denotavam a sua militância na oposição ao Estado Novo, contra quem fundou em 1928 o jornal A Acção, em Tomar. Por causa das suas posições, a sua música esteve vários anos interdita e só pôde voltar a ser ouvida no Teatro São Carlos na década de 70. Lopes-Graça morre a 27 de Novembro de 1994 na Parede, Cascais.
Entre a vontade e a timidez
Manuel Pedro Ferreira
O programa comemorativo do centenário de Fernando Lopes-Graça, hoje anunciado pelo Ministério da Cultura, tem muito de bom, sobretudo no plano das intenções, e muito de insuficiente, sobretudo no envolvimento das instituições tuteladas pelo Estado - precisamente um dos aspectos que parece ter merecido mais esforço por parte dos governantes.
A televisão pública limita-se a prometer um documentário e um "ciclo temático", quando tem em seu poder importantes gravações históricas e toda a série de programas sobre música rural portuguesa em que Lopes-Graça, com Michel Giacometti, devolveu à consciência nacional o seu património musical de tradição oral. Não basta mandar a Antena 2 organizar concertos; deve ser a RTP a dar a conhecer a música, especialmente a portuguesa, como em tempos já fez. O centenário de Lopes-Graça poderia ser a ocasião da retoma desta vertente do serviço público; mas tudo indica que tudo ficará na mesma como a lesma.
Na Casa da Música, a Orquestra Nacional do Porto investe com dignidade nas partituras do homenageado, mas o Remix Ensemble, ou por desconhecimento do valor e da extensão da sua obra de câmara, ou por pruridos relativamente ao conservadorismo da sua escrita, evita comprometer-se com mais do que a inclusão de algumas peças. No Teatro Nacional de São Carlos a Orquestra Sinfónica Portuguesa é envolvida nas comemorações, mas não se prevê participação do Coro (excepto no requiem), nem algo que possa vagamente atrapalhar a programação de ópera (de onde continuam ausentes os compositores portugueses contemporâneos).
A Biblioteca Nacional faz a sua obrigação, com uma mostra documental. Do Centro Cultural de Belém não se ouve nem falar. Ao Instituto das Artes é reservado um papel central, mas a maior parte das iniciativas anunciadas parecem estar numa fase preliminar, e o envolvimento de entidades externas em edições de textos, partituras ou discos aparece com contornos demasiado indefinidos. Sobretudo, desejar-se-ia que o plano das comemorações fosse a face visível de uma estratégia cultural sustentada de divulgação da arte musical e dos seus criadores nacionais, e não uma bolha que rebenta, sem deixar por rasto mais que uma aguadilha. Cabe ao ministério provar, ao longo de 2006, que é nessa estratégia que está empenhado, e não numa episódica homenagem. Afinal seria isso que Lopes-Graça teria desejado.
NOTÍCIAS E MATERIAIS ASSOCIADOS AO CENTENÁRIO DE RUY LUÍS GOMES
Uma aproximação a Ruy Luís Gomes
Transcritos em Ruy Luís Gomes:
Porto, 5 de Dezembro de 2005, Departamento de Matemática
Porto, 5 de Dezembro de 2005, Reitoria
O "Primeiro de Janeiro" de 5 de Dezembro
O "Diário de Notícias" de 5 de Dezembro
O "Jornal de Notícias" de 5 de Dezembro
Nuno Grande no "JN" de 5 de Dezembro: "Uma grata homenagem"
dezembro 04, 2005
CENTENÁRIO DO NASCIMENTO DE RUY LUIS GOMES

- Um blogue de Jorge Rezende, Ruy Luis Gomes, com vastíssima documentação e fotografias, de quem também está disponível um artigo no Militante, Ruy Luís Gomes, cientista e revolucionário.
Programa - Manhã
* 10h00: Abertura
* 10h10: Intervenção de um representante do Ministério da Ciência, Tecnologia e Ensino Superior
* 10h20: Ruy Luís Gomes - Um testemunho pessoal
Manuel Leite Arala Chaves (Universidade do Porto e Associação Atractor)
* 10h50: Pausa
* 11h05: Ruy Luís Gomes - Um percurso político: ideias e práticas
José Pacheco Pereira (ISCTE)
* 11h50: Ruy Luís Gomes e a génese da Sociedade Portuguesa de Matemática
Nuno Crato (Sociedade Portuguesa de Matemática e ISEG)
* 12h10: Apresentação de livros:
Fotobiografia de Ruy Luís Gomes (coord. de Natália Bebiano)
Reedição de textos de Ruy Luís Gomes sobre Relatividade
Programa - Tarde
* 14h30: Ruy Luís Gomes e a Física-Matemática em Portugal
Augusto Fitas (Universidade de Évora)
* 15h00: Reflexões sobre as perspectivas da Física-Matemática em Portugal
José Mourão (Instituto Superior Técnico)
* 15h30: Ruy Luís Gomes, vida e obra
Natália Bebiano (Universidade de Coimbra)
* 16h00: Pausa
* 16h15: Ruy Luís Gomes e a Matemática na Argentina
Eduardo Ortiz (Imperial College)
* 16h45: Ruy Luís Gomes e a Matemática no Brasil
Fernando Cardoso (Universidade Federal de Pernambuco)
* 17h15: Pausa
* 17h30: Debate: A prática da Ciência num país periférico, moderado por Luís Saraiva (Universidade de Lisboa) e com a participação de:
o Augusto Fitas (Universidade de Évora)
o Natália Bebiano (Universidade de Coimbra)
o José Mourão (Instituto Superior Técnico)
o Eduardo Seabra Lage (Universidade do Porto)
dezembro 03, 2005
outubro 17, 2005
ATILANO JORGE DOS REIS AMBRÓSIO "JORGE REIS" (1926-2005)
Passou desapercebida a morte em Paris, para onde foi fugido da PIDE em 1949 e depois ficou a viver, de Atilano dos Reis Ambrósio, mais conhecido por "Jorge Reis". Natural de Vila Franca de Xira, militante do PCP, funcionário, com participação nas greves de 1944, exilou-se em França onde constituiu família. "Jorge Reis" foi escritor (autor de Matai-vos Uns aos Outros, 1961) e tornou-se a célebre voz das "Actualidades Francesas", documentários que passavam no cinema antes dos filmes principais. O seu trabalho junto dos emigrantes tornou-o muito conhecido em França.
Algumas publicações de Jorge Reis:
Matai-vos uns aos outros!, pref. de Aquilino Ribeiro. Lisboa, Prelo, 1961
Aquilino em Paris, Lisboa, Vega, 1988
A memória resguardada, Paris, Lusophone, 1990
Sobre Jorge Reis:
Jorge Reis. Vida e Obra, V. F. Xira, C. M. V. F. Xira, 1995
setembro 20, 2005
MORTE DE VASCO CABRAL (1926-2005)
Transcreve-se a seguir uma notícia necrológica publicada no Pravda de autoria de Luis Carvalho.
FALECEU VASCO CABRAL
Vasco Cabral faleceu em Bissau, no passado dia 24 de Agosto. Tinha 79 anos de idade.
Estudou em Portugal. Onde se formou em Ciências Económicas e Financeiras pela Universidade Técnica de Lisboa. Onde foi militante do MUD juvenil, movimento unitário de oposição à ditadura fascista, fortemente influenciado pelo PCP. E onde foi preso político, no Aljube e em Caxias.
Na guerra contra o retrógado império colonial que a ditadura fascista portuguesa insistia em tentar manter, Vasco Cabral tornou-se um dos principais dirigentes do Partido Africano pela Independência de Guiné Bissau e Cabo Verde (PAIGC) e foi comandante político da guerrilha de libertação nacional.
Foi um próximo companheiro de armas de Amilcar Cabral, líder da luta pela independência da Guiné Bissau e de Cabo Verde - com quem não tinha nenhum laço familiar, ao contrário do que sugere o facto de terem um apelido idêntico.
Com a independência da Guiné Bissau, desempenhou funções no Governo (ministro da Economia e Finanças, coordenador de Economia e Planeamento, ministro de Estado da Justiça e membro do Conselho de Estado). Foi vice-Presidente da República e fundador da União Nacional de Escritores da Guiné-Bissau.
PCP enviou condolências
O Partido Comunista Português enviou ao PAIGC uma mensagem de condolências pelo falecimento de Vasco Cabral, homenageando-o como "combatente anticolonialista e antifascista desde muito jovem e figura destacada da luta do povo guineense pela conquista da independência e edificação da República da Guiné Bissau".
Um poema de Vasco Cabral:
O ÚLTIMO ADEUS DUM COMBATENTE
Naquela tarde em que eu parti e tu ficaste
sentimos, fundo, os dois a mágoa da saudade.
Por ver-te as lágrimas sangraram de verdade
sofri na alma um amargor quando choraste.
Ao despedir-me eu trouxe a dor que tu levaste1
Nem só teu amor me traz a felicidade.
Quando parti foi por amar a Humanidade.
Sim! Foi por isso que eu parti e tu ficaste!
Mas se pensares que eu não parti e a mim te deste
será a dor e a tristeza de perder-me
unicamente um pesadelo que tiveste.
Mas se jamais do teu amor posso esquecer-me
e se fui eu aquele a quem tu mais quiseste
que eu conserve em ti a esperança de rever-me!
agosto 03, 2005
ACTUALIZAÇÃO DOS DADOS CRONOLÓGICOS SOBRE JOSÉ DIAS COELHO
Complementadas algumas informações cronológicas em Júlia Coutinho - JOSÉ DIAS COELHO - BREVE CRONOLOGIA PESSOAL E AFLUENTES.
julho 30, 2005
António Jacinto Pascoal - ÁLVARO CID: UM HERÓI DISCRETO DE MONFORTE
Álvaro José da Trindade Cid (1903-1976) nasceu em Monforte e tem um trajecto existencial de inegável importância, dado o seu carácter intrinsecamente contestatário, num tempo em que ser anti-fascista era salvo-conduto para a anulação pessoal. Como as pessoas comuns, que não adquirem estatuto visível no domínio do grande público, Álvaro Cid atravessa a história do século XX, em Portugal, sem que se dê por ele, mas fica a sua indelével marca na vida sócio-política da vila de Monforte. Como sempre, para além dos grandes mitos e dos «heróis» consensuais, a história é feita de pessoas iguais ao comum dos mortais, decisivas, contudo, para o processo dessa mesma história.
Álvaro Cid continua a ocupar uma posição obscura na história do antifascismo português, até pelos poucos registos que nos são dados conhecer. Não sabemos se foi membro do Partido Comunista Português, embora tenha sido perseguido pela PIDE/DGS por esse motivo; sabemos, contudo, que esteve sempre longe de ser conotado com o situacionismo e que pugnou pelos direitos dos trabalhadores, que, reconhecidos, o levaram em ombros até à sua morada final, numa urna coberta pela bandeira do PCP.
Álvaro Cid nasceu num dia 3 de Dezembro de 1903, filho do comerciante José Maria Cid, um antifascista de raiz republicana, e de Rosa Emília da Trindade Cid. O pai fora Presidente da Câmara Municipal de Monforte e, em sua casa, chegou a promover actividade política, destacando-se o comício de apoio ao Dr. Arlindo Vicente, feito no quintal, com os oradores instalados na varanda. O carácter antifascista do pai, a sua própria admissão na C.M. de Monforte como funcionário e a sua posterior expulsão, por motivos políticos, moldaram o seu temperamento e instigaram-lhe a vontade de pugnar pelo estado democrático, o que lhe valeu ter tido adversários políticos e perseguições várias.
Casado e com quatro filhos, Álvaro trabalhava no Assumar, na «Casa Vaquinhas», pertença de Francisco José Vaquinhas, homem de grande dignidade e respeitador dos direitos dos trabalhadores, reconhecendo no seu empregado uma figura de elevado valor. Na altura, Álvaro integrava as fileiras das instalações fabris, onde se produzia gasogénio e «brikets». No Assumar, um Professor Primário (JVTT), representante da União Nacional, ter-se-á apercebido das tendências políticas de Álvaro e chegou a agredi-lo, ameaçando-o de o «dar como comunista». No dia seguinte, foi preso. Estávamos nos finais dos anos 30, por alturas do Natal e isso repercutiu-se negativamente na casa de Álvaro. Ao Professor Primário valeu-lhe passar a ser alcunhado publicamente de «o canalha». Já depois deste incidente, «o canalha» voltou a perseguir várias vezes Álvaro, com difamações e perjúrios, quase sempre por alturas de eleições ou do 1º de Maio. Álvaro era já um agitador político, que reunia em casa o Coronel Velez Caroço, o Dr. Manuel Portilheiro e o Dr. Florindo Madeira, todos conotados com a oposição. Aliás, o Dr. Florindo Madeira estudara em Coimbra com Álvaro Cid, sendo correligionários. A este propósito, diga-se que Álvaro Cid, por razões pouco claras, não terminou o antigo 7º ano (actual 11º), tendo estudado em Coimbra e Lisboa, onde contactou com grupos da oposição salazarista.
Entre os anos 30 e 40, fez propaganda política nos concelhos de Arronches, Monforte e Campo Maior, de mota, que comprou para o efeito, altura em que distribuía clandestinamente o jornal Avante!. Chegou, inclusive a ser um amigo íntimo de Álvaro Cunhal, que recebeu mais do que uma vez, em sua casa, em Monforte. Mais tarde tornou-se viajante, ao serviço da Casa João Camillo Alves, em negócios de distribuição de vinhos.
Das várias vezes que foi preso, recorda-se um caso em que, desprevenido, já dentro do jeep da GNR, metia à boca o retrato de Lenine e o comia, para não sofrer represálias maiores; chegado a Alter do Chão, simulou uma dor intestinal e despachou o ícone revolucionário, que lhe poderia valer uma entrada na «frigideira» do Tarrafal. Quando foi detido pela última vez, em 1951, residia já em Évora e era funcionário da Casa Camillo Alves: os dois elementos da PIDE, Silva e Candeias, deram-lhe voz de prisão, ao que Álvaro retorquiu que na sua consciência nada lhe pesava, querendo saber o motivo da detenção. Tendo o Sr. Candeias dito que o motivo era político, Álvaro não hesitou e respondeu «Estou ao vosso inteiro dispor. Se me permitirem, vou-me despedir de minha mulher e de meus filhos». Ouviram-se-lhe ainda estas palavras: «Coragem, Maria! Coragem, rapazes! O pai voltará!». Seguiu para o Aljube, sendo quase todos os dias interrogado na António Maria Cardoso (com sevícias brutais: colocado sobre bancos de cozinha, encandeado por lâmpadas de 500 velas, espancado e com os dedos esmagados, ao som das gargalhadas dos algozes). Depois foi transferido para Caxias, onde só a mulher o podia visitar. Foi numa das celas que fez o célebre dominó: um dominó com dezenas de peças, construído com miolo de pão e que faz hoje parte do espólio museológico da C.M. de Monforte. Durante os 14 meses de cativeiro, o viajante substituto entregava à mulher de Cid o respectivo ordenado, para não comprometer a casa que lhe dava emprego.
Sabe-se que em 1971, por documento pertença da C.M. de Monforte, a PIDE/ DGS enviara um ofício confidencial ao então Presidente de Câmara, Sr. José Maria Soeiro Romão. Ali se apresentavam os dados de Álvaro e lia-se uma breve nota: «É elemento que professa ideias comunistas. Em, 29 Abr. 1971». Cerca de 3 anos depois, a revolução permite-lhe imaginar que o seu passado não foi em vão e que, em sacrifício do seu bem-estar e do dos seus familiares, a sua dignidade mantinha-se, pois nunca se vergara ao regime salazarista.
Em Maio de 1974 torna-se Presidente da Comissão Administrativa e foi no exercício das suas funções que veio a falecer, no Hospital de S. José, em 1976, com 73 anos.
Durante grande parte da sua vida, escreveu artigos para o «A República», «O Século», e para periódicos mais modestos como o «Notícias da Amadora» ou «A Rabeca» de Portalegre. Sabe-se que nunca se tomou de rancores e que tratou os seus inimigos sempre como adversários políticos. Escolheu, porém, o lado da barricada mais difícil. Com isso, não teve os privilégios que poderia ter alcançado, mas alcançou aquele que é o mais caro: a dignidade da consciência.
Chegado de Lisboa, para ser sepultado, os trabalhadores de Monforte retiraram-no do carro onde seguia, carregando-o em ombros. Álvaro Cid não quis cerimónias religiosas. Mas não prescindiu da bandeira comunista sobre a sua urna. Sofreu por delito de opinião e os seus crimes foram apenas as suas crenças. Esteve preso porque pensava doutra maneira, numa sociedade atrasada e periférica que nunca prezou inovações, caracterizada por uma cultura de repressão e exclusão. Álvaro afrontou essa repressão. Desta coragem é feita a massa dos homens desassombrados. Poucos, mas imprescindíveis. Monforte deve reconhecer-lhe o lugar que merece, porque é exemplo para as novas gerações. A escola é o lugar onde o seu nome deve começar a ser estudado e descoberto. Para que não falte nenhuma peça do dominó.
Espanta-nos que a História esteja aqui mesmo a um passo.
Fontes:
Câmara Municipal de Monforte;
Coronel Matos Serra;
Daniel Balbino;
Francisco Cid (filho de Álvaro Cid)
*
António Jacinto Pascoal (Professor da Escola Básica de Monforte)
julho 15, 2005
Júlia Coutinho - JOSÉ DIAS COELHO - BREVE CRONOLOGIA PESSOAL E AFLUENTES
(Capa de José Dias Coelho para o boletim clandestino Portugal-URSS)
1923
JOSÉ ANTÓNIO DIAS COELHO nasce a 19 de Junho em Pinhel, freguesia de Santa Maria. Filho de Alfredo Dias Coelho e de Juliana Augusta Coelho será o quinto de nove irmãos: Alice, Alberto, Fernando, Rui, José António, M Sofia, M Adelaide, M Natália e M Emília.
1925
Devido à profissão do pai – Escrivão de Direito -, a família vai residir para Coimbra. Faz os primeiros anos da instrução primária. Nasce a irmã Maria Sofia (11.07.28).
1930
O pai é colocado em Castelo Branco para onde vão residir. Termina a instrução primária e entra para o Liceu local (actual Escola Secundária Nuno Álvares) onde completa o 4º ano (1934-1938). Joga futebol (e bem, segundo testemunhos), uma prática que se irá manter enquanto estudante. Nascem as irmãs M Adelaide (27.03.32) e M Natália (02.12.35). Primeiras produções de desenhos e caricaturas. Morre o irmão Alberto. Começa a Guerra Civil de Espanha (1936-1939)
1938
A família Dias Coelho muda-se para Lisboa, para a Rua Ilha de São Tomé, 14-rc/dto. Ingressa no Colégio Académico à Rua Álvaro Coutinho 14-16, onde termina os estudos liceais. Dirigido pelos padres Avelino de Figueiredo e Sousa Monteiro, e pelo Major Simões Silva, o Académico reunia um excelente leque de professores, alguns impedidos de exercer no ensino oficial, como Newton de Macedo (afastado da universidade) e Berta Mendes (a Bá), mulher do escritor Manuel Mendes, com quem estabelece relações de amizade. Mercê deste contacto privilegiado acede às célebres tertúlias na casa da Rua Angelina Vidal e aí convive com Abel Salazar, Bento de Jesus Caraça, Manuela Porto, Lopes Graça, Carlos de Oliveira, João José Cochofel, Keil do Amaral, Abel Manta e outros.
1939
Nasce a irmã M Emília (27.03). O Colégio Académico inaugura (24.06) nas instalações da secção feminina (Av República 13) a exposição anual de trabalhos dos alunos, onde expõe pela primeira vez. A imprensa refere-se-lhe especialmente: “de entre os desenhos, destaca-se a exposição de caricaturas do aluno Dias Coelho” (Século, 25.06); “Dias Coelho, sem dúvida a maior revelação desta exposição (…). O seu lápis tem qualquer coisa de verídico. (…) grande sucesso lhe está reservado no futuro.”(Diário de Notícias, 30.06). Termina a Guerra Civil de Espanha. Deflagra a II Guerra Mundial (1939-1945).
1940
Faz exames do 5º ano no Liceu Nacional de Pedro Nunes (30.06) com média final de 12 valores.No então Bairro das Colónias, onde reside, integra um grupo de amigos com quem partilha as alegrias juvenis e as preocupações sociais. Frequentam diariamente o Café Colonial (Av Almirante Reis 24) e desse grupo fazem parte Diamantino Vargas, Victor Santos Tavares (o Saysha), José Plácido de Sousa e o escultor Joaquim Correia, entre outros.
1941
Termina o Curso Geral dos Liceus, área de letras (Gil Vicente), com média de 13,4 valores. Para mais tarde poder ingressar no curso de oficiais milicianos matricula-se no INEF – Instituto Nacional de Educação Física (a funcionar provisoriamente nas instalações da Escola Normal do Magistério Primário, em Benfica, então encerrada por Salazar), onde é colega do escultor Jorge Vieira e do encenador Artur Ramos. Salazar, que deteve o Ministério de Guerra de 1936 a 1944, “considerava o grau de cultura dos alunos das Artes insuficiente para acederem às elites militares” (Ana Isabel Ribeiro, 1993).
Frequenta as aulas de desenho dos Mestres Falcão Trigoso e Paula Campos, na Escola António Arroio, para habilitação à Escola de Belas Artes. Aí conhece Francisco Castro Rodrigues, um amigo que vai marcar o seu percurso de vida.
1942
Matricula-se no curso de Arquitectura na então EBAL - Escola de Belas Artes de Lisboa (só em 1950 passará a superior). Consigo entram Júlio Pomar, Victor Palla, Marcelino Vespeira, Fernando Azevedo, Jorge de Oliveira, Vitório David e Rolando Sá Nogueira. Conhece Frederico George (1915-1994) – regressado à EBAL em 41 para fazer Arquitectura -, personalidade que influenciará ética e esteticamente toda a geração de José Dias Coelho. Faz uma pequena escultura, uma máscara, da irmã Natália. Com Castro Rodrigues inicia o seu percurso partidário, ligado à Federação das Juventudes Comunistas. Reúnem em casa deste (Rua Senhora do Monte) onde estudam e discutem textos marxistas. Dedicam-se ao auxílio dos refugiados da guerra e dos presos políticos e suas famílias, angariando medicamentos, roupas, géneros alimentícios, dinheiro ou levando-lhes apoio médico premente conseguindo a colaboração de nomes como o Prof. Pulido Valente que generosamente com eles se desloca por vezes aos locais mais recônditos.
1943
Reprova em três cadeiras. O então director da EBAL e também professor Arq Luis Alexandre da Cunha (1893-1971), que passaria à História como “Cunha Bruto”, mantém uma postura prepotente e déspota pautando as avaliações por critérios parciais. Discrimina os alunos consoante provêm dos liceus ou das escolas técnicas (António Arroio e Casa Pia), não reconhece às mulheres capacidade para o curso de Arquitectura, aprova ou reprova segundo as simpatias pessoais . A alternativa, para muitos, é a transferência para a Escola de Belas Artes do Porto e lá fazerem as cadeiras daquele professor. Seguem esta opção Júlio Pomar, Victor Palla e Jorge de Oliveira, enquanto Vespeira e Azevedo se afastam em definitivo do meio académico.
1944
Não se matricula em 1944-45 porque é chamado para o serviço militar em Tancos. Com ele, segue o colega e amigo Vitório David. É criado o MUNAF. Jorge Vieira entra para Belas Artes. Numa entrevista dos anos 90, lembra uma distribuição de comunicados daquela organização feita por ambos no INEF.
1945
A família Dias Coelho muda-se para o bairro de Campo de Ourique e passam a residir na Rua Almeida e Sousa, 67-1ºEsq, no prédio ao lado do Prof Bento de Jesus Caraça. Termina a Segunda Guerra Mundial. É fundado o Movimento de Unidade Democrática (MUD) e é através da sua Comissão de Escritores, Jornalistas e Artistas Democráticos (CEJAD) e da sub-comissão dos Artistas Plásticos – de que fazem parte Castro Rodrigues e Dias Coelho - que vão encetar-se esforços para dar aos artistas um local onde exporem, que não o SNI. O processo passará pela entrada de novos sócios para a Sociedade Nacional de Belas Artes (SNBA) e pela subsequente alteração da correlação de forças nos orgãos directivos. Em 1945-46 matricula-se nas cadeiras do primeiro ano e em algumas do segundo. João Abel Manta entra para Belas Artes.
Com Manta, Sá Nogueira, Jorge Vieira, Duarte Castelo Branco, Sena da Silva, João Malato, Vitorio David e outros cria o hábito das tertúlias. São conversas de cariz cultural, sempre, mas onde Coelho introduz, também, questões político-sociais e que se estendem noite fora na casa de Vieira, na de Duarte, no Café Chiado ou, ainda, no atelier de Frederico George, uma segunda casa para todos. Lêem e discutem livros que circulam de mão-em-mão, revistas de arte trazidas por João Abel e Sena da Silva, frequentam concertos, discutem arte moderna. Apreendem a cultura e a consciência cívica que a escola lhes não dá.
1946
Participa numa exposição privada na dependência do atelier de Abel Manta (pai) com Carlos Calvet, Lima de Freitas, João Abel Manta, Jorge Vieira, Sena da Silva, Lagoa Henriques e Castro Rodrigues. A exposição é visitada pelo Prof. Adriano de Gusmão.
Em 1946 uma lista dos artistas democráticos ganha as eleições para a direcção da SNBA e as portas desta instituição abrem-se à modernidade.
Tem lugar a 1ª Exposição Geral de Artes Plásticas (EGAP) na SNBA (Julho). Realizar-se-ão 10 EGAP´s entre 1946-1956, apenas com interregno em 1952. Pela primeira vez reúnem-se criadores de todos os géneros artísticos, sem limite de idade e sem júri de admissão, numa frente comum de oposição aos Salões de António Ferro. Apenas uma exigência: não voltar a expor no SNI nem colaborar com o governo. Dias Coelho não participa nesta mostra, mas faz parte da Comissão Técnica que procede à sua organização e montagem, com outros colegas como Castro Rodrigues, Sá Nogueira, Louro de Almeida, Lima de Freitas e João Abel Manta.
É criado o MUD Juvenil no Centro Republicano do Lumiar (28.07), no qual milita desde a primeira hora. Activa até meados de cinquenta, a Comissão de Escola do MUD Juvenil da EBAL (de que é líder) vai congregar nomes como J Abel Manta, Lima de Freitas, António Alfredo, M Emília Cabrita, Jorge Vieira, Bartolomeu Cid, José Croft de Moura, Nuno Craveiro Lopes, Sena da Silva, Arnaldo Louro de Almeida, Margarida Tengarrinha, Cecília Ferreira Alves, Tomás de Figueiredo, Hestnes Ferreira, Augusto Sobral, e muitos outros.
Completa o 1º ano de Arquitectura. Em Setembro ainda se inscreve no 2º mas, após uma séria reflexão decide, com o amigo Sá Nogueira, mudar de curso. Ambos abandonam Arquitectura: Sá Nogueira vai para Pintura, Dias Coelho para Escultura (7 Out.).
1947
O MUD Juvenil organiza a Semana da Juventude (21-28 Março). O Governo desencadeia forte repressão e prende a Comissão Central e muitos outros jovens apoiantes. Dias Coelho vai dinamizar a Comissão do MUD Juvenil na EBAL e recolher assinaturas para abaixo-assinados de apoio aos colegas presos. Com Nuno Craveiro Lopes, são dos mais activos nos protestos junto à sede da polícia política. Faz o retrato de João Abel Manta.
Na 2ª EGAP (Maio) Coelho apresenta duas cabeças, não identificadas. Sob ordens do Ministro do Interior, a PIDE invade a SNBA (13 Maio) e retira da exposição 12 obras, de 10 autores: Avelino Cunhal, Viana Dionísio (José Viana), José Chaves (Mário Dionísio), Júlio Pomar, Maria Keil, Arnaldo Louro de Almeida, Lima de Freitas, Manuel Filipe, Nuno Tavares e Rui Pimentel (ARCO). Todos prestam declarações na PIDE e as obras só lhes serão entregues, mais tarde, com a proibição de voltarem a ser expostas. (Arquivos da PIDE/DGS, Proc. SC-494/47)
1948
É chamado para o Batalhão de Metralhadoras 3, no Porto (15 Fev) para prestar serviço como Alferes Miliciano. Aproveita para fazer na EBAP as cadeiras que lhe faltam para completar o terceiro ano de Escultura. Em Outubro regressa à escola de Lisboa.
João Abel Manta é detido pela PIDE (01-02) e vai para Caxias. Mais uma vez Dias Coelho e Nuno Craveiro Lopes lideram um movimento dinamizador entre os colegas da EBAL, e não só, para recolha de assinaturas de protesto. É solto a 14 do mesmo mês.
Participa na 3ª EGAP com a escultura "cabeça de meu pai".
Tem lugar o 1º Congresso Nacional dos Arquitectos Portugueses, onde se destaca Keil do Amaral que, apesar de eleito, acabará por ser destituído de Presidente do Sindicato Nacional dos Arquitectos. Salientando a interdisciplinaridade que deverá existir entre as "três artes" o congresso abriu caminho para uma colaboração efectiva entre arquitectos, pintores e escultores. Nos anos subsequentes, Dias Coelho irá fazer alguns trabalhos no âmbito desta colaboração: Escola Primária de Vale Escuro, Escola Primária de Campolide, Fábrica Secil (Outão), Café Gelo (Rossio, Lisboa). Vai leccionar Desenho na Escola Industrial Machado de Castro (1948-49). Casamento do amigo Francisco Castro Rodrigues (15.09).
A oposição lança o seu candidato às “eleições” para a presidência da República (Julho) e José Dias Coelho vai constituir a Comissão Concelhia de Pinhel para a candidatura do General Norton de Matos. Afirmando as suas "ideias republicanas e democráticas" a Comissão Concelhia de Pinhel estava empenhada em "reivindicar a decência do acto eleitoral"; tinha a sede na Rua Dr António José de Almeida 27-29 e era constituída ainda pelos democratas: António Amaro Freire de Paiva, proprietário; Arnaldo Mendonça, industrial; Antero Mendonça, industrial; Dr. Horácio Alberto Santos, médico; Maximiano Cardoso dos Reis, proprietário; António Alberto dos Santos, proprietário; Manuel dos Santos Silva, proprietário; Egberto Freire Ruas, industrial; José Miragaia Monteiro, proprietário; Eustáquio dos Santos, comerciante; José António Simões Júnior, proprietário; Antero Silva, comerciante; Alfredo Domingos, industrial e Constantino de Albuquerque, proprietário. (República, 25.01)
1949
Em plena Campanha Eleitoral, que tem início a 1 de Janeiro, é detido pela PIDE (06-01) e levado para a cadeia do Aljube onde fica incomunicável. É solto no dia 10 do mesmo mês.
O candidato da oposição, Norton de Matos, desiste de ir às urnas.
Começa a fazer caricaturas para ilustrar os livros de final do curso de diversas Faculdades.
Apaixona-se por Margarida Tengarrinha, colega de Pintura na Escola de Belas Artes.
O Governo de Salazar é admitido na NATO (04-04). Realiza-se em Paris o I Congresso Mundial da Paz, para o qual Picasso desenha a célebre “pomba” (20-23 Abril).
Participa na 4ª EGAP (Maio) com quatro esculturas: cabeça do pintor Sá Nogueira, "Família", Baixo Relevo Decorativo, "Escultura" e ainda um Desenho.
Participa no Salão da Primavera, da SNBA, e obtém a 3ª medalha, em Escultura.
Morre Bento de Jesus Caraça (25-06), o ideólogo da Cultura Integral do Indivíduo. O cortejo funerário é organizado pelo MUD Juvenil e o povo inunda as principais ruas de Campo de Ourique numa sentida homenagem.
Após uma longa luta é constituída a Associação Académica na Escola de Belas Artes que a direcção da escola reconhece. Dias Coelho é o grande obreiro e dinamizador. Os Estatutos são largamente discutidos e aprovados em Assembleias Gerais de estudantes. São remetidos à tutela, a Direcção Geral do Ensino Superior e das Belas Artes, do Ministério da Educação. Nunca serão reconhecidos e a Associação acaba por ser proibida.
Partilha um atelier, que já pertencera a Malhoa (Praça da Alegria 47) com Maria Barreira, Vasco da Conceição e Júlio Pomar. Aqui prepara alunos para admissão à Escola de Belas Artes.
1950
Executa a Cabeça do escritor Fernando Namora. Na 5ª EGAP (Maio) apresenta três esculturas: Retrato de Margarida Tengarrinha, Cabeça de Rapariga e "escultura", bem como três Desenhos e um Retrato não identificado. É criada a Comissão Nacional para a Defesa da Paz (Julho), em Lisboa. Pouco depois esta Comissão lança a palavra de ordem: «100 000 assinaturas para o apelo de Estocolmo!», desenvolvendo uma recolha por todo o país em que participam, sobretudo, jovens trabalhadores e estudantes, e na qual Dias Coelho vai empenhar-se activamente.
É aprovada legislação (Lei 2043) que pretende reorganizar o ensino das Belas Artes, passando este a ser superior e a escola a denominar-se ESBAL. Mas a reforma efectiva só ocorrerá em 1957 com a respectiva regulamentação legislativa (Dec. 41.363). Conclui o Curso Geral de Escultura (31-07), com média de 14 valores. Em Setembro matricula-se no Curso Superior de Escultura, que nunca chegará a terminar.
No ano lectivo 1950-51, conjuntamente com o amigo Sá Nogueira, dá aulas na Escola Veiga Beirão. Aqui é alvo de um processo por parte de Fernando Pamplona, inspector do Ensino Técnico, que o acusa de estar na sala de aulas sem gravata. Alves Redol ganha o prémio Ricardo Malheiros, da Academia das Ciências e o Ginásio Vilafranquense convida José Dias Coelho para fazer a cabeça do escritor. Ilustra contos de José Cardoso Pires, para a revista Vértice.
1951
Em Maio apresenta, na 6ª EGAP, a cabeça de Alves Redol; expõe ainda cinco desenhos, de entre os quais três são "retratos" que o catálogo não identifica.
Em Junho, no Ginásio Vilafranquense, é prestada homenagem pública a Redol, sendo inaugurado o seu retrato na biblioteca daquela colectividade.
Ascende à Direcção Universitária do MUD Juvenil. Aproveitando a "abertura" da campanha para a eleição do Presidente da República (Craveiro Lopes) e mercê de uma acção concertada em que interveio com Keil do Amaral e F Castro Rodrigues, organiza uma Assembleia Geral da SNBA para discussão pública do Ensino da 8ª Cadeira na ESBAL (Arqtº Luís Alexandre da Cunha). Aprovada uma moção pública a endereçar ao Ministro da Educação, conseguem os alunos, ex-alunos e pais de alunos de Belas Artes a instauração de um inquérito aos métodos pedagógicos do referido professor, conseguindo a sua destituição de director.
No Século Ilustrado (16-05) são reproduzidas fotos de Dias Coelho e das obras "Cabeça de Alves Redol" e "Cabeça de Fernando Namora" afirmando-se que, sendo duas "obras de estilo e força expressiva elas dão também, para além da interpretação fisionómica dos escritores, a sugestão da personalidade de cada um dos ilustres romancistas."
No ano lectivo 1951-52 dá aulas na Escola Francisco Arruda que funciona provisoriamente nas instalações da Escola Marquês de Pombal, em Alcântara. Margarida ensina na Escola de Paula Vicente. Faz o retrato do escritor Orlando da Costa para o primeiro livro deste.
1952
No Instituto Superior Técnico realiza-se a reunião do Conselho do Pacto do Atlântico (Fev) com forte contestação oposicionista, inserida na campanha da Luta pela Paz. Aos protestos aderem os alunos da ESBAL que recorrem a todos os processos para o demonstrar, fazendo inscrições nas paredes da escola. Isso levou o director a levantar um processo disciplinar a 81 alunos que haviam subscrito um abaixo-assinado de solidariedade com António Alfredo, o colega denunciado como autor das inscrições. Todos são sujeitos a um rigoroso inquérito, e todos vão ser penalizados segundo o grau de culpabilidade que o director decide atribuir-lhes. Dias Coelho e Margarida Tengarrinha são dos mais atingidos, sendo expulsos de todas as escolas do país, pelo período de um ano. Também são destituídos de professores do ensino técnico. Não mais poderão ensinar.
Na SNBA (28-03) durante a eleição de júris de selecção de trabalhos ao Salão da Primavera, o pintor Eduardo Malta acusa Dias Coelho de desonestidade na votação. Malta é desmascarado mas recusa apresentar desculpas, e o incidente origina uma polémica na sequência da qual é expulso de sócio da SNBA. Como retaliação o Governo encerra a SNBA, que só reabre em finais do ano. Em consequência, não se realiza a habitual Exposição Geral de Artes Plásticas. É padrinho de casamento do amigo José Plácido de Sousa (10.05). Cria um painel de azulejos, alusivo à luta pela Paz, que Plácido coloca na frontaria da sua casa em Vila Nova de Cerveira. Vai trabalhar como desenhador com os arquitectos Keil do Amaral, Hernâni Gandra e Alberto José Pessoa (Rua Fernão Álvares do Oriente 8 CV/Esq). Pinta o óleo "Casal com Filhos, junto a um Ribeiro" que oferece ao amigo Diamantino Vargas pelo seu casamento. A revista EVA (Natal) cuja redacção é chefiada por José Cardoso Pires, publica uma série de desenhos dos alunos de Dias Coelho e de Margarida Tengarrinha, na sequência do projecto "Ensino pela Arte" que ambos desenvolviam. Para eles António Pedro escreve a crónica "Quando os Meninos são Pintores". Passa a viver com Margarida Tengarrinha. (03.12).
1953
Na 7ª EGAP (Maio) mostra duas esculturas: "Retrato de M Eugénia Cunhal", “Estudo” e dois desenhos. Margarida expõe aqui pela primeira vez. Nasce a filha Teresa (03-09). Ilustra a capa para a segunda edição do livro O Sol Nascerá Um Dia, de Alexandre Cabral. Com o Arq Carlos Rafael colabora na remodelação do Café Gelo com um grupo escultórico (desaparecido), que será fixado na parede. No âmbito da Campanha pela Paz, é editado por Victor Palla um calendário para 1954: «12 Artistas Portugueses», com ilustrações de Júlio Pomar, António Domingues, Maria Barreira, Carlos Rafael, António Alfredo, Alice Jorge, Cipriano Dourado, Lima de Freitas, Querubim Lapa, Rogério Ribeiro, Dias Coelho e Maria Keil: “Este calendário reúne 12 desenhos / de 12 artistas portugueses / e em cada um deles se formula, por diferentes maneiras, um voto único: / um voto único, belo e universal / sejam afastadas / ameaças e pavores, e relegada a guerra / para o rol das coisas que deixaram de existir / um voto único: ver o espírito de negociação / e de entendimento entre os povos / lançar raízes / e dar frutos / que o ano de 1954 seja assim um ano de paz / apertem-se os laços de amizade entre as gentes / e tenham livre curso / as relações culturais, o comércio dos povos, a alegria das crianças”. Uma obra pensada para assinalar datas oposicionistas importantes. Dias Coelho ilustrou o mês de Novembro e assinala o Dia do Estudante, a 25 Nov, instituído na reunião das Três Academias em Coimbra (1951), em homenagem à "Tomada da Bastilha" pelos estudantes em 1921. Tem lugar o II Congresso Mundial da Paz, em Viena, a que assiste Maria Lamas. No seu regresso, em 20 de Dezembro, muitos jovens e amigos a aguardam no aeroporto de Lisboa, mas o voo acaba por ser atrasado e cerca de 50 jovens são presos e levados para Caxias. Entre estes, encontra-se a sua irmã Maria Sofia. No ano lectivo 1953-54, Dias Coelho e Margarida voltam à ESBAL onde fazem a cadeira de Arqueologia.
1954
Faz experiências com vidros na Fábrica-Escola Irmãos Stephens, na Marinha Grande.
Com Júlio Pomar, Alice Jorge, Maria Barreira e outros, enceta experiências com cerâmica quer na Fábrica da C.I.P. na Marinha Grande, quer na Cerâmica Bombarralense, do amigo Jorge de Almeida Monteiro. Na 8ª EGAP (12-21 Maio) expõe duas esculturas: "Retrato de D Maria Isabel Aboim Inglez" e "Pastor". Apresenta ainda dois pratos cerâmicos, pintados. Desenha a "Morte de Catarina Eufémia", camponesa assassinada pela GNR em Baleizão (19 Maio). O casal vai viver para a Av General Roçadas 74-1º Frente, em semi-clandestinidade.
1955
Concebe dois grupos escultóricos para a Escola Primária de Campolide (secções feminina e masculina) e uma escultura de vulto para o espaço envolvente da Escola Primária do Vale Escuro, ambas em Lisboa. Infelizmente esta última encontra-se seriamente vandalizada.
Esculpe, in situ, na parede do Café Central, em Caldas da Rainha, um painel desenhado por Júlio Pomar, conseguindo transpor para o gesso a simplicidade e a força do traço daquele artista.
Aceita o convite do Partido Comunista Português e mergulha na vida clandestina (Set-Out). António Borges Coelho recorda a manhã desse dia, em que ambos se “despedem” com um café na Praça Paiva Couceiro, em Lisboa. Margarida e a filha, Teresa, irão juntar-se-lhe em Novembro. Vão residir para a Av Rio de Janeiro, 4-4º andar, trazeiras, a primeira das várias casas clandestinas por onde passarão. Vão montar e gerir um Gabinete Técnico de Falsificações.
Alguns dos pseudónimos adoptados: Fausto, Romeu, Pedro (JDC); Leonor (MT).
1956
Na 10ª e última Exposição Geral de Artes Plásticas (Junho), de carácter antológico, os amigos repõem uma peça sua, a cabeça da irmã Maria Emília, que já havia sido exposta.
1959
Por questões de segurança, e poder vir a frequentar a escola primária, são constrangidos a separar-se da filha mais velha, Teresa, entregando-a à família paterna (Fev-Março).
Nasce a segunda filha, Margarida (25-04).
1960
Embora atribuído apenas a si, sabe-se hoje que escreveu com Margarida Tengarrinha o livro Histórias da Resistência, que circulou clandestinamente e apenas é publicado em Portugal após 1974. Dividido em quatro capítulos, o primeiro e terceiro são da sua autoria, enquanto o segundo e quarto foram escritos por Margarida. Trata-se do primeiro documento sistematizado e publicado no nosso país sobre a Repressão Salazarista.
1961
A 19 de Dezembro José Dias Coelho é morto pela PIDE com dois tiros à queima-roupa na Rua da Creche, em Alcântara. Residia, então, à Rua de Pedrouços (Belém). Pertencia à Direcção da Organização Regional de Lisboa do Partido Comunista Português, e dirigia o Sector Intelectual. Presume-se que tenha sido denunciado.
O funeral realizou-se no dia 26 de Dezembro para o cemitério de Benfica.
Margarida Tengarrinha apenas toma conhecimento da sua morte no final desse dia.
Será ela a redigir a notícia para o jornal "Avante!" que será ilustrada por Lima de Freitas.
Só após o 25 de Abril foi possível levar a Tribunal os agentes da PIDE envolvidos na sua morte. Pertenciam à Brigada de José Gonçalves. Nunca confessaram a denúncia nem quem lhes dera ordens. Apenas um foi condenado – António Domingues -, o autor dos dois disparos que atingiram Dias Coelho. Mas a pena que lhe foi imputada – três anos e seis meses – indignou a comunidade democrática portuguesa no início de 1977.
Júlia Coutinho - JOSÉ DIAS COELHO. A COERÊNCIA DO SER E DO FAZER
«Não chegou a adquirir fama o nome de José Dias Coelho […] e as histórias da arte, se não forem muito minuciosas, ignorá-lo-ão»
(J-A França, Diário de Lisboa de 04-02-1977)
1 - Um estudo recente sobre a Escultura Portuguesa ligada à escola de Lisboa 1 revela-nos serem os anos quarenta/cinquenta os “menos amados” pelas críticas da época e actual. Alerta-nos para a premência do estudo das motivações que têm ignorado e omitido as obras e os nomes desses escultores e faz eco, ainda, do sentimento de alguns deles, ainda vivos, que dizem não se reconhecer numa historiografia que genericamente os apelida de “estatuários” e os vota ao esquecimento. 2
Reconhecendo a importância de um estudo aprofundado – que não este –, importa salientar que este silêncio tem dois grupos de causas, ambos enraizados na sociedade político-cultural vigente. No primeiro grupo incluímos o ensino anacrónico - artístico, pedagógico e curricular - ministrado na Escola de Belas Artes de Lisboa e a inexistência de ateliers e galerias. No segundo temos a censura e a repressão impostas pelo regime e a inexistência de uma crítica isenta. Esta, quando não situacionista, era exercida pelos próprios artistas (J Pomar, L Freitas, F Azevedo, F Lemos, J-A França) gerando fenómenos parciais em função de grupos ou promoções que acabaram por tornar-se numa "tremenda prática portuguesa: a omissão" 3 para além dos regimes políticos, exercida em função de lobbies dominantes.
Hoje, à distância de meio século e três décadas após Abril, quando o sentido de justiça faz mais sentido e da arte se fez História não deixa de ser preocupante que essa omissão continue. Alguns artistas precisamente os que não tiveram escolha, os que não pactuaram nem beneficiaram de encomendas estatais mercê de uma ética assumida com prejuízo das próprias carreiras, serão ignorados. Não lhes assiste o direito à Memória. E aqui incluímos José Dias Coelho.
2 - Se procurarmos na sua obra o conceito romântico de originalidade que acentua a unicidade e irrepetibilidade largamente defendido pelos artistas da primeira geração do modernismo português, não o encontraremos. Percebe-se a ausência dessa ambição que, sejamos claros, era já um anacronismo no período que viu nascer a maioria da sua produção: anos quarenta e cinquenta.
Mas se não podemos considerá-lo original também não podemos vê-lo sob conceitos academizantes associando-o ao exercício da mimesis e ligando-o à prática da Escola de Lisboa onde a escultura foi a última das artes a ser dotada de ensino erudito e a ortodoxia formal limitava os artistas à reprodução invariável dos modelos antigos. As obras de Dias Coelho desmentem-no.
Tão pouco podemos atribuir-lhe uma lógica conforme aos conceitos naturalistas dominantes na comunidade artística oficial, alheada dos movimentos da arte além fronteiras e fiel aos mestres intestinos de fins do século.
Aos artistas, segundo Luigi Pareyson, colocam-se duas maneiras de visualizar ou reflectir a arte que os antecede: ou a encaram “na sua perfeição dinâmica e na sua operativa exemplaridade [geradoras] da possibilidade de uma operação (…) original (…) de uma imitação criadora; ou podem limitar-se a vê-la na sua “extrínseca e imóvel perfeição, e então a forma decai para fórmula, o modelo para módulo, o estilo para cunho, a obra para estereótipo e não aparece senão a estéril repetição”.4 Este não é o caso de José Dias Coelho.
E por não raro depararmos com alguns radicalismos voltamos a Pareyson para afirmar que o dilema entre uma “genialidade artística” ou o “servilismo da repetição” é demasiado peremptório correndo-se o risco de remeter “para o inerte reino da imitação tudo quanto não se inclua nos cumes raríssimos (…) de uma prepotente inovação (…) e perder o critério para distinguir a imitação criadora e inovadora da imitação repetitiva e reprodutiva”. 4 Daqui enferma muita da crítica e da historiografia artística portuguesa.
Sem rupturas morfológicas a escultura de Dias Coelho reflecte o ecletismo de quem necessariamente procura uma plasticidade própria em torno das mais diversificadas fontes. Inconformista, ele persegue ideários cívicos e estéticos de acordo com o momento histórico que se vive e as concepções humanistas de Bento de Jesus Caraça (1901-1948). Colocando a tónica no Homem, Caraça definiu valores éticos e culturais que influíram toda uma geração e subjazeram ao ideário dos artistas que então procuravam, por caminhos comuns, uma singularidade pessoal.
Aderente do neo-realismo, o movimento que melhor enformou desta ideologia totalizante - pese embora um estudo aprofundado nas artes plásticas esteja por fazer -, a verdade é que as suas obras não reflectem a iconografia que se convencionou associar-lhe. Com uma ideologia comum que as Exposições Gerais de Artes Plásticas traduzem, nem sempre aos artistas as motivações iconográficas se lhes equivalem o que deita por terra certa argumentação de um fazer estritamente direccionado ou arregimentado.
Movendo-se num universo realista ou refugiando-se num verismo lírico muito seu, Dias Coelho tem no desenho a sua expressão mais constante o que “não deixa de se revestir de particular importância – na medida em que, entre nós, o escultor rarissimamente desenha ou procura”, como assinalou Pomar.
De notar que lhe foi atribuida pelos seus pares uma 3ª medalha de escultura num dos salões anuais da SNBA (Primavera, 1949) o que atesta o reconhecimento de um percurso de pesquisa e de liberdade criadora: ”Dias Coelho está a entrar num caminho seu, de teimosa procura e simplificação fecunda. Simplificação que não significa eliminar dificuldades, mas constatá-las e vencê-las através de persistente e inteligente trabalho o mais das vezes silencioso e sem alardes” – palavras que o perfilam na demanda da sua plasticidade. (J. Pomar, Vértice, Junho 1950)
Artista moderno e não conformista, reconheçamos a Dias Coelho um sentido de pesquisa e de inovação sempre perseguido e nunca abdicado, mesmo quando as contingências de uma vivência clandestina o obrigaram a um dificílimo exercício do fazer. Conhecem-se duas pequenas esculturas de 1958, duas “maternidades,” em terracota, uma das quais oferece ao médico que acompanha o nascimento da sua filha Margarida. Em plena clandestinidade.
3 - O conjunto de obras escolhidas para esta exposição, não sendo absolutamente representativo da produção de Dias Coelho, dá-nos uma visão abrangente dos géneros e temáticas que povoaram o seu universo. Num total de 31 peças em que apenas duas são esculturas, reúnem-se aqui praticamente todos os géneros, temas e materiais por si trabalhados, divididos por cinco núcleos: Retrato e Caricatura; Pintura e Desenho; Imagens de Pinhel; Clandestinidade; Escultura e Cerâmica.
Como género artístico, o Retrato assume um lugar único no contexto geral da sua obra seja em desenho, pintura, modelagem ou caricatura. Proliferam os retratos que se conhecem da família, dos amigos, de colegas e de personalidades da vida cultural portuguesa como Isabel Aboim Inglês, Alves Redol ou Fernando Namora.
A característica que mais ressalta deste conjunto de obras é que praticamente todas correspondem à fase mais juvenil do artista, sendo muitas delas anteriores à sua entrada em Belas Artes (1942). Veja-se, por exemplo, a “Cabeça de Rapaz” (1938), cópia de uma gravura renascentista, que corresponde aos seus 15 anos Apenas os retratos de Margarida e de Teresa (1957), feitos na clandestinidade, se demarcam cronologicamente dos restantes que não ultrapassam a primeira metade da década de quarenta: os retratos de Fernando (1940), Natália (1941), pai (1942) correspondem aos seus 17, 18 e 19 anos de idade. Contudo, pese embora a pouca idade de Coelho, é notória a sua capacidade na percepção do essencial, a grande economia de meios e o domínio absoluto do traço. Especial destaque nos merece o retrato da mãe, denotando um sentido de composição apurado por onde perpassa já uma assimilação cubista no tratamento das massas e um domínio do claro-escuro denunciador de um fazer escultórico. Idêntico tratamento tem a “Mulher Grávida” que apenas a composição dos panejamentos sugere, conferindo uma solidez que um traço expressionista tende a afastar da idealização.
De uma maneira geral o autor não oculta as suas influências. Adopta com frequência o irrealismo russo e o lirismo eslavo, principalmente o irrealismo de um Chagall, a linearidade clássica de um certo Picasso, ou a beleza poética e despojada de Matisse, esta sempre mais conseguida no traço que na cor. Veja-se o belo prato de cerâmica onde o motivo da maternidade (omnipresente na sua obra) é tratado num compromisso entre o classicismo de Picasso e a onírica delicadeza gráfica de Chagall. Quanto ao seu traçado, à sua linha firme e despojada, essa vai de Picasso a Matisse; do primeiro detectam-se vestígios, por exemplo, nas cabeças mais clássicas, de perfil grego (Par Abraçado) enquanto a sensualidade de Matisse perpassa no ondulado dos corpos. As linhas circulares envolvem as duas figuras unindo-as num espaço uterino e protector.
Das obras expostas, “Casal com Duas Crianças” (1952) - um dos poucos óleos que se lhe conhecem -, é a que mais impressiona pelo lirismo temático, pela composição e pela qualidade plástica. Lembrando Van Gogh e Vlaminck na delimitação dos espaços a que o arrojo da árvore cezanneana confere dinamismo, a composição apresenta um ritmo centrífugo que nos é dado pela distribuição espacial e pela pincelada. Uma discreta noção de vórtice com epicentro no casal oferece-nos a visão intimista e feliz em que o autor se revia, num momento em que tentava formar a sua própria família.
Nas duas peças escultóricas encontramos as temáticas que se lhe impõem e o artista persegue desde que conhecera Margarida: a “Maternidade” e a “Família”. Nelas encontramos já uma proposta pessoal do autor, bem conseguida sobretudo na primeira, onde é notória a procura constante duma simplicidade formal aliada à plenitude e sensualidade volumétricas que a modelação, a que sempre recorre, acentua.
As duas obras do núcleo Clandestinidade correspondem a uma fase determinada do seu fazer militante, onde a temática neo-realista está presente. Trata-se de um fazer em função de causa públicas. O estudo para o desenho “Morte de Catarina” assinala o assassinato de Catarina Eufémia pela GNR, em Baleizão (1954).
Já “Prisioneiros Políticos” um desenho extremamente bem conseguido, ilustrou milhares de panfletos e serviu de bandeira na angariação de proventos para auxílio aos presos políticos e às suas famílias que Salazar e a PIDE mantinham indefinidamente nas prisões. Talvez seja a sua obra mais divulgada, apesar de circular anónima.
Pinhel, a sua terra bem-amada, não podia deixar de estar presente na obra de Dias Coelho. Ele que se orgulhava das suas origens beirãs e aqui regressava com frequência, deixou imortalizados, como vemos, os mais emblemáticos recantos da cidade. É precisamente na sua “Paisagem com Castelo” que melhor podemos apreciar o quanto bebeu da lição cubista. Curioso ainda o cartaz para as Festas da Cidade, (seria interessante averiguar da data) onde não faltam os principais ex-libris pinhelenses.
«Há quem tombe por um rio / Impetuoso e comum.
Alcântara dos tiros cegos / Alcântara sessenta e um.»
(Pedro Alvim in Notícias do Bloqueio déc. 60)
4 - José Dias Coelho tinha 38 anos quando foi morto (1961). Dividido entre a Arte e a Política optara por esta, o que significava, então, passar a viver na clandestinidade. Tomara essa decisão seis anos antes (1955). Com todas as contingências inerentes. Já na sua ausência, a 10ª Exposição Geral de Artes Plásticas (1956) mostrara a derradeira participação pública deste artista que, corajosamente, abdicara de uma carreira promissora, da sua identidade e da própria liberdade pessoal para, anonimamente, combater pela liberdade de todos. A força anímica, acreditamos, adveio-lhe de ter consigo a mulher e a filha, esse reduto familiar que lhe era fundamental.
Talvez não tenha deixado uma Obra. Não viveu o suficiente para isso. Mas tem direito à Memória. Por generosidade e modéstia de carácter nunca pensou em termos de carreira. Não fomentou exposições individuais, não procurou sucesso pessoal. Colocou sempre os objectivos colectivos acima de quaisquer outros. A sua arte ficou dispersa pela família, pelos amigos, pelos camaradas, por todos os que amava. Fazia-a por prazer. Oferecia-a a quem a sabia apreciar. Era a sua forma de afecto. Era aquele “pedaço” de si “que se quer dar” - de que nos fala nos poemas.
É ainda de afectos que falam os seus retratos. Mais do que uma simples representação eles traduzem o seu desejo de suspender o tempo, tornar presente a ausência, perdurar os afectos para além do tempo. Fixá-los numa imagem «viva». Porque a sobrevivência se consegue pelos elos afectivos. Que induzem a diálogos interiores. Que constroem uma cadeia colectiva de outros afectos. E de valores. Valores e Afectos que se pretendem imunes à morte. Intemporais.
1 – Aida Sousa Dias, O Corpo Feminino na Escultura dos Anos 50 em Portugal, FBAUL, 2000, p.10 e seg.
2 _ José-Augusto França, A Arte em Portugal no Século XX, p. 260 e seg.
3 _ J F Pereira, Reflexões sobre as Teorias da Escultura Portuguesa in ARTETEORIA N 2, 2001, p 17-18
4 _ Luigi Pareyson, Os Problemas da Estética, ed. Martins Fontes, S Paulo, Brasil, 1997, p. 137-138
julho 04, 2005
CONGRESSO INTERNACIONAL NO CENTENÁRIO DE FERNANDO LOPES-GRAÇA
O ARTISTA COMO INTELECTUAL: no centenário de Fernando Lopes-Graça
Congresso Internacional organizado pelo Centro de Estudos Interdisciplinares do Século XX da Universidade de Coimbra/Grupo de Investigação sobre Correntes Artísticas e Movimentos Intelectuais
Coimbra, 27 – 29 de Abril de 2006
Convite à apresentação de propostas de comunicações
APRESENTAÇÃO
O compositor Fernando Lopes-Graça (1906-1994) é uma figura incontornável da cultura portuguesa do século XX. Como compositor, pianista, pedagogo, crítico, ensaísta e, ainda, como organizador de eventos musicais e estudioso da música tradicional portuguesa marcou de forma determinante a actividade musical em Portugal.
Fernando Lopes-Graça partiu de premissas estéticas modernistas. Os acontecimentos históricos das décadas de 30 e 40 inscreveram os propósitos modernistas numa consciência social mais aguda e definiram uma posição política clara (foi militante do Partido Comunista Português) e muito interveniente num plano cívico. Assim, Fernando Lopes-Graça deu uma forma peculiar às relações entre as correntes modernistas, a recuperação da tradição e o envolvimento político activo.
Por isso, pretende-se a inserção da sua personalidade, da sua obra e da sua intervenção nos vários contextos a que pertenceu. Uma reflexão em torno de alguns conceitos fundamentais nos discursos artísticos contemporâneos de Lopes-Graça, - nomeadamente em Portugal e no Brasil, mas também em França, o país onde o compositor encontrou algumas das suas principais referências culturais – poderão ser de grande utilidade para a compreensão aprofundada da sua obra.
OBJECTIVOS
O Congresso tem os seguintes objectivos: 1. aprofundar o conhecimento da obra musical, da reflexão teórica e da actividade crítica de Fernando Lopes-Graça; 2. proporcionar um intercâmbio de pesquisas que, numa óptica interdisciplinar, produzam conhecimento novo sobre correntes artísticas e movimentos intelectuais a que Fernando Lopes-Graça se tenha associado; 3. estudar o modo de envolvimento de Fernando Lopes-Graça com movimentos e figuras internacionais.
ÁREAS TEMÁTICAS
O CEIS20 / Grupo de investigação sobre “Correntes artísticas e movimentos intelectuais” convida os investigadores a participar neste Congresso e propõe que as comunicações se situem numa das seguintes áreas temáticas:
1. O artista como intelectual no século XX.
2. O modernismo e as suas definições.
3. Recepção do cânone modernista.
4. Arte e «indústria» cultural entre ca. 1929 e 1975.
5. A tradição e o moderno nos movimentos artísticos e nas concepções estéticas do século XX.
6. Arte e comunismo.
7. Os compositores do «moderate mainstream» (Arnold Whitall) entre ca. 1945 e 1975 e o problema da «inovação».
8. As organizações promovidas por compositores entre ca. 1945 e 1975 e o seu significado político (publicações periódicas, grupos corais, séries de concertos, etc).
9. Usos e significados da música tradicional, da literatura e da forma sonata na composição.
Outras áreas temáticas poderão ser também consideradas, sempre que relacionadas com a figura do compositor.
APRESENTAÇÃO DE COMUNICAÇÕES
As propostas deverão ser enviadas, antes do 31 de Julho de 2005, para o seguinte endereço electrónico:
teresa.cascudo@dea.unirioja.es.
As comunicações não deverão exceder vinte (20) minutos.
Os “abstracts”, com o correspondente título, não deverão ultrapassar as 300 palavras. Deve ser identificada a área temática de cada comunicação. Aceitam-se propostas em Português, em Francês e em Inglês, que serão as línguas do congresso.
A indicação de aceitação será feita até 30 de Outubro de 2005.
Coordenação científica:
Teresa Cascudo (CEIS20/Universidad de La Rioja)
Maria de São José Côrte-Real (Universidade Lusófona)
António Pedro Pita (CEIS20/Universidade de Coimbra)
CONFERENCISTAS CONFIRMADOS
Estão já confirmadas as seguintes presenças: Professora Doutora Jane F. Fulcher (Indiana University), Professor Doutor Michael Walter (Institut für Musikwissenschaft, Karl Franzens Universität Graz), Professor Doutor Rui Vieira Nery (Universidade de Évora)
julho 03, 2005
"BARREIRO RECONHECIDO" 2005 À MEMÓRIA DE BLANQUI TEIXEIRA
O galardão "Barreiro Reconhecido - Área da Resistência Antifascista" de 2005 foi concedido a titulo póstumo a Blanqui Teixeira, militante comunista que controlou o partido no Barreiro. Uma pequena biografia foi colocada em linha.
junho 25, 2005
José Pacheco Pereira - UM INÉDITO DE CUNHAL
Depois de ser preso em 1949, Cunhal foi sujeito não apenas a um único processo, mas a vários. O mais conhecido foi aquele que foi julgado em Maio de 1950, e que diz respeito à sua actividade como comunista, pela qual foi condenado. Foi nesse processo que Cunhal proferiu uma célebre defesa de várias horas, e que representa a sua mais completa análise do comunismo e do PCP face ao início da guerra-fria. Mas Cunhal esteve envolvido em vários outros processos quer como acusado, quer como acusador (Cunhal acusou um PIDE de ter roubado uma quantia de dinheiro que se encontrava escondida no forro de um casaco de Sofia Ferreira, também presa na mesma casa.). Um processo contra Cunhal arrastou-se de 1950 até fins de 1955, devido ao facto de este se ter recusado a responder à pergunta sobre se alguma vez tinha estado preso ou respondera em tribunal. A ausência de resposta a esta pergunta constituía crime, pelo que Cunhal foi acusado e só não foi condenado porque entretanto o processo prescrevera.
A pergunta e as circunstâncias em que foi feita eram tudo menos inocente. Cunhal alegava que a pergunta lhe fora feita por um subalterno da PIDE e não pelo subdirector, e que só fora feita depois de ter declarado que “não tinha quaisquer declarações a fazer à polícia”. Na carta inédita que a seguir se publica, Cunhal utiliza este pretexto processual, para fazer considerações sobre a justiça, e sobre o comportamento dos comunistas face à polícia, uma matéria central não só do seu pensamento político, mas também do seu ethos pessoal.
Cunhal escreve esta carta na Penitenciária em 19 de Junho de 1950, e fá-lo na convicção que a PIDE não autorizará a sua presença em tribunal, como desejava. A PIDE opôs-se à sua presença, percebendo que Cunhal se preparava mais uma vez para utilizar a defesa como instrumento de agitação política, e a experiência do julgamento de Maio, mostrava a capacidade que Cunhal tinha para usar as suas intervenções como armas tribunícias para a sua causa.
A carta revela as qualidades de Cunhal como dirigente político revolucionário, que ajuda a explicar o antigo e actual fenómeno de culto de personalidade, que não se ficou pelo século XX e que se estende, embora de forma diferente, no século XXI. No século passado, a sua persona política era indissociável do seu papel na acção política, na luta contra a ditadura, antes do 25 de Abril como resistente, no PREC como comunista. Cunhal era admirado na divisão das águas, logo era odiado também. Hoje essa divisão perdeu sentido, porque se perdeu um lado, os comunistas já não são o que eram, tornaram-se outra coisa depois do fim da URSS. E é de facto o valor simbólico, ou icónico que prevalece. A carta é por isso lida como sendo essencialmente um retrato moral, em tempos de pouca moral. O conteúdo político desvaneceu-se na sua explicitude, ficou o comportamento. Os milhares e milhares de pessoas que saíram à rua por Cunhal vêm pelo símbolo, não pela revolução, e muito menos pelo comunismo.
Senhores juízes:
(…)1º - Sou acusado de “ na Subdirectoria da PIDE do Porto, ao ser submetido a perguntas pelo respectivo Sub-director, me ter recusado a responder á pergunta se alguma vez estivera preso, quando e porquê e se já alguma vez respondera em algum tribunal”. Isto não é exacto. Essa pergunta foi-me feita, não pelo referido subdirector mas por um funcionário subalterno da mesma Policia. – devo esclarecer que, se essa pergunta tivesse sido feita pelo referido subdirector ter-me-ia igualmente recusado a responder. Mas não foi. Os preceitos legais invocados não são pois de aplicar e o envio deste processo ao tribunal é assim um pequeno exemplo de abusos, e ilegalidades e atropelos cometidos pelas entidades instrutoras dos processos políticos...
2º - Não foi essa a única pergunta a que me recusei a responder. Não respondi a essa nem a qualquer outra, directa ou indirectamente relacionada com a minha actividade política. – Repetidas vezes sublinhei que o faria porque “como membro do partido comunista português, não tinha quaisquer declarações a fazer à polícia”. – Por insistência minha, esta declaração foi reduzida a auto. O auto de perguntas em que figura esta declaração foi o único que assinei e o único autêntico.
3º - No meu caso (como na generalidade dos casos políticos) a pergunta em questão não tinha qualquer valor para a entidade instrutora e, se foi feita, foi depois de eu ter afirmado repetidas vezes que me recusava a responder a qualquer pergunta e com o único objectivo de tentar “quebrar” essa minha atitude ao instaurar um novo processo. – Mantive a mesma atitude e recusei-me a responder a essa pergunta como ás outras. Instaurou-se então este processo. – Qual a finalidade deste processo? Ele é apenas uma forma de intimidação (bem débil é certo) contra os que, ante a polícia se recusam a prestar declarações. Creio que o resultado será contrário ao desejado pelos acusadores. Quanto a mim, julgo necessário que o tribunal saiba que me orgulha ser novamente julgado pelo único facto de ter sabido tomar ante a policia uma atitude intransigente de defesa do meu Partido, dos meus camaradas, dos meus ideais.
4º - Nas “notas” e “artigos” que a PIDE fez publicar nos jornais depois da minha prisão, é dito (entre abundantes inexactidões, mentiras e calúnias) que o mutismo dos comunistas presos (e por consequência o meu próprio mutismo) resulta da “rigorosa disciplina do partido” e de “receio das sanções”.- Diz, por exemplo a “nota” da PIDE publicada em 15 de Abril de 1949: “Mais que o terror da Policia, influi neles a aplicação de sanções contra os que, uma vez presos, façam declarações que possam comprometer os companheiros”.- Neste ponto, a PIDE falou quase verdade. Um comunista que se encontra preso prefere a tortura ou a morte a fazer quaisquer declarações prejudiciais ao seu Partido. Muitos comunistas têm sido torturados, muitos têm morrido na incomunicabilidade, por se negarem a prestar declarações.
- Aqueles que o fazem, fazem-no por entenderem ser esse o seu dever; porque defendem com honradez a sua causa; porque querem conservar um nome honrado e a confiança do Partido e do povo; porque o terror da policia “ (como diz a “nota” da PIDE) não vence o seu animo e a sua firmeza de bons cidadãos e bons patriotas Há de facto, uma disciplina no Partido Comunista Português. E aqueles que fraquejam perante o inimigo sofrem sanções como resultado. Que sanções? A critica, a censura pública, a limitação de responsabilidade ou expulsão Essa disciplina educa os membros do Partido na fidelidade aos seus princípios e auxilia o desenvolvimento das suas capacidades morais, da ideia, da responsabilidade, da confiança nas próprias forças íntimas, da altivez e coragem perante os adversários. Os que mais atacam são os que mais a invejam.
5º- Uma condenação neste processo significaria, não só uma abusiva aplicação da lei (dado que se não verificou o facto que serve de base a acusação), como ainda e fundamentalmente que a justiça se decidiria a castigar a honradez e a premiar a cobardia. Mal do regime que as coloque dentro de tal quadro de valores morais. E mal da justiça que os adopte.
Álvaro Cunhal
junho 17, 2005
MORTE DE CORINO DE ANDRADE
"Cidadão de reconhecida intervenção cívica - fazendo muitas vezes questão de recordar que vivera os tempos da primeira e da segunda grandes guerras -, Corino de Andrade escapou ao nazismo mas não à polícia política (PIDE) do Estado Novo, que lhe moveu perseguições, no início da década de 1950, pelas suas convicções democráticas .
"Os meses que passei na cadeia serviram-me para muita informação e muita reflexão. Tirei disso muito proveito", dizia ao JN em 1991.
Apoiou a candidatura de Nórton de Matos à Presidência da República. Como opositor ao Estado Novo, fez parte do núcleo de homens de ciência do Porto, entre os quais se destacaram figuras notáveis, como Abel Salazar e Ruy Luís Gomes. Por isso, ao lado do professor Nuno Grande - um dos principais impulsionadores da criação, na Universidade do Porto, do Instituto de Ciências Biomédicas Abel Salazar (ICBAS) -, Corino de Andrade fez parte da respectiva Comissão Instaladora, entre 1974 e 1980.
Confessava-se agnóstico e admitia que a Terra há-de tornar-se um planeta morto. Afirmava pensar que não seria no Universo mais do que uma molécula era no seu corpo."
Biografia da Lusa:
Morreu Corino de Andrade, investigador que descobriu a “doença dos pezinhos”
16.06.2005 - 19h51 Lusa
Corino de Andrade, o investigador que descobriu a paramiloidose, mais conhecida como "doença dos pezinhos", morreu hoje, ao 99 anos de idade, disse fonte da Universidade do Porto.
O professor universitário, um dos mais destacados neurologistas nacionais, responsável pela descoberta da "doença dos pezinhos" e um dos principais impulsionadores da criação do Instituto de Ciências Biomédicas Abel Salazar da Universidade do Porto, faleceu às 15h10 devido a uma paragem cardiovascular, resultante de doença prolongada que há anos o obrigava a permanecer acamado.
Natural do Alentejo, Mário Corino da Costa Andrade licenciou-se em Medicina e Cirurgia em Lisboa, de onde partiu em 1931 para trabalhar no Laboratório de Neuropatologia da Faculdade de Medicina de Estrasburgo, onde recebeu o Prémio Déjerine, até então atribuído apenas a investigadores franceses.
Quando, em 1938, regressou a Portugal, instalou-se na cidade do Porto, onde, contratado como neurologista pelo Hospital Santo António, criou e dirigiu o respectivo Serviço de Neurologia a partir do início dos anos 40. Foi com base no trabalho de investigação realizado naquele hospital que Corino de Andrade se notabilizou mundialmente quando, em 1952, foi o primeiro a identificar e tipificar cientificamente a paramiloidose, vulgarmente designada por "doença dos pezinhos" ou mesmo "Doença de Andrade".
A paramiloidose é uma doença que se manifesta normalmente entre os 25 e os 35 anos e que é transmitida por via genética. Os primeiros sintomas são constantes formigueiros nos pés e uma perda de sensibilidade ao frio e ao calor. Esta doença neurológica era inicialmente típica das zonas piscatórias do Norte e Centro portuguesas, mas acabou por ser também identificada noutras regiões litorais do mundo.
Corino de Andrade detectou esta doença ao observar pescadores da zona da Póvoa de Varzim que não sentiam dor quando se cortavam nas cordas dos barcos e se queimavam com os cigarros.
Em 1976, após uma viagem de investigação aos Açores, Corino de Andrade identificou uma outra doença neurológica, a de Machado-Joseph.
Corino de Andrade recebeu várias distinções ao longo da vida, entre as quais o Grau de Grande Oficial de Santiago de Espada (1979), a Grã-Cruz da Ordem de Mérito (1990), o Grande Prémio Fundação Oriente de Ciência e, em 2000, o Prémio Excelência de Uma Vida e Obra da Fundação Glaxo Wellcome.
A morte do investigador levou a Universidade do Porto a colocar bandeiras a meia haste. O ministro da Ciência, Tecnologia e Ensino Superior, Mariano Gago, já enviou as condolências à família de Corino de Andrade.
junho 14, 2005
MATERIAIS SOBRE ÁLVARO CUNHAL

Entre o muito que está a ser publicado sobre Álvaro Cunhal, seguem-se algumas referências a materiais com informações novas e inéditas sobre a sua vida, ou interpretações analíticas originais:
Morreu líder do PCP - Últimos anos de Cunhal, Correio da Manhã, 14/5/2005
"Éramos irmãos de combate" (Entrevista com Dias Lourenço), Jornal de Notícias, 14/5/2005
Atirou-se ao mar para fugir de Peniche. Depois, ajudou Cunhal também a escapar da fortaleza. "Na prisão, tínhamos um lema quem puder fugir, fuja, colectivamente, ainda melhor". Em média, recorda, havia "quatro insucessos por cada êxito, que se pagava sempre muito caro".
Nove "camaradas" acompanharam Cunhal. Dias Lourenço era o elemento de ligação ao GNR que ajudou na fuga. Foi ele quem acalmou o guarda e antecipou a tentativa de escape quando a escala dos militares foi subitamente alterada. Ainda se lembra que nesse dia, à noite, quando chegou a casa de Pires Jorge, que acolheu o antigo líder, Cunhal brincou com ele, dizendo-lhe que "as coisas tinham corrido mal". Gelou e apanhou dos maiores sustos da sua vida, até que Cunhal, "com pena", saiu de dentro do quarto, onde estava escondido.
No 25 de Abril, estava no Hospital Prisional de Caxias. Estava tudo pronto para a segunda fuga. Iria tentar escapar vestido de mulher. Já tinha a roupa, duas perucas para escolher, "seios de algodão e ancas volumosas, até aprendido a andar de saltos altos", quando chegou a notícia da Revolução.
Há dois meses que não via o "amigo" Cunhal. Independentemente da grande dor pela sua perda, garante que não é a sua morte que irá diminuir ou enfraquecer "a luta".
"Era daquelas pessoas superiores" diz Manuel Rodrigues de Almeida, Comércio do Porto, 14/6/2005
Do contacto directo com Cunhal, Francisco Madruga recorda um em particular, ia a década de 80 pelos seus meados. "Era um congresso das juventudes comunistas, em Lisboa. Eu encontrava-me a dirigir a sessão de encerramento e perguntei-lhe se era para ler os nomes de todos os nomes dos eleitos para os diversos órgãos. ´Essas coisas preparam-se na véspera!´, respondeu de pronto". Madruga aprendeu a lição e, claro, leu os nomes todos.
Jorge Sampaio, Álvaro Cunhal, Diário de Notícias, 14/6/2005.
Conheci relativamente bem o Dr. Álvaro Cunhal, pois tive vários contactos e longas reuniões com ele, antes e depois do 25 de Abril. Lembro a reunião, particularmente relevante, que decorreu nos arredores de Paris e que o António Lopes Cardoso organizara. Nela falámos de tudo, da situação nacional e internacional, e também da necessidade de dar à Oposição novas frentes de combate perante um Regime Autoritário que se eternizava. Para situar esta reunião clandestina, devo dizer que quando finalmente chegámos a Paris soubemos, pela imprensa francesa, que Salazar tinha sofrido um grave acidente.
no Diário de Notícias, 14/6/2005

Cunhal, terceiro à esquerda, em foto de grupo na praia de S. Pedro de Muel
Perez Metelo, "Vão-se embora, já saíram todos!" , Diário de Notícias, 14/6/2005
O conflito sino-soviético motivou confrontos políticos e ideológicos tremendos entre comunistas e maoístas dentro do campo antifascista.
Um ódio intenso foi cavando uma rivalidade belicosa entre essas duas correntes políticas. Para os "marxistas-leninistas", os militantes do PCP eram "cunhalistas" ou "revisionistas". Aos olhos destes, os membros dos grupos "m-l" não passavam de "esquerdistas, provocadores".
No Forte de Peniche chegou mesmo a passar-se do insulto verbal a confrontos físicos no início dos anos setenta. Quando lá entrei, em Março de 1974, já os dois colectivos estavam separados em pisos incomunicáveis entre si. Chegada a hora da libertação, os presos do colectivo maoísta recusaram-se a ir saindo sem os camaradas que o general Spínola queria manter encarcerados por terem cometido delitos de sangue. Enquanto decorriam as negociações com advogados para resolver o impasse, os presos do PCP foram saindo ao longo da tarde e da noite de 26 de Abril.
Quando, finalmente, todos os presos maoístas passaram o portão exterior do Forte às três da manhã de dia 27, qual não foi o espanto quando ouvimos da boca das nossas famílias o que se passara horas antes. Ao completar a libertação dos seus presos, quadros do PCP disseram aos populares de Peniche, concentrados à saída da prisão, para irem para casa, pois lá dentro já não estava mais ninguém.
O sectarismo cego e obtuso tomou o freio nos dentes ao longo dos meses seguintes, mas veio logo ao de cima quando a liberdade dava os primeiros passos.
António Perez Metelo
Torcato Sepúlveda, A ficção de Cunhal/Tiago entre a lucidez e a missa ideológica, Público, 14/6/2005
Adelino Gomes, "CHAMAR-TE ESSE NOME SÓ NOSSO, CAMARADA", Público, 14/6/2005
Margarida, 84 anos, foi das primeiras. Está ainda sentada, um cravo vermelho na mão, na outra a bengala. Quer falar com alguém "da velha guarda". Mas estão todos para o enterro de Vasco Gonçalves.
Não é comunista. Às vezes vota PS. Da última vez, fê-lo no Bloco de Esquerda. Não veio, portanto, por si. Mas pelo marido, velho historiador antifascista, 15 anos de exílio, e o regresso à pátria no mesmo avião de Cunhal. Lembra-se bem. Dos dois "chochos" que lhe espetou na cara, no aeroporto Charles de Gaulle. Da mudança súbita de voo da Tap, de manhã, para um Air France, à tarde, para que Cunhal não fizesse todo aquele Paris-Lisboa "no mesmo avião em que estava previsto que viessem uns radicais" (José Mário Branco, entre outros), e assim se evitassem "complicações".
É em nome do marido, o historiador Joaquim Barradas de Carvalho, falecido no início da década de 80 e ele sim, comunista, que Margarida deixa no livro a recordação daquele dia 30 de Abril de 1974, em que viajou no mesmo avião da Air France, do exílio em Paris para Lisboa, onde o regime, enfim, caíra. Uma evocação que, coincidências que vá lá a gente perceber, não fica longe destoutra de Maria, "funcionária da TAP", que naquela mesma hora do regresso de há trinta anos o esperava "para lhe prestar assistência", no aeroporto da Portela. "Simples simpatizante", nesse tempo, ela aqui está agora a escrever-lhe "obrigada por tantos sonhos".
(...)
Margarida Tengarrinha, que veio do Algarve "porque não podia deixar de vir". Por causa de Vasco Gonçalves, "revolucionário, corajoso, lúcido, mas acima de tudo um homem puro".
E, claro, "por causa do Álvaro", a quem entreviu, pela primeira vez, "quando foi do julgamento de 1949, na Boa-Hora". E a quem passou a conhecer quando em 1960, o já então "herói mártir", acabado de fugir de Peniche, se apresentou ("louro, parecia um inglês"), na sua casa de Linda-a-Velha (Margarida era casada com o pintor José Dias Coelho, mais tarde assassinado pela PIDE), a pedir que lhe arranjassem um bilhete de identidade falso e, um ano mais tarde, um passaporte falso para abandonar o país.
Aurélio Santos, 74 anos, esteve com Margarida e reunia-se regularmente com Álvaro Cunhal em Bucareste, nos tempos da Rádio Portugal Livre. Hoje na Comissão Central de Controlo, integrou a partir de 1965 o Comité Central do partido. De regresso a Portugal, foi seu chefe de gabinete no imediato 25 de Abril, ficando impressionado com a "visão de estadista que ele demonstrou".
Rejeita com veemência a ideia de que amanhã se assistirá ao enterro de um líder derrotado. "Basta lembrar o programa do partido para a revolução democrática, aprovado no 6.º congresso, em 1965", argumenta, sustentando que praticamente tudo estava cumprido em 1976. Revolução socialista? "As revoluções raramente se fazem numa única tirada", responde, depois de citar os "períodos de avanços silenciosos" de Gramsci. "Estamos numa grande crise de civilização. Ao contrário do que se pensa, o salazarismo só caiu quando o modelo se revelou incapaz."
(...)
Na sala onde está o livro de condolências, por detrás da máquina onde se compram as senhas para o bar, Teodósia Gregório não quer falar. Talvez porque é tão grande a história que a liga à história. Essa, de um homem e de um partido, que ali mesmo, na vitrina em frente, se resume, no epitáfio do comité central, naqueles desenhos de prisão; naqueles livros; naqueles discursos de Cunhal, que sorri numa foto de há uns 20 anos, a bolsa apertada ao peito feito, por debaixo da camisa aberta.
"Abri esta sede, abri a Escola do Partido, fiz tudo aquilo de que fui capaz de fazer para o partido", diz Teodósia. Falou de jacto e parece que nada mais lhe sai, quando lhe perguntamos a data em que viu pela última vez Cunhal, a imagem que dele guarda. Entrou no partido aos 19, isto é, há 51 anos; pouco depois o marido, Afonso Gregório, é preso. "É complicado", diz. "É complicado explicar."
Ana Sá Lopes, "O ÁLVARO PARA NÓS É UM PAI", Público, 14/6/2005
Dina Góis é proprietária, com a mãe e o irmão, do café do Virgílio. É militante do PCP desde 1977 (tinha 14 anos) e amiga de Fernanda Barroso, mulher de Álvaro Cunhal e funcionária do PCP. Telefonou a Fernanda: "Que podemos nós fazer? Não te podemos largar nesta altura, temos que estar ao pé de ti". "Vamos ao funeral manifestar o nosso pesar o carinho por ela. Ela fica cá!" A diferença de idades entre Fernanda e Álvaro era imensa (Cunhal morreu com 91 anos, Fernanda Barroso não tem ainda 60), e Dina recorda ter havido sempre "muito amor entre os dois". "Há 30 anos que estão juntos. Ela vai sentir muito a falta dele, aquilo sempre foi "meu amor para aqui, meu amor para ali"". Maria José diz que ainda não está "bem mentalizada": "Estou a pensar que é um sonho." Dina Góis é realista: "A vida é assim. É a coisa mais natural da vida, a morte. É essa a realidade, é nisso que temos de pensar". Dina ainda esteve em casa de Álvaro Cunhal a 22 de Dezembro: "Fui lá mais uma camarada do Centro Vitória, que trabalha com a Fernanda. Ele já estava muito debilitado, mas mantinha a consciência. Já quase não andava, mas mantinha a lucidez".
junho 13, 2005
MORTE DE ÁLVARO CUNHAL (1913-2005)

Perfil de Álvaro Cunhal no Público, 13/6/2005.
Perfil de Álvaro Cunhal
Álvaro Barreirinhas Cunhal, nascido em Coimbra, em 10 de Novembro de 1913, hoje falecido aos 91 anos, morreu comunista como resolveu sê-lo aos 17 anos.
A sua vida confunde-se com a do Partido Comunista Português, para o qual foi sempre uma referência, mesmo depois de ter cedido a sua cadeira de secretário-geral, em Dezembro de 1992.
O pai de Álvaro, Avelino Cunhal, era advogado de província tendo chegado a governador civil da Guarda.Fez a primária em casa, mas aos 11 anos, a família mudou- se para Lisboa, tendo estudado nos liceus Pedro Nunes e Camões.
Em 1931, com 17 anos, ingressou na Faculdade de Direito de Lisboa e, eleito representante dos estudantes de Lisboa no Senado Universitário, a sua primeira proposta foi acabar com a Mocidade Portuguesa.
No mesmo ano filiou-se no PCP, entrou para a Liga dos Amigos da URSS e do Socorro Vermelho Internacional e depressa subiu os degraus da organização do partido.
Em 1935 já era secretário-geral das Juventudes Comunistas e no ano seguinte entrava para o Comité Central, que o enviou a Espanha, onde viveu os primeiros meses da guerra civil, uma experiência que o inspirou para o seu romance "A Casa de Eulália".
Aos 24 anos, em 1937, sofre a primeira prisão, no Aljube e Peniche.
Por questões políticas foi obrigado ao serviço militar (início de Dezembro de 1939) na Companhia Disciplinar de Penamacor, mas por motivos de saúde, a junta militar dispensou-o pouco depois.
Em Maio de 1940 foi novamente preso.
Estudou na cela e foi à Faculdade, sob escolta policial, defender a sua tese (100 páginas, confiscadas depois pela PIDE) sobre a realidade social do aborto e a sua despenalização.
Os examinadores Paulo Pita e Cunha, Cavaleiro Ferreira e Marcelo Caetano (que vieram a integrar o consulado de Salazar) deram-lhe 19 valores.
Em 1941, trabalhou como regente de estudos no Colégio Moderno, a convite de João Soares e chegou a dar explicações a Mário Soares, mas, no final do ano, passa à clandestinidade.
Até 1947 conseguiu pôr de pé o partido, restabelecer as relações com a Internacional Comunista (interrompidas em 1938) e ganhou todos os "desvios internos", sendo mesmo o responsável pelo relatório político apresentado no II e IV Congressos.
Preso de novo pela PIDE em 1949, no ano seguinte é levado a julgamento e é condenado a quatro anos de prisão maior celular, seguida de oito anos de degredo.
Na prisão escreve e desenha. Esteve mais de oito anos isolado numa cela.
"Quando se tem um ideal o mundo é grande em qualquer parte", lembraria mais tarde.
A 03 de Janeiro de 1960 foge, com outros camaradas, do Forte de Peniche, uma fuga espectacular e novo período de clandestinidade.
No ano seguinte é eleito secretário-geral (cargo vago desde 1942).
E, mesmo vivendo no exílio, entrou e saiu várias vezes do País e consegue publicar em 1964 o "Rumo à Vitória", cujas teses ainda perduram no núcleo duro do PCP.
Cinco dias após o 25 de Abril de 1974, Cunhal regressou a Lisboa, vindo de Paris, para a 15 de Maio tomar posse como ministro sem pasta no governo provisório.
Entre 1975 e 1992 foi deputado à Assembleia da República, mas só por curtos períodos ocupou o lugar na sua bancada.
Em 1982, torna-se membro do Conselho de Estado, cargo que abandonou em 1992, ano em que cedeu liderança do PCP a Carlos Carvalhas, para passar a presidente nacional do Conselho Nacional do partido, um cargo criado à sua medida e extinto anos depois.
Passou incólume aos desaires internos: o "grupo dos seis" e a "terceira via" em 1986; em 88 o caso Zita Seabra, que acaba por ser expulsa dois anos depois.
Foi operado a um aneurisma da aorta, em 1989, em Moscovo.
Quando regressa a Portugal, o partido sofre sucessivos contratempos: o grupo do INES e a "quarta via", a queda do muro de Berlim e a "perestroika".
Livre das luzes da ribalta partidária, nem por isso deixou de influenciar os destinos dos comunistas portugueses, embora tenha assumido claramente apenas a sua condição de romancista e esteta.
Os seus contactos com jovens multiplicaram-se, mas tiveram de passar 28 anos sobre o 25 de Abril para Cunhal ser convidado a falar na Universidade Católica (1997), onde surpreendeu todos ao dizer que Jesus Cristo se sentiria mais próximo dos comunistas.
Com obras publicadas como ideólogo do marxismo-leninismo (entre as quais "Rumo à Vitória" e "Partido com Paredes de Vidro"), só em 1995 reconheceu publicamente ser ele o Manuel Tiago da ficção literária "Até amanhã Camaradas", "Cinco Dias e Cinco Noites", "Estrela de Seis Pontas" e "A Casa de Eulália" e o António Vale que assinava temas plásticos e fazia desenhos como as suas célebres ceifeiras.
Após a aprovação no Comité Central do "Novo Impulso", um documento que em 1998 imprimia um sentido renovador às linhas de orientação do partido para os anos seguintes, Álvaro Cunhal fez uma ronda de sessões de esclarecimento pelo país, alertando contra as "tendências de social-democratização" no PCP.
Dois anos depois, e por motivos de saúde, Cunhal faltou pela primeira vez à Festa do Avante e pela mesma razão ao XVI Congresso do PCP.
Mesmo ausente, marcou os trabalhos, ao enviar um documento em que reafirmava a actualidade do marxismo-leninismo.
Nos últimos anos esteve sempre afastado da cena política devido à sua avançada idade e ao seu estado de saúde.
Em Novembro último, voltou a enviar uma nova mensagem ao XVII Congresso, também saudada de pé pelos militantes.
Álvaro Cunhal teve uma filha única, Ana (a mãe foi a sua companheira de exílio Isaura Dias) embora a mulher dos seus últimos anos fosse Fernanda Barroso.
maio 30, 2005
HOMENAGEM AO GENERAL SOUSA DIAS NA GUARDA
Guarda: General Sousa Dias vai ser homenageado - Iniciativa marcada para Setembro
A «Associação Cívica Adalberto Gastão Sousa Dias» que vai ser criada na cidade Guarda, por iniciativa de várias personalidades locais e nacionais, vai homenagear o general, falecido em 1934 no Mindelo, em Cabo Verde. Em 2004 o general foi alvo de uma primeira homenagem, que contou com a participação do ex-Presidente da República, Mário Soares.
Segundo apurou a KA, a novel colectividade que integra nomes como José Domingos, António Arnault, Alípio de Melo e os generais Vasco Lourenço e Monteiro Valente, surge com o objectivo de prestar “a verdadeira homenagem” ao general Sousa Dias, que faleceu em Cabo Verde, mas cujo corpo foi secretamente transladado para um jazigo do Cemitério da Guarda.
José Domingos, um dos fundadores da associação explica que a colectividade vai ter duas vertentes distintas. “Uma componente cultural, que visa criar um espaço de debate cívico que queremos fazer entre o passado e o presente e cimentar o espírito democrático em Portugal e na Guarda. A outra vertente é cívica e tem por objectivo não deixar esquecer os feitos da democracia e de quem lutou por ela, como foi o caso de Adalberto Gastão Sousa Dias”.
O primeiro propósito da associação vai ser homenagear Sousa Dias. A iniciativa está marcada para Setembro e consiste na colocação de um monumento, da autoria do escultor Octávio Gonçalves, junto da casa onde viveu, no Bairro do Bonfim, na cidade da Guarda.
“Vai ser um monumento monolítico de granito, vindo dos Fóios (Sabugal), que vai ser impregnado em bronze, com uma simbologia evocativa do general, prestando devidamente a homenagem a que ele tem direito por justiça e mérito, pela luta que fez em nome da democracia, contra a ditadura”, explicou José Domingos.
Recorde-se que ao general Sousa Dias já foi prestada uma primeira homenagem por ocasião da passagem dos 30 anos após o 25 de Abril. No ano passado a Escola Superior de Educação da Guarda (ESEG) promoveu uma jornada de dia inteiro que incluiu uma conferência com o antigo Presidente da República, Mário Soares.
A propósito da iniciativa realizada em 2004, Joaquim Brigas, o director da ESEG, afirmou: “De todas as iniciativas que foram levadas a cabo ao longo deste ano, a mais relevante foi, sem dúvida, a homenagem prestada ao general Sousa Dias, no âmbito do ciclo de debates dos 30 anos do 25 de Abril. Não apenas pelo prestígio que este guardense granjeou dentro e fora de fronteiras, na sua luta pela liberdade, e contra a repressão salazarista. Mas também porque, para invocar e analisar o percurso desta insigne figura, vieram à nossa escola uma plêiade de notáveis cidadãos, com destaque muito especial para o ex-Presidente da República, dr. Mário Soares”.
”A lição que Mário Soares deixou na ESEG, traçando o percurso, a obra e o homem que foi o general Sousa Dias ficará para a história desta instituição. Sobretudo porque Mário Soares não se limitou a reavivar a memória escrita daquele general. Mas antes porque o ex-Presidente da República revelou um conjunto de factos da carreira de Sousa Dias que, sendo desconhecidos da maioria dos cidadãos portugueses, remetem aquele combatente pela liberdade para o lugar dos injustiçados da Pátria.
Um homem bom, um livre pensador, solidário e justo, enfim, alguém que se bateu pelos ideais da construção de um homem novo, e um mundo mais fraterno”, sustentou também Joaquim Brigas.
maio 28, 2005
MORTE DE HARILAOS FLORAKIS

Former Greek communist party leader dies
Trancrição da notícia necrológica no Avante!, 25/5/2005
Morreu Harilaos Florakis
O presidente honorário do Partido Comunista Grego (PCG), Harilaos Florakis, morreu a 22 de Maio, com 91 anos.
O corpo do destacado dirigente comunista esteve em câmara ardente na sede do PCG em Perissos, nos dias 24 e 25 de Maio, onde camaradas e amigos lhe prestaram pública homenagem. O enterro tem lugar amanhã, em Paliozoglopi, no município de Itamos em Salónica, sua região natal.
Nascido a 20 de Julho de 1914, Harilaos Florakis tornou-se militante da Federação da Juventude Comunista da Grécia em 1929. Em 1941 entrou para o PCG, em cuja reconstrução participou activamente, destacando-se na luta contra a ditadura e a ocupação. Membro da Frente Nacional de Libertação desde a sua formação, bem como do Exército Popular de Libertação Nacional (ELAS), Harilaos Florakis adoptou o nome de guerra de «capitão Yiotis».
Em 1949 foi eleito membro do Comité Central do PCG. Perseguido, preso e exilado num total de 18 anos, 12 dos quais com sentença de prisão perpétua e seis de exílio, Harilaos Florakis protagonizou alguns julgamentos célebres, como o conhecido «Grande Julgamento» de Maio de 1960, no Tribunal Marcial de Atenas.
Nada quebrou a sua resistência. Em 1972 é eleito primeiro secretário do CC do PCG, cargo que ocupou até 1989. Com o fim da ditadura militar na Grécia, o contributo patriótico de Harilaos Florakis veio a ser reconhecido, tendo recebido, entre outras distinções, a Medalha de Honra do ELAS e a Medalha de Mérito Militar do Exército Democrático da Grécia.
Em mensagem de condolências ao PCG, o Secretariado do CC do PCP manifestou a sua grande consternação pelo desaparecimento do «histórico dirigente» e «destacada figura da luta dos comunistas e do povo grego pela liberdade, a democracia e a soberania» da Grécia.
Com a morte de Harilaos Florakis, sublinha o PCP, não apenas os comunistas e os patriotas gregos perdem uma importante personalidade, mas também «o movimento comunista em todo o mundo».
