Secção: Biografias / Vidas
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dezembro 18, 2005

COMEMORAÇÕES DO CENTENÁRIO DE FERNANDO LOPES-GRAÇA

"Da música à dança nos 100 anos de Fernando Lopes-Graça", no Público.


Teatro, dança, documentários, edição de partituras e livros nas comemorações. São muitas as propostas

Os cem anos do nascimento do compositor Fernando Lopes-Graça, que se cumprem a 17 de Dezembro de 2006, vão ser comemorados ao longo do próximo ano com iniciativas que se estendem às mais variadas áreas, desde a música ao teatro e à dança.
"Uma grande diversidade que se destina a responder à dimensão plural e multifacetada de Lopes-Graça", disse ontem a ministra da Cultura, Isabel Pires de Lima, na sessão de apresentação à imprensa do programa de comemorações, onde esteve também o ministro dos Assuntos Parlamentares, Augusto Santos Silva, e o secretário de Estado da Cultura. Mário Vieira de Carvalho qualificou Lopes-Graça como "uma figura nacional que marcou o século XX".
No programa, a música tem um papel preponderante. O Teatro São Carlos, em colaboração com a Orquestra Sinfónica Portuguesa, realiza cerca de uma dezena de concertos com a obra de Lopes-Graça, destacando-se o concerto de 22 de Julho (Concertino para piano, cordas, metais e percussão e Poema de Dezembro) e 12 de Outubro, que contará com os solistas Ana Bela Chaves (viola) e Salvatore Accardo (violino).
A Casa da Música também se associa às comemorações, com a Orquestra Nacional do Porto a dedicar-lhe o concerto do Dia Mundial da Música (1 Outubro), onde se inclui a primeira audição mundial de Prelúdio, Pastoral e Dança. Em Dezembro, dias 16 e 17, realiza-se a Maratona Lopes-Graça, em que participará o pianista António Rosado com Integral de Sonatas para Piano.
A Companhia Nacional de Bailado vai criar uma produção baseada em obras musicais de Lopes-Graça destinadas à dança para apresentar no início de 2007. Na Comuna, João Mota encenará a peça Lopes-Graça e Amigos, com texto de António Torrado.
A produção de um documentário sobre o compositor pela RTP e a edição de oito CD a partir de 300 registos fonográficos encontrados nos arquivos sonoros da RDP são outras das iniciativas agendadas. Augusto Santos Silva (ministro responsável pelo serviço público de rádio e televisão) referiu que as pesquisas efectuadas para o centenário serviram para "valorizar e preservar o riquíssimo manancial que tem a RDP", "mais um passo na constituição do arquivo fonográfico português".
A nível editorial, o Ministério da Cultura vai publicar algumas partituras do compositor, uma vez que muitas delas ainda estão em manuscrito, o que dificulta a interpretação das obras. A edição de uma fotobiografia é outro dos projectos, assim como de volumes da sua correspondência, nomeadamente com o poeta João José Cochofel. A Editorial Caminho está a preparar In Memoriam, uma biografia do compositor com depoimentos de gente que o conheceu e a Cosmos vai compilar textos de Lopes-Graça no livro Reflexões sobre Música.
A inauguração em Abril de um site destinado a divulgar a vida e obra de Fernando Lopes-Graça, que integrará uma rádio on-line onde será possível ouvir a obra gravada é outra das propostas, estando também prevista uma exposição itinerante com vários painéis ilustrativos do seu papel na vida cultural do país. Há ainda iniciativas em Tomar (onde nasceu), Matosinhos e Cascais.
Compositor, maestro e pianista (estudou com Tomás Borba e Vianna da Motta), Lopes-Graça teve vasta produção literária, filosófica e política, tendo publicado ensaios de crítica musical, teatral e de bailado em vários periódicos, como a revista Seara Nova ou o jornal O Diabo. Textos que denotavam a sua militância na oposição ao Estado Novo, contra quem fundou em 1928 o jornal A Acção, em Tomar. Por causa das suas posições, a sua música esteve vários anos interdita e só pôde voltar a ser ouvida no Teatro São Carlos na década de 70. Lopes-Graça morre a 27 de Novembro de 1994 na Parede, Cascais.

Entre a vontade e a timidez
Manuel Pedro Ferreira

O programa comemorativo do centenário de Fernando Lopes-Graça, hoje anunciado pelo Ministério da Cultura, tem muito de bom, sobretudo no plano das intenções, e muito de insuficiente, sobretudo no envolvimento das instituições tuteladas pelo Estado - precisamente um dos aspectos que parece ter merecido mais esforço por parte dos governantes.
A televisão pública limita-se a prometer um documentário e um "ciclo temático", quando tem em seu poder importantes gravações históricas e toda a série de programas sobre música rural portuguesa em que Lopes-Graça, com Michel Giacometti, devolveu à consciência nacional o seu património musical de tradição oral. Não basta mandar a Antena 2 organizar concertos; deve ser a RTP a dar a conhecer a música, especialmente a portuguesa, como em tempos já fez. O centenário de Lopes-Graça poderia ser a ocasião da retoma desta vertente do serviço público; mas tudo indica que tudo ficará na mesma como a lesma.
Na Casa da Música, a Orquestra Nacional do Porto investe com dignidade nas partituras do homenageado, mas o Remix Ensemble, ou por desconhecimento do valor e da extensão da sua obra de câmara, ou por pruridos relativamente ao conservadorismo da sua escrita, evita comprometer-se com mais do que a inclusão de algumas peças. No Teatro Nacional de São Carlos a Orquestra Sinfónica Portuguesa é envolvida nas comemorações, mas não se prevê participação do Coro (excepto no requiem), nem algo que possa vagamente atrapalhar a programação de ópera (de onde continuam ausentes os compositores portugueses contemporâneos).
A Biblioteca Nacional faz a sua obrigação, com uma mostra documental. Do Centro Cultural de Belém não se ouve nem falar. Ao Instituto das Artes é reservado um papel central, mas a maior parte das iniciativas anunciadas parecem estar numa fase preliminar, e o envolvimento de entidades externas em edições de textos, partituras ou discos aparece com contornos demasiado indefinidos. Sobretudo, desejar-se-ia que o plano das comemorações fosse a face visível de uma estratégia cultural sustentada de divulgação da arte musical e dos seus criadores nacionais, e não uma bolha que rebenta, sem deixar por rasto mais que uma aguadilha. Cabe ao ministério provar, ao longo de 2006, que é nessa estratégia que está empenhado, e não numa episódica homenagem. Afinal seria isso que Lopes-Graça teria desejado.

Publicado por José Pacheco Pereira em 12:32 AM | Comentários (0) | TrackBack

dezembro 04, 2005

CENTENÁRIO DO NASCIMENTO DE RUY LUIS GOMES

Inicia-se amanhã um colóquio dedicado ao centenário de Ruy Luis Gomes (programa em anexo). A pretexto do centenário todo um vasto conjunto de inciativas tem vindo a ser desenvolvido, incluindo a realização de vários sítios na rede dedicados ao matemático, cientista e político:

- Ruy Luis Gomes

- Um blogue de Jorge Rezende, Ruy Luis Gomes, com vastíssima documentação e fotografias, de quem também está disponível um artigo no Militante, Ruy Luís Gomes, cientista e revolucionário.

Programa - Manhã

* 10h00: Abertura
* 10h10: Intervenção de um representante do Ministério da Ciência, Tecnologia e Ensino Superior
* 10h20: Ruy Luís Gomes - Um testemunho pessoal
Manuel Leite Arala Chaves (Universidade do Porto e Associação Atractor)
* 10h50: Pausa
* 11h05: Ruy Luís Gomes - Um percurso político: ideias e práticas
José Pacheco Pereira (ISCTE)
* 11h50: Ruy Luís Gomes e a génese da Sociedade Portuguesa de Matemática
Nuno Crato (Sociedade Portuguesa de Matemática e ISEG)
* 12h10: Apresentação de livros:
Fotobiografia de Ruy Luís Gomes (coord. de Natália Bebiano)
Reedição de textos de Ruy Luís Gomes sobre Relatividade


Programa - Tarde

* 14h30: Ruy Luís Gomes e a Física-Matemática em Portugal
Augusto Fitas (Universidade de Évora)
* 15h00: Reflexões sobre as perspectivas da Física-Matemática em Portugal
José Mourão (Instituto Superior Técnico)
* 15h30: Ruy Luís Gomes, vida e obra
Natália Bebiano (Universidade de Coimbra)
* 16h00: Pausa
* 16h15: Ruy Luís Gomes e a Matemática na Argentina
Eduardo Ortiz (Imperial College)
* 16h45: Ruy Luís Gomes e a Matemática no Brasil
Fernando Cardoso (Universidade Federal de Pernambuco)
* 17h15: Pausa
* 17h30: Debate: A prática da Ciência num país periférico, moderado por Luís Saraiva (Universidade de Lisboa) e com a participação de:
o Augusto Fitas (Universidade de Évora)
o Natália Bebiano (Universidade de Coimbra)
o José Mourão (Instituto Superior Técnico)
o Eduardo Seabra Lage (Universidade do Porto)

Publicado por José Pacheco Pereira em 06:54 PM | Comentários (0) | TrackBack

dezembro 03, 2005

SELO COMEMORATIVO DE ÁLVARO CUNHAL

CUNHALSELO2.jpg

Publicado por José Pacheco Pereira em 10:17 PM | Comentários (11) | TrackBack

outubro 17, 2005

ATILANO JORGE DOS REIS AMBRÓSIO "JORGE REIS" (1926-2005)

Passou desapercebida a morte em Paris, para onde foi fugido da PIDE em 1949 e depois ficou a viver, de Atilano dos Reis Ambrósio, mais conhecido por "Jorge Reis". Natural de Vila Franca de Xira, militante do PCP, funcionário, com participação nas greves de 1944, exilou-se em França onde constituiu família. "Jorge Reis" foi escritor (autor de Matai-vos Uns aos Outros, 1961) e tornou-se a célebre voz das "Actualidades Francesas", documentários que passavam no cinema antes dos filmes principais. O seu trabalho junto dos emigrantes tornou-o muito conhecido em França.

Algumas publicações de Jorge Reis:

Matai-vos uns aos outros!, pref. de Aquilino Ribeiro. Lisboa, Prelo, 1961

Aquilino em Paris, Lisboa, Vega, 1988

A memória resguardada, Paris, Lusophone, 1990

Sobre Jorge Reis:

Jorge Reis. Vida e Obra, V. F. Xira, C. M. V. F. Xira, 1995

jreis.jpg
(Agradeço a António Garcia as informações enviadas.)
Publicado por José Pacheco Pereira em 10:56 AM | Comentários (0) | TrackBack

setembro 20, 2005

MORTE DE VASCO CABRAL (1926-2005)

vascocabral.JPG

Faleceu, no dia 24 de Agosto em Bissau, Vasco Cabral (nenhum parentesco com Amílcar Cabral), um dos mais importantes dirigentes históricos do PAIGC. Vasco Cabral foi membro do PCP, muito activo na oposição desde a campanha de Norton em 1949, e nos movimentos da "paz" e outras organizações filosoviéticas dos anos cinquenta. Participou em vários encontros internacionais como no Congresso dos Povos em Defesa da Paz (Viena, 1952), Congresso Mundial da Juventude e no IV Festival Mundial da Juventude e dos Estudantes (Bucareste, 1953). Foi preso em 1954, no regresso de uma destas reuniões, e libertado, cinco anos depois, em 1959. Em 1961 passa à clandestinidade e, em 1962, foge de barco junto com Agostinho Neto, para Tanger numa fuga organizada pelo PCP. A partir desta data a sua biografia está ligada ao grupo dirigente do PAIGC.

Transcreve-se a seguir uma notícia necrológica publicada no Pravda de autoria de Luis Carvalho.

FALECEU VASCO CABRAL

Vasco Cabral faleceu em Bissau, no passado dia 24 de Agosto. Tinha 79 anos de idade.

Estudou em Portugal. Onde se formou em Ciências Económicas e Financeiras pela Universidade Técnica de Lisboa. Onde foi militante do MUD juvenil, movimento unitário de oposição à ditadura fascista, fortemente influenciado pelo PCP. E onde foi preso político, no Aljube e em Caxias.

Na guerra contra o retrógado império colonial que a ditadura fascista portuguesa insistia em tentar manter, Vasco Cabral tornou-se um dos principais dirigentes do Partido Africano pela Independência de Guiné Bissau e Cabo Verde (PAIGC) e foi comandante político da guerrilha de libertação nacional.


Foi um próximo companheiro de armas de Amilcar Cabral, líder da luta pela independência da Guiné Bissau e de Cabo Verde - com quem não tinha nenhum laço familiar, ao contrário do que sugere o facto de terem um apelido idêntico.


Com a independência da Guiné Bissau, desempenhou funções no Governo (ministro da Economia e Finanças, coordenador de Economia e Planeamento, ministro de Estado da Justiça e membro do Conselho de Estado). Foi vice-Presidente da República e fundador da União Nacional de Escritores da Guiné-Bissau.


PCP enviou condolências

O Partido Comunista Português enviou ao PAIGC uma mensagem de condolências pelo falecimento de Vasco Cabral, homenageando-o como "combatente anticolonialista e antifascista desde muito jovem e figura destacada da luta do povo guineense pela conquista da independência e edificação da República da Guiné Bissau".

Um poema de Vasco Cabral:


O ÚLTIMO ADEUS DUM COMBATENTE


Naquela tarde em que eu parti e tu ficaste

sentimos, fundo, os dois a mágoa da saudade.

Por ver-te as lágrimas sangraram de verdade

sofri na alma um amargor quando choraste.


Ao despedir-me eu trouxe a dor que tu levaste1

Nem só teu amor me traz a felicidade.

Quando parti foi por amar a Humanidade.

Sim! Foi por isso que eu parti e tu ficaste!


Mas se pensares que eu não parti e a mim te deste

será a dor e a tristeza de perder-me

unicamente um pesadelo que tiveste.


Mas se jamais do teu amor posso esquecer-me

e se fui eu aquele a quem tu mais quiseste

que eu conserve em ti a esperança de rever-me!

Publicado por José Pacheco Pereira em 11:23 AM | Comentários (2) | TrackBack

agosto 03, 2005

ACTUALIZAÇÃO DOS DADOS CRONOLÓGICOS SOBRE JOSÉ DIAS COELHO

Complementadas algumas informações cronológicas em Júlia Coutinho - JOSÉ DIAS COELHO - BREVE CRONOLOGIA PESSOAL E AFLUENTES.

Publicado por José Pacheco Pereira em 03:47 PM | Comentários (0) | TrackBack

julho 30, 2005

António Jacinto Pascoal - ÁLVARO CID: UM HERÓI DISCRETO DE MONFORTE

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Álvaro José da Trindade Cid (1903-1976) nasceu em Monforte e tem um trajecto existencial de inegável importância, dado o seu carácter intrinsecamente contestatário, num tempo em que ser anti-fascista era salvo-conduto para a anulação pessoal. Como as pessoas comuns, que não adquirem estatuto visível no domínio do grande público, Álvaro Cid atravessa a história do século XX, em Portugal, sem que se dê por ele, mas fica a sua indelével marca na vida sócio-política da vila de Monforte. Como sempre, para além dos grandes mitos e dos «heróis» consensuais, a história é feita de pessoas iguais ao comum dos mortais, decisivas, contudo, para o processo dessa mesma história.

Álvaro Cid continua a ocupar uma posição obscura na história do antifascismo português, até pelos poucos registos que nos são dados conhecer. Não sabemos se foi membro do Partido Comunista Português, embora tenha sido perseguido pela PIDE/DGS por esse motivo; sabemos, contudo, que esteve sempre longe de ser conotado com o situacionismo e que pugnou pelos direitos dos trabalhadores, que, reconhecidos, o levaram em ombros até à sua morada final, numa urna coberta pela bandeira do PCP.

Álvaro Cid nasceu num dia 3 de Dezembro de 1903, filho do comerciante José Maria Cid, um antifascista de raiz republicana, e de Rosa Emília da Trindade Cid. O pai fora Presidente da Câmara Municipal de Monforte e, em sua casa, chegou a promover actividade política, destacando-se o comício de apoio ao Dr. Arlindo Vicente, feito no quintal, com os oradores instalados na varanda. O carácter antifascista do pai, a sua própria admissão na C.M. de Monforte como funcionário e a sua posterior expulsão, por motivos políticos, moldaram o seu temperamento e instigaram-lhe a vontade de pugnar pelo estado democrático, o que lhe valeu ter tido adversários políticos e perseguições várias.

Casado e com quatro filhos, Álvaro trabalhava no Assumar, na «Casa Vaquinhas», pertença de Francisco José Vaquinhas, homem de grande dignidade e respeitador dos direitos dos trabalhadores, reconhecendo no seu empregado uma figura de elevado valor. Na altura, Álvaro integrava as fileiras das instalações fabris, onde se produzia gasogénio e «brikets». No Assumar, um Professor Primário (JVTT), representante da União Nacional, ter-se-á apercebido das tendências políticas de Álvaro e chegou a agredi-lo, ameaçando-o de o «dar como comunista». No dia seguinte, foi preso. Estávamos nos finais dos anos 30, por alturas do Natal e isso repercutiu-se negativamente na casa de Álvaro. Ao Professor Primário valeu-lhe passar a ser alcunhado publicamente de «o canalha». Já depois deste incidente, «o canalha» voltou a perseguir várias vezes Álvaro, com difamações e perjúrios, quase sempre por alturas de eleições ou do 1º de Maio. Álvaro era já um agitador político, que reunia em casa o Coronel Velez Caroço, o Dr. Manuel Portilheiro e o Dr. Florindo Madeira, todos conotados com a oposição. Aliás, o Dr. Florindo Madeira estudara em Coimbra com Álvaro Cid, sendo correligionários. A este propósito, diga-se que Álvaro Cid, por razões pouco claras, não terminou o antigo 7º ano (actual 11º), tendo estudado em Coimbra e Lisboa, onde contactou com grupos da oposição salazarista.

Entre os anos 30 e 40, fez propaganda política nos concelhos de Arronches, Monforte e Campo Maior, de mota, que comprou para o efeito, altura em que distribuía clandestinamente o jornal Avante!. Chegou, inclusive a ser um amigo íntimo de Álvaro Cunhal, que recebeu mais do que uma vez, em sua casa, em Monforte. Mais tarde tornou-se viajante, ao serviço da Casa João Camillo Alves, em negócios de distribuição de vinhos.

Das várias vezes que foi preso, recorda-se um caso em que, desprevenido, já dentro do jeep da GNR, metia à boca o retrato de Lenine e o comia, para não sofrer represálias maiores; chegado a Alter do Chão, simulou uma dor intestinal e despachou o ícone revolucionário, que lhe poderia valer uma entrada na «frigideira» do Tarrafal. Quando foi detido pela última vez, em 1951, residia já em Évora e era funcionário da Casa Camillo Alves: os dois elementos da PIDE, Silva e Candeias, deram-lhe voz de prisão, ao que Álvaro retorquiu que na sua consciência nada lhe pesava, querendo saber o motivo da detenção. Tendo o Sr. Candeias dito que o motivo era político, Álvaro não hesitou e respondeu «Estou ao vosso inteiro dispor. Se me permitirem, vou-me despedir de minha mulher e de meus filhos». Ouviram-se-lhe ainda estas palavras: «Coragem, Maria! Coragem, rapazes! O pai voltará!». Seguiu para o Aljube, sendo quase todos os dias interrogado na António Maria Cardoso (com sevícias brutais: colocado sobre bancos de cozinha, encandeado por lâmpadas de 500 velas, espancado e com os dedos esmagados, ao som das gargalhadas dos algozes). Depois foi transferido para Caxias, onde só a mulher o podia visitar. Foi numa das celas que fez o célebre dominó: um dominó com dezenas de peças, construído com miolo de pão e que faz hoje parte do espólio museológico da C.M. de Monforte. Durante os 14 meses de cativeiro, o viajante substituto entregava à mulher de Cid o respectivo ordenado, para não comprometer a casa que lhe dava emprego.

Sabe-se que em 1971, por documento pertença da C.M. de Monforte, a PIDE/ DGS enviara um ofício confidencial ao então Presidente de Câmara, Sr. José Maria Soeiro Romão. Ali se apresentavam os dados de Álvaro e lia-se uma breve nota: «É elemento que professa ideias comunistas. Em, 29 Abr. 1971». Cerca de 3 anos depois, a revolução permite-lhe imaginar que o seu passado não foi em vão e que, em sacrifício do seu bem-estar e do dos seus familiares, a sua dignidade mantinha-se, pois nunca se vergara ao regime salazarista.
Em Maio de 1974 torna-se Presidente da Comissão Administrativa e foi no exercício das suas funções que veio a falecer, no Hospital de S. José, em 1976, com 73 anos.

Durante grande parte da sua vida, escreveu artigos para o «A República», «O Século», e para periódicos mais modestos como o «Notícias da Amadora» ou «A Rabeca» de Portalegre. Sabe-se que nunca se tomou de rancores e que tratou os seus inimigos sempre como adversários políticos. Escolheu, porém, o lado da barricada mais difícil. Com isso, não teve os privilégios que poderia ter alcançado, mas alcançou aquele que é o mais caro: a dignidade da consciência.
Chegado de Lisboa, para ser sepultado, os trabalhadores de Monforte retiraram-no do carro onde seguia, carregando-o em ombros. Álvaro Cid não quis cerimónias religiosas. Mas não prescindiu da bandeira comunista sobre a sua urna. Sofreu por delito de opinião e os seus crimes foram apenas as suas crenças. Esteve preso porque pensava doutra maneira, numa sociedade atrasada e periférica que nunca prezou inovações, caracterizada por uma cultura de repressão e exclusão. Álvaro afrontou essa repressão. Desta coragem é feita a massa dos homens desassombrados. Poucos, mas imprescindíveis. Monforte deve reconhecer-lhe o lugar que merece, porque é exemplo para as novas gerações. A escola é o lugar onde o seu nome deve começar a ser estudado e descoberto. Para que não falte nenhuma peça do dominó.

Espanta-nos que a História esteja aqui mesmo a um passo.


Fontes:

Câmara Municipal de Monforte;
Coronel Matos Serra;
Daniel Balbino;
Francisco Cid (filho de Álvaro Cid)

*

António Jacinto Pascoal (Professor da Escola Básica de Monforte)

Publicado por José Pacheco Pereira em 06:45 PM | Comentários (7) | TrackBack

julho 15, 2005

Júlia Coutinho - JOSÉ DIAS COELHO - BREVE CRONOLOGIA PESSOAL E AFLUENTES

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(Capa de José Dias Coelho para o boletim clandestino Portugal-URSS)

1923

JOSÉ ANTÓNIO DIAS COELHO nasce a 19 de Junho em Pinhel, freguesia de Santa Maria. Filho de Alfredo Dias Coelho e de Juliana Augusta Coelho será o quinto de nove irmãos: Alice, Alberto, Fernando, Rui, José António, M Sofia, M Adelaide, M Natália e M Emília.

1925

Devido à profissão do pai – Escrivão de Direito -, a família vai residir para Coimbra. Faz os primeiros anos da instrução primária. Nasce a irmã Maria Sofia (11.07.28).

1930

O pai é colocado em Castelo Branco para onde vão residir. Termina a instrução primária e entra para o Liceu local (actual Escola Secundária Nuno Álvares) onde completa o 4º ano (1934-1938). Joga futebol (e bem, segundo testemunhos), uma prática que se irá manter enquanto estudante. Nascem as irmãs M Adelaide (27.03.32) e M Natália (02.12.35). Primeiras produções de desenhos e caricaturas. Morre o irmão Alberto. Começa a Guerra Civil de Espanha (1936-1939)

1938

A família Dias Coelho muda-se para Lisboa, para a Rua Ilha de São Tomé, 14-rc/dto. Ingressa no Colégio Académico à Rua Álvaro Coutinho 14-16, onde termina os estudos liceais. Dirigido pelos padres Avelino de Figueiredo e Sousa Monteiro, e pelo Major Simões Silva, o Académico reunia um excelente leque de professores, alguns impedidos de exercer no ensino oficial, como Newton de Macedo (afastado da universidade) e Berta Mendes (a Bá), mulher do escritor Manuel Mendes, com quem estabelece relações de amizade. Mercê deste contacto privilegiado acede às célebres tertúlias na casa da Rua Angelina Vidal e aí convive com Abel Salazar, Bento de Jesus Caraça, Manuela Porto, Lopes Graça, Carlos de Oliveira, João José Cochofel, Keil do Amaral, Abel Manta e outros.

1939

Nasce a irmã M Emília (27.03). O Colégio Académico inaugura (24.06) nas instalações da secção feminina (Av República 13) a exposição anual de trabalhos dos alunos, onde expõe pela primeira vez. A imprensa refere-se-lhe especialmente: “de entre os desenhos, destaca-se a exposição de caricaturas do aluno Dias Coelho” (Século, 25.06); “Dias Coelho, sem dúvida a maior revelação desta exposição (…). O seu lápis tem qualquer coisa de verídico. (…) grande sucesso lhe está reservado no futuro.”(Diário de Notícias, 30.06). Termina a Guerra Civil de Espanha. Deflagra a II Guerra Mundial (1939-1945).

1940

Faz exames do 5º ano no Liceu Nacional de Pedro Nunes (30.06) com média final de 12 valores.No então Bairro das Colónias, onde reside, integra um grupo de amigos com quem partilha as alegrias juvenis e as preocupações sociais. Frequentam diariamente o Café Colonial (Av Almirante Reis 24) e desse grupo fazem parte Diamantino Vargas, Victor Santos Tavares (o Saysha), José Plácido de Sousa e o escultor Joaquim Correia, entre outros.

1941

Termina o Curso Geral dos Liceus, área de letras (Gil Vicente), com média de 13,4 valores. Para mais tarde poder ingressar no curso de oficiais milicianos matricula-se no INEF – Instituto Nacional de Educação Física (a funcionar provisoriamente nas instalações da Escola Normal do Magistério Primário, em Benfica, então encerrada por Salazar), onde é colega do escultor Jorge Vieira e do encenador Artur Ramos. Salazar, que deteve o Ministério de Guerra de 1936 a 1944, “considerava o grau de cultura dos alunos das Artes insuficiente para acederem às elites militares” (Ana Isabel Ribeiro, 1993).
Frequenta as aulas de desenho dos Mestres Falcão Trigoso e Paula Campos, na Escola António Arroio, para habilitação à Escola de Belas Artes. Aí conhece Francisco Castro Rodrigues, um amigo que vai marcar o seu percurso de vida.

1942

Matricula-se no curso de Arquitectura na então EBAL - Escola de Belas Artes de Lisboa (só em 1950 passará a superior). Consigo entram Júlio Pomar, Victor Palla, Marcelino Vespeira, Fernando Azevedo, Jorge de Oliveira, Vitório David e Rolando Sá Nogueira. Conhece Frederico George (1915-1994) – regressado à EBAL em 41 para fazer Arquitectura -, personalidade que influenciará ética e esteticamente toda a geração de José Dias Coelho. Faz uma pequena escultura, uma máscara, da irmã Natália. Com Castro Rodrigues inicia o seu percurso partidário, ligado à Federação das Juventudes Comunistas. Reúnem em casa deste (Rua Senhora do Monte) onde estudam e discutem textos marxistas. Dedicam-se ao auxílio dos refugiados da guerra e dos presos políticos e suas famílias, angariando medicamentos, roupas, géneros alimentícios, dinheiro ou levando-lhes apoio médico premente conseguindo a colaboração de nomes como o Prof. Pulido Valente que generosamente com eles se desloca por vezes aos locais mais recônditos.


1943

Reprova em três cadeiras. O então director da EBAL e também professor Arq Luis Alexandre da Cunha (1893-1971), que passaria à História como “Cunha Bruto”, mantém uma postura prepotente e déspota pautando as avaliações por critérios parciais. Discrimina os alunos consoante provêm dos liceus ou das escolas técnicas (António Arroio e Casa Pia), não reconhece às mulheres capacidade para o curso de Arquitectura, aprova ou reprova segundo as simpatias pessoais . A alternativa, para muitos, é a transferência para a Escola de Belas Artes do Porto e lá fazerem as cadeiras daquele professor. Seguem esta opção Júlio Pomar, Victor Palla e Jorge de Oliveira, enquanto Vespeira e Azevedo se afastam em definitivo do meio académico.

1944

Não se matricula em 1944-45 porque é chamado para o serviço militar em Tancos. Com ele, segue o colega e amigo Vitório David. É criado o MUNAF. Jorge Vieira entra para Belas Artes. Numa entrevista dos anos 90, lembra uma distribuição de comunicados daquela organização feita por ambos no INEF.

1945

A família Dias Coelho muda-se para o bairro de Campo de Ourique e passam a residir na Rua Almeida e Sousa, 67-1ºEsq, no prédio ao lado do Prof Bento de Jesus Caraça. Termina a Segunda Guerra Mundial. É fundado o Movimento de Unidade Democrática (MUD) e é através da sua Comissão de Escritores, Jornalistas e Artistas Democráticos (CEJAD) e da sub-comissão dos Artistas Plásticos – de que fazem parte Castro Rodrigues e Dias Coelho - que vão encetar-se esforços para dar aos artistas um local onde exporem, que não o SNI. O processo passará pela entrada de novos sócios para a Sociedade Nacional de Belas Artes (SNBA) e pela subsequente alteração da correlação de forças nos orgãos directivos. Em 1945-46 matricula-se nas cadeiras do primeiro ano e em algumas do segundo. João Abel Manta entra para Belas Artes.
Com Manta, Sá Nogueira, Jorge Vieira, Duarte Castelo Branco, Sena da Silva, João Malato, Vitorio David e outros cria o hábito das tertúlias. São conversas de cariz cultural, sempre, mas onde Coelho introduz, também, questões político-sociais e que se estendem noite fora na casa de Vieira, na de Duarte, no Café Chiado ou, ainda, no atelier de Frederico George, uma segunda casa para todos. Lêem e discutem livros que circulam de mão-em-mão, revistas de arte trazidas por João Abel e Sena da Silva, frequentam concertos, discutem arte moderna. Apreendem a cultura e a consciência cívica que a escola lhes não dá.

1946

Participa numa exposição privada na dependência do atelier de Abel Manta (pai) com Carlos Calvet, Lima de Freitas, João Abel Manta, Jorge Vieira, Sena da Silva, Lagoa Henriques e Castro Rodrigues. A exposição é visitada pelo Prof. Adriano de Gusmão.
Em 1946 uma lista dos artistas democráticos ganha as eleições para a direcção da SNBA e as portas desta instituição abrem-se à modernidade.
Tem lugar a 1ª Exposição Geral de Artes Plásticas (EGAP) na SNBA (Julho). Realizar-se-ão 10 EGAP´s entre 1946-1956, apenas com interregno em 1952. Pela primeira vez reúnem-se criadores de todos os géneros artísticos, sem limite de idade e sem júri de admissão, numa frente comum de oposição aos Salões de António Ferro. Apenas uma exigência: não voltar a expor no SNI nem colaborar com o governo. Dias Coelho não participa nesta mostra, mas faz parte da Comissão Técnica que procede à sua organização e montagem, com outros colegas como Castro Rodrigues, Sá Nogueira, Louro de Almeida, Lima de Freitas e João Abel Manta.
É criado o MUD Juvenil no Centro Republicano do Lumiar (28.07), no qual milita desde a primeira hora. Activa até meados de cinquenta, a Comissão de Escola do MUD Juvenil da EBAL (de que é líder) vai congregar nomes como J Abel Manta, Lima de Freitas, António Alfredo, M Emília Cabrita, Jorge Vieira, Bartolomeu Cid, José Croft de Moura, Nuno Craveiro Lopes, Sena da Silva, Arnaldo Louro de Almeida, Margarida Tengarrinha, Cecília Ferreira Alves, Tomás de Figueiredo, Hestnes Ferreira, Augusto Sobral, e muitos outros.
Completa o 1º ano de Arquitectura. Em Setembro ainda se inscreve no 2º mas, após uma séria reflexão decide, com o amigo Sá Nogueira, mudar de curso. Ambos abandonam Arquitectura: Sá Nogueira vai para Pintura, Dias Coelho para Escultura (7 Out.).


1947

O MUD Juvenil organiza a Semana da Juventude (21-28 Março). O Governo desencadeia forte repressão e prende a Comissão Central e muitos outros jovens apoiantes. Dias Coelho vai dinamizar a Comissão do MUD Juvenil na EBAL e recolher assinaturas para abaixo-assinados de apoio aos colegas presos. Com Nuno Craveiro Lopes, são dos mais activos nos protestos junto à sede da polícia política. Faz o retrato de João Abel Manta.
Na 2ª EGAP (Maio) Coelho apresenta duas cabeças, não identificadas. Sob ordens do Ministro do Interior, a PIDE invade a SNBA (13 Maio) e retira da exposição 12 obras, de 10 autores: Avelino Cunhal, Viana Dionísio (José Viana), José Chaves (Mário Dionísio), Júlio Pomar, Maria Keil, Arnaldo Louro de Almeida, Lima de Freitas, Manuel Filipe, Nuno Tavares e Rui Pimentel (ARCO). Todos prestam declarações na PIDE e as obras só lhes serão entregues, mais tarde, com a proibição de voltarem a ser expostas. (Arquivos da PIDE/DGS, Proc. SC-494/47)

1948

É chamado para o Batalhão de Metralhadoras 3, no Porto (15 Fev) para prestar serviço como Alferes Miliciano. Aproveita para fazer na EBAP as cadeiras que lhe faltam para completar o terceiro ano de Escultura. Em Outubro regressa à escola de Lisboa.
João Abel Manta é detido pela PIDE (01-02) e vai para Caxias. Mais uma vez Dias Coelho e Nuno Craveiro Lopes lideram um movimento dinamizador entre os colegas da EBAL, e não só, para recolha de assinaturas de protesto. É solto a 14 do mesmo mês.
Participa na 3ª EGAP com a escultura "cabeça de meu pai".
Tem lugar o 1º Congresso Nacional dos Arquitectos Portugueses, onde se destaca Keil do Amaral que, apesar de eleito, acabará por ser destituído de Presidente do Sindicato Nacional dos Arquitectos. Salientando a interdisciplinaridade que deverá existir entre as "três artes" o congresso abriu caminho para uma colaboração efectiva entre arquitectos, pintores e escultores. Nos anos subsequentes, Dias Coelho irá fazer alguns trabalhos no âmbito desta colaboração: Escola Primária de Vale Escuro, Escola Primária de Campolide, Fábrica Secil (Outão), Café Gelo (Rossio, Lisboa). Vai leccionar Desenho na Escola Industrial Machado de Castro (1948-49). Casamento do amigo Francisco Castro Rodrigues (15.09).
A oposição lança o seu candidato às “eleições” para a presidência da República (Julho) e José Dias Coelho vai constituir a Comissão Concelhia de Pinhel para a candidatura do General Norton de Matos. Afirmando as suas "ideias republicanas e democráticas" a Comissão Concelhia de Pinhel estava empenhada em "reivindicar a decência do acto eleitoral"; tinha a sede na Rua Dr António José de Almeida 27-29 e era constituída ainda pelos democratas: António Amaro Freire de Paiva, proprietário; Arnaldo Mendonça, industrial; Antero Mendonça, industrial; Dr. Horácio Alberto Santos, médico; Maximiano Cardoso dos Reis, proprietário; António Alberto dos Santos, proprietário; Manuel dos Santos Silva, proprietário; Egberto Freire Ruas, industrial; José Miragaia Monteiro, proprietário; Eustáquio dos Santos, comerciante; José António Simões Júnior, proprietário; Antero Silva, comerciante; Alfredo Domingos, industrial e Constantino de Albuquerque, proprietário. (República, 25.01)


1949

Em plena Campanha Eleitoral, que tem início a 1 de Janeiro, é detido pela PIDE (06-01) e levado para a cadeia do Aljube onde fica incomunicável. É solto no dia 10 do mesmo mês.
O candidato da oposição, Norton de Matos, desiste de ir às urnas.
Começa a fazer caricaturas para ilustrar os livros de final do curso de diversas Faculdades.
Apaixona-se por Margarida Tengarrinha, colega de Pintura na Escola de Belas Artes.
O Governo de Salazar é admitido na NATO (04-04). Realiza-se em Paris o I Congresso Mundial da Paz, para o qual Picasso desenha a célebre “pomba” (20-23 Abril).
Participa na 4ª EGAP (Maio) com quatro esculturas: cabeça do pintor Sá Nogueira, "Família", Baixo Relevo Decorativo, "Escultura" e ainda um Desenho.
Participa no Salão da Primavera, da SNBA, e obtém a 3ª medalha, em Escultura.
Morre Bento de Jesus Caraça (25-06), o ideólogo da Cultura Integral do Indivíduo. O cortejo funerário é organizado pelo MUD Juvenil e o povo inunda as principais ruas de Campo de Ourique numa sentida homenagem.
Após uma longa luta é constituída a Associação Académica na Escola de Belas Artes que a direcção da escola reconhece. Dias Coelho é o grande obreiro e dinamizador. Os Estatutos são largamente discutidos e aprovados em Assembleias Gerais de estudantes. São remetidos à tutela, a Direcção Geral do Ensino Superior e das Belas Artes, do Ministério da Educação. Nunca serão reconhecidos e a Associação acaba por ser proibida.
Partilha um atelier, que já pertencera a Malhoa (Praça da Alegria 47) com Maria Barreira, Vasco da Conceição e Júlio Pomar. Aqui prepara alunos para admissão à Escola de Belas Artes.

1950

Executa a Cabeça do escritor Fernando Namora. Na 5ª EGAP (Maio) apresenta três esculturas: Retrato de Margarida Tengarrinha, Cabeça de Rapariga e "escultura", bem como três Desenhos e um Retrato não identificado. É criada a Comissão Nacional para a Defesa da Paz (Julho), em Lisboa. Pouco depois esta Comissão lança a palavra de ordem: «100 000 assinaturas para o apelo de Estocolmo!», desenvolvendo uma recolha por todo o país em que participam, sobretudo, jovens trabalhadores e estudantes, e na qual Dias Coelho vai empenhar-se activamente.
É aprovada legislação (Lei 2043) que pretende reorganizar o ensino das Belas Artes, passando este a ser superior e a escola a denominar-se ESBAL. Mas a reforma efectiva só ocorrerá em 1957 com a respectiva regulamentação legislativa (Dec. 41.363). Conclui o Curso Geral de Escultura (31-07), com média de 14 valores. Em Setembro matricula-se no Curso Superior de Escultura, que nunca chegará a terminar.
No ano lectivo 1950-51, conjuntamente com o amigo Sá Nogueira, dá aulas na Escola Veiga Beirão. Aqui é alvo de um processo por parte de Fernando Pamplona, inspector do Ensino Técnico, que o acusa de estar na sala de aulas sem gravata. Alves Redol ganha o prémio Ricardo Malheiros, da Academia das Ciências e o Ginásio Vilafranquense convida José Dias Coelho para fazer a cabeça do escritor. Ilustra contos de José Cardoso Pires, para a revista Vértice.

1951

Em Maio apresenta, na 6ª EGAP, a cabeça de Alves Redol; expõe ainda cinco desenhos, de entre os quais três são "retratos" que o catálogo não identifica.
Em Junho, no Ginásio Vilafranquense, é prestada homenagem pública a Redol, sendo inaugurado o seu retrato na biblioteca daquela colectividade.
Ascende à Direcção Universitária do MUD Juvenil. Aproveitando a "abertura" da campanha para a eleição do Presidente da República (Craveiro Lopes) e mercê de uma acção concertada em que interveio com Keil do Amaral e F Castro Rodrigues, organiza uma Assembleia Geral da SNBA para discussão pública do Ensino da 8ª Cadeira na ESBAL (Arqtº Luís Alexandre da Cunha). Aprovada uma moção pública a endereçar ao Ministro da Educação, conseguem os alunos, ex-alunos e pais de alunos de Belas Artes a instauração de um inquérito aos métodos pedagógicos do referido professor, conseguindo a sua destituição de director.
No Século Ilustrado (16-05) são reproduzidas fotos de Dias Coelho e das obras "Cabeça de Alves Redol" e "Cabeça de Fernando Namora" afirmando-se que, sendo duas "obras de estilo e força expressiva elas dão também, para além da interpretação fisionómica dos escritores, a sugestão da personalidade de cada um dos ilustres romancistas."
No ano lectivo 1951-52 dá aulas na Escola Francisco Arruda que funciona provisoriamente nas instalações da Escola Marquês de Pombal, em Alcântara. Margarida ensina na Escola de Paula Vicente. Faz o retrato do escritor Orlando da Costa para o primeiro livro deste.

1952

No Instituto Superior Técnico realiza-se a reunião do Conselho do Pacto do Atlântico (Fev) com forte contestação oposicionista, inserida na campanha da Luta pela Paz. Aos protestos aderem os alunos da ESBAL que recorrem a todos os processos para o demonstrar, fazendo inscrições nas paredes da escola. Isso levou o director a levantar um processo disciplinar a 81 alunos que haviam subscrito um abaixo-assinado de solidariedade com António Alfredo, o colega denunciado como autor das inscrições. Todos são sujeitos a um rigoroso inquérito, e todos vão ser penalizados segundo o grau de culpabilidade que o director decide atribuir-lhes. Dias Coelho e Margarida Tengarrinha são dos mais atingidos, sendo expulsos de todas as escolas do país, pelo período de um ano. Também são destituídos de professores do ensino técnico. Não mais poderão ensinar.
Na SNBA (28-03) durante a eleição de júris de selecção de trabalhos ao Salão da Primavera, o pintor Eduardo Malta acusa Dias Coelho de desonestidade na votação. Malta é desmascarado mas recusa apresentar desculpas, e o incidente origina uma polémica na sequência da qual é expulso de sócio da SNBA. Como retaliação o Governo encerra a SNBA, que só reabre em finais do ano. Em consequência, não se realiza a habitual Exposição Geral de Artes Plásticas. É padrinho de casamento do amigo José Plácido de Sousa (10.05). Cria um painel de azulejos, alusivo à luta pela Paz, que Plácido coloca na frontaria da sua casa em Vila Nova de Cerveira. Vai trabalhar como desenhador com os arquitectos Keil do Amaral, Hernâni Gandra e Alberto José Pessoa (Rua Fernão Álvares do Oriente 8 CV/Esq). Pinta o óleo "Casal com Filhos, junto a um Ribeiro" que oferece ao amigo Diamantino Vargas pelo seu casamento. A revista EVA (Natal) cuja redacção é chefiada por José Cardoso Pires, publica uma série de desenhos dos alunos de Dias Coelho e de Margarida Tengarrinha, na sequência do projecto "Ensino pela Arte" que ambos desenvolviam. Para eles António Pedro escreve a crónica "Quando os Meninos são Pintores". Passa a viver com Margarida Tengarrinha. (03.12).

1953

Na 7ª EGAP (Maio) mostra duas esculturas: "Retrato de M Eugénia Cunhal", “Estudo” e dois desenhos. Margarida expõe aqui pela primeira vez. Nasce a filha Teresa (03-09). Ilustra a capa para a segunda edição do livro O Sol Nascerá Um Dia, de Alexandre Cabral. Com o Arq Carlos Rafael colabora na remodelação do Café Gelo com um grupo escultórico (desaparecido), que será fixado na parede. No âmbito da Campanha pela Paz, é editado por Victor Palla um calendário para 1954: «12 Artistas Portugueses», com ilustrações de Júlio Pomar, António Domingues, Maria Barreira, Carlos Rafael, António Alfredo, Alice Jorge, Cipriano Dourado, Lima de Freitas, Querubim Lapa, Rogério Ribeiro, Dias Coelho e Maria Keil: “Este calendário reúne 12 desenhos / de 12 artistas portugueses / e em cada um deles se formula, por diferentes maneiras, um voto único: / um voto único, belo e universal / sejam afastadas / ameaças e pavores, e relegada a guerra / para o rol das coisas que deixaram de existir / um voto único: ver o espírito de negociação / e de entendimento entre os povos / lançar raízes / e dar frutos / que o ano de 1954 seja assim um ano de paz / apertem-se os laços de amizade entre as gentes / e tenham livre curso / as relações culturais, o comércio dos povos, a alegria das crianças”. Uma obra pensada para assinalar datas oposicionistas importantes. Dias Coelho ilustrou o mês de Novembro e assinala o Dia do Estudante, a 25 Nov, instituído na reunião das Três Academias em Coimbra (1951), em homenagem à "Tomada da Bastilha" pelos estudantes em 1921. Tem lugar o II Congresso Mundial da Paz, em Viena, a que assiste Maria Lamas. No seu regresso, em 20 de Dezembro, muitos jovens e amigos a aguardam no aeroporto de Lisboa, mas o voo acaba por ser atrasado e cerca de 50 jovens são presos e levados para Caxias. Entre estes, encontra-se a sua irmã Maria Sofia. No ano lectivo 1953-54, Dias Coelho e Margarida voltam à ESBAL onde fazem a cadeira de Arqueologia.

1954

Faz experiências com vidros na Fábrica-Escola Irmãos Stephens, na Marinha Grande.
Com Júlio Pomar, Alice Jorge, Maria Barreira e outros, enceta experiências com cerâmica quer na Fábrica da C.I.P. na Marinha Grande, quer na Cerâmica Bombarralense, do amigo Jorge de Almeida Monteiro. Na 8ª EGAP (12-21 Maio) expõe duas esculturas: "Retrato de D Maria Isabel Aboim Inglez" e "Pastor". Apresenta ainda dois pratos cerâmicos, pintados. Desenha a "Morte de Catarina Eufémia", camponesa assassinada pela GNR em Baleizão (19 Maio). O casal vai viver para a Av General Roçadas 74-1º Frente, em semi-clandestinidade.

1955

Concebe dois grupos escultóricos para a Escola Primária de Campolide (secções feminina e masculina) e uma escultura de vulto para o espaço envolvente da Escola Primária do Vale Escuro, ambas em Lisboa. Infelizmente esta última encontra-se seriamente vandalizada.
Esculpe, in situ, na parede do Café Central, em Caldas da Rainha, um painel desenhado por Júlio Pomar, conseguindo transpor para o gesso a simplicidade e a força do traço daquele artista.
Aceita o convite do Partido Comunista Português e mergulha na vida clandestina (Set-Out). António Borges Coelho recorda a manhã desse dia, em que ambos se “despedem” com um café na Praça Paiva Couceiro, em Lisboa. Margarida e a filha, Teresa, irão juntar-se-lhe em Novembro. Vão residir para a Av Rio de Janeiro, 4-4º andar, trazeiras, a primeira das várias casas clandestinas por onde passarão. Vão montar e gerir um Gabinete Técnico de Falsificações.

Alguns dos pseudónimos adoptados: Fausto, Romeu, Pedro (JDC); Leonor (MT).


1956

Na 10ª e última Exposição Geral de Artes Plásticas (Junho), de carácter antológico, os amigos repõem uma peça sua, a cabeça da irmã Maria Emília, que já havia sido exposta.

1959

Por questões de segurança, e poder vir a frequentar a escola primária, são constrangidos a separar-se da filha mais velha, Teresa, entregando-a à família paterna (Fev-Março).
Nasce a segunda filha, Margarida (25-04).

1960

Embora atribuído apenas a si, sabe-se hoje que escreveu com Margarida Tengarrinha o livro Histórias da Resistência, que circulou clandestinamente e apenas é publicado em Portugal após 1974. Dividido em quatro capítulos, o primeiro e terceiro são da sua autoria, enquanto o segundo e quarto foram escritos por Margarida. Trata-se do primeiro documento sistematizado e publicado no nosso país sobre a Repressão Salazarista.

1961

A 19 de Dezembro José Dias Coelho é morto pela PIDE com dois tiros à queima-roupa na Rua da Creche, em Alcântara. Residia, então, à Rua de Pedrouços (Belém). Pertencia à Direcção da Organização Regional de Lisboa do Partido Comunista Português, e dirigia o Sector Intelectual. Presume-se que tenha sido denunciado.
O funeral realizou-se no dia 26 de Dezembro para o cemitério de Benfica.
Margarida Tengarrinha apenas toma conhecimento da sua morte no final desse dia.
Será ela a redigir a notícia para o jornal "Avante!" que será ilustrada por Lima de Freitas.

Só após o 25 de Abril foi possível levar a Tribunal os agentes da PIDE envolvidos na sua morte. Pertenciam à Brigada de José Gonçalves. Nunca confessaram a denúncia nem quem lhes dera ordens. Apenas um foi condenado – António Domingues -, o autor dos dois disparos que atingiram Dias Coelho. Mas a pena que lhe foi imputada – três anos e seis meses – indignou a comunidade democrática portuguesa no início de 1977.

Publicado por José Pacheco Pereira em 07:12 PM | Comentários (0) | TrackBack

Júlia Coutinho - JOSÉ DIAS COELHO. A COERÊNCIA DO SER E DO FAZER

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«Não chegou a adquirir fama o nome de José Dias Coelho […] e as histórias da arte, se não forem muito minuciosas, ignorá-lo-ão»

(J-A França, Diário de Lisboa de 04-02-1977)

1 - Um estudo recente sobre a Escultura Portuguesa ligada à escola de Lisboa 1 revela-nos serem os anos quarenta/cinquenta os “menos amados” pelas críticas da época e actual. Alerta-nos para a premência do estudo das motivações que têm ignorado e omitido as obras e os nomes desses escultores e faz eco, ainda, do sentimento de alguns deles, ainda vivos, que dizem não se reconhecer numa historiografia que genericamente os apelida de “estatuários” e os vota ao esquecimento. 2

Reconhecendo a importância de um estudo aprofundado – que não este –, importa salientar que este silêncio tem dois grupos de causas, ambos enraizados na sociedade político-cultural vigente. No primeiro grupo incluímos o ensino anacrónico - artístico, pedagógico e curricular - ministrado na Escola de Belas Artes de Lisboa e a inexistência de ateliers e galerias. No segundo temos a censura e a repressão impostas pelo regime e a inexistência de uma crítica isenta. Esta, quando não situacionista, era exercida pelos próprios artistas (J Pomar, L Freitas, F Azevedo, F Lemos, J-A França) gerando fenómenos parciais em função de grupos ou promoções que acabaram por tornar-se numa "tremenda prática portuguesa: a omissão" 3 para além dos regimes políticos, exercida em função de lobbies dominantes.

Hoje, à distância de meio século e três décadas após Abril, quando o sentido de justiça faz mais sentido e da arte se fez História não deixa de ser preocupante que essa omissão continue. Alguns artistas precisamente os que não tiveram escolha, os que não pactuaram nem beneficiaram de encomendas estatais mercê de uma ética assumida com prejuízo das próprias carreiras, serão ignorados. Não lhes assiste o direito à Memória. E aqui incluímos José Dias Coelho.

2 - Se procurarmos na sua obra o conceito romântico de originalidade que acentua a unicidade e irrepetibilidade largamente defendido pelos artistas da primeira geração do modernismo português, não o encontraremos. Percebe-se a ausência dessa ambição que, sejamos claros, era já um anacronismo no período que viu nascer a maioria da sua produção: anos quarenta e cinquenta.

Mas se não podemos considerá-lo original também não podemos vê-lo sob conceitos academizantes associando-o ao exercício da mimesis e ligando-o à prática da Escola de Lisboa onde a escultura foi a última das artes a ser dotada de ensino erudito e a ortodoxia formal limitava os artistas à reprodução invariável dos modelos antigos. As obras de Dias Coelho desmentem-no.

Tão pouco podemos atribuir-lhe uma lógica conforme aos conceitos naturalistas dominantes na comunidade artística oficial, alheada dos movimentos da arte além fronteiras e fiel aos mestres intestinos de fins do século.
Aos artistas, segundo Luigi Pareyson, colocam-se duas maneiras de visualizar ou reflectir a arte que os antecede: ou a encaram “na sua perfeição dinâmica e na sua operativa exemplaridade [geradoras] da possibilidade de uma operação (…) original (…) de uma imitação criadora; ou podem limitar-se a vê-la na sua “extrínseca e imóvel perfeição, e então a forma decai para fórmula, o modelo para módulo, o estilo para cunho, a obra para estereótipo e não aparece senão a estéril repetição”.4 Este não é o caso de José Dias Coelho.

E por não raro depararmos com alguns radicalismos voltamos a Pareyson para afirmar que o dilema entre uma “genialidade artística” ou o “servilismo da repetição” é demasiado peremptório correndo-se o risco de remeter “para o inerte reino da imitação tudo quanto não se inclua nos cumes raríssimos (…) de uma prepotente inovação (…) e perder o critério para distinguir a imitação criadora e inovadora da imitação repetitiva e reprodutiva”. 4 Daqui enferma muita da crítica e da historiografia artística portuguesa.

Sem rupturas morfológicas a escultura de Dias Coelho reflecte o ecletismo de quem necessariamente procura uma plasticidade própria em torno das mais diversificadas fontes. Inconformista, ele persegue ideários cívicos e estéticos de acordo com o momento histórico que se vive e as concepções humanistas de Bento de Jesus Caraça (1901-1948). Colocando a tónica no Homem, Caraça definiu valores éticos e culturais que influíram toda uma geração e subjazeram ao ideário dos artistas que então procuravam, por caminhos comuns, uma singularidade pessoal.

Aderente do neo-realismo, o movimento que melhor enformou desta ideologia totalizante - pese embora um estudo aprofundado nas artes plásticas esteja por fazer -, a verdade é que as suas obras não reflectem a iconografia que se convencionou associar-lhe. Com uma ideologia comum que as Exposições Gerais de Artes Plásticas traduzem, nem sempre aos artistas as motivações iconográficas se lhes equivalem o que deita por terra certa argumentação de um fazer estritamente direccionado ou arregimentado.
Movendo-se num universo realista ou refugiando-se num verismo lírico muito seu, Dias Coelho tem no desenho a sua expressão mais constante o que “não deixa de se revestir de particular importância – na medida em que, entre nós, o escultor rarissimamente desenha ou procura”, como assinalou Pomar.

De notar que lhe foi atribuida pelos seus pares uma 3ª medalha de escultura num dos salões anuais da SNBA (Primavera, 1949) o que atesta o reconhecimento de um percurso de pesquisa e de liberdade criadora: ”Dias Coelho está a entrar num caminho seu, de teimosa procura e simplificação fecunda. Simplificação que não significa eliminar dificuldades, mas constatá-las e vencê-las através de persistente e inteligente trabalho o mais das vezes silencioso e sem alardes” – palavras que o perfilam na demanda da sua plasticidade. (J. Pomar, Vértice, Junho 1950)

Artista moderno e não conformista, reconheçamos a Dias Coelho um sentido de pesquisa e de inovação sempre perseguido e nunca abdicado, mesmo quando as contingências de uma vivência clandestina o obrigaram a um dificílimo exercício do fazer. Conhecem-se duas pequenas esculturas de 1958, duas “maternidades,” em terracota, uma das quais oferece ao médico que acompanha o nascimento da sua filha Margarida. Em plena clandestinidade.

3 - O conjunto de obras escolhidas para esta exposição, não sendo absolutamente representativo da produção de Dias Coelho, dá-nos uma visão abrangente dos géneros e temáticas que povoaram o seu universo. Num total de 31 peças em que apenas duas são esculturas, reúnem-se aqui praticamente todos os géneros, temas e materiais por si trabalhados, divididos por cinco núcleos: Retrato e Caricatura; Pintura e Desenho; Imagens de Pinhel; Clandestinidade; Escultura e Cerâmica.

Como género artístico, o Retrato assume um lugar único no contexto geral da sua obra seja em desenho, pintura, modelagem ou caricatura. Proliferam os retratos que se conhecem da família, dos amigos, de colegas e de personalidades da vida cultural portuguesa como Isabel Aboim Inglês, Alves Redol ou Fernando Namora.

A característica que mais ressalta deste conjunto de obras é que praticamente todas correspondem à fase mais juvenil do artista, sendo muitas delas anteriores à sua entrada em Belas Artes (1942). Veja-se, por exemplo, a “Cabeça de Rapaz” (1938), cópia de uma gravura renascentista, que corresponde aos seus 15 anos Apenas os retratos de Margarida e de Teresa (1957), feitos na clandestinidade, se demarcam cronologicamente dos restantes que não ultrapassam a primeira metade da década de quarenta: os retratos de Fernando (1940), Natália (1941), pai (1942) correspondem aos seus 17, 18 e 19 anos de idade. Contudo, pese embora a pouca idade de Coelho, é notória a sua capacidade na percepção do essencial, a grande economia de meios e o domínio absoluto do traço. Especial destaque nos merece o retrato da mãe, denotando um sentido de composição apurado por onde perpassa já uma assimilação cubista no tratamento das massas e um domínio do claro-escuro denunciador de um fazer escultórico. Idêntico tratamento tem a “Mulher Grávida” que apenas a composição dos panejamentos sugere, conferindo uma solidez que um traço expressionista tende a afastar da idealização.

De uma maneira geral o autor não oculta as suas influências. Adopta com frequência o irrealismo russo e o lirismo eslavo, principalmente o irrealismo de um Chagall, a linearidade clássica de um certo Picasso, ou a beleza poética e despojada de Matisse, esta sempre mais conseguida no traço que na cor. Veja-se o belo prato de cerâmica onde o motivo da maternidade (omnipresente na sua obra) é tratado num compromisso entre o classicismo de Picasso e a onírica delicadeza gráfica de Chagall. Quanto ao seu traçado, à sua linha firme e despojada, essa vai de Picasso a Matisse; do primeiro detectam-se vestígios, por exemplo, nas cabeças mais clássicas, de perfil grego (Par Abraçado) enquanto a sensualidade de Matisse perpassa no ondulado dos corpos. As linhas circulares envolvem as duas figuras unindo-as num espaço uterino e protector.

Das obras expostas, “Casal com Duas Crianças” (1952) - um dos poucos óleos que se lhe conhecem -, é a que mais impressiona pelo lirismo temático, pela composição e pela qualidade plástica. Lembrando Van Gogh e Vlaminck na delimitação dos espaços a que o arrojo da árvore cezanneana confere dinamismo, a composição apresenta um ritmo centrífugo que nos é dado pela distribuição espacial e pela pincelada. Uma discreta noção de vórtice com epicentro no casal oferece-nos a visão intimista e feliz em que o autor se revia, num momento em que tentava formar a sua própria família.

Nas duas peças escultóricas encontramos as temáticas que se lhe impõem e o artista persegue desde que conhecera Margarida: a “Maternidade” e a “Família”. Nelas encontramos já uma proposta pessoal do autor, bem conseguida sobretudo na primeira, onde é notória a procura constante duma simplicidade formal aliada à plenitude e sensualidade volumétricas que a modelação, a que sempre recorre, acentua.

As duas obras do núcleo Clandestinidade correspondem a uma fase determinada do seu fazer militante, onde a temática neo-realista está presente. Trata-se de um fazer em função de causa públicas. O estudo para o desenho “Morte de Catarina” assinala o assassinato de Catarina Eufémia pela GNR, em Baleizão (1954).
Já “Prisioneiros Políticos” um desenho extremamente bem conseguido, ilustrou milhares de panfletos e serviu de bandeira na angariação de proventos para auxílio aos presos políticos e às suas famílias que Salazar e a PIDE mantinham indefinidamente nas prisões. Talvez seja a sua obra mais divulgada, apesar de circular anónima.

Pinhel, a sua terra bem-amada, não podia deixar de estar presente na obra de Dias Coelho. Ele que se orgulhava das suas origens beirãs e aqui regressava com frequência, deixou imortalizados, como vemos, os mais emblemáticos recantos da cidade. É precisamente na sua “Paisagem com Castelo” que melhor podemos apreciar o quanto bebeu da lição cubista. Curioso ainda o cartaz para as Festas da Cidade, (seria interessante averiguar da data) onde não faltam os principais ex-libris pinhelenses.


«Há quem tombe por um rio / Impetuoso e comum.
Alcântara dos tiros cegos / Alcântara sessenta e um

(Pedro Alvim in Notícias do Bloqueio déc. 60)

4 - José Dias Coelho tinha 38 anos quando foi morto (1961). Dividido entre a Arte e a Política optara por esta, o que significava, então, passar a viver na clandestinidade. Tomara essa decisão seis anos antes (1955). Com todas as contingências inerentes. Já na sua ausência, a 10ª Exposição Geral de Artes Plásticas (1956) mostrara a derradeira participação pública deste artista que, corajosamente, abdicara de uma carreira promissora, da sua identidade e da própria liberdade pessoal para, anonimamente, combater pela liberdade de todos. A força anímica, acreditamos, adveio-lhe de ter consigo a mulher e a filha, esse reduto familiar que lhe era fundamental.

Talvez não tenha deixado uma Obra. Não viveu o suficiente para isso. Mas tem direito à Memória. Por generosidade e modéstia de carácter nunca pensou em termos de carreira. Não fomentou exposições individuais, não procurou sucesso pessoal. Colocou sempre os objectivos colectivos acima de quaisquer outros. A sua arte ficou dispersa pela família, pelos amigos, pelos camaradas, por todos os que amava. Fazia-a por prazer. Oferecia-a a quem a sabia apreciar. Era a sua forma de afecto. Era aquele “pedaço” de si “que se quer dar” - de que nos fala nos poemas.

É ainda de afectos que falam os seus retratos. Mais do que uma simples representação eles traduzem o seu desejo de suspender o tempo, tornar presente a ausência, perdurar os afectos para além do tempo. Fixá-los numa imagem «viva». Porque a sobrevivência se consegue pelos elos afectivos. Que induzem a diálogos interiores. Que constroem uma cadeia colectiva de outros afectos. E de valores. Valores e Afectos que se pretendem imunes à morte. Intemporais.

1 – Aida Sousa Dias, O Corpo Feminino na Escultura dos Anos 50 em Portugal, FBAUL, 2000, p.10 e seg.
2 _ José-Augusto França, A Arte em Portugal no Século XX, p. 260 e seg.
3 _ J F Pereira, Reflexões sobre as Teorias da Escultura Portuguesa in ARTETEORIA N 2, 2001, p 17-18
4 _ Luigi Pareyson, Os Problemas da Estética, ed. Martins Fontes, S Paulo, Brasil, 1997, p. 137-138

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julho 04, 2005

CONGRESSO INTERNACIONAL NO CENTENÁRIO DE FERNANDO LOPES-GRAÇA

Transcrevo o programa de Correntes Artísticas e Movimentos Intelectuais do CEIS 20

O ARTISTA COMO INTELECTUAL: no centenário de Fernando Lopes-Graça

Congresso Internacional organizado pelo Centro de Estudos Interdisciplinares do Século XX da Universidade de Coimbra/Grupo de Investigação sobre Correntes Artísticas e Movimentos Intelectuais

Coimbra, 27 – 29 de Abril de 2006

Convite à apresentação de propostas de comunicações

APRESENTAÇÃO

O compositor Fernando Lopes-Graça (1906-1994) é uma figura incontornável da cultura portuguesa do século XX. Como compositor, pianista, pedagogo, crítico, ensaísta e, ainda, como organizador de eventos musicais e estudioso da música tradicional portuguesa marcou de forma determinante a actividade musical em Portugal.

Fernando Lopes-Graça partiu de premissas estéticas modernistas. Os acontecimentos históricos das décadas de 30 e 40 inscreveram os propósitos modernistas numa consciência social mais aguda e definiram uma posição política clara (foi militante do Partido Comunista Português) e muito interveniente num plano cívico. Assim, Fernando Lopes-Graça deu uma forma peculiar às relações entre as correntes modernistas, a recuperação da tradição e o envolvimento político activo.

Por isso, pretende-se a inserção da sua personalidade, da sua obra e da sua intervenção nos vários contextos a que pertenceu. Uma reflexão em torno de alguns conceitos fundamentais nos discursos artísticos contemporâneos de Lopes-Graça, - nomeadamente em Portugal e no Brasil, mas também em França, o país onde o compositor encontrou algumas das suas principais referências culturais – poderão ser de grande utilidade para a compreensão aprofundada da sua obra.

OBJECTIVOS

O Congresso tem os seguintes objectivos: 1. aprofundar o conhecimento da obra musical, da reflexão teórica e da actividade crítica de Fernando Lopes-Graça; 2. proporcionar um intercâmbio de pesquisas que, numa óptica interdisciplinar, produzam conhecimento novo sobre correntes artísticas e movimentos intelectuais a que Fernando Lopes-Graça se tenha associado; 3. estudar o modo de envolvimento de Fernando Lopes-Graça com movimentos e figuras internacionais.

ÁREAS TEMÁTICAS

O CEIS20 / Grupo de investigação sobre “Correntes artísticas e movimentos intelectuais” convida os investigadores a participar neste Congresso e propõe que as comunicações se situem numa das seguintes áreas temáticas:

1. O artista como intelectual no século XX.
2. O modernismo e as suas definições.
3. Recepção do cânone modernista.
4. Arte e «indústria» cultural entre ca. 1929 e 1975.
5. A tradição e o moderno nos movimentos artísticos e nas concepções estéticas do século XX.
6. Arte e comunismo.
7. Os compositores do «moderate mainstream» (Arnold Whitall) entre ca. 1945 e 1975 e o problema da «inovação».
8. As organizações promovidas por compositores entre ca. 1945 e 1975 e o seu significado político (publicações periódicas, grupos corais, séries de concertos, etc).
9. Usos e significados da música tradicional, da literatura e da forma sonata na composição.

Outras áreas temáticas poderão ser também consideradas, sempre que relacionadas com a figura do compositor.

APRESENTAÇÃO DE COMUNICAÇÕES

As propostas deverão ser enviadas, antes do 31 de Julho de 2005, para o seguinte endereço electrónico:
teresa.cascudo@dea.unirioja.es.

As comunicações não deverão exceder vinte (20) minutos.
Os “abstracts”, com o correspondente título, não deverão ultrapassar as 300 palavras. Deve ser identificada a área temática de cada comunicação. Aceitam-se propostas em Português, em Francês e em Inglês, que serão as línguas do congresso.

A indicação de aceitação será feita até 30 de Outubro de 2005.

Coordenação científica:
Teresa Cascudo (CEIS20/Universidad de La Rioja)
Maria de São José Côrte-Real (Universidade Lusófona)
António Pedro Pita (CEIS20/Universidade de Coimbra)

CONFERENCISTAS CONFIRMADOS

Estão já confirmadas as seguintes presenças: Professora Doutora Jane F. Fulcher (Indiana University), Professor Doutor Michael Walter (Institut für Musikwissenschaft, Karl Franzens Universität Graz), Professor Doutor Rui Vieira Nery (Universidade de Évora)

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julho 03, 2005

"BARREIRO RECONHECIDO" 2005 À MEMÓRIA DE BLANQUI TEIXEIRA

O galardão "Barreiro Reconhecido - Área da Resistência Antifascista" de 2005 foi concedido a titulo póstumo a Blanqui Teixeira, militante comunista que controlou o partido no Barreiro. Uma pequena biografia foi colocada em linha.

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junho 25, 2005

José Pacheco Pereira - UM INÉDITO DE CUNHAL

Publicado na revista Sábado, Junho 2004

Depois de ser preso em 1949, Cunhal foi sujeito não apenas a um único processo, mas a vários. O mais conhecido foi aquele que foi julgado em Maio de 1950, e que diz respeito à sua actividade como comunista, pela qual foi condenado. Foi nesse processo que Cunhal proferiu uma célebre defesa de várias horas, e que representa a sua mais completa análise do comunismo e do PCP face ao início da guerra-fria. Mas Cunhal esteve envolvido em vários outros processos quer como acusado, quer como acusador (Cunhal acusou um PIDE de ter roubado uma quantia de dinheiro que se encontrava escondida no forro de um casaco de Sofia Ferreira, também presa na mesma casa.). Um processo contra Cunhal arrastou-se de 1950 até fins de 1955, devido ao facto de este se ter recusado a responder à pergunta sobre se alguma vez tinha estado preso ou respondera em tribunal. A ausência de resposta a esta pergunta constituía crime, pelo que Cunhal foi acusado e só não foi condenado porque entretanto o processo prescrevera.

A pergunta e as circunstâncias em que foi feita eram tudo menos inocente. Cunhal alegava que a pergunta lhe fora feita por um subalterno da PIDE e não pelo subdirector, e que só fora feita depois de ter declarado que “não tinha quaisquer declarações a fazer à polícia”. Na carta inédita que a seguir se publica, Cunhal utiliza este pretexto processual, para fazer considerações sobre a justiça, e sobre o comportamento dos comunistas face à polícia, uma matéria central não só do seu pensamento político, mas também do seu ethos pessoal.
Cunhal escreve esta carta na Penitenciária em 19 de Junho de 1950, e fá-lo na convicção que a PIDE não autorizará a sua presença em tribunal, como desejava. A PIDE opôs-se à sua presença, percebendo que Cunhal se preparava mais uma vez para utilizar a defesa como instrumento de agitação política, e a experiência do julgamento de Maio, mostrava a capacidade que Cunhal tinha para usar as suas intervenções como armas tribunícias para a sua causa.

A carta revela as qualidades de Cunhal como dirigente político revolucionário, que ajuda a explicar o antigo e actual fenómeno de culto de personalidade, que não se ficou pelo século XX e que se estende, embora de forma diferente, no século XXI. No século passado, a sua persona política era indissociável do seu papel na acção política, na luta contra a ditadura, antes do 25 de Abril como resistente, no PREC como comunista. Cunhal era admirado na divisão das águas, logo era odiado também. Hoje essa divisão perdeu sentido, porque se perdeu um lado, os comunistas já não são o que eram, tornaram-se outra coisa depois do fim da URSS. E é de facto o valor simbólico, ou icónico que prevalece. A carta é por isso lida como sendo essencialmente um retrato moral, em tempos de pouca moral. O conteúdo político desvaneceu-se na sua explicitude, ficou o comportamento. Os milhares e milhares de pessoas que saíram à rua por Cunhal vêm pelo símbolo, não pela revolução, e muito menos pelo comunismo.


Senhores juízes:

(…)1º - Sou acusado de “ na Subdirectoria da PIDE do Porto, ao ser submetido a perguntas pelo respectivo Sub-director, me ter recusado a responder á pergunta se alguma vez estivera preso, quando e porquê e se já alguma vez respondera em algum tribunal”. Isto não é exacto. Essa pergunta foi-me feita, não pelo referido subdirector mas por um funcionário subalterno da mesma Policia. – devo esclarecer que, se essa pergunta tivesse sido feita pelo referido subdirector ter-me-ia igualmente recusado a responder. Mas não foi. Os preceitos legais invocados não são pois de aplicar e o envio deste processo ao tribunal é assim um pequeno exemplo de abusos, e ilegalidades e atropelos cometidos pelas entidades instrutoras dos processos políticos...

2º - Não foi essa a única pergunta a que me recusei a responder. Não respondi a essa nem a qualquer outra, directa ou indirectamente relacionada com a minha actividade política. – Repetidas vezes sublinhei que o faria porque “como membro do partido comunista português, não tinha quaisquer declarações a fazer à polícia”. – Por insistência minha, esta declaração foi reduzida a auto. O auto de perguntas em que figura esta declaração foi o único que assinei e o único autêntico.

3º - No meu caso (como na generalidade dos casos políticos) a pergunta em questão não tinha qualquer valor para a entidade instrutora e, se foi feita, foi depois de eu ter afirmado repetidas vezes que me recusava a responder a qualquer pergunta e com o único objectivo de tentar “quebrar” essa minha atitude ao instaurar um novo processo. – Mantive a mesma atitude e recusei-me a responder a essa pergunta como ás outras. Instaurou-se então este processo. – Qual a finalidade deste processo? Ele é apenas uma forma de intimidação (bem débil é certo) contra os que, ante a polícia se recusam a prestar declarações. Creio que o resultado será contrário ao desejado pelos acusadores. Quanto a mim, julgo necessário que o tribunal saiba que me orgulha ser novamente julgado pelo único facto de ter sabido tomar ante a policia uma atitude intransigente de defesa do meu Partido, dos meus camaradas, dos meus ideais.

4º - Nas “notas” e “artigos” que a PIDE fez publicar nos jornais depois da minha prisão, é dito (entre abundantes inexactidões, mentiras e calúnias) que o mutismo dos comunistas presos (e por consequência o meu próprio mutismo) resulta da “rigorosa disciplina do partido” e de “receio das sanções”.- Diz, por exemplo a “nota” da PIDE publicada em 15 de Abril de 1949: “Mais que o terror da Policia, influi neles a aplicação de sanções contra os que, uma vez presos, façam declarações que possam comprometer os companheiros”.- Neste ponto, a PIDE falou quase verdade. Um comunista que se encontra preso prefere a tortura ou a morte a fazer quaisquer declarações prejudiciais ao seu Partido. Muitos comunistas têm sido torturados, muitos têm morrido na incomunicabilidade, por se negarem a prestar declarações.

- Aqueles que o fazem, fazem-no por entenderem ser esse o seu dever; porque defendem com honradez a sua causa; porque querem conservar um nome honrado e a confiança do Partido e do povo; porque o terror da policia “ (como diz a “nota” da PIDE) não vence o seu animo e a sua firmeza de bons cidadãos e bons patriotas Há de facto, uma disciplina no Partido Comunista Português. E aqueles que fraquejam perante o inimigo sofrem sanções como resultado. Que sanções? A critica, a censura pública, a limitação de responsabilidade ou expulsão Essa disciplina educa os membros do Partido na fidelidade aos seus princípios e auxilia o desenvolvimento das suas capacidades morais, da ideia, da responsabilidade, da confiança nas próprias forças íntimas, da altivez e coragem perante os adversários. Os que mais atacam são os que mais a invejam.

5º- Uma condenação neste processo significaria, não só uma abusiva aplicação da lei (dado que se não verificou o facto que serve de base a acusação), como ainda e fundamentalmente que a justiça se decidiria a castigar a honradez e a premiar a cobardia. Mal do regime que as coloque dentro de tal quadro de valores morais. E mal da justiça que os adopte.

Álvaro Cunhal

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junho 17, 2005

MORTE DE CORINO DE ANDRADE

Necrologia no Jornal de Notícias:

"Cidadão de reconhecida intervenção cívica - fazendo muitas vezes questão de recordar que vivera os tempos da primeira e da segunda grandes guerras -, Corino de Andrade escapou ao nazismo mas não à polícia política (PIDE) do Estado Novo, que lhe moveu perseguições, no início da década de 1950, pelas suas convicções democráticas .

"Os meses que passei na cadeia serviram-me para muita informação e muita reflexão. Tirei disso muito proveito", dizia ao JN em 1991.

Apoiou a candidatura de Nórton de Matos à Presidência da República. Como opositor ao Estado Novo, fez parte do núcleo de homens de ciência do Porto, entre os quais se destacaram figuras notáveis, como Abel Salazar e Ruy Luís Gomes. Por isso, ao lado do professor Nuno Grande - um dos principais impulsionadores da criação, na Universidade do Porto, do Instituto de Ciências Biomédicas Abel Salazar (ICBAS) -, Corino de Andrade fez parte da respectiva Comissão Instaladora, entre 1974 e 1980.

Confessava-se agnóstico e admitia que a Terra há-de tornar-se um planeta morto. Afirmava pensar que não seria no Universo mais do que uma molécula era no seu corpo."

Biografia da Lusa:

Morreu Corino de Andrade, investigador que descobriu a “doença dos pezinhos”
16.06.2005 - 19h51 Lusa

Corino de Andrade, o investigador que descobriu a paramiloidose, mais conhecida como "doença dos pezinhos", morreu hoje, ao 99 anos de idade, disse fonte da Universidade do Porto.

O professor universitário, um dos mais destacados neurologistas nacionais, responsável pela descoberta da "doença dos pezinhos" e um dos principais impulsionadores da criação do Instituto de Ciências Biomédicas Abel Salazar da Universidade do Porto, faleceu às 15h10 devido a uma paragem cardiovascular, resultante de doença prolongada que há anos o obrigava a permanecer acamado.

Natural do Alentejo, Mário Corino da Costa Andrade licenciou-se em Medicina e Cirurgia em Lisboa, de onde partiu em 1931 para trabalhar no Laboratório de Neuropatologia da Faculdade de Medicina de Estrasburgo, onde recebeu o Prémio Déjerine, até então atribuído apenas a investigadores franceses.

Quando, em 1938, regressou a Portugal, instalou-se na cidade do Porto, onde, contratado como neurologista pelo Hospital Santo António, criou e dirigiu o respectivo Serviço de Neurologia a partir do início dos anos 40. Foi com base no trabalho de investigação realizado naquele hospital que Corino de Andrade se notabilizou mundialmente quando, em 1952, foi o primeiro a identificar e tipificar cientificamente a paramiloidose, vulgarmente designada por "doença dos pezinhos" ou mesmo "Doença de Andrade".

A paramiloidose é uma doença que se manifesta normalmente entre os 25 e os 35 anos e que é transmitida por via genética. Os primeiros sintomas são constantes formigueiros nos pés e uma perda de sensibilidade ao frio e ao calor. Esta doença neurológica era inicialmente típica das zonas piscatórias do Norte e Centro portuguesas, mas acabou por ser também identificada noutras regiões litorais do mundo.

Corino de Andrade detectou esta doença ao observar pescadores da zona da Póvoa de Varzim que não sentiam dor quando se cortavam nas cordas dos barcos e se queimavam com os cigarros.

Em 1976, após uma viagem de investigação aos Açores, Corino de Andrade identificou uma outra doença neurológica, a de Machado-Joseph.

Corino de Andrade recebeu várias distinções ao longo da vida, entre as quais o Grau de Grande Oficial de Santiago de Espada (1979), a Grã-Cruz da Ordem de Mérito (1990), o Grande Prémio Fundação Oriente de Ciência e, em 2000, o Prémio Excelência de Uma Vida e Obra da Fundação Glaxo Wellcome.

A morte do investigador levou a Universidade do Porto a colocar bandeiras a meia haste. O ministro da Ciência, Tecnologia e Ensino Superior, Mariano Gago, já enviou as condolências à família de Corino de Andrade.

Publicado por José Pacheco Pereira em 11:04 PM | Comentários (4) | TrackBack

junho 14, 2005

MATERIAIS SOBRE ÁLVARO CUNHAL

Entre o muito que está a ser publicado sobre Álvaro Cunhal, seguem-se algumas referências a materiais com informações novas e inéditas sobre a sua vida, ou interpretações analíticas originais:


Morreu líder do PCP - Últimos anos de Cunhal, Correio da Manhã, 14/5/2005

"Éramos irmãos de combate" (Entrevista com Dias Lourenço), Jornal de Notícias, 14/5/2005

Atirou-se ao mar para fugir de Peniche. Depois, ajudou Cunhal também a escapar da fortaleza. "Na prisão, tínhamos um lema quem puder fugir, fuja, colectivamente, ainda melhor". Em média, recorda, havia "quatro insucessos por cada êxito, que se pagava sempre muito caro".

Nove "camaradas" acompanharam Cunhal. Dias Lourenço era o elemento de ligação ao GNR que ajudou na fuga. Foi ele quem acalmou o guarda e antecipou a tentativa de escape quando a escala dos militares foi subitamente alterada. Ainda se lembra que nesse dia, à noite, quando chegou a casa de Pires Jorge, que acolheu o antigo líder, Cunhal brincou com ele, dizendo-lhe que "as coisas tinham corrido mal". Gelou e apanhou dos maiores sustos da sua vida, até que Cunhal, "com pena", saiu de dentro do quarto, onde estava escondido.

No 25 de Abril, estava no Hospital Prisional de Caxias. Estava tudo pronto para a segunda fuga. Iria tentar escapar vestido de mulher. Já tinha a roupa, duas perucas para escolher, "seios de algodão e ancas volumosas, até aprendido a andar de saltos altos", quando chegou a notícia da Revolução.

Há dois meses que não via o "amigo" Cunhal. Independentemente da grande dor pela sua perda, garante que não é a sua morte que irá diminuir ou enfraquecer "a luta".


"Era daquelas pessoas superiores" diz Manuel Rodrigues de Almeida, Comércio do Porto, 14/6/2005

Do contacto directo com Cunhal, Francisco Madruga recorda um em particular, ia a década de 80 pelos seus meados. "Era um congresso das juventudes comunistas, em Lisboa. Eu encontrava-me a dirigir a sessão de encerramento e perguntei-lhe se era para ler os nomes de todos os nomes dos eleitos para os diversos órgãos. ´Essas coisas preparam-se na véspera!´, respondeu de pronto". Madruga aprendeu a lição e, claro, leu os nomes todos.


Jorge Sampaio, Álvaro Cunhal, Diário de Notícias, 14/6/2005.

Conheci relativamente bem o Dr. Álvaro Cunhal, pois tive vários contactos e longas reuniões com ele, antes e depois do 25 de Abril. Lembro a reunião, particularmente relevante, que decorreu nos arredores de Paris e que o António Lopes Cardoso organizara. Nela falámos de tudo, da situação nacional e internacional, e também da necessidade de dar à Oposição novas frentes de combate perante um Regime Autoritário que se eternizava. Para situar esta reunião clandestina, devo dizer que quando finalmente chegámos a Paris soubemos, pela imprensa francesa, que Salazar tinha sofrido um grave acidente.

no Diário de Notícias, 14/6/2005

Cunhal, terceiro à esquerda, em foto de grupo na praia de S. Pedro de Muel

Perez Metelo, "Vão-se embora, já saíram todos!" , Diário de Notícias, 14/6/2005


O conflito sino-soviético motivou confrontos políticos e ideológicos tremendos entre comunistas e maoístas dentro do campo antifascista.

Um ódio intenso foi cavando uma rivalidade belicosa entre essas duas correntes políticas. Para os "marxistas-leninistas", os militantes do PCP eram "cunhalistas" ou "revisionistas". Aos olhos destes, os membros dos grupos "m-l" não passavam de "esquerdistas, provocadores".

No Forte de Peniche chegou mesmo a passar-se do insulto verbal a confrontos físicos no início dos anos setenta. Quando lá entrei, em Março de 1974, já os dois colectivos estavam separados em pisos incomunicáveis entre si. Chegada a hora da libertação, os presos do colectivo maoísta recusaram-se a ir saindo sem os camaradas que o general Spínola queria manter encarcerados por terem cometido delitos de sangue. Enquanto decorriam as negociações com advogados para resolver o impasse, os presos do PCP foram saindo ao longo da tarde e da noite de 26 de Abril.

Quando, finalmente, todos os presos maoístas passaram o portão exterior do Forte às três da manhã de dia 27, qual não foi o espanto quando ouvimos da boca das nossas famílias o que se passara horas antes. Ao completar a libertação dos seus presos, quadros do PCP disseram aos populares de Peniche, concentrados à saída da prisão, para irem para casa, pois lá dentro já não estava mais ninguém.

O sectarismo cego e obtuso tomou o freio nos dentes ao longo dos meses seguintes, mas veio logo ao de cima quando a liberdade dava os primeiros passos.

António Perez Metelo

Torcato Sepúlveda, A ficção de Cunhal/Tiago entre a lucidez e a missa ideológica, Público, 14/6/2005


Adelino Gomes, "CHAMAR-TE ESSE NOME SÓ NOSSO, CAMARADA", Público, 14/6/2005

Margarida, 84 anos, foi das primeiras. Está ainda sentada, um cravo vermelho na mão, na outra a bengala. Quer falar com alguém "da velha guarda". Mas estão todos para o enterro de Vasco Gonçalves.
Não é comunista. Às vezes vota PS. Da última vez, fê-lo no Bloco de Esquerda. Não veio, portanto, por si. Mas pelo marido, velho historiador antifascista, 15 anos de exílio, e o regresso à pátria no mesmo avião de Cunhal. Lembra-se bem. Dos dois "chochos" que lhe espetou na cara, no aeroporto Charles de Gaulle. Da mudança súbita de voo da Tap, de manhã, para um Air France, à tarde, para que Cunhal não fizesse todo aquele Paris-Lisboa "no mesmo avião em que estava previsto que viessem uns radicais" (José Mário Branco, entre outros), e assim se evitassem "complicações".
É em nome do marido, o historiador Joaquim Barradas de Carvalho, falecido no início da década de 80 e ele sim, comunista, que Margarida deixa no livro a recordação daquele dia 30 de Abril de 1974, em que viajou no mesmo avião da Air France, do exílio em Paris para Lisboa, onde o regime, enfim, caíra. Uma evocação que, coincidências que vá lá a gente perceber, não fica longe destoutra de Maria, "funcionária da TAP", que naquela mesma hora do regresso de há trinta anos o esperava "para lhe prestar assistência", no aeroporto da Portela. "Simples simpatizante", nesse tempo, ela aqui está agora a escrever-lhe "obrigada por tantos sonhos".
(...)
Margarida Tengarrinha, que veio do Algarve "porque não podia deixar de vir". Por causa de Vasco Gonçalves, "revolucionário, corajoso, lúcido, mas acima de tudo um homem puro".
E, claro, "por causa do Álvaro", a quem entreviu, pela primeira vez, "quando foi do julgamento de 1949, na Boa-Hora". E a quem passou a conhecer quando em 1960, o já então "herói mártir", acabado de fugir de Peniche, se apresentou ("louro, parecia um inglês"), na sua casa de Linda-a-Velha (Margarida era casada com o pintor José Dias Coelho, mais tarde assassinado pela PIDE), a pedir que lhe arranjassem um bilhete de identidade falso e, um ano mais tarde, um passaporte falso para abandonar o país.
Aurélio Santos, 74 anos, esteve com Margarida e reunia-se regularmente com Álvaro Cunhal em Bucareste, nos tempos da Rádio Portugal Livre. Hoje na Comissão Central de Controlo, integrou a partir de 1965 o Comité Central do partido. De regresso a Portugal, foi seu chefe de gabinete no imediato 25 de Abril, ficando impressionado com a "visão de estadista que ele demonstrou".
Rejeita com veemência a ideia de que amanhã se assistirá ao enterro de um líder derrotado. "Basta lembrar o programa do partido para a revolução democrática, aprovado no 6.º congresso, em 1965", argumenta, sustentando que praticamente tudo estava cumprido em 1976. Revolução socialista? "As revoluções raramente se fazem numa única tirada", responde, depois de citar os "períodos de avanços silenciosos" de Gramsci. "Estamos numa grande crise de civilização. Ao contrário do que se pensa, o salazarismo só caiu quando o modelo se revelou incapaz."
(...)
Na sala onde está o livro de condolências, por detrás da máquina onde se compram as senhas para o bar, Teodósia Gregório não quer falar. Talvez porque é tão grande a história que a liga à história. Essa, de um homem e de um partido, que ali mesmo, na vitrina em frente, se resume, no epitáfio do comité central, naqueles desenhos de prisão; naqueles livros; naqueles discursos de Cunhal, que sorri numa foto de há uns 20 anos, a bolsa apertada ao peito feito, por debaixo da camisa aberta.
"Abri esta sede, abri a Escola do Partido, fiz tudo aquilo de que fui capaz de fazer para o partido", diz Teodósia. Falou de jacto e parece que nada mais lhe sai, quando lhe perguntamos a data em que viu pela última vez Cunhal, a imagem que dele guarda. Entrou no partido aos 19, isto é, há 51 anos; pouco depois o marido, Afonso Gregório, é preso. "É complicado", diz. "É complicado explicar."

Ana Sá Lopes, "O ÁLVARO PARA NÓS É UM PAI", Público, 14/6/2005

Dina Góis é proprietária, com a mãe e o irmão, do café do Virgílio. É militante do PCP desde 1977 (tinha 14 anos) e amiga de Fernanda Barroso, mulher de Álvaro Cunhal e funcionária do PCP. Telefonou a Fernanda: "Que podemos nós fazer? Não te podemos largar nesta altura, temos que estar ao pé de ti". "Vamos ao funeral manifestar o nosso pesar o carinho por ela. Ela fica cá!" A diferença de idades entre Fernanda e Álvaro era imensa (Cunhal morreu com 91 anos, Fernanda Barroso não tem ainda 60), e Dina recorda ter havido sempre "muito amor entre os dois". "Há 30 anos que estão juntos. Ela vai sentir muito a falta dele, aquilo sempre foi "meu amor para aqui, meu amor para ali"". Maria José diz que ainda não está "bem mentalizada": "Estou a pensar que é um sonho." Dina Góis é realista: "A vida é assim. É a coisa mais natural da vida, a morte. É essa a realidade, é nisso que temos de pensar". Dina ainda esteve em casa de Álvaro Cunhal a 22 de Dezembro: "Fui lá mais uma camarada do Centro Vitória, que trabalha com a Fernanda. Ele já estava muito debilitado, mas mantinha a consciência. Já quase não andava, mas mantinha a lucidez".

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junho 13, 2005

MORTE DE ÁLVARO CUNHAL (1913-2005)

Perfil de Álvaro Cunhal no Público, 13/6/2005.

Perfil de Álvaro Cunhal

Álvaro Barreirinhas Cunhal, nascido em Coimbra, em 10 de Novembro de 1913, hoje falecido aos 91 anos, morreu comunista como resolveu sê-lo aos 17 anos.
A sua vida confunde-se com a do Partido Comunista Português, para o qual foi sempre uma referência, mesmo depois de ter cedido a sua cadeira de secretário-geral, em Dezembro de 1992.
O pai de Álvaro, Avelino Cunhal, era advogado de província tendo chegado a governador civil da Guarda.Fez a primária em casa, mas aos 11 anos, a família mudou- se para Lisboa, tendo estudado nos liceus Pedro Nunes e Camões.
Em 1931, com 17 anos, ingressou na Faculdade de Direito de Lisboa e, eleito representante dos estudantes de Lisboa no Senado Universitário, a sua primeira proposta foi acabar com a Mocidade Portuguesa.
No mesmo ano filiou-se no PCP, entrou para a Liga dos Amigos da URSS e do Socorro Vermelho Internacional e depressa subiu os degraus da organização do partido.
Em 1935 já era secretário-geral das Juventudes Comunistas e no ano seguinte entrava para o Comité Central, que o enviou a Espanha, onde viveu os primeiros meses da guerra civil, uma experiência que o inspirou para o seu romance "A Casa de Eulália".
Aos 24 anos, em 1937, sofre a primeira prisão, no Aljube e Peniche.
Por questões políticas foi obrigado ao serviço militar (início de Dezembro de 1939) na Companhia Disciplinar de Penamacor, mas por motivos de saúde, a junta militar dispensou-o pouco depois.
Em Maio de 1940 foi novamente preso.
Estudou na cela e foi à Faculdade, sob escolta policial, defender a sua tese (100 páginas, confiscadas depois pela PIDE) sobre a realidade social do aborto e a sua despenalização.
Os examinadores Paulo Pita e Cunha, Cavaleiro Ferreira e Marcelo Caetano (que vieram a integrar o consulado de Salazar) deram-lhe 19 valores.
Em 1941, trabalhou como regente de estudos no Colégio Moderno, a convite de João Soares e chegou a dar explicações a Mário Soares, mas, no final do ano, passa à clandestinidade.
Até 1947 conseguiu pôr de pé o partido, restabelecer as relações com a Internacional Comunista (interrompidas em 1938) e ganhou todos os "desvios internos", sendo mesmo o responsável pelo relatório político apresentado no II e IV Congressos.
Preso de novo pela PIDE em 1949, no ano seguinte é levado a julgamento e é condenado a quatro anos de prisão maior celular, seguida de oito anos de degredo.
Na prisão escreve e desenha. Esteve mais de oito anos isolado numa cela.
"Quando se tem um ideal o mundo é grande em qualquer parte", lembraria mais tarde.
A 03 de Janeiro de 1960 foge, com outros camaradas, do Forte de Peniche, uma fuga espectacular e novo período de clandestinidade.
No ano seguinte é eleito secretário-geral (cargo vago desde 1942).
E, mesmo vivendo no exílio, entrou e saiu várias vezes do País e consegue publicar em 1964 o "Rumo à Vitória", cujas teses ainda perduram no núcleo duro do PCP.
Cinco dias após o 25 de Abril de 1974, Cunhal regressou a Lisboa, vindo de Paris, para a 15 de Maio tomar posse como ministro sem pasta no governo provisório.
Entre 1975 e 1992 foi deputado à Assembleia da República, mas só por curtos períodos ocupou o lugar na sua bancada.
Em 1982, torna-se membro do Conselho de Estado, cargo que abandonou em 1992, ano em que cedeu liderança do PCP a Carlos Carvalhas, para passar a presidente nacional do Conselho Nacional do partido, um cargo criado à sua medida e extinto anos depois.
Passou incólume aos desaires internos: o "grupo dos seis" e a "terceira via" em 1986; em 88 o caso Zita Seabra, que acaba por ser expulsa dois anos depois.
Foi operado a um aneurisma da aorta, em 1989, em Moscovo.
Quando regressa a Portugal, o partido sofre sucessivos contratempos: o grupo do INES e a "quarta via", a queda do muro de Berlim e a "perestroika".
Livre das luzes da ribalta partidária, nem por isso deixou de influenciar os destinos dos comunistas portugueses, embora tenha assumido claramente apenas a sua condição de romancista e esteta.
Os seus contactos com jovens multiplicaram-se, mas tiveram de passar 28 anos sobre o 25 de Abril para Cunhal ser convidado a falar na Universidade Católica (1997), onde surpreendeu todos ao dizer que Jesus Cristo se sentiria mais próximo dos comunistas.
Com obras publicadas como ideólogo do marxismo-leninismo (entre as quais "Rumo à Vitória" e "Partido com Paredes de Vidro"), só em 1995 reconheceu publicamente ser ele o Manuel Tiago da ficção literária "Até amanhã Camaradas", "Cinco Dias e Cinco Noites", "Estrela de Seis Pontas" e "A Casa de Eulália" e o António Vale que assinava temas plásticos e fazia desenhos como as suas célebres ceifeiras.
Após a aprovação no Comité Central do "Novo Impulso", um documento que em 1998 imprimia um sentido renovador às linhas de orientação do partido para os anos seguintes, Álvaro Cunhal fez uma ronda de sessões de esclarecimento pelo país, alertando contra as "tendências de social-democratização" no PCP.
Dois anos depois, e por motivos de saúde, Cunhal faltou pela primeira vez à Festa do Avante e pela mesma razão ao XVI Congresso do PCP.
Mesmo ausente, marcou os trabalhos, ao enviar um documento em que reafirmava a actualidade do marxismo-leninismo.
Nos últimos anos esteve sempre afastado da cena política devido à sua avançada idade e ao seu estado de saúde.
Em Novembro último, voltou a enviar uma nova mensagem ao XVII Congresso, também saudada de pé pelos militantes.
Álvaro Cunhal teve uma filha única, Ana (a mãe foi a sua companheira de exílio Isaura Dias) embora a mulher dos seus últimos anos fosse Fernanda Barroso.

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maio 30, 2005

HOMENAGEM AO GENERAL SOUSA DIAS NA GUARDA

Guarda: General Sousa Dias vai ser homenageado - Iniciativa marcada para Setembro

A «Associação Cívica Adalberto Gastão Sousa Dias» que vai ser criada na cidade Guarda, por iniciativa de várias personalidades locais e nacionais, vai homenagear o general, falecido em 1934 no Mindelo, em Cabo Verde. Em 2004 o general foi alvo de uma primeira homenagem, que contou com a participação do ex-Presidente da República, Mário Soares.

Segundo apurou a KA, a novel colectividade que integra nomes como José Domingos, António Arnault, Alípio de Melo e os generais Vasco Lourenço e Monteiro Valente, surge com o objectivo de prestar “a verdadeira homenagem” ao general Sousa Dias, que faleceu em Cabo Verde, mas cujo corpo foi secretamente transladado para um jazigo do Cemitério da Guarda.

José Domingos, um dos fundadores da associação explica que a colectividade vai ter duas vertentes distintas. “Uma componente cultural, que visa criar um espaço de debate cívico que queremos fazer entre o passado e o presente e cimentar o espírito democrático em Portugal e na Guarda. A outra vertente é cívica e tem por objectivo não deixar esquecer os feitos da democracia e de quem lutou por ela, como foi o caso de Adalberto Gastão Sousa Dias”.

O primeiro propósito da associação vai ser homenagear Sousa Dias. A iniciativa está marcada para Setembro e consiste na colocação de um monumento, da autoria do escultor Octávio Gonçalves, junto da casa onde viveu, no Bairro do Bonfim, na cidade da Guarda.

“Vai ser um monumento monolítico de granito, vindo dos Fóios (Sabugal), que vai ser impregnado em bronze, com uma simbologia evocativa do general, prestando devidamente a homenagem a que ele tem direito por justiça e mérito, pela luta que fez em nome da democracia, contra a ditadura”, explicou José Domingos.

Recorde-se que ao general Sousa Dias já foi prestada uma primeira homenagem por ocasião da passagem dos 30 anos após o 25 de Abril. No ano passado a Escola Superior de Educação da Guarda (ESEG) promoveu uma jornada de dia inteiro que incluiu uma conferência com o antigo Presidente da República, Mário Soares.

A propósito da iniciativa realizada em 2004, Joaquim Brigas, o director da ESEG, afirmou: “De todas as iniciativas que foram levadas a cabo ao longo deste ano, a mais relevante foi, sem dúvida, a homenagem prestada ao general Sousa Dias, no âmbito do ciclo de debates dos 30 anos do 25 de Abril. Não apenas pelo prestígio que este guardense granjeou dentro e fora de fronteiras, na sua luta pela liberdade, e contra a repressão salazarista. Mas também porque, para invocar e analisar o percurso desta insigne figura, vieram à nossa escola uma plêiade de notáveis cidadãos, com destaque muito especial para o ex-Presidente da República, dr. Mário Soares”.

”A lição que Mário Soares deixou na ESEG, traçando o percurso, a obra e o homem que foi o general Sousa Dias ficará para a história desta instituição. Sobretudo porque Mário Soares não se limitou a reavivar a memória escrita daquele general. Mas antes porque o ex-Presidente da República revelou um conjunto de factos da carreira de Sousa Dias que, sendo desconhecidos da maioria dos cidadãos portugueses, remetem aquele combatente pela liberdade para o lugar dos injustiçados da Pátria.
Um homem bom, um livre pensador, solidário e justo, enfim, alguém que se bateu pelos ideais da construção de um homem novo, e um mundo mais fraterno”, sustentou também Joaquim Brigas.

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maio 28, 2005

MORTE DE HARILAOS FLORAKIS

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Former Greek communist party leader dies


Trancrição da notícia necrológica no Avante!, 25/5/2005

Morreu Harilaos Florakis

O presidente honorário do Partido Comunista Grego (PCG), Harilaos Florakis, morreu a 22 de Maio, com 91 anos.
O corpo do destacado dirigente comunista esteve em câmara ardente na sede do PCG em Perissos, nos dias 24 e 25 de Maio, onde camaradas e amigos lhe prestaram pública homenagem. O enterro tem lugar amanhã, em Paliozoglopi, no município de Itamos em Salónica, sua região natal.
Nascido a 20 de Julho de 1914, Harilaos Florakis tornou-se militante da Federação da Juventude Comunista da Grécia em 1929. Em 1941 entrou para o PCG, em cuja reconstrução participou activamente, destacando-se na luta contra a ditadura e a ocupação. Membro da Frente Nacional de Libertação desde a sua formação, bem como do Exército Popular de Libertação Nacional (ELAS), Harilaos Florakis adoptou o nome de guerra de «capitão Yiotis».
Em 1949 foi eleito membro do Comité Central do PCG. Perseguido, preso e exilado num total de 18 anos, 12 dos quais com sentença de prisão perpétua e seis de exílio, Harilaos Florakis protagonizou alguns julgamentos célebres, como o conhecido «Grande Julgamento» de Maio de 1960, no Tribunal Marcial de Atenas.
Nada quebrou a sua resistência. Em 1972 é eleito primeiro secretário do CC do PCG, cargo que ocupou até 1989. Com o fim da ditadura militar na Grécia, o contributo patriótico de Harilaos Florakis veio a ser reconhecido, tendo recebido, entre outras distinções, a Medalha de Honra do ELAS e a Medalha de Mérito Militar do Exército Democrático da Grécia.
Em mensagem de condolências ao PCG, o Secretariado do CC do PCP manifestou a sua grande consternação pelo desaparecimento do «histórico dirigente» e «destacada figura da luta dos comunistas e do povo grego pela liberdade, a democracia e a soberania» da Grécia.
Com a morte de Harilaos Florakis, sublinha o PCP, não apenas os comunistas e os patriotas gregos perdem uma importante personalidade, mas também «o movimento comunista em todo o mundo».

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maio 27, 2005

MEMÓRIAS DE EDGAR MACIEL CORREIA (1945-2005)

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Carlos Luis Figueira sobre Edgar Correia

Vasco de Carvalho, "Edgar Correia - um militante indomável", Público, 30/04/2005

Paulo Sucena, Entre o Delírio e o Desassossego.

João Tunes, Edgar Correia, Água Lisa.

Pedro Baptista, In memoriam Edgar Correia, Comércio do Porto, 19/5/2005

Todos estes textos estão transcritos em baixo.

Mais documentos sobre Edgar Correia: Carta de Demissão, Nota para audição prévia de Edgar Correia nos termos e para os efeitos do artº 60º dos Estatutos do PCP , RESOLUÇÃO DO SECRETARIADO DO COMITÉ CENTRAL SOBRE GRAVES VIOLAÇÕES DOS PRINCÍPIOS E NORMAS ESTATUTÁRIAS POR EDGAR CORREIA.

CARLOS LUIS FIGUEIRAS

Conheci o Edgar no Porto, em finais dos anos 60, por volta de 70 / 71, não sei precisar mais. Fazia parte eu com ele e o José Carlos de Almeida do organismo mais importante do Partido a Norte. A chamada troika, cujo responsável era o Carlos Costa. O Edgar era o único de nós que não era ainda funcionário do Partido e se mantinha numa situação legal. Este facto inédito na prática do Partido só era possível pelas qualidades politicas que se reconheciam ao Edgar e pela confiança que nele se depositava. Nesta troika eu era responsável por todas as Beiras, o José Carlos de Almeida pelo sector operário do Porto e o Edgar pelo sector intelectual do Porto e boa parte do Norte do Pais.

Ao fim de algum tempo o Edgar foi substituído no organismo pelo José Bernardino este, quadro clandestino, acabado de chegar do exterior.

Lembro-me a propósito que se organizou entre a troika um jantar de despedida do Edgar tendo este nos obsequiado com um suculento leitão que na altura nos soube a pouco.

A despedida do Edgar coincidiu com a sua entrada na clandestinidade, ele e a sua companheira. Teve como quadro clandestino destacadas responsabilidades no Alentejo, onde se manteve ainda durante algum tempo após o 25 de Abril, num período em que as suas qualidades politicas foram muito importantes para a definição de uma orientação concreta do Partido face ao problema da terra e o arranque para as ocupações que deram origem à reforma agrária.

Já depois do 25 de Abril participei com o Edgar e outros camaradas na Comissão de Organização do Partido, estrutura que tinha a particular responsabilidade de dar conta dos níveis de crescimento de um partido que passa de um partido de quadros para um partido de massas e definir as principais linhas de orientação para a sua estruturação orgânica. O Edgar respondia então pelo distrito do Porto onde já se encontrava depois da sua saída do Alentejo.

Como membro da Comissão Politica durante largos anos tive a oportunidade de continuar a conviver de perto com o Edgar e a apreciar a sua inteligência e a sua não menor coragem politica. Era de facto daquele conjunto de quadros que compunham a Comissão Politica o que apresentava sobre diversas matérias um grau de preparação maior o que não poucas vezes conduziu a acesos debates e confrontos particularmente com os elementos mais aparelhisticos e carreristas deste organismo, acentuando-se as clivagens que conduziram mais tarde ao desfecho politico que se conhece.

Carlos Luís Figueira

2005-04-20

VASCO DE CARVALHO

Vasco de Carvalho, Edgar Correia - um militante indomável

(Público, 30/04/2005)

Conheci pela primeira vez Edgar Correia quando ele repousava no seu berço de menino, pouco depois de nascer.
Era amigo de seu pai, Fernando Correia, que por meu intermédio se filiou no Socorro Vermelho Internacional, quando era estudante de engenharia, e foi um militante tenaz no Porto.
O pai também foi vítima do estalinismo, sendo falsamente acusado de ter denunciado camaradas quando da sua prisão. Na realidade, Fernando Correia foi posto em liberdade pouco depois de ter sido preso, porque seu pai, na Primeira Guerra Mundial, salvou a vida do que seria então director da PVDE, e este, por uma questão de gratidão, mandou soltar Fernando Correia. O verdadeiro denunciante foi um outro camarada estudante cujo nome não me recordo.
Segui a evolução de Edgar Correia, primeiro como jovem estudante anti-fascista até à sua posição de militante devotado do Partido Comunista Português, do qual veio a ser expulso, porque não era um homem para dizer sempre que sim, pela facção estalinista que infelizmente perdura no partido.
Edgar Correia sempre quis que o seu partido fosse seriamente marxista-leninista.
O seu combate não abrandou depois da sua expulsão do partido pelo qual tanto se sacrificou, quer do ponto de vista profissional, quer familiar.
Com o falecimento de Edgar Correia perdeu-se um militante indomável pelo ideal comunista. Ideal comunista que não será a instauração de uma nova ditadura, como aconteceu na Roménia, na Hungria, etc., mas a conquista de um poder verdadeiramente democrático para o povo.


PAULO SUCENA


Um misto de razão e emoção

Há muito não me acontecia escrever sob uma tão espessa, dolorosa e funda amargura. Não procuro as palavras, porque todas seriam pobres e demasiado frágeis para falar de um amigo querido, de um homem bom, de um comunista íntegro e inteiro como poucos outros conheci.
Não era uma personalidade plana. Edgar Correia era um ser rico e complexo, com defeitos como todos os humanos, mas com uma generosidade e por vezes com uma simplicidade tão tocantes que só não emocionavam quem, de todo, fosse destituído de sensibilidade. Edgar Correia era um misto de razão e emoção plantado no centro da vida, com uma inesgotável capacidade de reflectir e de agir.
Assim morreu e assim cresceu, desde a adolescência. Com 13 anos já acompanhou seu pai, activamente, na candidatura de Humberto Delgado à Presidência da República. Ao cair da tarde de terça-feira passada, a escassas horas da sua morte, ainda levantou energicamente o braço, quando abriu os olhos, mais pesados do que a tristeza do mundo, para me ver pela última vez. Ainda fez um segundo gesto semelhante ao primeiro, mas já com um cansaço que me gelou o coração e então fui eu que lhe apertei a mão mais próxima num diálogo surdo que só a amizade compreende. Um último sopro de vida alimentou alguns sons esparsos e desarticulados que eu e a Helena decifrámos no mesmo sentido e eles prendiam-se, como a expressão do rosto confirmava, com uma preocupação que durante muitos anos partilhámos durante a década de 90.
Estava a morrer um homem igual a si próprio. Um homem que fizera da causa comunista a razão da sua vida. Edgar Correia aderiu ao PCP em 1965. A partir de 1970, primeiro numa situação de semiclandestinidade e depois como militante clandestino integrou a direcção regional do Norte do PCP, que dirigia a organização e a acção do partido nos dez distritos do Norte e do Centro do país. No final de 1972 foi deslocado para o Sul, passando a integrar a direcção da organização regional do Sul do PCP. Nesta situação soube, por um anúncio colocado no jornal O Século, que lhe tinha nascido um filho, porque algo se perdera num comboio saído de Lisboa com destino ao Porto. Se a direcção do comboio fosse a contrária, isso significava que nascera uma filha. Dessa circunstância sentimental ou de todas as outras que tiveram a ver com a dureza da vida clandestina nunca lhe ouvi uma palavra de azedume ou de egoísmo.
Edgar Correia plasmava a dureza da razão com a doçura do coração, orientadas ambas para a consecução do grande objectivo da sua vida - a construção de uma terra sem amos.
Após o 25 de Abril participou activamente no arranque da Reforma Agrária com a firmeza política que sempre lhe conheci e com a humanidade que pude intuir ao ver os laços tão afectuosos existentes entre ele e os trabalhadores agrícolas alentejanos. Em Julho de 1975, regularizada a sua situação militar, readquiriu o seu nome verdadeiro e regressou ao Norte onde permaneceu até 1990, tendo sido responsável pela direcção da organização regional do Porto.
Transferido para Lisboa pelo partido, Edgar Correia assumiu múltiplas funções na comissão política, no âmbito da educação, da ciência e da tecnologia, da saúde, da segurança social e de outros assuntos sociais. Foi membro do comité central de 1976 a 2000 e da comissão política entre 1983 e 2000, tendo-se demitido destes organismos, no final de Novembro de 2000, por divergências de natureza política com a direcção do PCP.
Todavia, Edgar Correia manteve-se até à morte como comunista, dizendo-me frequentemente que na sua vida não havia senão um caminho - o do ideal comunista abraçado na juventude. Esse ideal sobrepujava tudo, mesmo a funda, terrível e disfarçada amargura de se ter visto expulso do seu partido.
Quem o leu sabe que os seus escritos geraram diversificadas controvérsias, mas sob o azebre das palavras repousavam parâmetros de uma ética pessoal, algumas vezes excessiva, e uma dor que ele sabia irremovível que às vezes o tornavam violento como só um homem extremamente bom o pode ser.
Trabalhei com ele muitos anos e da saudade desses tempos não falo porque é só minha, apenas confesso que ele reforçou em mim a ideia de que a lealdade política é um bem inestimável e que os princípios não estão à venda. Essa firmeza e essa intransigência deram-nos saborosas e difíceis vitórias políticas.
Morreu Edgar Correia, mas estou certo de que a sua herança é partilhada por muitos dos que com ele trabalharam. Morreu Edgar Correia - o ideal comunista ficou mais pobre.

[Paulo Sucena, Secretário-Geral da FENPROF]


JOÃO TUNES

EDGAR CORREIA

A notícia andou por aí sem oportunidade, no momento, de a ecoar – faleceu Edgar Correia.

Fomos companheiros diários de lutas estudantis (e outras, nomeadamente nas actividades culturais, sobretudo no Cine Clube do Porto), em 1967 e 1968, no Porto. Lutámos, conspirámos, fizemos juntos, e outros mais, aquilo que, na altura havia a fazer – resistir, resistir. Fomos camaradas sem sermos amigos. Porque, pessoalmente, não nos gostámos.

Voltámos a encontrarmo-nos algumas vezes depois. Noutras lutas, agora – avançar, avançar. Continuámos camaradas sem sermos amigos.

Eu saí da organização em que fomos camaradas, ele ficou. Depois, chegou-lhe a hora de querer renovar, foi expulso. Nunca tendo sido amigos, deixámos de ser camaradas.

Um dia, alguns dos que o expulsaram vão querer renovar o que renovação não tem. E vão sair ou serem expulsos.

Edgar Correia foi um lutador. Um homem de elevada craveira intelectual, um poço de energia cívica, um passado de dedicação profunda à luta pelas suas convicções. Foi meu camarada. Nunca foi meu amigo. Lamento, com toda a sinceridade e respeito, a sua perda.


PEDRO BAPTISTA

Pedro Baptista, In memoriam Edgar Correia

Para lá da perda do homem e do amigo, o falecimento do Engenheiro Edgar Correia foi uma baixa significativa na esquerda: porque se finou um dos que nunca desistiu de lutar pelo que considerava justo; e porque se perdeu um espírito que, mantendo os ideais de sempre, procurava gizar-lhes o caminho da concretização, com criatividade, inteligência e abertura de espírito face à história e à realidade de todos os dias e todos os espaços.

Tivemos o privilégio de termos sido amigo do Edgar. No princípio da nossa vida política mais activa, e já perto do fim da sua vida, princípio e fim entrecortados por mais de 30 anos de acérrima divergência política, em que contudo fizemos sempre questão e tivemos o gosto de o continuar a respeitar e a considerar amigo. Porque, para além do mais, vimos sempre no Edgar, entre os que conhecemos, o melhor de todos, o que, de forma aparentemente paradoxal, era o mais inteligente e o que defendia com mais combatividade as suas convicções, mesmo quando já eram apenas uma quimera. A prova de que o paradoxo era apenas aparente, é que percebeu que todo o edifício, a cuja construção tinha entregue mais de 30 anos, ruíra, porque não merecia continuar e, por isso, era preciso a coragem de começar tudo de novo, por um novo caminho e mesmo um novo destino.

Era o que procurava fazer, desde que o PCP considerou insuportável a sua insistência na renovação, na democratização e na abertura, a partir da reflexão e do debate, desde os princípios à prática política concreta, desde os contornos do ideário aos projectos políticos imediatos. Um esforço que era mais do que necessário para o PCP sair da obsolência vegetativa que, lenta mas progressiva e inexoravelmente, o isola cada vez mais na sociedade portuguesa e na esquerda europeia e de todo o mundo.

Encontrámo-nos o ano passado para um "papo" que durou quase a tarde inteira. Se falámos de política concreta, foram cinco minutos. De resto o tema que nos prendeu foi o homem. O Homem. Sabíamos que a política só vale a pena se servir para isso.

Disse-lhe que considerava, e já o tinha escrito, o maior erro da minha vida ter aderido na juventude às teses de Louis Althusser, uma leitura estruturalista do marxismo que se assume como ciência e donde desaparece o humanismo, como uma reminiscência indesejável de ideologia. Ele deu-me informações que eu desconhecia sobre os últimos anos do filósofo francês, mormente sobre o facto de ter redigido uma autocrítica intitulada "O Futuro é muito tempo" em que reconhece erros fundamentais no seu pensamento, pelo que me disse o Edgar, coincidentes com alguns dos que eu próprio estigmatizava.

Desconhecedores da doença, procurámo-lo recentemente, desta vez, para falar de política concreta e imediata, em particular do nosso Porto, mas do telemóvel já ninguém atendia. No entanto, os seus últimos trabalhos, no sítio dos "Comunistas renovadores", são a expressão de como a inteligência quando se faz irmã da coragem, não só para avançar como para pensar, não só para cindir como para unir, não só para continuar como para mudar, é a mola real do progresso das ideias e da construção dos grandes projectos libertadores da humanidade. O Edgar faz falta à esquerda. Faz falta à esquerda portuguesa... muitos Edgars. Ficando pois a sua mensagem.

Que passa pela reflexão global necessária, onde se conjuguem as tradições da social-democracia primitiva, dos socialistas de esquerda, dos comunistas anti-totalitários, dos liberais de esquerda e dos libertários, para refazer o Grande Sonho e ter o discernimento necessário, suficientemente desperto, para encontrar os caminhos mais adequados ao tempo em que se vive e às realidades concretas.

Sabendo que o adversário também ajuda, porque não poucas vezes, tem bons argumentos e esses são sempre os melhores, venham de onde vierem. Deverão ser, por isso, os nossos argumentos, também. E o seu crivo contraditório é também grande ajuda para aferir da força ou fraqueza das nossas percepções e soluções. Pelo que, o espaço da esquerda e da criatividade necessárias para o encontro de soluções passa pela invenção de novas formas de participação política, sem nunca porem causa os princípios da representação vinda do sufrágio universal e do livre debate argumentativo que podem e devem, entretanto, serem depurados e melhorados na sua eficiência.

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LUDGERO PINTO BASTO (1909-2005)

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Raimundo Narciso, "Morreu Ludgero Pinto Basto", Memórias, 25/5/2005


António Melo, "Morreu Ludgero Pinto Basto, comunista e antiestalinista", Público, 25/5/2005, transcrito a seguir:

Dirigente nos anos 30, é como militante legal que presta apoio médico ao aparelho clandestino do PCP

O médico Ludgero Pinto Basto foi ontem a enterrar, em Lisboa, depois de uma vida inteiramente dedicada aos ideais de solidariedade humana e igualdade social. Cultivou-os na maçonaria, onde se iniciou em 1928, e no Partido Comunista Português de que foi militante e dirigente, a partir de 1931. Tinha 96 anos e encontrava-se enfermo há alguns meses. Em Abril do ano passado foi condecorado com a Grande Ordem da Liberdade.
Ludgero Pinto Basto nasceu a 13 de Janeiro de 1909 na Lixa (Felgueiras). Filho de uma professora primária e de um comerciante bem sucedido, "não tinha jeito nem vontade" para o negócio de fazendas e riscado. A isso o destinava a mãe, quando o pai morreu, vítima de uma úlcera gástrica, e ela teve de se ocupar, além da escola, com o balcão da loja. A jovem viúva ficara com três filhos para cuidar. Ludgero tinha cinco anos, Anibal três e o mais novo, Êrnani, nem ano e meio atingira quando morreu Eugénio Ferreira Basto, o pai.
Ludgero não sentia qualquer vocação para aquele negócio. Durou nove anos a prova de força com a mãe. Tinha 17 anos quando a mãe lhe disse: "Vais estudar".
Em três anos fez o ensino secundário, no Colégio Almeida Garrett, no Porto. Com 19 anos entrou para os preparatórios de Medicina e no ano seguinte, rumou a Lisboa, onde considerava estar a "melhor escola médica do país".
Além de aprender a salvar a doença individual, abraçou também a causa da revolução social; e em 1931 tornou-se membro do PCP. Foi na semi-clandestinidade que, em 1935, concluiu o curso. Conseguiu iludir a vigilância da polícia política salazarista e abriu um consultório na zona da Penha de França, em Lisboa, recorrendo a um apelido da mãe que pouco utilizava: Ferreira Pinto. Foram muitos os militantes clandestinos comunistas que recorreram aos seus cuidados, que nunca recusou, sem cuidar dos riscos.
De Setembro de 1938 a 1 de Dezembro de 1939 assegurou o funcionamento do secretariado político comunista, com Francisco Miguel e Álvaro Cunhal, que apoiou sempre, sem esconder a crítica e sem quebra de amizade. Nesse 1 de Dezembro foi preso em Benfica (Lisboa) quando, precisamente com Francisco Miguel, ia encontrar-se com outros elementos do comité central. Foi condenado a 20 meses de prisão, mas acabou por ficar quase quatro anos nos presídios do regime, dos quais dois em Angra do Heroísmo, de onde regressou em 1943, para Caxias e só então foi libertado.
Passou a viver na legalidade e retomou a actividade clínica. Especializou-se em endocronologia, disciplina clínica de que foi percursor em Portugal. A evolução política na União Soviética, sob a direcção de Estaline, sobretudo os "processos de Moscovo", onde os "companheiros de Lenine", acusados de contra-revolucionários, mereceu a sua crítica interna no PCP, mas sem pôr em causa a sua fidelidade à linha partidária.
Por isso enfatizava a reabilitação política de Bukarine (executado em 1938), ainda durante a existência da União Soviética, dando pleno valor ao que deixara escrito no seu testamento clandestino, só revelado muitas décadas mais tarde pela viúva: "Sabei camaradas, que sob a bandeira que levais, em marcha triunfal para o comunismo, há também uma gota do meu sangue!"
Nos primeiros anos de estudante de Medicina, Ludgero passou pela maçonaria e pertenceu à loja Rebeldia, em Coimbra, de que fez parte outro médico, também resistente antifascista, mas do Partido Socialista, Fernando Vale. Foi desta loja que saíram os líderes da greve académica de 1931, contra a ditadura militar saída do 28 de Maio de 1926. Mas a sua permanência no Grande Oriente Lusitano Unido foi breve, pois os seus rituais pareceram-lhe fora do seu tempo. Foi no PCP que se realizou politicamente.
Leonardo Coimbra, seu conterrâneo, que nesse tempo ainda não se tornara "praticamente beato", foi quem o iniciou nos caminhos do "materialismo dialéctico" e lhe deu conta da revolução bolchevique, que desde 1917 abalava o mundo. Das lições desse tempo conservou Ludgero uma animosidade política permanente contra Trotsky. Em contrapartida, Lénine e Bukarine entusiasmavam-no. Se a crítica que fez do estalinismo foi tímida, isso deveu-se unicamente ao rigor político do tempo, que não tolerava que se beliscasse o "pai dos povos", mas sempre acusou Estaline de ter pervertido o projecto de Lenine.
Esteve na guerra civil de Espanha, onde se encontrou com Togliatti, líder comunista italiano, de pequena figura, mas que ficou a admirar pela sua determinação.
A deliquescência do regime soviético só o surpreendeu por tardia, porque tinha fundadas dúvidas sobre aquele "socialismo real". Por isso discordava que se falasse de "utopia comunista" para caracterizar o século XX. Considerou, até ao fim, que um tal projecto de sociedade permanecia válido, convencido de que "todas as misérias do capitalismo se mantinham e até se exacerbaram em certos sítios". Preocupação séria para si era ver a tendência crescente para um individualismo egoísta e "as pessoas menos interessadas na evolução da sociedade do que no princípio do século XX".

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maio 25, 2005

FEIRA DO LIVRO DO PORTO HOMENAGEIA ÓSCAR LOPES

"A feiras do Porto tem como principal iniciativa a homenagem a Óscar Lopes. Depois da abertura ao público às 16h, no Pavilhão Rosa Mota, a feira terá a inauguração oficial pelas 18h30, na presença do presidente da câmara, Rui Rio.

O escritor portuense estará em destaque, decorridos que estão 50 anos sobre a primeira edição da incontornável História da Literatura Portuguesa, realizada em co-autoria com António José Saraiva (ver texto ao lado). A exposição Álbum de Família é dedicada ao autor e vai mostrar, nas mesas do café literário, centenas de fotos e postais do seu espólio.

O dia 4 de Junho será o momento alto da homenagem a Óscar Lopes - pelas 17h30, vai realizar-se uma mesa redonda de tributo ao ensaísta (com a presença da ministra da Cultura, Isabel Pires de Lima) e será projectado um documentário inédito sobre o escritor, realizado por Diogo Collares."

(Público, 25/5/2005)

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maio 18, 2005

ANTÓNIO JOSÉ SARAIVA E O MAIO DE 1968

Tertúlia sobre António José Saraiva

Maio e A Crise da Civilização Burguesa, de António José Saraiva, editada pela Gradiva, foi lançada a 17 de Maio na Faculdade de Letras de Lisboa.

A sessão integra-se na jornada «António José Saraiva em tertúlia», uma proposta do Departamento de Literaturas Românicas daquela universidade, que contará com um debate moderado por Teresa Rita Lopes, sobre "Maio de 68 em Portugal", reunindo a participação de António Costa Pinto, José Pacheco Pereira, Luís Ramalhosa Guerreiro e Vítor Viçoso. Luísa Dacosta, José-Augusto França e Maria Lúcia Lepecki, também contribuirão com o seu testemunho, moderado por Leonor Curado Neves. Em análise estarão ainda os aspectos do ensaísmo do antigo professor e investigador de Cultura Portuguesa, com os contributos de Maria Vitalina Leal de Matos, Maria das Graças Moreira de Sá e Maria de Lourdes Cidraes, e moderação de Ernesto Rodrigues.

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abril 28, 2005

BIOGRAFIA DE MÁRIO PINTO DE ANDRADE

Foi acrescentada às Vidas Lusófonas uma biografia de Mário Pinto de Andrade, um dos mais importantes dirigentes e intelectuais anti-colonialistas angolanos, de autoria de Fernando Correia da Silva.

Publicado por José Pacheco Pereira em 11:18 AM | Comentários (0)

abril 11, 2005

QUADROS DE AVELINO CUNHAL EM COLECÇÕES PARTICULARES (1)

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Óleo sobre madeira de 1958. Assinado. 55 x 46 cm

(cortesia de Carlos Medina Ribeiro)

Publicado por José Pacheco Pereira em 12:26 AM | Comentários (1)

abril 04, 2005

DE "MARIA DA GRAÇA SAPINHO" A CATARINA EUFÉMIA: ALGUMAS FONTES

A discussão que se trava aqui sobre Catarina Eufémia revela as grandes dificuldades em tratar com distância os eventos da nossa história do século passado, em particular nos anos da ditadura. Nostálgicos do regime e / ou da história “oficial” do PCP , canónica para a oposição mesmo quando não era comunista, tornam toda a discussão uma polémica. Esta parece-me útil e reveladora, mas nela , em príncipio, não participarei directamente.

Reproduzo apenas algumas das primeiras versões publicadas dos eventos na imprensa clandestina, que revelam a rapidez da difusão da notícia da morte, mas também as confusões com a identidade da "camponesa" (o termo era usado na época para designar aquilo que era, na verdade, uma trabalhadora rural). Tendo em conta o modo como funcionava a estrutura clandestina do PCP, isto parece indicar que o partido podia seguir de perto os conflitos rurais, quase em tempo real, mas aponta para que Catarina Eufémia não fosse militante ou simpatizante organizada do partido. Dois elementos suplementares sobre a clandestinidade: a cadeia de comunicação dependia dos encontros regulares dos funcionários controleiros, que devia ser pelo menos mensal; e as datas reais dos jornais (não dos panfletos) deve ser acrescentada pelo menos de um mês.

O assassinato deu-se a 19 de Maio de 1954 e a primeira notícia conhecida vem num panfleto da Organização Regional do Alentejo do PCP, datado de dois dias depois:

Como se vê Catarina vem identificada como "Maria da Graça", nome pelo qual é citada no Avante! Nº 187, de Abril-Maio 1954. No Camponês nº 44,de Maio-Junho de 1954, o orgão do partido para os campos do Sul, a notícia não refere sequer o nome:


No Camponês nº 45, de Agosto-Setembro de 1954, corrigia-se o nome de Maria Graça Sapinho pelo de Catarina Eufémia

Tendo em conta a relevância do acontecimento, tal como o percebemos hoje, o seu tratamento nos números seguintes do Camponês é residual e só em 1955 começa a ganhar dimensão acompanhando iniciativas de agitação local, como a “designação” do largo principal de Baleizão como “Catarina Eufémia”, e outras no primeiro aniversário da morte.

Ver também (se tal fosse possível sem pagar haveria ligação...) o artigo de Paula Godinho, "Ainda o mito de Catarina Eufémia", no Público de 4 de Abril de 2005.

Publicado por José Pacheco Pereira em 02:51 PM | Comentários (1)

março 26, 2005

CARTA DE CANSADO GONÇALVES SOBRE O JOVEM CUNHAL

A carta inédita que se publica em seguida foi escrita por Cansado Gonçalves a José Pacheco Pereira em 31 de Julho de 1983. Nela se relata um episódio envolvendo o jovem Cunhal, que Cansado Gonçalves, um dos dirigentes do PCP no início da década de trinta, conheceu bem.

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Publicado por José Pacheco Pereira em 12:18 PM | Comentários (5)

março 20, 2005

BIOGRAFIA DE ABEL SALAZAR NAS "VIDAS LUSÓFONAS"

De autoria de Carlos Vieira Reis foi colocada em linha no "Vidas Lusofonas" uma nova biografia de Abel Salazar.

Publicado por José Pacheco Pereira em 12:17 PM | Comentários (1)

março 18, 2005

Natália Santos - "CATARINA EUFÉMIA: (DES) MONTAGEM DE UM MITO"

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Publica-se a seguir a conclusão de um trabalho de investigação, no âmbito de um seminário do mestrado de História Contemporânea em Coimbra, de autoria de Natália Santos, intitulado "Catarina Eufémia: (Des) Montagem de um Mito".

"Catarina Eufémia: (Des) Montagem de um Mito" - Conclusão


Morta em 1954, imortalizada desde então, Catarina Eufémia, o mito, torna-se o símbolo de um país em luta, de classes sociais que reivindicam o fim da ditadura salazarista-marcelista, em todas as suas implicações. Ganhando dimensões de fenómeno internacional, com a publicação de um artigo sobre si na revista Mulher Soviética (1) , em torno da sua figura o Partido Comunista Português (2) tenta, ao longo dos anos, promover a coesão, a união, a identificação entre as massas camponesas, em particular, e entre as classes trabalhadoras, numa dimensão mais lata, apresentando-a como paradigma de combate à repressão, à exploração económica e ao atropelamento dos direitos dos trabalhadores. ”Exemplo que não esquece e frutifica” (3) ; é-o a camponesa recordada, lembrada e comemorada por comunistas e anónimos que se deslocam a Baleizão, todos os anos, numa autêntica romaria, criando um cenário onde vários conceitos participam e permitem compreender a finalidade de tal iniciativa, de tal ritual. De facto, pensando nas homenagens a Catarina de Baleizão, eis que surgem realidades associadas, como as de tradição, passado, presente, futuro, comemoração, culto ou, mesmo, religião cívica. Neste quadro, todas estas noções se conjugam, participando na construção do mito político tão prezado pelos comunistas, especialmente após 1974.


Assim que a jovem camponesa perece, o PCP procura apropriar-se da sua estória, escrita por linhas de tragédia e infelicidade (4) , fazendo (frequentemente) sobrepor à Catarina-mãe e à Catarina-mulher a Catarina-camarada, a Catarina-trabalhadora e a Catarina-comunista. A partir de então, as visitas à sua campa sucedem-se anualmente, ganhando estatuto de ritual, acompanhadas de comícios, onde, quase sem excepção, o secretário-geral do PCP tem presença obrigatória. Entre o partido, que promove tais encontros, e a multidão que se forma para neles participar, Catarina Eufémia e os símbolos que consigo arrasta (as bandeiras vermelhas, os cravos da revolução…) fazem a ponte entre ambas as partes, desencadeando, quase de imediato, um processo colectivo de identificação entre estas. Desse modo, as grandes causas do Partido Comunista Português tornam-se, natural e consequentemente, as do proletariado. A democracia, a liberdade, a reforma agrária, o poder das massas trabalhadoras na luta pelos seus direitos constituem-se como palavras de ordem comuns aos celebrantes de Catarina Eufémia, tendo nela o símbolo máximo e superior de dedicação aos ideais referidos. Num misto de apropriação de termos religiosos (como o de “mártir”) e de uso de uma linguagem fortemente política, onde uma visão tripla de presente/passado/futuro é posta em relevo, assim têm lugar os comícios de Baleizão dirigidos ao povo, destinados ao povo, feitos a pensar no povo e nos interesses partidários… e não somente em Catarina.


Embora Catarina Eufémia seja, afinal, mais um pretexto para fazer aproximar o comunismo das classes mais desfavorecidas, dirigindo-se em especial o PCP àquela de que a camponesa era oriunda, a verdade é que ela permite passar a imagem de um Alentejo fortemente comunizante ou comunista; para tal, promove as comemorações anuais do aniversário da sua morte e dando-lhe grande relevância na imprensa, a partir de 1974, variando, todavia, consoante o momento político vivido em Portugal nessa altura, como já verificámos atrás.
Além de referida pela dimensão meramente política que Catarina Eufémia adquiriu pelo Partido Comunista, a jovem camponesa assassinada fica, no imaginário social português, como mãe e mulher. Em romances, peças de teatro, poemas (5) , imagens e canções, aquela dupla condição é invocada, numa combinação de bela mulher e heroína trágica, numa conjugação de tristeza pela sua prematura morte e esperança na justiça futura. Acima de tudo, fica a imagem de uma mulher, uma jovem mulher, mãe e companheira, a quem o Fado foi injusto, ceifando-lha a vida demasiado cedo e em circunstâncias inaceitáveis. Acima de tudo, fica, em sua memória, uma das canções simbólicas do nascer da Liberdade em Portugal, baseada num poema de Vicente Campinas e interpretada por José Afonso:


“Chamava-se Catarina
O Alentejo a viu nascer
Serranas viram-na em vida
Baleizão a viu morrer
Ceifeiras na manhã fria
Flores na campa lhe vão pôr
Ficou vermelha a campina
Do sangue que então brotou
Acalma o furor campina
Que o teu pranto não findou
Quem viu morrer Catarina
Não perdoa a quem matou
Aquela pomba tão branca
Todos a querem p’ra si
Ó Alentejo queimado
Ninguém se lembra de ti
Aquela andorinha negra
Bate as asas p’ra voar
Ó Alentejo esquecido
Inda um dia hás-de cantar” (6)


__________________________________________________________________

(1) Certamente sob iniciativa do PCP.

(2) A par deste partido, um outro, a UDP, também reivindicou Catarina Eufémia como sua militante. Deu, aliás, origem a um conflito entre ambos os partidos que se radicalizou “no dia 23 de Maio de 1976, quando (…) foi destruído um pequeno monumento à sua memória, erigido em Baleizão por iniciativa dos simpatizantes da U.D.P”. Vide A Morte de Catarina Eufémia. A Grande Dúvida de Um Grande Drama, Beja, Associação de Municípios do Distrito, 1974, p. 58

(3) Avante, 17 de Maio de 1974

(4) Devido a vários factos que envolvem a sua imagem: a sua juventude (teria cerca de 26 anos quando morreu); os filhos e o viúvo que deixou; as circunstâncias da sua morte…

(5) Para uma leitura das principais e mais conhecidas composições poéticas dedicadas a Catarina Eufémia, vide 50 Anos depois da Morte. Catarina de Baleizão…

(6) 50 Anos depois da Morte. Catarina de Baleizão…, p. 54

Publicado por José Pacheco Pereira em 10:49 PM | Comentários (34)

março 10, 2005

Vanessa de Almeida - ACÁCIO JOSÉ DA COSTA E O 28 DE FEVEREIRO DE 1935 NO BARREIRO

Natural de Sacavém, nascido em 1905, serralheiro nas Oficinas Gerais dos Caminhos de Ferro do Sul e Sueste, Acácio José da Costa viria a ser preso em 16 de Março de 1935, acusado de fazer parte da organização comunista da vila do Barreiro.

Interrogado pela primeira vez no Posto Policial do Barreiro no dia 10 de Março de 1935, Acácio José da Costa começaria por negar qualquer filiação partidária, assim como qualquer envolvimento nos acontecimentos de 28 de Fevereiro (1) , afirmando que «só teve conhecimento do que se tinha passado no outro dia quando tomou o trabalho, tendo visto na Secção de Ferraria Nova, os armários cheios de dísticos comunistas

Esta situação viria a alterar-se durante o segundo interrogatório ocorrido em 3 de Abril, ainda durante a sua permanência no Barreiro. Denota-se então um comportamento típico dos comunistas na época face à polícia, o contar de meias verdades, numa tentativa como o próprio esclareceu durante o seu terceiro e último interrogatório «Que mentiu e não esclareceu a verdade quando dos seus primeiros depoimentos, por querer ocultar a responsabilidade que lhe cabe nos acontecimentos (...)». Refere então ter participado em reuniões com o Delegado do Comité Central do Socorro Vermelho Internacional, de pseudónimo Crispim, que descreve como sendo um «indivíduo baixo, de tez branca, barba e bigode loiro, sardento, usando óculos com vidros claros», o qual teria conhecido em Maio de 1934, aquando de uma visita deste último ao Instituto Ferroviário, acompanhado por mais nove arsenalistas. Posteriormente a esta visita, o mencionado Delegado do CC do SVI teria vindo por duas vezes ao Barreiro em princípios e meados de Novembro de 1934, tendo reunido com Acácio José da Costa junto ao Largo Gago Coutinho e Sacadura Cabral, reuniões em que havia participado José Simões/”José da Mina”.

Neste segundo interrogatório, Acácio José da Costa refere que o intuito destas reuniões seria convencê-lo a formar um Comité de Empresa do Socorro Vermelho Internacional nas Oficinas Gerais dos Caminhos de Ferro, devendo para o efeito aliciar mais dois colegas, o que ele afirma ter-se recusado a fazer, informando ainda que muito possivelmente o contactado depois da sua recusa teria sido um operário das Oficinas de nome Virgílio, declarando «ter visto o citado Virgílio entregar ao operário Angelo Couto selos do Socorro Vermelho no momento que o respondente se dirigia para a sua oficina (...)».

O interesse deste segundo depoimento está exactamente nas meias verdades mencionadas acima, que ganharão uma nova dimensão após o terceiro interrogatório, em 15 de Abril de 1935, ocorrido já na PVDE, em Lisboa. Neste, começará por assumir estar filiado no Partido Comunista Português há cerca de ano e meio, tendo sido aliciado por Bento Gonçalves, conhecido pelos pseudónimos de “Albino” e “Mendonça”, durante uma visita deste último ao Instituto dos Ferroviários. O Delegado do CC do SVI de pseudónimo “Crispim” mencionado durante o segundo interrogatório não era outro afinal que o principal dirigente do PCP à época, referindo que era com ele que estabelecia as ligações.

Acácio José da Costa descreve então o seu percurso no interior do PCP do Barreiro. Primeiro ingressou no núcleo secretariado por um outro operário das Oficinas dos Caminhos de Ferro – José Elias Guerreiro -, no qual viria a permanecer por três meses, transitando de seguida para o Comité Local, o qual era constituído por si, por Joaquim Jorge (agulheiro dos Caminhos de Ferro) e por José Simões (operário na CUF). Para além da constituição do Comité Local, Acácio José da Costa discrimina as responsabilidades de cada um dos elementos que o constituía. Assim, Acácio Costa era o Secretário Responsável Político, Joaquim Jorge o Secretário Responsável da Organização e o “José da Mina” o Secretário Responsável da Agitação e Propaganda, referindo ainda que era ele, Acácio Costa «quem transmitia as ordens do Comité Executivo do Partido Comunista Português, aos secretários responsáveis do Comité Local, assim como a orientação a dar aos núcleos, quando estes estivessem a trabalhar mal.»

Acácio José da Costa refere que o Comité Local do Barreiro viria a ser destituído por falta de elementos, funcionando em seu lugar uma Comissão de Controle, constituída pelos mesmos elementos ou seja, Acácio José da Costa, Joaquim Jorge e José Simões, os quais mantinham as mesmas funções. Refere ainda que em Janeiro de 1935 decorrera um Pleno do Partido, durante o qual foi destituído do seu cargo por incompetência, sendo substituído por Joaquim Jorge, o qual passou a acumular funções, informação que, todavia, não nos foi possível confirmar, nem através dos depoimentos prestados por Joaquim Jorge à PVDE.
No que concerne à acção por si desenvolvida na noite de 28 de Fevereiro, Acácio José da Costa assume a sua responsabilidade na afixação de dísticos comunistas nas secções 1 e 4 das Oficinas dos Caminhos de Ferro, assim como o facto de ter sido ele quem hasteou a bandeira encarnada na chaminé das mesmas, tendo sido auxiliado nessa tarefa pelo “Joaquim da Aldeia”, que identifica como trabalhador na ponte rolante, por António Fernandes, também serralheiro nas Oficinas Gerais e ainda por José João Rodrigues, este último operário da CUF. Acácio Costa assume ainda a responsabilidade pela sabotagem do ponto de transformação da electricidade situado na Avenida da Bélgica.
Acácio José da Costa foi quem distribuiu à organização comunista da CUF, através do secretário desta – Flávio Alves – o material de afixação e bandeiras que deveria ser distribuído pelos diferentes núcleos da empresa para ser afixado na noite de 28 de Fevereiro.

Antes de ser julgado pelo Tribunal Militar Especial em 15 de Fevereiro de 1936, Acácio José da Costa, estaria detido no Aljube e posteriormente em Peniche. Julgado, ser-lhe-ia atribuída a pena de 18 meses de prisão correccional, assim como a perda dos direitos políticos por cinco anos. Dado o tempo de detenção, faltar-lhe-iam cumprir 204 dias quando foi transferido para o Reduto Norte de Caxias.

Acácio José da Costa viria a ser enviado para o Tarrafal em 17 de Outubro de 1936 (2) , um mês depois de haver cumprido a pena imposta pelo TME, de onde só viria a regressar em Outubro de 1944.


(1) Jornada de agitação levada a cabo no Barreiro na noite de 28 de Fevereiro de 1935, em resposta ao apelo lançado pelo PCP, para uma «semana de agitação e de luta contra a fome, a guerra e o fascismo», a qual deveria decorrer entre 25 de Fevereiro e 2 de Março.

(2) O campo de concentração do Tarrafal, designado oficialmente por colónia penal para presos políticos e sociais no ultramar, na Ilha de Santiago em Cabo Verde, foi criado pelo decreto-lei nº 26-539 de 23 de Abril de 1936, sendo inaugurado em 29 de Outubro de 1936, com a chegada dos primeiros 150 prisioneiros, entre os quais encontrava-se Acácio José da Costa.

Publicado por José Pacheco Pereira em 05:18 PM | Comentários (0)

SOBRE PETER BENENSON

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A Amnistia Internacional publicou uma pequena biografia em que se refere o papel da repressão em Portugal na fundação da organização, que se reproduz em seguida. Um dos artigos sobre os "prisioneiros políticos esquecidos" que suscitou a revolta de Benenson nomeia Agostinho Neto e está aqui reproduzido.

Press release, 02/26/2005

Peter Benenson, the founder of the worldwide human rights organisation Amnesty International, died yesterday evening. He was 83.

Mr Benenson founded and inspired Amnesty International in 1961 first as a one-year campaign for the release of six prisoners of conscience. But from there came a worldwide movement for human rights and in its midst an international organisation -- Amnesty International -- which has taken up the cases of many thousands of victims of human rights violations and inspired millions to human rights defence the world round.

"Peter Benenson’s life was a courageous testament to his visionary commitment to fight injustice around the world," said Irene Khan, Secretary General of Amnesty International.

"He brought light into the darkness of prisons, the horror of torture chambers and tragedy of death camps around the world. This was a man whose conscience shone in a cruel and terrifying world, who believed in the power of ordinary people to bring about extraordinary change and, by creating Amnesty International, he gave each of us the opportunity to make a difference."

"In 1961 his vision gave birth to human rights activism. In 2005 his legacy is a world wide movement for human rights which will never die."

The one-year Appeal for Amnesty was launched on 28 May 1961, in an article in the British newspaper, The Observer, called "The Forgotten Prisoners". That appeal attracted thousands of supporters, and started a worldwide human rights movement.

The catalyst for the original campaign was Mr Benenson's sense of outrage after reading an article about the arrest and imprisonment of two students in a café in Lisbon, Portugal, who had drunk a toast to liberty.

In the first few years of Amnesty International's existence, Mr Benenson supplied much of the funding for the movement, went on research missions and was involved in all aspects of the organisation's affairs.

Other activities that Mr Benenson was involved in during his lifetime included; adopting orphans from the Spanish Civil War, bringing Jews who had fled Hitler's Germany to Britain, observing trials as a member of the Society of Labour Lawyers, helping to set up the organisation "Justice" and establishing a society for people with coeliac disease.

At a ceremony to mark Amnesty International's 25th anniversary, Mr Benenson lit what has become the organisation's symbol -- a candle entwined in barbed wire -- with the words:

"The candle burns not for us, but for all those whom we failed to rescue from prison, who were shot on the way to prison, who were tortured, who were kidnapped, who ‘disappeared’. That is what the candle is for."

Today Amnesty International is into its 44th year. It has become the world’s largest independent human rights organisation, with more than 1.8 million members and committed supporters worldwide.

Publicado por José Pacheco Pereira em 12:10 PM | Comentários (0)

março 09, 2005

EXPOSIÇÃO E CICLO DE PALESTRAS SOBRE MARIA LAMAS NO MUSEU DA REPÚBLICA E DA RESISTÊNCIA (MARÇO 2005)

Está patente uma exposição e vai realizar-se um ciclo de palestras sobre Maria Lamas no Museu da República e da Resistência. Foi publicado para servir de apoio a estas actividades um catálogo de responsabilidade de João Mascarenhas e Regina Marques, Maria Lamas Uma Mulher do Nosso Tempo, Lisboa, 2005.

O programa das palestras é o seguinte:

Terça - 8 Março
18.30 – Inauguração da Exposição
"Maria Lamas – Uma Mulher do nosso Tempo".

Quinta - 10 Março.
18.30 – Ciclo de Conferências
"Maria Lamas – Maria Lamas e o combate pela Liberade"
por Margarida Tengarrinha e Dulce Rebelo.


Quinta - 17 Março
18.30 – Ciclo de Conferências
"Maria Lamas e a Cidadania"
por Regina Marques e Eugénia Vasques.


15.00 – Ciclo de Conferências
"Maria Lamas e a Escrita"

Publicado por José Pacheco Pereira em 03:13 PM | Comentários (0)

MORTE DA COMUNISTA CHILENA GLADYS MARÍN

gladys marin.jpgA morte da comunista chilena Gladys Marín, em 6 de Março de 2005, é evocada por uma biografia panegírica e por uma selecção dos seus textos , aqui. Outra documentação inclui o comunicado oficial do PC do Chile e um artigo de recordação pessoal da sua acção .

A biografia do Mundo Posible reproduz-se em seguida:

Homenaje a Gladys Marín

Homenaje a la gran revolucionaria chilena

"LA IMPORTANCIA EN LA VIDA ES LUCHAR"
Gladys Marín
Los pueblos de Nuestra América dicen ¡Presente!

Congreso Bolivariano de los Pueblos / 17 feb 05

CHILE: VIDA DE UNA REVOLUCIONARIA. Biografía de Gladys Marín, de Mundo Posible.

CHILE: VIDA DE UNA REVOLUCIONARIA.
Biografía de Gladys Marín, de Mundo Posible.

Gladys Marín Millie, nació el 16 de Julio de 1941 en la Ciudad de Curepto, en la VII Región, cerca de Curicó. Sus padres fueron Adriana Millie y Heraclio Marín. Él era campesino y ella una profesora primaria. El padre abandonó el hogar, ante lo cual, su madre debió hacerse cargo de criar a sus cuatro hijas.

Cuando Gladys Marín tenía 4 años, la familia emigró al pueblo de Sarmiento y, más tarde a Talagante, lugar donde Gladys fue a la escuela primaria. Participó activamente en movimientos juveniles cristianos, llegó a ser presidenta de la Acción Católica de Talagante.

A la edad de 11 años llegó a vivir, sola, a Santiago. Vivía en una pensión de la calle Recoleta. Estudió en primero en el Liceo 5 de niñas y luego comenzó su formación como profesora en la Escuela Normal # 2.

Es en la Escuela Normal donde Gladys comienza a asistir a las reuniones de la Federación de Estudiante Normalistas. Conoció allí a Rosendo Rojas, dirigente de las Juventudes Comunistas. Un día le propusieron ingresar a las Juventudes Comunistas, asunto que ella aceptó sin vacilar. Recibió su carnet de militante el año 1958.

Después de eso fue elegida Presidenta de la Federación de Estudiantes Normalistas. Una reivindicación principal de los estudiantes era la lucha por modificar los vetustos criterios pedagógicos de las Escuelas Normales.

En 1957 recibió su título de maestra. La destinaron a la Escuela N° 130 para niños con deficiencias mentales que funcionaba en el interior del Hospital Psiquiátrico en la Avenida Santos Dumont.

Para entonces, Gladys Marín era miembro del Comité Regional Capital de las Juventudes Comunistas, allí cumple tareas en la Comisión Femenina. Además estaba ligada a la organización de maestros de la Sexta Comuna. En 1960 es elegida en el Comité Central de las JJ.CC.

En esa época las Juventudes Comunistas buscaban convertirse en un destacamento de masas, que vibrara con las inquietudes de los jóvenes. El Partido Comunista venía saliendo de 10 años de ilegalidad producto de la “Ley de Defensa de la Democracia”, más conocida como “Ley Maldita”, que fuera impuesta por Gabriel González Videla.

En 1963, Gladys Marín, es dirigente del Comando Juvenil de Salvador Allende, impulsando múltiples iniciativas, como la construcción de parques infantiles en muchas ciudades del país, canchas deportivas, lugares para pasear o bailar. Se organizaron las primera brigadas de muralistas, antecedente inmediato de lo que más tarde serian las Brigadas Ramona Parra. En las elecciones de 1964, resulta elegido Eduardo Frei Montalva.

El año 1963 Gladys Marín se casa Jorge Muñoz Poutays, entonces estudiante de ingeniería. De este matrimonio nacen Alvaro y Rodrigo.

El año 1963, después de una Conferencia Nacional de las Juventudes Comunistas, Gladys Marín es elegida Secretaria General de dicha organización, sucediendo en el cargo a Mario Zamorano (actualmente detenido desaparecido a partir del llamado caso de la calle Conferencia). El mismo año 1965, es elegida Diputada por el segundo distrito de Santiago, el que en ese entonces comprendía las comunas de Renca, Conchalí, Recoleta, Independencia, Colina, Til Til, Talagante, Curacaví, Quinta Normal y Barrancas, todas de clara composición proletaria. Posteriormente es reelegida con una alta votación; su mandato de Diputada es abruptamente interrumpido por el Golpe Militar de 1973.

Durante el periodo en que Gladys encabeza las Juventudes Comunistas, se desarrolla un fuerte movimiento estudiantil bajo la consigna de la Reforma Universitaria. Las JJ.CC. se colocan a la cabeza de esas luchas. Es en ese tiempo cuando el Comité Central, tras reiterados cambios de opinión, resuelve lanzar como símbolo de la JOTA, la camisa amaranto.

Ese es también el tiempo de la solidaridad con Vietnam. La movilización solidaria alcanzó enormes proporciones, una cantidad importante de jóvenes adquiere, al calor de ella, una fuerte conciencia anti imperialista. Se donaba sangre, se recolectó dinero para un hospital en Vietnam, se realizaran dos marchas por Vietnam desde Valparaíso a Santiago, la primera el año 1967 y la segunda el año 1969, alcanzando esta última una gran masividad.

Surge la Unidad Popular, que levanta como su abanderado a Salvador Allende, candidato con el que triunfa el 04 de septiembre de 1970.

La juventud chilena se convierte en protagonista de ese tiempo: Las Brigadas de Trabajo Voluntario comprometidas en tareas como la construcción de canales de regadío, de balnearios populares, la participación en la distribución de productos de primera necesidad. Se realizó la marcha de Arica a Magallanes contra el Fascismo y contra la guerra civil.

En 1973 se produce el golpe militar y Gladys Marín debe pasar a la clandestinidad. En diciembre de 1973, por decisión del Partido, y en contra de su voluntad, Gladys Marín se asila en la embajada de Holanda en Santiago, allí permaneció 8 meses debido a que la Junta le negaba el salvo conducto.

En el exilio asume las tareas de la solidaridad con la causa chilena. Recorre distintos lugares denunciando los crímenes que en Chile se cometen.

En 1976, cae detenido en Chile su esposo Jorge Muñoz, quien era miembro de la Comisión Política del Partido. Ella conoce la noticia mientras se encuentra en Costa Rica, en actividades de solidaridad con Chile. Hasta ahora no se conoce el paradero de Jorge Muñoz.

Al inicio del año 1978, regresa clandestinamente al País y encabeza el trabajo de dirección en el interior

En 1984 asume como Sub Secretaria del Partido.

Después del XX Congreso del Partido Comunista, Realizado en el año 1994, Gladys Marín es elegida Secretaria General (Presidenta) de este Partido.

En junio de 1998 es proclamada candidata a la Presidencia de la República. Se trata de una candidatura de la izquierda chilena, que busca, como objetivo principal, el instalar en nuestro país la existencia de una alternativa al sistema; se trata de crear, de organizar, de lograr que se exprese un movimiento social y político por los cambios de fondo que Chile requiere.

En 1997 había sido candidata a senadora por la circunscripción senatorial poniente de Santiago, obteniendo una votación que la ubica en el octavo lugar en el ámbito nacional. No sale elegida como resultado del antidemocrático sistema binominal imperante que apunta a evitar que las fuerzas de izquierda tengan representación parlamentaria.

Gladys Marín es la única mujer que encabeza un Partido Político en nuestro país.

El 25 de septiembre de 2003 es internada en la Clínica Tabancura donde el equipo médico del doctor neurólogo Eduardo Larraechea le diagnostica la presencia de un tumor cerebral. El 1 de octubre viaja a Estocolmo, Suecia para ser intervenida quirúrgicamente el día 8 en la clínica Karolinska por el doctor Inti Peredo.

El 15 de octubre se informa que el turmor es un glioblastoma multiforme. Se diagnostica que volvería acrecer inexorablemente en la misma zona.

El 19 de octubre viaja a La Habana, Cuba para iniciar un proceso de rehabilitación a cargo del equipo médico que encabeza el doctor Javier Figuerero.

El 14 de marzo de 2004 regresa a Santiago y es recibida en un gran acto en la ex Estación Mapocho de la capital chilena por centenares de miles de personas.

El 4 de septiembre de 2004 es operada por segunda vez en La Habana de una necrosis de tejidos. En octubre vuelve a Santiago hasta el 7 de noviembre que regresa a La Habana, para retornar definitivamente a su país natal en diciembre del mismo año.

Gladys Marín se encuentra en su residencia ubicada en calle Las Perdices 7026 de la comuna de La Florida, acompañada de su familia, amigos y dirigentes del Partido Comunista de Chile.

CHILE: "LLEVO ESTA ORDEN COMO UNA ESTRELLA QUE NOS ALENTARÁ DIARIAMENTE". Intervención de Gladys Marín, con motivo de recibir la “Orden José Martí”, en la Habana, Marzo de 2004.

CHILE: SALVADOR ALLENDE EN EL CENTRO DE LA CONCIENCIA DE LOS PUEBLOS. Por Gladys Marín , de La Insigna. Chile, enero del 2003.

CHILE: LA MAYORIA DEL MUNDO QUIERE LA PAZ. Entrevista a Gladys Marín, por Marelys Valencia, Granma Internacional.

Publicado por José Pacheco Pereira em 01:56 PM | Comentários (0)

fevereiro 10, 2005

BIOGRAFIAS EM PREPARAÇÃO (Actualização)

Actualização

Estão em preparação as seguintes biografias de militantes comunistas e da oposição:

Carlos Silva Almeida (Alvaiázere, 1923 – Rio de Janeiro, 2003)

João Grilo de Almeida (Gouveia, 1943 – Seia, Janeiro? 2004)

Osvaldo Azenha (1924- Barreiro, 18/11/2004)

Virgílio Azevedo (1956 - 2004)

João Pedro Capão (1923 – Torres Vedras, 11/12/2004)

António Joaquim de Campos (1924 – Albufeira, 31/7/2004)

Lino de Carvalho (Leiria, 1946 - 2004)

António Teixeira da Silva e Castro (Fafe, 15/1/1928 - 22/8/2004)

Aníbal de Figueiredo (Alcochete, 1926 - 23/11/2004)

Abel Mendes Ginja (1923 – 19/12/2003)

Apolinário Gonçalves (Espinho, 1916 - 1/1/2004)

Armindo do Amaral Guimarães (? – Dezembro 2004)

José Brites de Jesus. (1920 – Vila Franca de Xira, 11/12/2004)

António Domingues Jubileu (Marinha Grande, 1907 - 24/9/2004)

Orlando Simões Lopes (1930 – Julho-2004)

João Domingos Loureiro (1917 - Amora, 28/8/2004)

José Lourenço (Ermidas – Santiago do Cacém, 1920 – 17/12/2003)

Fernando Boiça da Silveira Mesquita (Alcobaça, 1925 - 7/1/2004)

Orlando Neves (Portalegre 11/9/1935- 24/1/2005)

Saúl Manuel Oliveira (Vila Franca de Xira,? – Janeiro 2004)

Antonio Páscoa (1912 – Venda Nova, 12/11/2004)

Hélio Vieira Quartin (Lisboa, 21/11/1916 - Almada, 25/12/2003)

Arnaldo Albano Lourenço Rocha (Santa Iria da Azóia, 1928- 3/1/2004)

Manuel João Martins Sanches (1924 – Canadá, 22/12/2003)

José Expedito dos Santos (1936 – Brasil, Dezembro, 2004)

João Cunha Serra (1919- 18/1/2005)


Todas as informações serão bem vindas.

Publicado por José Pacheco Pereira em 11:29 AM | Comentários (2)

FOTOS DE REVOLUCIONÁRIOS DO 18 DE JANEIRO DE 1934

josesoares.jpg

José Soares na prisão do Forte da Trafaria.

Publicado por José Pacheco Pereira em 11:19 AM | Comentários (1)

fevereiro 08, 2005

UM LIVRO ESPECIAL

Um livro que me foi oferecido tem um significado muito especial. O livro, completamente esquecido, de A. Ferreira Soares, Casa Abatida, reeditado pela Guimarães nos anos cinquenta (?), tem uma dedicatória "à memória do meu filho o médico A. Carlos Ferreira Soares". Não é comum um pai dedicar um livro a um seu filho adulto, nem que este o seja à "memória", ou seja a um morto. Mas António Carlos Ferreira Soares não morreu de morte natural, mas sim assassinado pela PIDE em Julho de 1942.

Com o mesmo amigo que me ofereceu o livro, visitei há muitos anos, antes do 25 de Abril, a sua casa em Nogueira da Regedoura, onde foi morto com uma rajada de metralhadora, uma casa baixa,pouco visível, modesta, onde se mantinha um armário com os seus livros, e onde falei com familiares que o tinham conhecido bem. Um livro especial.

Publicado por José Pacheco Pereira em 07:35 PM | Comentários (0)

fevereiro 05, 2005

MORTE DE MANUEL FIRMO, SINDICALISTA, ANARQUISTA E ESPERANTISTA

Manuel firmo.jpg
Transcrevo do Jornal do Barreiro a notícia da morte em Barcelona de Manuel Firmo (1909-2005)

Faleceu Manuel Firmo (1909-2005)
Figura de barreirense ímpar

Jornal do Barreiro | 03-02-2005
Com 95 anos, faleceu Manuel Firmo em Barcelona, em 29 de Janeiro, ficando sepultado naquela metrópole. Uma queda sofrida em casa, há meses, apressou o triste desenlace. Até ao fim patenteou invejável memória, manifestando já, porém, grandes dificuldades de locução.


Manuel Firmo foi homem de cultura livre, discípulo do ídolo anarquista catalão, fundador da “Escuela Moderna”, Francisco Ferrer, que tantos admiradores teve no Barreiro. O nosso conterrâneo, que procurava ler tudo o que houvesse de melhor na sua época, destacou-se como bibliotecário de agremiações locais, e foi um pilar da LESPA, do Barreiro, a conhecida Sociedade Esperantista, onde chegou a ser professor dessa língua.

Sindicalista dos antigos, do tempo do anarquismo da I República, princípio da II, Manuel Firmo nunca abdicou da sua ideologia de veras liberdades sindicais. No Barreiro foi do grupo “Terra e Liberdade”, que aqui editou o jornal com o mesmo nome entre 1930 e 1931.

Desde logo se posicionou contra os sindicatos corporativos, institucionalizados por Salazar em 1933 e viu-se obrigado a deixar o País “a salto”, no rescaldo do episódio do barco Évora (Maio 1936).

Chegou a Madrid semanas antes da eclosão da sangrenta guerra civil e aí foi secretário da delegação da CGT portuguesa. Passando depois a Barcelona, pertenceu a um batalhão de milícias da CNT/FAI. Ferido por estilhaço de granada, trabalhou depois numa base aérea.


No final da República espanhola (1939), Manuel Firmo e Pepita (que seria a sua companheira de vida) chegaram a pé à fronteira da França (como milhares e milhares de outros fugitivos) onde passaram depois por vários campos de refugiados.

Por temer a transferência para os campos de trabalho forçado na Alemanha nazi, regressou (legalmente) a Portugal. Preso na fronteira da Beirã, em 6 de Agosto de 1941. Foi mais tarde enviado, sem julgamento, para o campo do Tarrafal, em Cabo Verde, em Junho 1942.


De lá regressou após fadário de 3 anos e 7 meses. Ainda residiu por pouco tempo no Barreiro. Rumou depois para Nova Lisboa/Angola, exercendo a antiga profissão de serralheiro ferroviário, depois monitor de segurança. De volta à Europa (1964), radicou-se na Catalunha.

E para os que se interessam pela história do desporto local, há que dizer que Manuel Firmo era desde há anos o decano dos futebolistas barreirenses. Representara, em tempos bem heróicos, o seu querido “Barreirensezinho” (em segundas e terceiras categorias).

Expressamos aqui os nossos mais profundos sentimentos de mágoa a Doña Josefina (Pepita), a esposa adorada que, desde os recuados tempos da Guerra de Espanha, sempre esteve ao lado de Manuel, ou sempre esperou por ele. Também as nossas condolências aos seus familiares que vivem no Barreiro.

Nós, em Barcelona, também registámos lembranças suas, da terra natal e suas gentes. Tinha nascido no Barreiro em 9.9.1909, data que não podíamos esquecer desde que há 6 anos entrámos em contacto com ele. Tencionamos publicar aqui algo bem mais abrangente sobre o currículo ímpar deste barreirense bom, um democrata dos verdadeiros, um autodidacta da velha escola. Vivia já há décadas em Barcelona, mas o Barreiro fica agora mais pobre.

Não tive a oportunidade de conhecer pessoalmente Manuel Firmo, embora tivesse falado com ele várias vezes para Barcelona, durante a preparação de alguns textos seus que, em 2002, tivemos o prazer de publicar no nosso Jornal do Barreiro, a meu convite, e que o deixou muito sensibilizado. Ficam esses artigos a fazer parte da sua bibliografia, e serão incontornáveis, quando, algum dia, a sua obra seja re-editada.


De algumas longas conversas que com ele mantive, fica-me a memória de um democrata indefectível, e de um amante da liberdade sem sombras. Constantemente lhe saiam palavras de amor pelo Barreiro, e recordações do maior interesse para a história da nossa terra, nos seus tempos de juventude, das opressões e das lutas desta gente, que tentava defender a sua dignidade humana.

Deixa-nos para sempre um dos derradeiros tarrafalistas, de que nos legou preciosa memória no seu livro “Nas Trevas da Longa Noite – da Guerra de Espanha ao Campo de Tarrafal”, editado pelas Publicações Europa-América em 1978, e hoje completamente esgotado e a merecer re-edição.

Esta obra ficou como um grande testemunho dessa época e das seguintes, em que ainda teve contacto com a sociedade portuguesa, antes de se fixar definitivamente em Barcelona, junto do amor da sua vida, D. Pepita, que o acompanharia até ao seu último momento.


A sua Esposa e o Barreiro foram as suas grandes paixões.


Ambos ficam de luto, e a ambos dedicamos um período de recolhimento, em meditação pela memória deste infatigável lutador, que, em momento algum, abdicou também do seu profundo amor pela Liberdade, que sempre foi o mais distintivo traço dos Barreirenses.


Miguel de Sousa

Publicado por José Pacheco Pereira em 11:02 PM | Comentários (0)

APRESENTAÇÃO DOS TEXTOS DE JOÃO AZEVEDO DO CARMO

jaevcarmo.jpgNo dia 12 de Fevereiro, pelas 17 horas, no Auditório da Biblioteca Municipal será lançado o livro Eu, meus senhores, amo a igualdade, Textos de João Azevedo do Carmo, ilustrados com fotografias de Augusto Cabrita.

O livro, de autoria de um antigo militante comunista do Barreiro, é apresentado por Vanessa Almeida:

"A CMB, no âmbito do projecto Barreiro no Tempo, procede à edição de uma antologia de poemas de João Azevedo do Carmo, à qual foi dado o título de Eu, meus senhores, amo a igualdade, e cuja responsabilidade editorial é das duas filhas do autor, Isabel do Carmo e Maria Fernanda Fráguas. A obra dada à estampa conta ainda com uma série de testemunhos de muitos que privaram com o autor: Augusto Cabrita, Isabel do Carmo, Maria Fernanda Fráguas, Helder Fráguas e Barbara Lopes, sendo ilustrada por fotografias do seu sobrinho, A. Cabrita, um dos principais nomes da fotografia nacional, testemunhos esses que permitem um conhecimento do homem-poeta que foi João Azevedo do Carmo.

Natural do Barreiro, nasceu em 1899, na zona do Barreiro Antigo. Ferroviário de profissão, João Azevedo do Carmo iria colaborar de forma estreita com vários jornais locais, como sejam o «Acção», o «Acção Nacionalista» e o «Eco do Barreiro», onde foram publicados muitos dos poemas presentes nesta antologia, mas também onde o autor iria publicar vários artigos de opinião e críticas de música, teatro e cinema.
Publicista, João Azevedo do Carmo seria também um activo participante na vida associativa do Barreiro, sócio dos «Franceses», «Penicheiros» e ainda do Clube 22 de Novembro, onde actuou muitas vezes, sendo ainda co-fundador do Clube Naval Barreirense. Viria ainda a desempenhar o cargo de secretário na Sociedade Esperantista Operária Barreirense. Em termos políticos, integrou a Comissão Concelhia de apoio à candidatura de Norton de Matos em 1949, assim como as estruturas locais do MUD. Após o 25 de Abril iria poder assumir em liberdade a sua condição de militante do PCP. Como refere a sua filha, Maria Fernanda Fráguas, «Atravessou os longos tempos da injustiça, da mediocridade ousando, coerentemente, nunca renunciar aos seus ideais, lutando por eles com a maior dignidade e as suas inultrapassáveis delicadeza e elegância.
A sua vida foi longa e nunca se demitiu da intervenção social, do seu desejo de ajudar os outros.»
A delicadeza e elegância que todos os testemunhos sublinham serão também a nota dominante da poesia de João Azevedo do Carmo.
O leitor é convidado a conhecer a sua obra poética através de pequenos intróitos da autoria de Isabel do Carmo, que contextualiza a obra do autor no Portugal e no Barreiro do tempo, de 1918 a 1985. Dá a conhecer a época mas também o espírito. E o leitor é levado a comprová-lo através da poesia daquele que se viria a definir a si próprio como “operário das letras”. Embora se denote uma evolução em termos formais (patente, também, através das “actualizações” levadas a cabo pelo autor sobretudo durante as décadas de 70/80), onde o lirismo da década de 20 e o que Bárbara Lopes definiu como “influências livrescas”, tende a dar lugar a uma escrita mais empenhada, distante dos denaveios de jovem poeta, situação que se verifica sobretudo após o 25 de Abril. Ainda assim, não podemos deixar de assinalar a continuidade de alguns temas, os quais, em última instância, traduzem os valores pelos quais João Azevedo do Carmo guiou toda a sua vida: o amor, a amizade, o respeito pelo próximo, a liberdade, temas que têm quase sempre como pano de fundo o Barreiro.
Com a publicação desta antologia faz-se assim a justa homenagem a quem sempre lutou pelo Barreiro e pelos interesses dos barreirenses, como aconteceu por exemplo em 1929, ao defender a necessidade de uma escola industrial. Ou em 1940, pela criação de uma Biblioteca-Museu. Trata-se assim de recuperar a memória de um homem que, e tal como escreve Isabel do Carmo, «foi uma figura de grande honestidade intelectual e cívica, que amou o Barreiro e à terra deu o que pôde, que era muito».

(Vanessa Almeida)

Publicado por José Pacheco Pereira em 12:32 AM | Comentários (0)

dezembro 31, 2004

MORTE DE FERNANDO BREDERODE DOS SANTOS (1940-2004)


Fernando Brederode foi militante da FAP, preso político em Caxias. Jornalista do extinto Diário de Lisboa, ganhou vários premios pelas suas crónicas. Sobre ele escreveu Rodrigues da Silva uma memória pessoal no Jornal das Letras de 29/10- 9/11/2004

Publicado por José Pacheco Pereira em 11:03 AM | Comentários (0)

MORTE DE JOAQUIM CALDEIRA RODRIGUES (1925-2004)


Morreu Joaquim Caldeira Rodrigues, militante do MUDJ e dos "movimentos da Paz", preso político e , em vésperas do 25 de Abril , militante do MDP.

Junto se transcreve uma biografia publicada no Público, de 31 de Dezembro de 2004, de autoria de São José Almeida:

Caldeira Rodrigues, Um Engenheiro da liberdade
Por SÃO JOSÉ ALMEIDA

Joaquim Ângelo Caldeira Rodrigues, engenheiro, oposicionista ao fascismo e primeiro presidente da Câmara de Lisboa, recebe hoje uma última homenagem, às 11 horas, no Centro Funerário Santa Joana Princesa, em Lisboa, seguindo o corpo para Torres Vedras. Caldeira Rodrigues, falecido anteontem, na sequência de cancro, é pai de Maria João Rodrigues, catedrática do ISCTE, ministro do Emprego no primeiro Governo de Guterres, responsável pela elaboração da Estratégia de Lisboa e consultora do ex-presidente da Comissão Europeia.

Prestigiado activista da oposição à ditadura, Caldeira Rodrigues nasceu a 6 de Dezembro de 1925, em Torres Vedras. Revelando capacidades de activismo cívico desde cedo, concluiu o ensino secundário já em Lisboa, no Liceu Camões, tirando 20 a matemática. Ingressa no Instituto Superior Técnico, em 1942, onde desenvolve o seu pendor activista no movimento associativo. Em 1950, licenciou-se em Engenharia Civil, especializando-se em planeamento e estruturas hidráulicas, dando início à sua preparação numa área onde viria a notabilizar-se.

Uma carreira que é brindada em 1989/90 com o cargo de director da Associação Portuguesa de Projectistas e Consultores e com a sua presidência entre 1991-93. A sua carreira desenvolveu-se internacionalmente, sobretudo depois de, em 1962, ser um dos sócios fundadores da COBA - Consultores para Obras, Barragens e Planeamento, S.A., de que foi primeiro director e, depois, administrador. Este patamar de prestígio profissional foi atingido depois de ter integrado a Hidrotécnica Portuguesa no Serviço de Estruturas e a Companhia das Águas de Lisboa.

Entre as obras públicas da sua responsabilidade destacam-se várias barragens, projectos de aproveitamento hidroeléctricos, hidroagrícola e hidroenergético em Portugal, Brasil, Moçambique, Costa Rica, Grécia e Espanha, os circuitos hidráulicos de refrigeração da Central do Carregado e da Central Térmica de Setúbal, o plano geral de abastecimento de água à Região de Lisboa, o estudo de caracterização do sistema actual de exploração da EPAL.

Foi precisamente o seu prestígio como engenheiro ligado às obras públicas, para além da sua militância em prole da democracia e da liberdade, que estiveram na origem do convite que lhe foi dirigido, em Agosto de 1974, para presidir à comissão administrativa da Câmara Municipal de Lisboa, presidência que exerce até meados de Novembro de 1975 (ver caixa).

Caldeira Rodrigues, então militante do MDP, era também um conhecido oposicionista ao fascismo com créditos firmado logo em 1942 com a sua adesão ao MUNAF (Movimento de Unidade Nacional Anti-Fascista). Mas é no MUD Juvenil (Movimento de Unidade Democrática), a que adere em 1947 e cuja comissão central integra, que Caldeira Rodrigues se distingue. Tal como no Movimento para a Paz, em 1950, liderado por Maria Lamas e Manuel Valadares.

As suas actividades contra a ditadura levaram-no por duas vezes à prisão política. A primeira prisão, em Caxias, dá-se em 1947, na sequência da Semana da Juventude, que leva à cadeia toda a comissão central do MUD Juvenil. A segunda prisão, surge em 1951. Caldeira Rodrigues encontra-se entre a cerca de meia centena de activistas que esperavam Maria Lamas no aeroporto de Lisboa. Aliás, Caldeira Rodrigues envolveu-se de tal forma nos movimentos pela paz do pós-guerra que decidiu ir com a mulher ao Congresso da Paz, em Estocolmo, onde conheceu então figuras de quem ficaria amigo, como Jorge Amado.

Publicado por José Pacheco Pereira em 10:47 AM | Comentários (0)

novembro 27, 2004

FERNANDO BLANQUI TEIXEIRA (1922-2004)

Biografia (em breve)

Em anexo Comunicado do Secretariado do CC do PCP sobre a morte de Blanqui Teixeira.

PCP: Faleceu o camarada Blanqui Teixeira

Em comunicado, o Secretariado do Comité Central do PCP comunica o falecimento de Fernando Blanqui Teixeira, destacado militante comunista e dirigente do Partido Comunista Português durante muitos anos. O corpo de Fernando Blanqui Teixeira, estará em câmara ardente a partir das 10h45 de amanhã, sábado, na capela mortuária da Igreja de S. João de Deus, na Praça de Londres, em Lisboa e o funeral realizar-se-á no domingo, às 11 horas, para o Cemitério do Alto de S. João.


Blanqui Teixeira
O Secretariado do Comité Central do PCP informa com profundo pesar o falecimento de Fernando Blanqui Teixeira, destacado militante comunista, dirigente do Partido Comunista Português durante muitos anos.


Blanqui Teixeira formou-se em Engenharia Químico-Industrial no Instituto Superior Técnico, tendo pertencido à Direcção da respectiva Associação de Estudantes nos anos 1942/43, da qual foi afastado por perseguição política.


Blanqui Teixeira aderiu ao PCP em 1944 e foi seu funcionário desde 1948, tendo militado na Federação das Juventudes Comunistas em 1944 e 1945.


Foi membro da Direcção da Organização Regional de Lisboa em 1951 e de outros organismos da Direcção Regional.


Foi membro do Comité Central entre 1952 e 2000. Ainda antes do 25 de Abril fez parte do Secretariado e da Comissão Executiva do Comité Central. Foi membro da Comissão Política entre 1976 e 1988, membro do Secretariado entre 1979 e 1996 e da Comissão Central de Controlo entre 1996 e 2000.


Actualmente era membro da Comissão Concelhia do Barreiro e dos seus organismos executivos.


Fernando Blanqui Teixeira foi responsável da Comissão de Organização, pelas organizações do PCP nos Açores e na Madeira e pela organização na Emigração.


Desde 1975 até 2000 foi Director de “O Militante”.


Blanqui Teixeira foi preso em 1957, tendo fugido no ano seguinte, aproveitando uma deslocação ao Hospital de S. José. Em 1963 foi de novo preso tendo sido libertado em fins de 1971 na sequência de uma importante campanha pela sua libertação e regressado à clandestinidade.


Fernando Blanqui Teixeira foi eleito deputado à Assembleia Constituinte pelo Distrito de Coimbra.


Falecido aos 82 anos de idade, Blanqui Teixeira dedicou toda a sua vida à causa dos trabalhadores, da democracia e do socialismo.


O Gabinete de Imprensa

Publicado por José Pacheco Pereira em 04:58 PM | Comentários (0)

CATÁLOGO "RAISONNÉ" DA OBRA NEO-REALISTA DE JÚLIO POMAR

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Foi publicado, de autoria de Alexandre Pomar, em colaboração com Natália Vital e de Rosa Pomar, e com textos do autor e de Marcellin Pleynet, o I Volume do Catalogue raisonné I (1942-1968) da obra do pintor Júlio Pomar. Os anos abrangidos no volume compreendem a produção neo-realista do pintor e representam o mais completo estudo e catalogação dos desenhos e pinturas de Júlio Pomar, acompanhado por reproduções, inclusive de obras que se perderam.




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Publicado por José Pacheco Pereira em 04:23 PM | Comentários (0)

PÁGINAS SOBRE ERNESTO DE SOUSA

ernestodesousa.jpg

Página sobre Ernesto de Sousa com o texto biográfico de José António Salvador que a seguir se reproduz.

Outra página genérica sobre Ernesto de Sousa e uma lista de textos por ele publicados na Opção.

Sobre a Bolsa Ernesto de Sousa.

JOSÉ ERNESTO DE SOUSA nasceu em Lisboa, em 1921, e nos anos quarenta frequentou a Faculdade de Ciências para ai organizar a exposição de arte negra da Associação de Estudantes. Militava, então, no MUD Juvenil, organização política da resistência antifascista, onde o PCP desenvolvia uma participação significativa a par de outras correntes de opinião.

Amante das artes e entre estas do cinema, Ernesto de Sousa foi pioneiro na animação cultural, contribuindo para a implantação do movimento cineclubista no nosso país a partir da década de 50, ao fundar o primeiro cíneclube entre nós, o Círculo de Cinema.

O cinema apaixona-o e dirige a revista «Imagem». Em 1962 nasce do seu talento um filme que marcou o cinema português: «Dom Roberto», com o actor Raul Solnado. Como afirmou um grande crítico, Alves Costa, «é talvez arbitrário considerar Dom Roberto o filme charneira. O certo é que a partir dali a história do cinema português seria outra».

Ernesto de Sousa, no silêncio do seu comedimento, fez outra história para o cinema português.

Como fez outra história para as artes por onde viajou: - encenações no TEP, cursos de formação artística na Sociedade Nacional de Belas-Artes.

Nos anos 60, quando se preparava para se deslocar a Cannes e aí receber o Prémio da Crítica pelo seu filme «Dom Roberto», foi detido pela PIDE ficando preso na cadeia do Aljube.

Nos anos de chumbo a liberdade era coisa por conquistar. E o direito à diferença, estrangulado pela violência da ordem imposta.

Escreve, lê, pinta, fotografa, filma, teatriza, vive numa busca constante da beleza inesperada. Instalações, exposições e happenings fazem parte do seu itinerário nos anos 70 e 80.

Atravessa-o o 25 de Abril quando já tinha sido preso três vezes pela PIDE: em 48, numa reunião do cineclube, mais tarde por ter visitado a URSS e a última vez quando foi impedido de receber o prémio em Cannes.

«Foi a minha terceira prisão», declarou a Rui Ferreira e Sousa. «Eu estava no Aljube. Vesti- me com o fraque que iria levar a Cannes e fui contando vários episódios. Todos os companheiros estavam a ouvir-me contar e ler poesia: operários e até guardas. Então, os presos confeccionaram um diploma para me oferecer e premiaram, assim, a realização de 'Dom Roberto'. Foi muito bonito».

Pode dizer-se que o objectivo supremo deste homem foi fazer da vida uma coisa bonita, como quem respira. Conheceu Bazin, Agnés Varda, Resnais. Estudou Sartre, Merlau-Ponty e Rosa Ramalho. Conheceu por dentro o neo-realismo como o surrealismo. Não impôs a si próprio fronteiras ideológicas e deixou que a cultura o atravessasse sem tréguas.

Filma poemas de Herberto Helder, faz exercícios sobre poesia de Almada Negreiros, Luísa Neto Jorge, Herberto e Cesariny no Primeiro Acto de Algés, com música de Jorge Peixinho e a sua imaginação.

Recupera painéis de Almada Negreiros, em Madrid. É comissário por Portugal para a Bienal de Veneza em 1980, e vive no silêncio da sua serenidade.

(José António Salvador)

Publicado por José Pacheco Pereira em 12:56 PM | Comentários (0)

EXPOSIÇÃO SOBRE FERNANDO PITEIRA SANTOS (CASA ROQUE GAMEIRO - AMADORA)


Está exposta na Casa Roque Gameiro na Amadora, até 18 de Dezembro, a exposição "Fernando Piteira Santos: português, cidadão do século XX - A pátria é um território cultural", organizada pelo Centro de Documentação 25 de Abril e que seguirá para Lisboa (Fundação Mário Soares), em Janeiro de 2005.

Existe um catálogo da exposição : Fernando Piteira Santos - Português, Cidadão do Século XX, 2004

Publicado por José Pacheco Pereira em 12:16 PM | Comentários (0)

agosto 29, 2004

LEMBRANDO UM COMUNISTA AMERICANO DE ORIGEM LUSÓFONA : EDWARD S. TEIXEIRA

Reproduz-se um artigo necrológico "Lifelong Communist was proud of his ties to Whaling City ", The Standard-Times , 26/8/2004, sobre o comunista americano Edward S. Teixeira, oriundo de Cabo Verde e que viveu a sua juventude na comunidade emigrante lusofona de New Bedford.

A necrologia do Boston Globe está aqui.

Lifelong Communist was proud of his ties to Whaling City
By AARON NICODEMUS, Standard-Times staff writer

BOSTON -- Edward S. Teixeira, a New Bedford native who was blacklisted in the 1950s and 1960s for his "un-American activities," and later ran for state representative in Boston as a Communist, has died. He was 72.
A lifelong member of the Communist Party who was once chief organizer for the party's New England region, Mr. Teixeira also managed the Frederick Douglass bookstore in Boston for nearly 10 years, and successfully fought a state law that barred Communists from running for state office.
Being named a Communist by a federal Subversive Activities Control Board in 1964 cost him his job and his Social Security benefits. A few years later, his bookstore was bombed for selling Marxist literature.
Mr. Teixeira, a native of Cape Verde, grew up in New Bedford's South End. He left for Boston as a youth, but his family said he often returned to New Bedford and was proud of his place of birth.
"He loved New Bedford, he was so proud of his Cape Verdean heritage," said his widow, Tillyruth Teixeira. "He had very vivid memories of his great-grandfather, who was a whaler in New Bedford, who had lost two of his fingers to a harpoon." She said he regularly returned to the city from his adopted hometown of Boston for family reunions and Portuguese festivals.
His daughter, Juliet Teixeira, said her father never let the controversy surrounding his political views dissuade him from being politically active.
"It took a lot of courage for him to stand up for his convictions, even if they clashed with what other people believed," she said. "He taught his children that if you see something wrong, speak up. He also taught us that you won't always be popular when you do."
Mr. Teixeira left for Boston as a youth, after he was fired at his job at Aerovox Inc. because he attempted to organize a union among workers, his widow said.
But before he left, he signed up with the Communist Party in New Bedford, according to Mrs. Teixeira. It would be a defining decision in his life.
After arriving in Boston, Mr. Teixeira was involved in many community struggles, including school desegregation and political campaigns for such black politicians as Mel King and John O'Bryant. He was active in working to increase and maintain affordable housing in Boston.
But it was his lifelong membership in the U.S Communist Party that would earn him notoriety. In the mid-1950s, Mr. and Mrs. Teixeira were called before the state un-American Activities Committee because they were Communists. They were young at the time, and the charges were dismissed.
In 1964, though, under the federal McCarron Act, Mr. Teixeira was forced to register as member of the Communist Party.
As a result of the extensive news coverage of the case, Mr. Teixeira lost his job with a now-defunct manufacturer of electric motors. The Social Security Administration also refused to offer him any benefits, and Mrs. Teixeira was forced to turn her part-time job into a full-time one.
Mr. Teixeira became a full-time activist with the Communist Party, and was the chief organizer for the New England district, which included all six New England states except Connecticut.
In 1967, Mr. Teixeira opened up the Frederick Douglass bookstore on Massachusetts Avenue in Boston. It specialized in African-American history and culture, as well as Marxist titles. The store, which became a hangout for African-American intellectuals and Communist activists, was bombed. The store was not heavily damaged, but Mr. Teixeira decided to move it to Dudley Station in Boston's Roxbury neighborhood. His store would become instrumental in providing information for biographies and finding books on African-American studies for the New Bedford Public Library and the Harvard University School of Public Health.
When he attempted to run for state representative in 1972, Mr. Teixeira first had to confront a 1951 state law that barred Communists from seeking state office. The state high court ruled that Mr. Teixeira's avowed communism was a declaration of political philosophy, not party status. He was allowed to run, and on the ballot, he was listed as Edward Teixeira, Communist.
Although health problems slowed him down in his later years, Mr. Teixeira continued to be an active member of the Mass. Senior Action Council and advocated on issues dealing with affordable housing and health care.
"People had a lot of respect for him," said his daughter, Juliet.
His wife, Tillyruth, said her husband never wavered in his convictions. "He would say, 'This is what I want to do. I'm going to fight the good fight,'" she said.

Publicado por José Pacheco Pereira em 01:11 PM | Comentários (3)

agosto 15, 2004

MORTE DE ANTÓNIO DOMINGUES

antoniodomingues.jpg

Morreu António Domingues, pintor e gravador, membro do PCP desde 1946. O Jornal de Noticias de 14/8/2004 publicou uma necrologia:

LUTO
Morte de um surrealista

Ao lado de Mário Cesariny e Cruzeiro Seixas, foi um dos fundadores do movimento surrealista português. Esse estatuto e a autoria do espólio, actualmente disperso por colecções acolhidas, entretanto, fora do seu país natal, ninguém lhe pode roubar. A vida sim. O pintor António Domingues faleceu ontem, aos 84 anos, em Lisboa.

Em 1942, frequentou as tertúlias artísticas do café Hermínios, na Avenida Almirante Reis, em Lisboa, e sobre isso deixou uma menção na primeira pessoa. "Neste pequeno café, minha actividade é, por um lado, o desenho, a novela e, por outro, (...) a criação de um característico jogo imagético que, tarde, haveríamos de classificar de actividade dadaísta." O registo completa-se. O autor da série de desenhos "Lendas de Timor", o próprio, deixou uma autobiografia, publicada, em 1986, pelo jornal "Diário".

Foi estudante nocturno, negociante de ferro e maquetista numa litografia. E também foi, desde 1946, militante do Partido Comunista Português. Cruzou as telas com a política e participou, nomeadamente, na Bienal de Artes Plástice.

Entretanto, ladeado pelos companheiros de sempre - Leonel Rodrigues, Moniz Pereira, Marcelino Vespereira, Alexandre O'Neill, Mário Cesariny, Cruzeiro Seixas e outros - fundou o Grupo Surrealista de Lisboa.

Espanha e as extintas URSS e República Democrática Alemã receberam algumas das suas exposições. Angola mereceu maior dedicação, porque as suas raízes assim o ditaram. Neste momento, há telas dispersas pelo planeta. No entanto, o Centro de Arte Moderna da Fundação Calouste Gulbenkian, em Lisboa, regista um quadro da série "Cadavres Exquis" (Cadáveres Esquisitos).

Hoje, é dia de cortejo fúnebre, às 15.15 horas, da Basílica da Estrela para o cemitério dos Olivais. A obra fica para todos os dias da eternidade.

*com agência Lusa

Publicado por José Pacheco Pereira em 12:08 PM | Comentários (1)

agosto 07, 2004

ESTADO DO III VOLUME DA BIOGRAFIA DE ÁLVARO CUNHAL

São-me pedidas informações sobre o “estado” do III volume da biografia política de Cunhal, sobre a qual tenho trabalhado nos últimos anos. Aqui segue uma lista provisória dos títulos dos capítulos, que pode dar uma ideia do conteúdo final do volume. Os capítulos 1, 2, 3, 4, 5, 6, 11, e 15 estão praticamente encerrados. Os outros estão em fases distintas de acabamento e os capítulos 13 e 14 bastante atrasados.

ÁLVARO CUNHAL – O PRESO (1949-1960)

(todos os títulos são também provisórios)

1 – O choque: da prisão ao julgamento

2 - Os anos mais duros (1949-52): os expulsos, os “traidores” e os mortos

3 – O PCP sozinho

4 - Cunhal na Penitenciária: “a estrela de seis pontas”

5 - Estratégias contra a solidão: ler , escrever e desenhar

6.- A purga dos intelectuais

7 - A continuação das purgas

8 - Fogaça e Cunhal à distância

9 - Cunhal em Peniche (1956-60)

10 - O PCP à luz de Krutchov e o combate ao “sectarismo”

11 - V Congresso (1957)

12.- A emergência da questão colonial

13 - O “furacão” Delgado

14 - Depois de Delgado

15. - A fuga de Peniche


Como aconteceu já com os outros volumes, cada período cronológico da biografia tem problemas próprios. No caso destes anos existem dois tipos de problemas: um diz respeito ao processo narrativo e pode ser resumido nesta questão – como é que se escreve um texto sobre um homem que está preso e tem os seus gestos rigidamente controlados e repetitivos? Trinta páginas chegam para descrever o quotidiano de um preso e há que encontrar mecanismos para ligar essa aparente (e real) monotonia de gestos com o fio de uma “vida”. O segundo problema é que estes anos 1949 – 1960 são “malditos” na história oficial do PCP por várias razões contraditórias – o “sectarismo”, primeiro, e depois o que veio a ser conhecido como o “desvio anarco-liberal” e por isso são muito pouco conhecidos e estudados. Mais importante: a memorialistica em que o PCP é fértil, ilude quase completamente a política neste período, concentrando-se nas “lutas” e na repressão, o que dificulta muito saber-se o que realmente se passou. Acresce que, enquanto nos anos trinta, havia uma direcção relativamente concentrada e com uma cadeia de comando facilmente definida, os anos cinquenta são os mais confusos, entre as purgas, expulsões e decisões contraditórias.

Publicado por José Pacheco Pereira em 01:00 PM | Comentários (6)

julho 24, 2004

CARLOS PAREDES

Sobre Carlos Paredes / "Franco", militante comunista.


De uma nota da PIDE de 4 de Março de 1959.

Publicado por José Pacheco Pereira em 10:57 AM | Comentários (4)

julho 01, 2004

"BARREIRO RECONHECIDO", A TÍTULO PÓSTUMO, A FLORENTINO ALVES RODRIGUES

A CM do Barreiro atribuiu a Florentino Alves Rodrigues o galardão , a título póstumo, do "Barreiro reconhecido". Junto se inclui um esboço da biografia do militante comunista e opositor de autoria da DIRP da autarquia.

Resistência anti-fascista: Florentino Alves Rodrigues

Solidário, fraterno e resistente. Estas três palavras ajudam a caracterizar o cidadão Florentino Alves Rodrigues, nascido no Barreiro em 11 de Junho de 1911 e que pautou a luta de toda a sua vida por uma postura feita de descrição, humildade e solidariedade pura.

Durante toda a sua vida fez questão de manter no seu íntimo todos os gestos, para si naturais, de solidariedade, de combate à injustiça social e de participação na construção de um país mais justo, mais fraterno e mais desenvolvido. E fê-lo em cada dia, em cada solicitação dos tempos mais conturbados. Num exercício de cidadania exemplar e desinteressado.

É por isso que, em respeito pela vontade do homem que homenageamos, deixamos que a memória de todos os que o conheceram sirva como testemunho verdadeiro do seu papel na construção desta cidade.

Contudo, não podemos deixar de referir alguns factos que constituem pontos de referência na seu percurso e ajudam a compreender a vida de um homem exemplar.
Florentino Rodrigues ingressa muito novo na Companhia União e Fabril e aos 15 anos é já encarregado de um dos sectores ligados à área têxtil da empresa. Faz um percurso linear e consegue uma posição segura tendo em conta a conjuntura social dos anos 30 no Barreiro.

A sua personalidade forte, independente, justa e solidária leva a que seja detido pela PVDE em 5 de Fevereiro de 1934 situação que se repete em 25 de Outubro do mesmo ano por, alegadamente, possuir propaganda subversiva. Esta situação leva ao seu afastamento da CUF e à criação da Agência Funerária que, com enormes dificuldades, constitui o suporte da família. Os tempos são duros. O medo e a discriminação social provocados pelas detenções obriga cada resistente a traçar o seu próprio caminho. E Florentino resiste e mantém a sua determinação, as suas convicções e sua forma natural de ser solidário.

Compreende o quanto sofrem todos os que passaram por situações semelhantes à sua e auxilia- os. Sempre e ao longo de toda a sua vida. Em 1958, no decorrer da campanha de Humberto Delgado, às quais não estava directamente ligado, é novamente detido, desta vez, e segundo os registo da PVDE, por actividades subversivas. Recolhe a Caxias depois do interrogatório e é libertado em Julho de 1958.

Fazendo sempre ponto de honra na sua independência partidária e evitando a auto- promoção tem um papel fundamental nos núcleos informais que levam à criação do Partido Socialista, muito pela forte ligação aos antigos republicanos do Barreiro como Manuel Cabanas.

Os muitos amigos falam do homem muito culto e extremamente dedicado que tudo quanto tomava em mãos levava a sério e até o fim. Um homem meticuloso que foi considerado um dos maiores filatelistas portugueses e deixou fortes amizades, nomeadamente no Brasil para onde viajava amiúde a rever amigos com os quais partilhava um interesse profundo pela política e pela evolução do mundo.

Depois de um vida movida pela energia, pela resistência e por um solidariedade profunda, em, Fevereiro de 1991, o Barreiro perdeu um amigo, um cidadão frontal e firme.

Publicado por José Pacheco Pereira em 12:11 AM | Comentários (6)

junho 24, 2004

BIOGRAFIAS EM PREPARAÇÃO

Actualização


Estão em preparação as seguintes biografias de militantes comunistas e da oposição:

Carlos Silva Almeida (Alvaiázere, 1923 – Rio de Janeiro, 2003)

João Grilo de Almeida (Gouveia, 1943 – Seia, Janeiro? 2004)

Virgilio Azevedo (1956 - 2004)

Lino de Carvalho (Leiria, 1946 - 2004)

Abel Mendes Ginja (1923 – 19/12/2003)

Apolinário Gonçalves (Espinho, 1916 - 1/1/2004)

José Lourenço (Ermidas – Santiago do Cacém, 1920 – 17/12/2003)

Fernando Boiça da Silveira Mesquita ( Alcobaça, 1925 - 7/1/2004)

Saul Manuel Oliveira (Vila Franca de Xira, ? – Janeiro 2004)

Hélio Vieira Quartin ( ? - Almada, 25/12/2003

Arnaldo Albano Lourenço Rocha (Santa Iria da Azóia, 1928- 3/1/2004)

Manuel João Martins Sanches (1924 – Canadá, 22/12/2003)

Todas as informações serão bem vindas.

Publicado por José Pacheco Pereira em 04:08 PM | Comentários (1)

MORTE DE JOAQUIM SANTOS SIMÕES

Morreu Joaquim Santos Simões uma figura histórica da oposição no Minho. Uma notícia necrológica foi publicada no Publico de 24/6/2004, que se reproduz em anexo. Da sua bibliografia destaca-se Braga. Grito de Liberdade. História Possível de meio século de resistência , Braga, Governo Civil do Distrito de Braga, 1999 e Sete anos de luta contra o fascismo. Academia de Coimbra 1944 – 1951, Guimarães, J. Santos Simões, 2002

Faleceu Joaquim Santos Simões Por VICTOR FERREIRA
Público, 24 de Junho de 2004

Joaquim Santos Simões, presidente da Sociedade Martins Sarmento, uma das mais importantes instituições culturais de Guimarães, faleceu ontem, ao início da tarde, no Hospital de S. José, em Fafe, após ter sofrido uma paragem cardio-respiratória. A morte de Santos Simões, deixou Guimarães de luto, a cidade que, desde 1957, o acolheu e à sua família, depois de ter saído de Coimbra.

Joaquim António dos Santos Simões nasceu a 12 de Agosto de 1923 na vila de Espinhal, concelho de Penela, distrito de Coimbra. Entre 1944 e 1947, já como aluno da Universidade de Coimbra (UC), participou nas movimentações reivindicativas dos estudantes, dedicando-se ainda ao Teatro de Estudantes da UC, onde foi director, encenador e actor. No ano lectivo de 1950/51 acaba por ser eleito presidente da Associação Académica de Coimbra (AAC) e conclui as suas licenciaturas em Ciências Matemáticas e Engenharia Geográfica. Já então se destacava por aquilo que alguns dos seus colaboradores mais próximos designam como um "profundo sentimento de justiça e intervenção social". Depois de leccionar no ensino particular, em 1957 transita para Guimarães onde se torna professor do ensino público na então Escola Industrial e Comercial de Guimarães.

É nesta cidade que Santos Simões começa a intensificar o seu trabalho ligado à cultura, vindo a iniciar, em 1963, uma actividade política organizada, militando na oposição democrática do distrito de Braga. Paralelamente, notabiliza-se como um dos fundadores do Cineclube de Guimarães e do Teatro de Ensaio Raúl Brandão, ligado ao Círculo de Arte e Recreio, três instituições onde ocupou cargos e desempenhou um papel importante até ontem, dia da sua morte.

Em 1968 foi preso pela PIDE, vindo a ser expulso do ensino devido à sua militância contra o Estado Novo. Um ano mais tarde, participa no II Congresso da Oposição Democrática, em Aveiro e é candidato da CDE por Braga, na campanha "eleitoral" para a Assembleia Nacional.

No pós-25 de Abril, é reintegrado no ensino oficial, regressando à (ainda) Escola Industrial e Comercial de Guimarães. Na mesma altura, participa activamente na criação do Partido Movimento Democrático Português (MDP/CDE), integrando os órgãos directivos nacionais e sendo um dos responsáveis pelo partido no distrito de Braga e em Guimarães. Chega a ser indicado pelo MDP/CDE para os cargos de governador civil e de Ministro de Educação, mas foi rejeitado por António Spínola "por ser comunista", segundo descrevem as notas biográficas sobre a sua vida que o próprio deixou escritas.

Participou na criação de novas associações culturais em Guimarães, como a cooperativa editorial O Povo de Guimarães, a Cercigui, e em 1990 é eleito presidente da direcção da Sociedade Martins.

Anteontem, Santos Simões faltou pela primeira vez a uma reunião de direcção, consequência do seu estado de saúde fragilizado decorrente da doença renal que o afectou nos últimos quatro anos. Curiosamente, foi neste período que Santos Simões teve ainda força para concretizar alguns dos projectos mais importantes da Sociedade Martins Sarmento, como a construção do Museu de Cultura Castreja, inaugurado em Guimarães o ano passado, ou a criação da Casa de Sarmento, uma unidade cultural dedicada aos estudos históricos.

Para Amaro das Neves, docente da Universidade do Minho - cuja comissão instaladora Santos Simões integrou em 1975 - e seu companheiro de trabalho na Sociedade Martins Sarmento durante os últimos 15 anos, o desaparecimento desta figura é uma "perda irreparável para a democracia portuguesa e para a cultura de Guimarães e do país". A sua morte foi igualmente lamentada pela Câmara de Guimarães, que ontem à tarde divulgou um comunicado.

O corpo de Santos Simões está em câmara ardente nos Passos Perdidos da sede da Sociedade Martins Sarmento, de onde amanhã, pelas 9h00, partirá o cortejo fúnebre rumo ao cemitério do Prado Repouso, no Porto, onde o seu corpo será cremado, conforme era sua vontade.

Publicado por José Pacheco Pereira em 09:53 AM | Comentários (0)

maio 29, 2004

PÁGINAS SOBRE ÁLVARO CUNHAL NA TSF ONLINE


Com pretexto no nonagésimo aniversário de Álvaro Cunhal, a TSF Online tem uma série de páginas sobre o dirigente comunista.

Regista-se aqui o índice dessas páginas:


Retrato
Cunhal: O eterno combatente
Traições para a vida
Uma cabeça de cartaz, mas não de cara de cartaz
A primeira "Cassete"
A "Cassete" dos anos 90

Clandestino
O Homem Clandestino e o Jovem Comunista
A Educação do "filho adoptivo do proletariado"
As primeiras prisões
Fuga de Peniche
O guarda camarada

Regresso a Portugal
Com o povo e o MFA
Comunistas uni-vos
A estratégia de Cunhal
Todos marxistas, todos diferentes
Soares contra Cunhal

Publicado por José Pacheco Pereira em 11:48 AM | Comentários (1)

maio 28, 2004

MORTE DE JOSÉ AUGUSTO SEABRA

Notícia necrológica sobre este militante da oposição. activista do MUDJ, preso e exilado, que trabalhou na rádio de Moscovo e animou várias iniciativas culturais antes do 25 de Abril , no Público de 29/5/2004

Veja-se igualmente a nota In Memoriam do Almocreve das Petas.

Publicado por José Pacheco Pereira em 07:04 PM | Comentários (0)

maio 16, 2004

MARCELLO CAETANO E A LIBERTAÇÃO DE FERNANDA PAIVA TOMÁS EM 1970

Fernanda Paiva Tomás / “Ana” / “Maia” / “Marques” , iniciou a sua actividade política no MUDJ, tornando-se depois militante do PCP. Em 1952, depois de ter terminado o seu curso académico na Faculdade de Letras de Lisboa, passou à clandestinidade. De 1952 a 1961, data em que foi presa, teve relevantes funções no partido, tendo sido responsável do sector intelectual do Porto, membro da DORL, membro da Comissão de Imprensa, e uma das pessoas que apoiou tecnicamente a realização do V Congresso do PCP em 1957. À data da sua prisão era membro suplente do CC.


Presa em 6 de Fevereiro de 1961, fora julgada em 28 de Novembro e condenada a oito anos de prisão maior e a medidas de segurança. Terminada a sua pena, em Fevereiro de 1969, foram-lhe aplicadas as medidas de segurança que permitiam de forma arbitrária manter as pessoas presas para além do cumprimento da pena definida pelo tribunal. Em Setembro de 1969, no âmbito da aplicação das medidas de segurança, foi interrogada para se avaliar da sua “perigosidade”. Fernanda Paiva Tomás não deixou duvidas sobre o que pensava fazer caso fosse libertada:

Que, mantendo indefectivelmente as suas ideias políticas e tencionando continuar como militante oposicionista ao actual regime em actividade legal de acordo com essas ideias, não fará qualquer discriminação nem em relação ao partido comunista português nem a qualquer outra organização como forças de carácter democrático e oposicionista”

Um ano depois, seu filho e de Joaquim Carreira, igualmente funcionário do PCP, Alberto Augusto Tomas Carreira , então com quinze anos, apela a Marcello Caetano para que a mãe fosse libertada. Marcello Caetano pede à PIDE uma informação sobre a situação da presa e recebe-a em 22 de Outubro de 1970. A PIDE chama a atenção do Presidente do Conselho para a disposição combativa de Fernanda Paiva Tomás. Marcello Caetano responde então uma semana depois a Alberto Carreira:

Presidência do Conselho
Lisboa
29 de Outubro de 1970

Ex.mo Senhor Alberto Augusto Tomas Carreira
Marinha Grande

Meu caro Alberto Augusto

Li a sua carta e por ela soube da existência de sua mãe. As pessoas pensam às vezes que os presidentes mandam prender pessoas e que está na sua mão soltá-las. Não é exacto. A sua mãe. Por exemplo, foi presa pela polícia por estar a agir contra a lei – e não por ter ideias diferentes das do governo. Foi julgada e condenada pelos tribunais. Informei-me do que se poderia agora fazer para a restituir à família: basta que ela se comprometa a dedicar-se ao filho a não voltar a praticar acções proibidas por lei. Já há meses lhe perguntaram se queria sair nessas condições, que são as da sentença, e ela respondeu que não, Vão fazer-lhe outra vez a pergunta.
Compreendo muito bem os seus sentimentos de filho, e desejo-lhe as maiores felicidades.

Marcello Caetano

É provável que, mesmo que a resposta de Fernanda Paiva Tomás à “pergunta” tenha sido a mesma que deu um ano antes, Marcello tenha tido qualquer forma de intervenção, porque esta foi libertada condicionalmente em 19 de Novembro de 1970, e obrigada a apresentar-se no posto de polícia de Mortágua, para onde foi residir. Continuou a militar no PCP.


Fontes: PIDE / DGS Proc. Cn. 386 / 61, NT 5369

Publicado por José Pacheco Pereira em 11:55 AM | Comentários (2)

maio 10, 2004

NOTAS BIOGRÁFICAS - Lista actualizada


Segue uma lista actualizada das notas biográficas incluídas nos Estudos :

Belmiro dos Santos Alves
José Neves Amado
Carlos de Araújo
José Maria Barge
Artur Batista Vieira Bastos
Raul Batista
João Ferreira Cabecinha
José Cabecinha
António João Caeiro
Manuel Calvário
António Maria Candeias
Álvaro Duarte Cerdeira
Francisco Dias da Costa
Alberto Couto
Maria Domingues ("Maria Botas")
Severiano Pedro Falcão
João Manuel da Costa Feijão
Américo Ferreira
Belmiro Ferreira
António Braz Perfeito Flamino
Celeste Santos Gomes
Domingos da Costa Gomes
Emília Guerreiro Geraldo Gomes
Policarpo Marcelino Gonçalves
Francisco Guerreiro
Júlio José Cristo Luz
Jacinto Ramos Martins
Óscar Augusto Martins
Amândio de Sena Cunhal de Melo
José Mendes
Inácio Ministro
José Morgado (Nota incompleta)
Carlos Nascimento
Zilda de Lurdes Alves Oliveira
António Rosa Palma (“Tonico”)
José Manuel Martins Palminha
Alberto Monteiro Rodrigues (“Ruivinho”)
Adrião Martins Roxo
Joaquim Victor Batista Gomes de Sá
Francisco Duarte Sacavém
António Seiça
Gracinda da Costa Vaz

Publicado por José Pacheco Pereira em 12:03 PM | Comentários (0)

NOTAS BIOGRÁFICAS – FRANCISCO GUERREIRO

Francisco Guerreiro.jpg

(Pechão (Olhão) 1917- 9/5/2004)

Militante comunista, preso em diversas ocasiões desde o fim dos anos trinta. Na sua prisão de 1938, na sequência de uma razia policial à organização do Algarve, foi forçado a estar 28 horas seguidas em pé "sem comer nem beber".Num testemunho inédito que escreveu em Buenos Aires em 1952, descreveu como nos calabouços do Governo Civil de Lisboa permaneceu muitas noites sem dormir, "por não caberem deitados todos os reclusos”.
Depois do 25 de Abril fez parte da Comissão Administrativa da Câmara Municipal de Olhão e foi várias vezes presidente da Junta de Pechão, sua terra natal. Era autor de uma monografia sobre Pechão.

Fontes:

Francisco Guerreiro, Um Aporte e Testemunho, Buenos Aires, 1952. Trabalho manuscrito citado por Joaquim Manuel Vieira Rodrigues , O Algarve E O Estado Novo (1932-1939)

Francisco Guerreiro, Pequena Monografia de Pechão, Faro, Algarve em Foco Editora, 1988

Região Sul, 10/5/2004

Publicado por José Pacheco Pereira em 11:31 AM | Comentários (0)

NOTAS BIOGRÁFICAS – JOSÉ NEVES AMADO

(Aveiro, 1911- Maio 2004)

Marinheiro, 2º artilheiro da Armada, participou na revolta da ORA em 8 de Setembro de 1936, o que lhe motivou uma longa estadia de 14 anos no Campo do Tarrafal, entre 1936 e 1951. Quando regressou em 1951, foi internado na enfermaria da Cadeia Penitenciária de Lisboa. Depois do 25 de Abril foi reintegrado na Armada e, a 19 de Abril de 1999, agraciado com a comenda da Ordem da Liberdade. Militante comunista era conhecido pela sua "maneira de ser discreta e reservada”, pelo que nunca foi tão conhecido como outros tarrafalistas.

Fonte: Comunicado da Direcção da Organização Regional de Aveiro do PCP, 4/5/2004


Publicado por José Pacheco Pereira em 08:46 AM | Comentários (0)

EXPOSIÇÃO "AUTOBIOGRÁFICA" DE JÚLIO POMAR


Está em Sintra no Museu de Arte Moderna - Colecção Berardo, uma grande exposição "autobiográfica" de Júlio Pomar. Pomar foi uma figura central do neo-realismo, tendo pintado algumas das suas obras mais emblemáticas. Militante do PCP, participou activamente na luta política da oposição e esteve preso. Entre os quadros expostos encontra-se "Resistência", de 1946, apreendido em 1947 pela PIDE na II Exposição Geral de Artes Plásticas na Sociedade Nacional de Belas Artes, Lisboa.

Publicado por José Pacheco Pereira em 08:16 AM | Comentários (0)

maio 08, 2004

NOTAS BIOGRÁFICAS - SEVERIANO PEDRO FALCÃO

SFALCAO.jpg

(Alhandra, 1/3/1923 – 5/5/2004)


Severiano Pedro Falcão, que tinha a alcunha de “Espanhol”, era filho de um “trabalhador sem profissão”, e de uma “operária têxtil”, que descreveu como “pessoas sérias” embora desinteressadas da política. Seus irmãos, pelo contrário, já tinham interesse pela política. Frequentou a escola primária e começou a trabalhar muito cedo numa oficina, cujo patrão era simpatizante dos republicanos espanhóis. Foi mudando de oficina e ofício em função das dificuldades. A sua profissão oficial era de carpinteiro, mas sempre se considerou marceneiro.

Jovem nos meios operários de Alhandra foi desportista e músico amador,– tocava clarinete na Sociedade Euterpe - , participou em actividades animadas por Soeiro Pereira Gomes. Foi recrutado para as Juventudes Comunistas em 1942 e permaneceu nessa situação até 1944, altura em que entrou para um organismo partidário. Depois das greves de 8 e 9 de Maio de 1944, foi chamado ao CL de Alhandra (?) para substituir elementos que tinham sido presos. Participou em actividades sindicais mas o seu nome era vetado pela PIDE para cargos nos Sindicatos. Em 1947, passou a ser membro do CR do Ribatejo e, nessa qualidade, participou, no ano seguinte, na agitação legal e semi-legal em apoio à candidatura do General Norton de Matos para a Presidência da República.

Quando morreu Soeiro Pereira Gomes, participou na organização da manifestação que se realizou quando da passagem do seu funeral em Alhandra, em 7 de Dezembro de 1949, e escreveu um texto distribuído na altura. Essas actividades colocaram-no em risco de ser preso. Passa à clandestinidade em fins de Dezembro de 1949.

O período em que passa à clandestinidade é dos mais críticos da história do PCP, ameaçado quase de desaparição por uma sucessão de traições e pela acção eficaz da PIDE. Falcão, com o pseudónimo de “Artur”, foi tomar conta de organizações em situação crítica no Alto e Baixo Alentejo. Substituindo Manuel Vital /”Teixeira”, assassinado pelo partido, e posteriormente Agostinho Saboga /”Jaime”, trabalhou numa zona muito afectada por prisões e traições. Um ano depois de passar à clandestinidade, foi vítima de uma traição e preso com a sua mulher Maria Beatriz Rodrigues, e um filho com três anos, numa casa na Amora/Seixal, a 30 de Dezembro de 1950.

Foi preso pela mais eficaz e brutal brigada da PIDE na perseguição ao PCP, que incluía José Gonçalves e Fernando Gouveia, e que estava envolvida na investigação do assassinato de Manuel Vital. Gouveia acusou-o imediatamente de ser responsável pelo assassinato de Vital. Após um período inicial em que Falcão não foi maltratado, a PIDE iria tortura-lo com mais violência do que era habitual. Foi espancado e colocado várias vezes de cabeça para baixo, provocando desmaios. Estas violências tem certamente a ver com a convicção da polícia de que Falcão, tendo substituído Vital, deveria conhecer as circunstâncias em que este fora morto. Severiano Falcão não prestou quaisquer declarações.

Condenado, foi enviado para Peniche de onde saiu em 1956. Voltou a trabalhar, agora na construção civil, passando a dirigir obras em Lisboa. Retoma o contacto com o PCP e participa na campanha de Humberto Delgado. É preso de novo em 21 de Agosto de 1958, julgado e condenado como militante do PCP. Volta à cadeia de onde só sai em 1966.
Regressa a Alhandra e vai trabalhar para uma empresa de Lisboa. Falcão era agora medidor e orçamentista e estudara na cadeia o método PERT de que era considerado especialista. Participou profissionalmente em obras da TAP no aeroporto e, à data do 25 de Abril, trabalhava na grande empresa de construção civil “Joaquim Francisco dos Santos”.

Depois do 25 de Abril, Severiano Falcão foi membro do CC de 1976 a 1992, deputado na Assembleia da República, de 1976 a 1979, onde foi vice-presidente da Comissão Especial de Trabalho. Em 1979, foi eleito Presidente da Câmara Municipal de Loures, reeleito várias vezes , até que renunciou ao cargo em Novembro de 1990. O seu afastamento da Câmara, contra a sua vontade e pressionado pelo PCP, foi-lhe muito penoso, e não se coibia de manifestar a sua “insatisfação” com o modo como fora tratado. No entanto, apoiou o candidato do PCP a Loures em 1993.


Fontes:

F. (Severiano Pedro Falcão?), Queridos camaradas..., 1/5/54

"Artur" / Severiano Pedro Falcão, Queridos camaradas , s/d,

PIDE / DGS, Processo 314/50, NT 5051

Severiano Falcão, “Depoimento sobre Soeiro Pereira Gomes”, Diário 12/4/1981

Ruben de Carvalho, “E disse-me Severiano…”, Avante!, , 29/11/1990

Público , 6/5/2004

Avante!, 6/5/2004

Tribuna de Loures

Revista Figura Online

Publicado por José Pacheco Pereira em 11:50 PM | Comentários (0)

maio 03, 2004

NOTAS BIOGRÁFICAS – ÓSCAR AUGUSTO MARTINS


(1946 – Setúbal, Dezembro 2003)

Operário metalúrgico (Mague), emigrante em França, depois empresário. Membro do PCP desde 1968, regressou de França em 1975. Foi membro da CC do PCP de Setúbal, das Comissões de Trabalhadores da Mague e de comissões de moradores.

Fonte: Avante!, 18/12/2003

Publicado por José Pacheco Pereira em 12:47 PM | Comentários (0)

NOTAS BIOGRÁFICAS – ETELVINA LOPES DE ALMEIDA

Morreu a 30 de Abril de 2004, Etelvina Lopes de Almeida, escritora, jornalista e, depois do 25 de Abril, deputada pelo PS na Assembleia da República. Etelvina Lopes de Almeida esteve ligada à oposição, tendo colaborado com Maria Lamas, e as organizações de mulheres que esta animava. Estas actividades deram origem ao seu despedimento da Emissora Nacional.

Fonte: Depoimento autobiográfico em Faces de Eva, N.° 5, (2001): 209-216

"Morreu Etelvina Lopes de Almeida" , Público, 1/5/2004 (EM ANEXO)

Lista das suas intervenções parlamentares.

"A antiga jornalista e ex-deputada eleita pelo PS à Assembleia Constituinte e à Assembleia da República, Etelvina Lopes de Almeida, faleceu ontem, aos 88 anos, em Tábua, onde presidia à Fundação Sara Beirão/António Costa Carvalho, que fundou juntamente com o locutor, ex-deputado pelo PS à Assembleia da República e antigo vereador na Câmara de Cascais, Igrejas Caeiro.

O corpo está em câmara ardente na Basílica da Estrela, em Lisboa, a partir das 12 horas de hoje. Às 15 horas será celebrada missa de corpo presente seguindo o o cortejo funebre para o cemitério de Benfica.

Além de jornalista, Etelvina Lopes de Almeida foi deputada pelo PS à Assembleia Constituinte, em 1975, e presidiu em Estrasburgo a uma sessão do Parlamento Europeu para os Idosos, em 1993, durante a qual foi aprovada a Carta Europeia para os Idosos.

Em 1995 foi agraciada pelo então Presidente Mário Soares com a Comenda da Ordem de Mérito.

Etelvina Lopes de Almeida iniciou a sua carreira no jornal infantil "O Papagaio", tendo passado pelas redacções da Rádio Renascença e de O Século".

Sucedeu a Maria Lamas na direcção da revista "Modas e Bordados", de onde transitou para os microfones do Rádio Clube Português e da Emissora Nacional (em 1945). A jornalista foi também autora de livros infantis e romances, nomeadamente "Histórias que o mundo conta" e "Maria Verdade", bem como de o "ABC da Culinária".

Em declarações à Lusa, a socióloga Maria Antónia Fiadeiro recordou a generosidade e solidariedade da jornalista Etelvina Lopes de Almeida.

A socióloga, que a entrevistou para a realização da biografia de Maria Lamas, lançada o ano passado pela Bertrand Editora, afirmou que Etelvina Lopes de Almeida "não tinha, ou não queria ter, uma memória muito activa em relação ao passado".

Maria Antónia Fiadeiro recordou a jornalista e escritora como "a senhora que lhe oferecia bolos" para levar à mãe, Maria Stella Piteira Santos, quando esta esteve presa por razões políticas em 1961.

"Era uma senhora amável e solidária", disse a investigadora, referindo o livro de Etelvina Lopes de Almeida "Maria Verdade", que deu origem a um espectáculo no Teatro São Luiz, em Lisboa, e que a "marcou muito".

Etelvina Lopes de Almeida foi secretária de redacção da revista Modas e Bordados, cuja direcção assegurou quando Maria Lamas assumiu a presidência nacional do Conselho das Mulheres Portugueses.

"Nesta questão ela não me foi muito eficaz, não tinha ou não queria ter uma memória activa", afirmou a socióloga. "

Lusa

Publicado por José Pacheco Pereira em 10:31 AM | Comentários (0)

maio 02, 2004

ENTREVISTA DE VASCO DE CARVALHO

Uma extensa entrevista a Vasco de Carvalho, o “secretário-geral apagado na história do PCP” de autoria de António Melo é publicada no Público de 2/5/2004.

A entrevista divide-se por várias partes:

“Vasco de Carvalho - o Secretário-geral Apagado na História do PCP”

“Socorro Vermelho”


“A Chegada do 25 de Abril “


“Um Miúdo de Alcântara”


“Entre "Liquidadores" e "Provocadores"

Publicado por José Pacheco Pereira em 11:29 AM | Comentários (0)

maio 01, 2004

NOTAS BIOGRÁFICAS – BELMIRO FERREIRA

(28/4/1912 – Barreiro, 25/4/2004)

Belmiro Ferreira.jpg Belmiro FerreiraBarreiro.jpg

Operário da CUF e da FISIPE, pintor autodidata. Tinha a 4ª classe, mas começou a trabalhar no têxtil da CUF, passando posteriormente aos escritórios. Mais tarde porque “no escritório via certas “extravagâncias” com as quais não podia conviver”, passou de novo aos “tecidos”. A partir dos anos setenta começou a pintar, centrando os seus quadros nas imagens do Barreiro, das suas ruas e edifícios.
Iniciou a sua militância comunista no Comité Local das Juventudes Comunistas na primeira metade dos anos trinta. Na data da sua morte era o militante do PCP mais antigo do Barreiro.

Fontes:

Artbarreiro.com

Rostos on-line

Em anexo reproduz-se a notícia de Miguel de Sousa, «Faleceu Belmiro Ferreira», Jornal do Barreiro, 30/4/2004

«Faleceu Belmiro Ferreira
Aos 92 anos, acaba de falecer o conhecido Belmiro Ferreira. Este antigo funcionário da CUF, que se reformou no posto de Encarregado na Zona Têxtil, atingiu grande notoriedade pelo seu talento de pintor da memória do Barreiro.
O que tem mais graça é que Belmiro só começou a pintar a cores aos 76 anos de idade, por estímulo insistente de Augusto Cabrita, seu grande amigo, que o foi sempre acarinhando e acabou por lhe promover uma curiosíssima exposição, dotada de um bom catálogo, editado pela Câmara Municipal do Barreiro, que posteriormente viria a adquirir grande número das suas obras.
Belmiro Ferreira dedicou-se, durante vários anos a pintar o Barreiro do seu tempo de juventude. Dotado de uma impressionante memória fotográfica e de um agudo sentido da cor pura, realizou cerca de 70 quadros, em estilo considerado "naif", retratando fielmente a configuração do Barreiro desses tempos.
Este valioso património encontra-se actualmente, na sua maioria, nas Reservas Museológicas Municipais, aguardando-se que um dia possam vir a ser patentes a público, que poderá apreciar a minúcia e o detalhe das suas reconstituições do passado.
Belmiro Ferreira passou os últimos anos da sua vida na Santa Casa da Misericórdia do Barreiro, onde por vezes conversámos com ele, recordando a aventura das suas pinturas, mas também os seus tempos de trompetista na Banda ds Penicheiros, em que foi um exímio executante, dotado de impressionante "swing", fazendo por vezes dueto com Augusto Cabrita, que o acompanhava ao piano, em momentos que nenhum deles esqueceu, e muito menos quem os ouviu.
O Barreiro perdeu um dos seus vultos mais curiosos, mas fica-nos a sua obra artística, que constitui um contributo importante para a Memória da Cidade.»

Publicado por José Pacheco Pereira em 11:17 PM | Comentários (2)

abril 18, 2004

PRESOS POLÍTICOS

A revista Grande Reportagem (distribuída com o Diário de Notícias) publica uma reportagem, fotografias e depoimentos sobre um grupo de presos políticos sobreviventes da ditadura. O texto é de Rui Galiza e as fotos de João Carvalho Pina.

Publicado por José Pacheco Pereira em 05:24 PM | Comentários (0)

LIBERTAÇÃO DOS PRESOS POLÍTICOS EM 25 DE ABRIL DE 1974

Na sequência de uma série de artigos sobre o 25 de Abril de 1974, São José Almeida publica, no Público de 18/4/2004, um depoimento autobiográfico de Francisco Martins Rodrigues centrado na sua libertação da cadeia de Peniche a 27 de Abril.

Publicado por José Pacheco Pereira em 02:28 PM | Comentários (0)

abril 17, 2004

ENTREVISTA DE RAIMUNDO NARCISO SOBRE A ARA

Transcreve-se, com autorização de João Tunes do Bota Acima , uma entrevista aí publicada de Raimundo Narciso, militante clandestino do PCP e da ARA.

ENTREVISTA COM RAIMUNDO NARCISO

Bota Acima - Imagina que o Batista Bastos te perguntava onde estavas no 25 de Abril. O que lhe respondias?
Raimundo Narciso – Estava em Odivelas.

BA – Mas estavas na clandestinidade?
RN – Vivia clandestino, dando o menos possível nas vistas, num prédio com 24 inquilinos.

BA – Vivias sozinho?
RN – Com a Maria Machado e os nossos filhos, a Ilda Leonor com 4 anos e o José Alexandre com um mês.

BA – Com identidades falsas…
RN – Tudo falso. Nome, profissão, origens e todas as histórias que contávamos aos vizinhos, antecipando-nos à sua natural curiosidade e satisfazendo-a com a iniciativa do nosso lado.

BA- Muitos sustos?
RN – Fomos treinados a controlar a coabitação com o medo e os sustos. No descontrolo é que está o perigo.

BA – Pertencias ao Comando Central da ARA, a Acção Revolucionária Armada, não é assim?
RN – O Comando Central da ARA era constituído por Jaime Serra, um dos mais altos dirigentes do PCP (operário, então com 49 anos), Francisco Miguel, membro do Comité Central do PCP (operário, então com 62 anos) e eu próprio, estudante do IST, 32 anos.

BA – Nunca foste preso nos 10 anos que passaste na clandestinidade?
RN – Não. Procurava desencontrar-me da PIDE. E quem conhecia a minha casa e foi preso, como foi o caso de Rogério de Carvalho, meu “controleiro”, no início da criação da ARA, não me denunciou nem disse nada daquilo que a PIDE pretendia. Isso custou-lhe mais 9 anos de cadeia até ao 25 de Abril de 74, além da tortura.

BA – Quando é que a ARA esteve em actividade?
RN – De 1970 a 1972, intervalo em que desencadeou 16 acções armadas. Numa das quais, no quartel da Base Aérea 3, em Tancos, em 8 de Março de 1971, destruiu e danificou 28 aviões e helicópteros. Por razões políticas suspendeu a sua actividade em Maio de 1973. E extinguiu-se após a “evolução”, isto é, a revolução do 25 de Abril de 1974.

BA - A ARA foi aquilo que se possa classificar como uma "organização terrorista"?
RN – A PIDE, redenominada DGS por Marcelo Caetano, assim nos designava. Mas a ARA, como as BR ou a LUAR, não era uma organização terrorista.

BA – Como é o caso da Al Qhaeda.
RN – Como é a Al Qhaeda, o Hamas, o Hezebollah, o Governo de Sharon, o IRA, a ETA.

BA –Achas que a guerra do Iraque serve a luta contra o terrorismo?
RN – O resultado está à vista e mostra o contrário. As “boas razões” invocadas para a invasão ou eram falsas ou hipócritas. A Administração Bush aproveitou esse pretexto, aliás de forma canhestra, para outros negócios. Mas estes parece que estão a sair-lhes furados.

BA – E também se pode falar com propriedade em terrorismo de Estado?
RN – É o que Ariel Sharon faz, em contra-resposta, à resposta dos palestinianos. Uns tem tanques e helicópteros, outros têm pessoas desesperadas até a loucura com bombas à cinta. O terrorismo é um gravíssimo problema da actualidade. Mas convém não ignorar que as guerras, como se vê no Iraque, representam o terror generalizado e levado ao extremo.

BA – Voltando à ARA. Dizes que a ARA não era uma organização terrorista. Em que baseias esta opinião?
RN – A prova é que os alvos da ARA foram exclusivamente a logística e as estruturas da guerra colonial e do aparelho repressivo fascista. E as acções armadas eram criteriosamente planeadas para, tanto quanto possível, não atingirem pessoas. Por isso, não por acaso, em toda a actividade armada da ARA apenas morreu uma pessoa, acidentalmente.

BA – Como foste parar à direcção da ARA?
RN – Era militante do PCP. Fazia parte dos que defendiam a utilização de acções armadas no combate à ditadura, opiniões que acabaram por vencer. Convidaram-me para passar à clandestinidade para com Rogério de Carvalho, António Pedro Ferreira e outros, criar a organização que as realizasse. Dois anos antes tinha sido convidado para passar à clandestinidade. Recusara. Achei que não era convite que se fizesse a quem levava uma vida tão agradável. Mas agora não podia deixar de aceitar. Pois se eu próprio defendia que se criasse tal frente de luta!

BA - Que treino tiveste?
RN - Tinha-me treinado no Exército Português. Nas seis unidades do Exército que frequentei como oficial miliciano durante quase 4 anos. Uma licenciatura!

BA – Mas não tiveste treino em Moscovo?
RN – Em Moscovo, frequentei um curso político. Treino militar foi em Cuba. Durante alguns meses.

BA - Como viveste os "sucessos" e os "insucessos" da ARA?
RN - Os primeiros com os júbilos das vitórias. Os segundos com paciência e determinação. Foram anos a trabalhar e a PIDE a desfazer. É que a criação das estruturas e organização da ARA foi entremeada por vagas de prisões, interrupções e levou anos. Mas pensávamos que com tempo e determinação havíamos de levar a carta a Garcia. Ou seja, ajudar ao derrube da ditadura.

BA – Quais eram os critérios de recrutamento usados na ARA?
RN - Firmeza política, alicerces psicológicos fortes, coragem e ranger de dentes. Como era difícil encontrar tudo isto junto, além da loucura de arriscar a vida, recrutávamos o que se aproximasse mais disto. Às vezes, enganávamo-nos. Mas os que resistiram e ficaram eram, para o efeito, material humano do melhor.

BA – Havia tensões e conflitos entre a "ala política" e a "ala operacional" da ARA?
RN – Não. Porque não havia uma “ala política” e uma “ala militar”. A ARA era, do ponto de vista da organização, uma entidade autónoma mas do ponto de vista político era uma organização do PCP. Uma organização pequena, muito compartimentada, onde cada um conhecia um, dois ou três companheiros pelo pseudónimo e onde discrepâncias, diferenças de opinião ou de sensibilidade não ganharam a notoriedade de “tensões” ou “conflitos”.

BA - Como é que se fazia a ligação entre a direcção da ARA e a direcção do PCP?
RN - Um membro da Comissão Executiva do PCP, o mais elevado órgão de direcção no interior do país, vinha reunir espaçadamente com o Comando Central. Nos intervalos, se necessário, essa ligação era assegurada por Jaime Serra.

BA –A esta distância, pesa-te na consciência (pessoal e política) teres sido dirigente de uma organização que andou "a largar bombas"? Sabendo o que sabes hoje, voltarias a pertencer à ARA?
RN – Não, não me pesa na consciência. Pelo contrário. Quanto à segunda questão, diria que sabendo o que sabia no passado, faria tudo como dantes. Se acrescenta alguma coisa, digo ainda que me sinto bem com a minha consciência.

BA – O que andaste a fazer no PCP desde que a ARA foi extinta até abandonares este partido?
RN – Andei a lutar pelo comunismo, pelos interesses da classe operária, pela pureza do marxismo-leninismo, pela revolução universal, pelo Homem Novo, pelo bem do povo e coisas assim. No concreto, tratava das questões relacionadas com as Forças Armadas, com a Defesa Nacional, com Relações Internacionais e actividade política corrente.

BA – O que te levou a saíres do PCP e aderires ao PS?
RN – Foram decisões distintas e sem relação uma com a outra, separadas por vários anos. A saída do PCP teve a ver com o facto de que todas aquelas razões que me mantinham lá depois de atingido o grande objectivo do derrubamento da ditadura, se foram a pouco e pouco, a partir dos anos oitenta, revelando cada vez mais precárias e, por fim, equivocadas ou esgotadas. Depois das experiências do INES (Instituto Nacional de Estudos Sociais) que juntou, em 1989/90, muitas pessoas ilustres como o Nobel Saramago, Piteira Santos, Orlando de Carvalho, Vital Moreira, Gomes Canotilho, Barros Moura, José Luís Judas e muitos outros, e depois da experiência da Plataforma de Esquerda, nos anos seguintes, a adesão ao PS foi uma decisão natural. Era, na minha opinião, o partido que mais condições oferecia para o exercício de uma actividade política com interesse para o país.

BA –A tua experiência como deputado pelo PS, foi gratificante?
RN – Teve muitos aspectos gratificantes e deu para conhecer ao vivo e por dentro, a classe política portuguesa (antes só conhecia a do PCP). Mas acho a actividade parlamentar, pelo menos na forma em que ocorre, pouco estimulante. Talvez esta opinião decorra, em parte, de me ter iniciado nas actividades parlamentares 30 anos mais tarde do que é habitual suceder a um activista político.

BA - Como e por onde andas hoje em termos de "praxis" política?
RN – A minha actividade política está reduzida ao mínimo. Acompanho com interesse a vida política nacional e internacional. Vou a um ou outro evento político. Participo num dos Gabinetes de Estudo do PS. E é tudo.

BA - Queres dar um breve testemunho sobre um saudoso amigo comum - o António Graça - e a quem, afinal, se deve que esta entrevista tenha sido possível?
RN – O António Graça era um dos quatro ou cinco membros do Comité Central que em 1987 e 1988 desenvolveu, naquele órgão do PCP, uma assinalável actividade crítica à linha política da direcção de Cunhal. Demitiu-se em 1991. Foi desde muito novo um destemido lutador contra a ditadura fascista e militante do PCP. Desenvolveu nos anos cinquenta e sessenta, como quadro clandestino do PCP, importante actividade política que o levou à prisão durante seis anos a partir de 1964. Submetido a torturas pela PIDE para denunciar companheiros, resistiu a tudo. Por isso, no PCP, pertencia à galeria dos heróis, até ao momento em que contestou as orientações e as práticas da direcção do partido. Foi um dos iniciadores do INES e da Plataforma de Esquerda. Não aderiu ao PS nem foi para a Política XXI. Defendia que os ex-comunistas deviam, com outros, criar um partido próprio. António Graça, foi membro do CC do PCP de 1979 a 1988, participou nos trabalhos da Comissão de Extinção da PIDE/DGS em 1974 e 75. Nos anos seguintes, foi responsável pelos serviços de informação do PCP. Era um quadro político com grande experiência, argúcia e uma prodigiosa memória. Faleceu com 60 anos, em 1 de Julho 1999. Era muito respeitado e estimado pelos os seus companheiros políticos. Era meu amigo. Era teu amigo.

Publicado por José Pacheco Pereira em 11:57 PM | Comentários (1)

abril 12, 2004

MORTE DE FRANCISCO LYON DE CASTRO

Morreu Francisco Lyon de Castro, antigo tipografo, depois empresário da edição, militante comunista nos anos trinta, activista da oposição, criador de jornais, homem de uma enorme actividade em todas as áreas que tocava.

Era meu amigo há muitos anos, foi editor de um livro meu sobre as lutas sociais nos campos do sul de Portugal, e os seus depoimentos exaustivos sobre o PCP nos anos trinta, sobre os exilados portugueses em Espanha, sobre personalidades do partido que conhecera, sobre Manuel Domingues, sobre o combate do PCP à Ler, etc., etc., contribuíram para a elaboração dos volumes sobre Cunhal. Muitos materiais e notas das suas conversas permanecem inéditos, uma parte dos quais fará parte de um capítulo já escrito do III volume da biografia de Cunhal sobre o papel da Ler e de Piteira Santos.

A foto junta foi tirada em 2001 junto das instalações da Europa-América, obra de que tinha imenso orgulho.
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No jornal Público de 12/4/2004 encontra-se uma biografia feita por António Melo

Francisco Lyon de Castro
Por POR ANTÓNIO MELO


A morte do velho leão

Tinha 89 anos, mas só os médicos diziam que estava mal. Quem com ele falava, depois de uma sessão hospitalar e uma noite de repouso, duvidava do saber da medicina - aquele pequeno homem chamuscava dos olhos, deitava energia por todos os poros. Afinal, a ciência tinha razão. Mas até quase ao último dia, Francisco Lyon de Castro opinou, comentou, subiu perigosamente ao escadote para retirar da estante um livro, um documento único, que ele sabiamente arquivara e fundamentava o parecer político que acabara de expor. Desapareceu ontem um dos derradeiros expoentes da cultura operária do início do século XX. O velório tem lugar hoje na sede das Publicações Europa-América, em Mem Martins, o funeral realiza-se amanhã, seguindo para o cemitério de Rio de Mouro.

Nascida em berço proudhoniano, embalada no socialismo utópico nos braços de Antero de Quental, a classe operária portuguesa forjou-se, na passagem do século, no anarco-sindicalismo e foi nesse cadinho que o jovem Lyon de Castro, aos 14 anos, fez a sua entrada numa das "universidades" operárias: a Imprensa Nacional.

Se bem que nas suas origens se misturasse sangue da mais distinta nobreza britânica, desde cedo a vida deste benjamim de uma família de nove filhos se fez nas andanças da rua, mas sempre no espartilho de uma vigilante educação materna. Francisco Lyon de Castro nasceu no dia 24 de Outubro de 1914, ao Largo da Estrela, em Lisboa, e cresceu a jogar à bola no terreiro frente ao cemitério dos Prazeres. Uma das mais fortes imagens que lhe ficou dessa mocidade de bairro popular foi a dos mortos da intentona do 7 de Fevereiro (1927), a serem levados para aquela sepultura.

O pai, Adelino de Castro, viera de Óbidos para Lisboa à procura de melhor sustento para a numerosa família. A mãe, Rosalina Lyon de Castro, era filha de um escocês, Edouard Lyon, que arribara a Óbidos na administração dos trabalhos de construção da via férrea.

O aprendiz que aos 14 anos entrou para a Imprensa Nacional passou a jornalista e tipógrafo aos 18 - "jornalista operário", fazia questão de sublinhar. A cultura operária da Imprensa Nacional era de raiz anarco-sindicalista, mas, alto centro de discussão ideológica, já fazia furor nessa altura a corrente marxista-leninista. Em 1932, ao mesmo tempo que entra no "jornalismo operário", Lyon de Castro filia-se no Partido Comunista.

No jardim do Príncipe Real, onde se reunia com camaradas da Imprensa Nacional, mas onde apareciam também operários do Arsenal da Marinha e do Exército, principiou a estruturar uma célula de rua, para a qual recrutou, um ano mais tarde, Júlio Fogaça, figura central na "reorganização" do Partido Comunista, no início dos anos 40. Precisamente na altura em que Lyon de Castro rompia com a disciplina estalinista, incapaz de aceitar o pacto germano-soviético.

Em 1934, para escapar às perseguições que se seguiram ao levantamento sindical do 18 de Janeiro, exilou-se em Madrid, primeiro, e em Paris. A intenção era seguir para a União Soviética, mas a direcção do PCP opôs-se ao seu pedido e no final do ano de 1935 regressa ao país, em clandestinidade.

Foi enviado para Peniche e, a seguir, para a fortaleza de Angra do Heroísmo, condenado a uma pena de quatro anos de prisão. Foi em Angra que estalou a discussão, seca e curta, que o levou ao afastamento do PCP. Na origem do corte esteve a discordância, "inultrapassável" do pacto germano-soviético [Agosto 1939]. "Como é possível que a União Soviética, país da revolução, possa entender-se com um criminoso confesso, chamado Hitler? Se os camaradas acham que é natural uma aliança com o regime nazi, então passem bem. A partir daí ocupei-me em perceber as razões intrenas que levaram àquela aliança contra-natura e não mais tive recaídas. Fiquei vacinado em relação a estruturas partidárias", dizia.

Uma editora no fio da lâmina

Em 1940, quando regressou a Lisboa, foi-lhe recusada a readmissão na Imprensa Nacional. Acolheu-se então à asa paterna e durante cinco anos trabalhou na pequena empresa familiar.

Mas o cheiro que lhe ficara de tinta fresca impressa no papel nunca mais o deixou e aos 29 anos lançou as bases daquele que viria a ser, ainda hoje, um dos mais fortes empreendimentos editoriais portugueses - as Publicações Europa-América. O primeiro livro a sair do prelo foi "Centelha da Vida", de Erich Maria Remarque, que tinha por tema a vida clandestina e foi bem aceite pelo público. Pouco depois, do mesmo autor, saiu "A Oeste Nada de Novo", um dos primeiros êxitos editoriais da Europa-América, que durante os primeiros anos viveu no fio da lâmina, as vendas de um livro sustentando a publicação do seguinte. Antes do 25 de Abril editou autores "proibidos" como Soeiro Pereira Gomes, Alves Redol, García Márquez e Jorge Amado, de quem era amigo.

O seu orgulho pessoal, porém, foi a revista "Ler", projecto de jornal literário e de ideias que fundou, dirigiu e subvencionou de Abril de 1952 a Outubro de 1953. O modelo era o suplemento literário do "Times", referência de um jornalismo conservador mas isento de influências políticas e pressões económicas. O naipe de colaboradores fixos eram, ou tinham sido, próximos do PCP, mas eram, antes de mais, espíritos independentes: Piteira Santos, João José Cochofel, Cardoso Pires, Maria Lamas, Mário Dionísio. Havia outros, de outras essências filosóficas, mas todos conhecidos pela sua capacidade intelectual e crítica: António Quadros, Delfim Santos, José Régio, Orlando Ribeiro, Tomás Ribas.

A "Ler" passou a ser a referência da elite intelectual e criou em torno de si um cenáculo de reflexão política. Foi por isso combatida, desde logo, quer pelas instituições do regime, quer pelo PCP, que detestavam, cada um a seu modo, os espíritos independentes.

Publicado por José Pacheco Pereira em 10:40 AM | Comentários (2)

abril 03, 2004

DEPOIMENTO AUTOBIOGRÁFICO DE TERESA DIAS COELHO

Numa entrevista a São José Almeida, publicado no Público de 3 de Abril de 2004, Teresa Dias Coelho, militante comunista, relata a sua experiência quando das prisões em 1972 e 1974, em vésperas do 25 de Abril, pela PIDE.

Publicado por José Pacheco Pereira em 04:31 PM | Comentários (1)

março 28, 2004

BIOGRAFIAS - ANTÓNIO GOMES VITORINO

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Referências à biografia de António Gomes Vitorino, escritor neo-realista e opositor ao regime de Salazar, encontram-se no Almocreve das Petas. Pode-se igualmente consultar uma sua biografia como vieirense (de Vieira de Leiria) ilustre.

Publicado por José Pacheco Pereira em 05:55 PM | Comentários (0)

março 15, 2004

MORTE DE MARIA ÂNGELA VIDAL

Morreu Maria Ângela Vidal, militante comunista, "companheira" na clandestinidade, com uma longa e atribulada história de compromisso político, com as habituais consequências em termos de prisão. Uma notícia biográfica é publicada no Público de 15/3/2004.

Publicado por José Pacheco Pereira em 09:40 AM | Comentários (0)

março 06, 2004

DEPOIMENTO AUTOBIOGRÁFICO DE ALBERTINA DIOGO

Albertina Diogo /”Helena” / “Ana”, militante do PCP na clandestinidade, presta um interessante depoimento autobiográfico a São José Almeida, num artigo comemorativo dos 83 anos do PCP, no Público de 6 de Março de 2004. Em complemento desse depoimento, presta também um testemunho sobre os últimos anos de vida de seu marido Guilherme da Costa Carvalho, importante militante clandestino e membro do CC do PCP.
Publicado por José Pacheco Pereira em 11:59 AM | Comentários (1)

MORTE DE PAUL SWEEZY

02SWEEZ.jpg Morreu Paul Sweezy, activista politico, economista marxista, fundador da Monthly Review, e autor de vários livros. Necrologias detalhadas foram publicadas no Guardian e no New York Times.

A polémica Paul Sweezy – Charles Bettelheim sobre as sociedades socialistas, a China e a URSS, no Tempo e o Modo de 1971, foi muito influente na nova geração de jovens marxistas que estavam a fazer a sua formação política nos últimos anos da ditadura. Data dessa altura, a publicação de Paul Sweezy / Charles Bettelheim, Sociedades de Transição: Luta de Classes e Ideologia Proletária, Porto, Portucalense Editora, 1971. A Portucalense Editora, antiga editora do Porto , nessa altura passou por herança a um militante de extrema-esquerda. O livro foi posteriormente apreendido pela PIDE /DGS. A orientação da colecção era Francisco Sardo, um dos fundadores da LCI.

Depois do 25 de Abril de 1974, Sweezy escreveu um pequeno livro sobre Portugal, A Luta de Classes em Portugal, Lisboa, Arcádia, 1975.


Publicado por José Pacheco Pereira em 10:40 AM | Comentários (1)

fevereiro 19, 2004

MORTE DE ACÁCIO BARREIROS

Necrologia publicada pelo PÚblico. Em breve se fará nos Estudos uma nota biográfica sobre Acácio Barrreiros, que iniciou a sua actividade política nos grupos de extrema-esquerda antes do 25 de Abril. Serão bem vindos todos os elementos que ajudem a elaborar a sua biografia.
Publicado por José Pacheco Pereira em 08:00 AM | Comentários (3)

fevereiro 02, 2004

MORTE DE VASILI MITROKHIN

Morreu recentemente Vasili Mitrokhin, o arquivista do KGB que trouxe para os serviços de informação ocidentais, documentos copiados cobrindo trinta anos de operações clandestinas soviéticas. Uma necrologia encontra-se aqui.

Em Portugal o seu livro, O Arquivo Mitrokhin, feito em conjunto com Christopher Andrew, foi publicado no ano 2000. No livro fazem-se referência a algumas operações realizadas em Portugal e à actividade do KGB no nosso país.

Publicado por José Pacheco Pereira em 11:54 PM | Comentários (1)

FOTO DE PRISÃO - FORTALEZA DE ANGRA DO HEROÍSMO (1936)

MJPC Angra.jpg

Foto tirada na Fortaleza de S. João Batista em Angra do Heroísmo, Açores , provavelmente em 1936. O preso à direita é Manuel João da Palma Carlos, a quem pertencia o original da foto, que pode ter sido destruído no incêndio que o vitimou. Os outros dois presos não estão identificados.

Publicado por José Pacheco Pereira em 12:50 PM | Comentários (2)

fevereiro 01, 2004

Vanessa de Almeida - ANTÓNIO MARIA MARQUES E A HISTÓRIA OPERÁRIA DO BARREIRO

António Maria Marques – Biografia

Nasceu em 1915 no Barreiro. Em 1932, inicia a sua actividade política, integrando a 2ª célula da Juventude Comunista do Barreiro. De 1933 a 1935 viria a ser responsável pela Juventude Comunista do Seixal.
Em Janeiro de 1935 é preso no Barreiro, sendo posteriormente transferido para a esquadra do Calvário e depois para a sede da PVDE. Esteve durante 15 dias em regime de incomunicabilidade todavia, aquela polícia não conseguiu reunir elementos para constituir um processo.
Em termos profissionais, entrou com 12 anos para a CUF como aprendiz de torneiro mecânico. Viria a prefazer 41 anos ao serviço da Companhia, sendo agraciado com as medalhas de bons serviços e de mérito no trabalho.
António Maria Marques desenvolveu ainda uma intensa actividade associativa em diversas associações e colectividades barreirenses.
Para além dos artigos subordinados ao tema «Memórias Políticas no Barreiro», escreveu outros artigos versando os mais variados temas.
Foi agraciado pela CMB com o galardão Barreiro Reconhecido na àrea da Resistência Anti-Fascista no ano de 1997.
Actualmente continua a ser militante do PCP.

Artigos de António Maria Marques publicados no Jornal do Barreiro subordinados ao tema geral Memórias Políticas no Barreiro.

• «Que nunca sejam esquecidos os que lutaram», Jornal do Barreiro, 25/04/1997

• «Constituição do Primeiro Comité local do PCP», Jornal do Barreiro, 16/05/1997.

• «O movimento de 18 de Janeiro de 1934. Greve Geral Revolucionária contra o Estatuto do Trabalho Nacional», Jornal do Barreiro, 06/06/1997.

• «Revolta da Marinha Portuguesa – participação de militantes do Barreiro», Jornal do Barreiro, 20/06/1997.

• «José Simões (Mina) na reunião do Comité Central – um impedimento de Acácio Costa», Jornal do Barreiro, 18/07/1997.

• «O Partido Comunista no Barreiro, face à Igreja», Jornal do Barreiro, 08/08/1997.

• «Riscos da Luta», Jornal do Barreiro, 15/08/1997

• «A prisão de José Francisco na CP», Jornal do Barreiro, 05/09/1997.

• «Mulheres organizadas e que se salientaram na luta de classes no Barreiro», Jornal do Barreiro, 26/09/1997.

• «O envolvimento de Flávio Alves, na fuga de dois militantes do Comité Local de Lisboa, que se encontravam presos, no Governo Civil de Lisboa», Jornal do Barreiro, 17/10/1997.

• «Riscos da Luta», Jornal do Barreiro, 31/10/1997.

• «O Partido, face às colectividades do concelho do Barreiro», Jornal do Barreiro, 21/11/1997.

• «Uma noite de forte agitação e propaganda», Jornal do Barreiro, 09/01/1998.

• «Imprensa», Jornal do Barreiro, 16/01/1998.

• «Uma cisão no Partido Comunista Português em 1941 envolvendo um militante do Barreiro», Jornal do Barreiro, 23/01/1998.

• «Uma célula da Juventude em actividade e o imprevisto», Jornal do Barreiro, 06/02/1998.

• «A Greve CUF em 1943», Jornal do Barreiro, 13/02/1998.

• «Quem foi Francisco Ferreira? Chico da CUF», Jornal do Barreiro, 27/02/1998.

• «A Língua Internacional “Esperanto”, e a sua História, no Barreiro», Jornal do Barreiro, 20/03/1998.

• «Retrospectiva», Jornal do Barreiro, 27/03/1998.

• «Maria da Conceição Vassálo e Silva da Cunha Lamas “Maria Lamas”. Uma mulher portuguesa para não esquecer», Jornal do Barreiro, 10/04/1998.

• «Quem foi Eduardo Fernandes?», Jornal do Barreiro, 24/04/1998.


Notas

Publicados curiosamente ou não, no período balizado entre 25 de Abril de 1997 e 24 de Abril de 1998, o autor explica, logo no primeiro artigo, quais as razões que motivaram a elaboração dos mesmos:

«Historiar a vida do Partido Comunista Português, no Barreiro, não é, na verdade, uma tarefa fácil. Duas razões principais dificultaram esta tarefa. A primeira razão reside no facto de, na época distante, da implantação do PCP, existirem muitas preocupações em efectuar registos escritos. Vivia-se sob clandestinidade e forte repressão, corriam-se perigos iminentes, existia o perigo de colocar muitas pessoas sob a alçada da bufaria e da polícia política especializada em vigiar estes acontecimentos.
(...)
A segunda razão é que nada justifica as comissões concelhias do PCP, no Barreiro, que após o 25 de Abril de 1974 tenham votado ao esquecimento tal trabalho, porquanto, naquela época, o Barreiro ainda estava recheado de militantes de épocas distantes que viveram os melhores momentos da vida deste partido e, com o contributo de centenas deles, teria sido possível recolher bastante material para este efeito. (...)
»

Esta última afirmação do autor causou, na época, alguma polémica, com o engº Armando Sousa Teixeira, actualmente autor de 3 volumes, sob o tema Barreiro – Uma História de Trabalho, Resistência e Luta, Lisboa, Ed. Avante, 1997-2001, romances baseados em relatos escritos e orais dos diversos participantes dos acontecimentos narrados.
Polémicas à parte, a série de artigos de António Maria Marques são fundamentais para estudar a história do PCP no Barreiro no que concerne às décadas de 30 e 40 do século passado. Pelo relato dos acontecimentos, pelos nomes de militantes vários, acompanhados, sempre que possível, com fotografias dos mesmos.
De igual modo que os volumes do Engº Armando S. Teixeira, talvez até por serem romanceados e, dotados de uma grande oralidade, nos permitem conhecer a ambiência de época que nos parece a nós remota e, afinal, não passou assim tanto tempo...
Todavia, não podemos deixar de concordar com as dificuldades apontadas por António Maria Marques. O Barreiro industrial, o Barreiro dos Ferroviários, dos Corticeiros, dos operários da CUF, das colectividades, da “Oposição hasteada como bandeira” hoje, já não existe. Testemunhos que se perderam, vivências, saberes que dificilmente temos acesso.
Saber que os anarquistas se passeavam com lenços pretos ao pescoço e os comunistas com lenços vermelhos. Tudo isto conta, tudo isto interessa. Todas as recordações, vozes, memórias. O Barreiro Industrial hoje, já não existe. Existe contudo a certeza da importância que a então vila barreirense teve para a história da Resistência, para a história do Movimento Operário de Portugal.


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janeiro 03, 2004

NOTAS BIOGRÁFICAS – Joaquim Victor Batista Gomes de Sá

(Barcelos, 1921 – 31/12/2003)

Iniciou a sua aprendizagem escolar no Seminário da Régua, de onde saiu para o Liceu em Braga, onde esteve entre 1934 e 1941. Aí já se destacou como promotor de actividades culturais. A partir de 1937, escreve na imprensa local, sendo colaborador regular, desde a década de cinquenta, da Seara Nova e da Vértice. Como muitos da sua geração é a Guerra Civil de Espanha que o desperta para a consciência política.

Terminado o liceu emprega-se numa livraria e torna-se activista sindical, o que parece ter sido uma experiência “frustrante”. Em 1942, cria a Biblioteca Móvel, favorecendo o empréstimo domiciliário de livros, iniciativa perseguida pelo regime e finalmente extinta. Em 1943-4, liga-se ao MUNAF, e em 1945 ao MUD, através dos estudantes comunistas da sua região que nele participavam, em particular, Zenha e Armando Bacelar. Terá sido então recrutado para o PCP.

Em 1947, com base na sua experiência livreira, funda a Livraria Victor em Braga, que constituirá um suporte para a sua sobrevivência económica e um centro de actividade oposicionista local. Foi-lhe interdita a possibilidade de criar uma editora. Preso pela primeira vez em 3 de Junho de 1947, teve posteriormente repetidas prisões, em 1949, em 20 de Fevereiro de 1950, 12 de Dezembro de 1955, 2 de Junho de 1958, 29 de Junho de 1960, e 29 de Abril de 1962. Com excepção das prisões de 1950 e 1962, em que nesta última, foi acusado de pertencer às Juntas Patrióticas e absolvido, nunca foi julgado. Em 1958 apoia Arlindo Vicente e depois Humberto Delgado.

Inicia os estudos universitários no Curso de Ciências Histórico-filosóficas da Faculdade do Letras de Coimbra (1952). Quando terminou a licenciatura, atribulada pelas perseguições políticas de que era alvo, foi nomeado professor da Escola Comercial de Braga e imediatamente proibido de tomar posse. A oposição bracarense, sob inspiração do PCP, realizou-lhe um grande jantar de homenagem, em 15 de Novembro de 1959, em que participaram centenas de pessoas. Falaram Armando Bacelar, Lino Lima , Vasco da Gama Fernandes, Maria Isabel Aboim Inglês e Júlio Calisto, e foi recebida uma mensagem “dos operários de Braga”, uma forma conhecida de saudação em nome do PCP. Como era habitual nas precárias condições de legalidade, o jantar foi o pretexto para uma reunião da oposição, e se avançar na organização de um movimento contra a repressão, por proposta de Maria Isabel Aboim Inglês. Foram igualmente aprovadas moções sobre o processo contra Aquilino Ribeiro, e de apoio a Humberto Delgado. As eleições de deputados de 1961 já estavam na agenda oposicionista, tendo Victor Sá sido candidato.

A PIDE tentou, em 28 de Janeiro de 1960, encerrar a sua única fonte de sustento, a livraria de Braga, o que suscitou um movimento de protesto generalizado , mesmo nos meios mais conservadores da cidade. Três dias depois, a livraria abre de novo Nestas condições, sem possibilidade de trabalhar em Portugal, aceita uma bolsa da Gulbenkian que lhe permitiu- ir para Paris onde prepara o seu doutoramento na Sorbonne com uma tese sobre “A Crise do Liberalismo e as Primeiras Manifestações das Ideias Socialistas em Portugal (1820-1852)” pioneira do estudo da génese do socialismo em Portugal , posteriormente editada em 1969.

Impedido de regressar a Portugal, encontra-se com a família nas praias da Galiza, até que por pressão das autoridades portuguesas foi impedido de para lá se deslocar. Em 1965, decide defrontar o cacique salazarista de Braga, António Santos da Cunha, uma influente personalidade do regime, e que o acusara de “ligações com o estrangeiro”, pedindo a Armando Bacelar que o leve a tribunal por difamação. Decide então forçar o seu regresso a Portugal, mas logo que aterra em Lisboa é preso no aeroporto. Pressões de Armando Bacelar sobre Marcelo Caetano garantem-lhe a libertação. Dedica-se então à sua livraria, visto que o doutoramento não foi reconhecido. Reiniciou a sua actividade política tentando concorrer pela CDE de Braga em 1969, o que foi impedido, embora em 1973 tenha feito parte das listas. Participa no Congresso Republicano de Aveiro.

Depois do 25 de Abril, embora a sua condição de comunista fosse conhecida, apresentava-se como pertencendo ao MDP-CDE e, nessa condição, assumirá vários cargos como o de director do nacionalizado Correio do Minho. No entanto, em Braga, onde o conflito político era aberto e violento, Victor Sá foi ameaçado pelas acções terroristas anticomunistas. Veio mais tarde a ser deputado pelo APU (1979-80) e manteve sempre o activismo político local.

Prosseguiu a sua carreira académica, agora com o doutoramento reconhecido, na Faculdade de Letras do Porto, continuando a publicar livros e artigos na área da história social e operária. Os seus papéis e arquivo foram doados à Biblioteca Pública de Braga e à Universidade do Minho em 1992. Recebeu a Ordem da Liberdade.

Fontes: nota biográfica de Henrique Barreto Nunes;

José Ricardo, Romanceiro do Povo Miúdo . Memórias e Confissões, Lisboa , Edições Avante! , 1991

Joaquim Victor Baptista Gomes de Sá,Cópia da Reclamação / Senhor Ministro da Educação Nacional. Excelência:,Braga,,20 Outubro 1959 (TBH, 3ºJ, Pr. 16827/62, Cx. 703, vol. 4)

Informações Políticas / - A 15/11 realizou-se um almoço de homenagem ao Dr. Victor de Sá pelo seu recente doutoramento e de protesto por ter sido desnomeado de professor da escola técnica de Braga...(Doc dactil apreendido a Fernanda de Paiva Tomás), Novembro 1959 (TBH, 3º J, Pr. 16577/61, Cx 646-649, Vol. 5)

Informações Políticas / Almoço de homenagem ao Dr. Victor de Sá ...Reuniões de democratas...(Doc dactil apreendido a Fernanda de Paiva Tomás), 20 Novembro 1959 (TBH, 3º J, Pr. 16577/61, Cx 646-649, Vol. 5)

Carta de Victor Sá a Armando Bacelar, Paris, 6 de Novembro de 1965, (Proc. 99 CI)

Algumas obras e artigos de Victor Sá:

Antero de Quental, 1942 (reeditado em 1978)

As Bibliotecas, o Públco e a Cultura, 1956

O Que É a "UNESCO",Braga, Edição do Autor,1955

História e actualidade,Braga,,1961,

Cultura e Democracia,Braga,Edição do Autor,1961,

Patrício - Da Monarquia à República,s.l.,,s.d.,

Perspectivas do Século XIX, Lisboa, Portugália Editora,1964,

A Crise do Liberalismo e as Primeiras Manifestações das Ideias Socialistas em Portugal (1820-1852), Lisboa, Seara Nova, 1969,

Regressar para quê ?, 1970

"Do Associativismo ao Sindicalismo em Portugal",O Instituto, V.CXXXVIII, 1977

Formação do Movimento Operário Português, Coimbra,,1978

Manuel Monteiro ou a República Inviável, Braga, Universidade do Minho, 1980,

"Congressos Operários Galaico-Portugueses no Dealbar do Século",Revista Técnica do Trabalho, 7-8, Jan.-Junho 1981

Fascismo no Quotidiano, Lisboa, Vega, 1989,

"A Comuna de Paris / A formação do movimento operário e Portugal", O Militante, 194,Setembro-Outubro de 1991

Roteiro da Imprensa Operária e Sindical 1836-1986, Lisboa, Caminho, 1991,

"Um anarquista famalicense em 1896: Manuel da Silva Mendes (S. Miguel da Antas 1867)", Boletim Cultural da Câmara de Famalicão, 13, 1994-95

O Liberalismo português (1820 - 1852). Recolha Bibliográfica, Braga, Forum, 1994

Testemunho de um tempo de mudança, Braga, Conselho Cultural da Universidade do Minho, 1999

Legenda para uma memória, Braga, Biblioteca Pública de Braga, 2001,


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MORTE DE VITOR SÁ

Faleceu Vitor Sá , um dos mais activos militantes da oposição contra a ditadura de Braga, e membro do PCP desde a década de quarenta. Uma necrologia foi publicada no Jornal de Notícias, outra no Público. Em breve será aqui colocada uma pequena biografia.

Publicado por José Pacheco Pereira em 01:46 AM | Comentários (0)

NOTAS BIOGRÁFICAS - Américo Ferreira


(Lisboa, 1916 - 3-12-2003)

Millitante do PCP "de longa data", esteve preso pela PIDE (no processo SPS 1238 , das Juventudes Comunistas?) . Na clandestinidade distribuia o Avante! e recolhia fundos na Freguesia do Socorro.

Fonte: Avante! , 11-12-2003

Publicado por José Pacheco Pereira em 12:51 AM | Comentários (0)

NOTAS BIOGRÁFICAS - Manuel Calvário


(1912 – Cova da Piedade , Julho 1995)

Operário corticeiro, membro do PCP desde os anos cinquenta. Preso várias vezes em processos associados a João Raimundo, dirigente comunista muito activo na Margem Sul. Foi músico da banda da SFUAP desde 1937. À data da morte pertencia à organização da freguesia da Cova da Piedade.

Fontes: Avante!, 6-7-1995

Processo SC PC791/69 (Arquivo PIDE - ANTT)

Publicado por José Pacheco Pereira em 12:45 AM | Comentários (0)

dezembro 24, 2003

NOTAS BIOGRÁFICAS - Alberto Couto

(1925 – Braga, 10-1-2003)

Operário electricista, foi um activista do Movimento de Oposição Democrática de Braga antes do 25 de Abril. Aderiu ao PCP logo a seguir à revolução, membro da primeira Comissão Concelhia do partido, responsável pela implantação na legalidade. Dirigente do Sindicato das Indústrias Eléctricas.

Fonte: Avante!, 16-1-2003

Publicado por José Pacheco Pereira em 01:10 PM | Comentários (0)

dezembro 10, 2003

NOTAS BIOGRÁFICAS – António Seiça


(Gândara dos Olivais – Marrazes (Leiria) 1915 – 28/10/2003)

Operário químico, simpatizante do PCP desde os anos quarenta, tendo-se filiado em 1975. Pertencia à organização da freguesia de Marrazes.

Fonte: Avante!, 20-11- 2003

Publicado por José Pacheco Pereira em 11:11 PM | Comentários (0)

NOTAS BIOGRÁFICAS – Alberto Monteiro Rodrigues (“Ruivinho”)

(Portimão, 1931 – 2003)

Fogueiro na indústria de conservas e na hotelaria e depois taxista, esteve ligado ao PCP desde a clandestinidade. Fundador da Cooperativa de Táxis de Portimão e membro dos corpos directivos do Sindicato dos Rodoviários do Distrito de Faro.

Fonte: Avante!, 4-12-2003


Publicado por José Pacheco Pereira em 11:04 PM | Comentários (0)

dezembro 07, 2003

A PROPÓSITO DE MARIA LAMAS

lamas chu.jpg O Público, de 6 de Dezembro de 2003, publica uma entrevista de São José Almeida com a filha de Maria Lamas, Maria Cândida Caeiro. Nessa entrevista são referidas as múltiplas actividades oposicionistas de Maria Lamas e a sua decisão de entrar para o PCP depois do 25 de Abril. Na entrevista é assim relatado o momento da adesão:

"P. - A sua mãe era comunista, mas só depois do 25 de Abril entre no PCP.

R. - Em 1974. Ela diz assim, tal e qual vou contar-lhe como é que foi: "Oh filha, eu para ser coerente devia ir para o partido, devia-me filiar no partido." "Filia-te", foi o que eu lhe disse. "Ah e então a tua irmã?" Eu disse: "O problema é teu.""Mas o que é que tu me aconselhas?", ela gostava muito de me colocar estas casquinhas de banana a mim e eu disse: "Olha mãe desculpa, eu aí não de dou palpite, tu fazes o que entenderes e aquilo que quiseres dizes-me se quiseres que te faça alguma coisa, mas decides tu sozinha." "Pois, mas eu tenho medo que a Mimi se zangue, que a Mimi fique aborrecida." Passados uns dias disse-me: "Olha, já decidi, eu quero ir para o Partido Comunista". "E eu disse: "Está bem, pronto." "Mas podias ser tu a inscrever-me." Falei com o Carlos Aboim Inglez, ali na António Serpa, e com a Maria Alda [Nogueira] e disse: "Oh Maria Alda gostava de ir aí falar contigo por causa disto, assim assim, um problema da minha mãe, podes imaginar o que é." "Sim, sim, imagino, vem depressa.", respondeu. E inscrevi-a, foi assim. "

Nos escritos habituais sobre Maria Lamas, incluindo esta entrevista e a biografia de Maria Antónia Fiadeiro, é sempre omitido o facto desta, mais do que uma oposicionista, ter sempre seguido estritamente a linha do PCP , mesmo quando essa linha era a da divisão da oposição e do sectarismo mais rigído. Como responsável pelo Movimento da Paz, um instrumento da política soviética na guerra fria, criado por Staline e Jdanov, Maria Lamas manteve-se sempre de uma ortodoxia total, em particular durante os anos cinquenta. As relações de Maria Lamas com o PCP antes do 25 de Abril permanecem por estudar, o que significa que muito do tratamento da sua figura é de carácter hagiográfico.

Na foto, Maria Lamas com Chu En Lai.


Publicado por José Pacheco Pereira em 12:19 AM | Comentários (0)

novembro 22, 2003

AUTOBIOGRAFIA DE ALEXANDRE CASTANHEIRA

Alexandre Castanheira.jpg


Alexandre Castanheira, militante do MUDJ e depois do PCP , funcionário do partido, representante do PCP em França, e membro do CC desde meados dos anos cinquenta até ao fim da década de sessenta, altura em que se afastou da militância partidária activa, publicou uma autobiografia com o título Outrar-se ou a Longa Invenção de Mim, Porto, Companhia das Letras, 2003. O título foi acrescentado à bibliografia e em breve publicar-se-á uma recensão do livro.

Publicado por José Pacheco Pereira em 10:46 PM | Comentários (2)

novembro 15, 2003

NOTAS BIOGRÁFICAS - Amândio de Sena Cunhal de Melo (Actualizada)

(Seia, 8-12-1931 – 13-10-2003)

Amandio Melo e Cunhal.jpg
Técnico de contas reformado, iniciou a sua carreira profissional na Conservatória do Registo Civil até que em Setembro de 1948, ingressou na Empresa Hidroeléctrica da Serra da Estrela (EDP) até à reforma. Militante comunista, desde a juventude teve papel activo na campanha de Humberto Delgado. Foi preso em 1961.
Na prática, foi o fundador do PCP em Seia antes do 25 de Abril, onde, segundo testemunho de João Tilly,

nunca temeu as obscuras pressões e o doloroso estigma de se ser conotado como "comunista" numa pequena vila do interior, no tempo da PIDE, muito antes do 25 de Abril; um homem que aliava a intransigência nos seus ideais a uma incrível sensíbilidade e uma sólida sensatez

Depois do 25 de Abril, foi membro da CC de Seia, da CD da Guarda e da DORG do PCP tendo sido candidato várias vezes a cargos autárquicos e eleito para a Assembleia Municipal (1982-1989).

Foto: Amândio Melo e Álvaro Cunhal, que eram parentes, encontram-se

Fontes: Avante! , 30-10-2003

João Tilly, “Morreu Amândio Melo”, Porta da Estrela, 20-10-2003


Publicado por José Pacheco Pereira em 04:40 PM | Comentários (1)

NOVAS FOTOGRAFIAS DE JUVENTUDE DE ÁLVARO CUNHAL

Copy of Cunhal - praia.jpg
Cunhal na praia de S. Pedro de Muel (3º à esquerda)

Cunhal - liceu.jpg
Cunhal junto de estudantes e professores (do Liceu?)

cunhal uni.jpg
Cunhal com os seus colegas de Universidade.

É interessante observar que Cunhal ocupa, em duas destas fotografias de grupo, o lugar central.

(Fotos expostas no âmbito das VI Jornadas Históricas de Seia, subordinadas ao tema "O tempo de Álvaro Cunhal".)

Publicado por José Pacheco Pereira em 01:02 PM | Comentários (0)

ÚLTIMO ARTIGO DE COSTA FEIJÃO

O Militante publica na sua edição de Novembro-Dezembro, o último artigo enviado por Costa Feijão, um dia antes de falecer. Foi acrescentado à bibliografia.

J.M. Costa Feijão, "Bento Gonçalves e as derivas sindicais" . O Militante, 267, Novembro-Dezembro 2003

Publicado por José Pacheco Pereira em 12:45 PM | Comentários (0)

novembro 14, 2003

FOTOS INÉDITAS DE ÁLVARO CUNHAL

cunhal seia tropa.jpg
Cunhal na tropa(1939?)

Cunhal foto -seia.jpg
Fotografia (1940?)

Cunhal no exílio.jpg
Cunhal no exílio (Moscovo?) - anos 60

(Fotos expostas no âmbito das VI Jornadas Históricas de Seia, subordinadas ao tema "O tempo de Álvaro Cunhal".)

Publicado por José Pacheco Pereira em 11:32 PM | Comentários (4)

novembro 13, 2003

HOMENAGEM A JÚLIO GRAÇA EM VILA FRANCA DE XIRA

Júlio Graça, escritor neo-realista, foi homenageado pela câmara de Vila Franca de Xira e pela Junta de Freguesia de Alhandra, a propósito dos seus 50 anos de actividade literária, simultaneamente com o lançamento da sua obra mais recente Crónica de Libertação da Etiópia. Júlio Graça é natural de Vila Franca de Xira, onde nasceu em 1923, e autor de vários romances, alguns dos quais retratando a experiência fabril e os movimentos sociais da faixa industrial e rural ribeirinha do Tejo.

Buza (romance), 1954
Um palmo de Terra (romance), 1959
Operários Falam , 1973
Histórias de Prisão, 1975

Sobre a sua obra veja-se Maria do Sameiro Pedro , Um Escritor Em Alhandra - Apontamentos Sobre a Obra de Júlio Graça

Publicado por José Pacheco Pereira em 10:23 AM | Comentários (0)

MOVIMENTO COMUNISTA INTERNACIONAL - Morte de Noreen Branson

No Guardian de 19 de Novembro de 2003, foi publicada uma necrologia biográfica de Noreen Branson. Branson foi uma activista do PC da Grã Bretanha (PCGB), correio do Comintern e historiadora da esquerda e do movimento comunista. É autora de uma história do PCGB, que continua a obra de James Klugmann:

Noreen Branson, History of the Communist Party of Great Britain, 1- 1927-1941 ; 2- 1941-1951, Lawrence and Wishart, 1985 e 1988.


Publicado por José Pacheco Pereira em 09:55 AM | Comentários (0)

novembro 12, 2003

NOTAS BIOGRÁFICAS - Maria Domingues (Maria Botas)

(1926 – Barreiro, 22 -10- 2003)

Militante do PCP na clandestinidade, tendo sido presa pelas suas actividades políticas. Estava organizada Comissão de Freguesia de Coina/Barreiro do PCP.

Fonte: Avante!, 6-11-2003

Publicado por José Pacheco Pereira em 07:18 PM | Comentários (0)

NOTAS BIOGRÁFICAS - José Cabecinha

(Montemor-o-Novo, 1911 – Novembro 2003)

Trabalhador rural, militante do PCP desde 1943. Preso em 1947 e em 1949, permaneceu activo na organização local de Montemor-o-Novo. Segundo o Avante! , “ao fazer 90 anos, ofereceu ao Partido 3.950 contos das suas parcas economias”.

Fonte: Avante! , 6-11-2003

Ficha Prisional


Publicado por José Pacheco Pereira em 06:41 PM | Comentários (0)

novembro 06, 2003

NOTAS BIOGRÁFICAS - Zilda de Lurdes Alves Oliveira

(1915 – 2003)

Militante comunista desde a clandestinidade onde “chegou a desempenhar várias tarefas”. Estava organizada na freguesia do Feijó.

Fonte: Avante! , 30-10-2003


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outubro 31, 2003

João Tunes - JACQUES, O FRANCÊS

Terminei recentemente a leitura dos três livros editados pela le cherche midi (colletion Documents), relacionados com a vida de Jacques Rossi. Os livros chamam-se Le Manuel du Goulag (1997), Qu'elle était belle cette utopie (2000) e Jacques le Français (2002) e tiveram efeitos de choque que permaneceram desde a primeira à última linha.

Jacques Rossi é uma personagem real e peculiar. Franco-polaco, filho de pais franceses, nascido em França em 1909, foi levado de tenra idade para a Polónia onde viveu com a mãe e um padrasto polaco que o perfilhou e foi educado numa casa senhorial pois o padrasto era um aristocrata latifundiário. Estudante universitário, aos 17 anos aderiu ao Partido Comunista Polaco, então na clandestinidade, acabando por ser preso pela polícia do ditador Pilsudski.

Jacques consegue fugir para a Checoslováquia e inicia uma carreira de militante comunista internacionalista. É recrutado para trabalhar nos serviços de informação do Komintern e inicia uma carreira que iria durar 10 anos de agente secreto com a tarefa de servir de correio de mensagens secretas em todo o mundo, sempre sob falsas identidades. Enquanto agente secreto, Jacques obtém vários diplomas universitários com identidades que lhe são alheias (em belas artes e civilizações orientais), torna-se poliglota (domina francês, inglês, alemão, polaco, russo, espanhol, italiano, persa e outras línguas orientais) e desempenha múltiplos papéis de disfarce. Em dado momento, apercebe-se que foi transferido (sem disso ter sido formalmente informado) dos serviços de informação do Komintern para o GRU (serviços secretos do Exército Vermelho) mas isso em nada o afecta pois a causa era a mesma.

Em 1937, em plena guerra civil espanhola, é enviado para a zona franquista (Valladolid) onde, sob o disfarce de diplomata nicaraguense, obtém informações sobre as actividades franquistas que a sua camarada Julita (de quem desconhece a identidade mas supõe tratar-se de uma austríaca devido ao sotaque com que fala o alemão) e sua esposa segundo o disfarce, transmite por rádio para os serviços secretos soviéticos instalados no lado republicano.

Num certo dia do final de 1937, chega uma mensagem rádio da Central ordenando a apresentação imediata de Jacques em Moscovo para desempenho de nova tarefa. ¿Julita¿ tenta dissuadir Jacques de viajar para Moscovo (em 1936 havia começado a Grande Purga) mas este, disciplinado militante revolucionário, cumpre a ordem e segue de imediato para a Capital do Comunismo.

Chegado a Moscovo, pleno das energias próprias dos 28 anos de idade, Jacques apresenta-se no seu serviço disposto a cumprir nova missão e novas odisseias clandestinas. Estranha o tratamento frio dos camaradas que o atendem e mais ainda o facto de lhe dizerem que o seu chefe (um comunista polaco chamado Kraietski) já não estava ao serviço (saberia mais tarde que havia sido preso e fuzilado).

Decorrem os dias e as semanas, vão-lhe indicando vários sítios para habitar e continua sem resposta quanto ao seu destino. Um dia, é finalmente recebido pelo substituto de Kraietski que acusa o seu antecessor de ser um traidor e um espião e indica a Jacques que deve acompanhar um tal camarada Ivan que o levará para o local de treino da sua nova missão. A viagem de automóvel com o camarada Ivan termina dentro da prisão de Loubianka de onde transitará para a prisão de Boutirka. Jacques espera calmamente saber de que é acusado para, como julga inevitável, desfazer o mal entendido. Para ele, o pior é então ter de partilhar as celas a abarrotar com tantos inimigos do povo.

Ao fim de nove meses de prisão, Jacques é finalmente levado à presença de um comissário-interrogador (esta figura estava integrada na estrutura policial e não de qualquer elo do aparelho judiciário). O comissário começa por propor a Jacques que indique qual o crime que cometeu. Este diz que não cometeu qualquer crime. O comissário indica-lhe que ele é acusado de ser um espião franco-polaco e tudo tem a ganhar em confessar as suas actividades de espionagem. Jacques reitera a sua inocência e segue-se um calvário de várias semanas em que apelos à confissão são entremeados com sessões de tortura de estátua e de sono (algumas durando uma semana) e de espancamentos.

Em 7 de Abril de 1939 (dezasseis meses após o início da sua prisão preventiva), Jacques é informado que tinha sido condenado pela OSSO (órgão não judiciário e pertencente à Segurança do Estado) - sem que estivesse presente durante a sessão de julgamento - a oito anos de trabalhos forçados no Gulag.

Jacques inicia a via sacra do internamento para trabalho de reeducação em vários campos de concentração na Sibéria e acima do Círculo Polar Ártico onde vai executando diversos trabalhos penosos sob miseráveis condições de alojamento e de alimentação e em condições climatéricas terríveis.

No final de 1945, chegou ao fim a pena que lhe havia sido aplicada pela OSSO. É-lhe então aplicada a circular nº 224 que permite o prolongamento de encarceramento até disposição especial.

Em 1947, é solto do campo de Norilsk mas obrigado a viver nesta cidade e apresentar-se regularmente nas instalações policiais. Jacques contacta várias Embaixadas a fim de obter visto que lhe permita sair da União Soviética. As suas cartas para as Embaixadas são interceptadas pela polícia, é preso de novo e condenado a mais vinte e cinco anos de trabalhos no Gulag.

Feitas as contas, Jacques deveria ser libertado apenas em 1972. Ou seja, preso aos 28 anos, Jacques voltaria à liberdade apenas quando contasse com 63 anos de idade!

Mas, em 1956 e na sequência do XX Congresso do PCUS, com 48 anos de idade, Jacques é libertado e é-lhe passado um certificado onde consta a sua reabilitação e isento de ter cometido qualquer crime ou falta para com a União Soviética. Para trás, ficavam 20 anos de reclusão por uma falsa acusação. E pela frente? A liberdade? Mais devagar, apesar do XX Congresso¿ Onde viver? No estrangeiro, nem pensar. Negativo. Nas principais cidades soviéticas, isso é que era bom. Negativo. Acabou por lhe ser fixada residência em Samarkand no extremo oriental da União Soviética!

Jacques não desiste de ir para o estrangeiro. Goradas todas as tentativas para lhe ser autorizado o regresso à sua Pátria (França), Jacques explora a hipótese de obter visto para voltar à Polónia de que fugira das prisões de Pilsudski com 18 anos de idade, agora uma democracia popular sob controlo soviético.

Em 1961, com 52 anos de idade, Jacques consegue sair da União Soviética e ir para a Polónia (onde foi reintegrado no Partido Comunista e nomeado membro do seu Comité Central) . Aí vive até 1985, ano em que se fixa em França e readquire a nacionalidade francesa. Até 2002, ano em que perfez a idade de 93 anos e a saúde lhe permitiu, Jacques dedicou-se a escrever as suas memórias e vários depoimentos e relatos, além de correr o mundo a dar conferências a relatar a sua experiência gulagiana.

Nas suas memórias e crónicas, Jacques faz relatos vivos e impressivos sobre a tragédia que representou a monstruosidade do Gulag e que destruiu a vida de milhões de seres humanos. E, no Gulag, pereceram (uns fisicamente, outros ficaram para sempre afectados pelo sofrimento psíquico devido a longos e duros anos de cativeiro) homens e mulheres pela simples razão de pertencerem à classe errada (a classe social que o sistema bolchevique queria destruir), a nacionalidades e etnias suspeitas de infidelidade ao sistema soviética. Ou, então, serem fiéis militantes comunistas apanhados na contabilidade das quotas dos inimigos internos a abater (na sua maior parte, bolcheviques da primeira hora e companheiros de Lenine), bem como os que tinham a má sina de serem casadas com ¿inimigos do povo¿ ou seus filhos, aqueles que tinham dificuldades na integração na disciplina e estrutura de funcionamento totalitário do sistema até aos muitos milhares de vítimas naives que eram encarceradas por razões pueris ou derivadas da estupidez burocrática de polícias todos poderosos e que tentava fazer do aumento do número de prisioneiros a demonstração da sua fé comunista e evitar que lhes calhasse a vez de serem fuzilados ou penarem no Gulag. Jacques, através dos seus relatos, dá-nos conta da monstruosidade do seu sofrimento mas traz também para a boca de cena outros (muitos) prisioneiros que foi encontrando e as suas histórias cruéis.

Para quem pertence a uma geração politizada no escalpe do horror do Holocausto e da máquina nazi de destruição e em que o Nazi-Fascismo incarnou o Mal Absoluto (papel agora transferido para a Globalização e para a América Imperial) e que gerou o paradigma do Antifascismo (e do Anti-imperialismo), segundo o qual denunciar os soviéticos (ou, hoje, denunciar a ditadura castrista) seria (é) uma forma de fazer o jogo dos fascistas, dos imperialistas e dos capitalistas, é preciso estômago e coragem para olhar o Gulag de frente devido à muita vergonha acumulada pelos silêncios em que se virou o olhar e se calou a repugnância e a denúncia.


(Transcrito, com autorização do autor, de Botaacima)


Publicado por José Pacheco Pereira em 07:05 PM | Comentários (1)

outubro 25, 2003

NOTAS BIOGRÁFICAS - José Morgado

Faleceu José Morgado, uma das figuras de grande relevo da oposição portuguesa. Em breve será colocada uma nota biográfica mais desenvolvida, até lá pode ser consultada uma biografia centrada na sua actividade como matemático e contendo parte da sua bibliografia científica

Estão também disponíveis em linha uma série de artigos de José Morgado sobre os matemáticos oposicionistas da sua geração , sobre Hugo Baptista Ribeiro , sobre Ruy Luis Gomes , sobre Luis Neves Real.


Publicado por José Pacheco Pereira em 12:33 PM | Comentários (0)

outubro 24, 2003

NOTAS BIOGRÁFICAS - António Rosa Palma (“Tonico”)

(1929 – Aljustrel, 9/10/2003)

Delegado de propaganda médica reformado, membro do PCP desde a década de cinquenta. Activista do MND, foi acusado em 1957 de ser membro do Núcleo do PCP de Aljustrel. Em 1963 a sua pertença à Comissão Concelhia de Aljustrel do PCP, levou-o à prisão.

Fontes:

Avante!, 16/10/2003

PIDE, Autos de Perguntas a António Rosa da Palma, Lisboa, 9 Janeiro - 21 Março 1957

PROCESSO: SC PC 7/57 (NT 5134)

Publicado por José Pacheco Pereira em 11:45 PM | Comentários (0)

EVOCAÇÃO DE MESTRE CABANAS

Transcrevo igualmente do Botaacima , de autoria de João Tunes, esta recordação de Manuel Cabanas:

"EVOCAÇÃO DE MESTRE CABANAS

Todos os barreirenses o tratavam, com a maior das deferências, pelo merecido título de Mestre Cabanas.

Poisava no Café Tico Tico, bem no centro do Barreiro, entre o Mercado e o Parque. Sentava-se numa mesa de canto, silencioso, puxava do canivete adaptado à função e, num pedaço de madeira pré-preparado, esculpia, horas a fio, extraordinárias obras de arte (rostos e paisagens) que, depois, valiam por si e como suporte para se produzirem e reproduzirem serigrafias. Nem eu, nem ninguém, se atrevia a incomodar o Mestre Cabanas enquanto ele trabalhava. E nem pensar alguém atrever-se a fixá-lo ou espreitar-lhe a obra enquanto o canivete estivesse a dar os seus geniais cortes. Quem quisesse cumprimentá-lo ou dar-lhe dois dedos de conversa, tinha sempre o cuidado de esperar que o Mestre tirasse os óculos e poisasse os apetrechos, dando o sinal de que estava em intervalo entre dois impulsos criativos.

Eu era um garoto armado em adolescente e o Mestre Cabanas já era um velho. Ele não era barreirense de gema, apenas adoptivo (como eu). Veio de Vila Real de Santo António e ficou-se pelo Barreiro onde a linha ferroviária acabava vinda do extremo do Algarve. Talvez, devido à comunhão das raízes, ele tenha dedicado a António Aleixo um extraordinário rosto esculpido em madeira e que se tornou a mais célebre imagem do poeta popular. Seco de carnes, vestia sempre de fato escuro, impecável e discreto no aspecto, calva ampla e punha os óculos na ponta do nariz quando se concentrava na obra.

Mestre Cabanas era um antifascista compulsivo. Assinava tudo que era manifesto da oposição, participava em todas as eleições e presidia a todas as mesas das sessões da oposição que se conseguiram realizar no Barreiro. Volta e meia, a Pide levava-o para a António Maria Cardoso e depositava-o uns tempos no Aljube ou em Caxias. Quando faltava no Café Tico Tico, todo o mundo sabia onde o Mestre tinha ido parar. Depois, ele voltava, discreto e silencioso, para o seu trabalho de artista, sem alardes nem prosápias.

Era republicano, laico e socialista democrático. Já muito velho, tornou-se numa figura emblemática do PS a seguir ao 25 de Abril. Mário Soares prestou-lhe culto enquanto pode. Conseguiu respirar a liberdade sem a poluição da Pide. Pouco tempo depois, deu repouso às suas mãos de artista genial e deixou-nos.

Lembro Mestre Cabanas cada vez que reparo que moro numa Rua de António Aleixo."

Publicado por José Pacheco Pereira em 09:18 AM | Comentários (1)

EM MEMÓRIA DO ANTÓNIO GRAÇA

Por indicação do seu autor, João Tunes no blogue Botaacima, reproduzo este "EM MEMÓRIA DO ANTÓNIO GRAÇA ". João Tines lenbra António Graça, "antigo funcionário clandestino do PCP, membro da Comissão de Extinção da ex-Pide/DGS, reponsável pelos serviços de informações da direcção do PCP após o 25 de abril e membro ("clandestino") do Comité Central durante largos anos. Foi um dos íntimos de Cunhal e depois um dos seus rivais políticos. Foi dissidente na "Terceira Via" e faleceu há alguns anos." Faz um apelo que secundamos "Não sei mais sobre o António Graça do que aquilo que testemunhei no meu blog. Mas acho que era uma figura de interesse para descobrir as várias facetas do seu passado de antes e de depois do 25 de Abri. Sempre foi um dos heróis do PCP...!!! "

Transcrevo o texto , com agradecimentos ao seu autor:

"Estatura baixa, aspecto frágil, cabelos muito encaracolados e completamente brancos, lentes muito grossas por trás dos óculos que dominavam o rosto. Carregou, no corpo e na alma, os traços de muitos anos de clandestinidade, porrada brava dada pela Pide em inumeráveis sessões de tortura sem o conseguirem rachar e muito tempo de cativeiro em Caxias e em Peniche. A dureza da vida de clandestino e de preso político não lhe tiraram a curiosidade pela vida, a frescura e a ânsia dos afectos. Amou as mulheres que foi tendo e as filhas que foi fazendo. Adorava ter amigos à sua volta, com comes e bebes para alimentarem a fraternidade e as rodas intermináveis de cavaqueiras e de procuras incessante dos caminhos que evitassem os becos sem saída. No meio de tudo e de tanto que o que o António era, até nos esquecíamos que ela era um Dirigente. Porque o António Graça era membro do Comité Central.

A vizinhança e a empatia permitiram o convívio a miúdo e o melhor conhecimento, cruzando famílias, amigos e cumplicidades.

Muitas foram as noites desfiadas até perto da alvorada a ouvir o António. Com uma memória prodigiosa e uma experiência riquíssima, ouvi-lo era como que ouvir uma parte importante da história da resistência à ditadura. Desfiava factos e pessoas mas só referia aspectos precisos, tudo aquilo que tivesse sido confirmado, provado e fosse inquestionável. Para mais, o António parecia que conhecia toda a gente. Em grande parte, aqueles ficheiros imensos e armazenados tinham a ver com a sua tarefa de responsável pelos serviços de informação do PCP.

Foi clandestino antes do 25 de Abril, depois, pela natureza da sua missão partidária, o António foi uma espécie de semi-clandestino. Reconduzido como membro do Comité Central após vários congressos, para o retirar da ribalta pública e não se assumir que o Partido tinha um serviço de informações, o António nunca era eleito durante os congressos, era sempre cooptado segundo uma quota criada internamente para o efeito. Estratagema criado para ele e para outros (aqueles que controlavam os militares, dirigentes da CGTP e alguns outros). Foi através do caso dele que soube que nem os militantes nem o povo conheciam a composição total do Comité Central. Os cooptados, durante as reuniões oficiais, eram mantidos à parte noutra sala durante o tempo em que os jornalistas entravam no consistório para olharem os dirigentes e lhes tirarem as fotografias da praxe. E os membros cooptados nunca eram referidos publicamente como dirigentes do Partido. Fazia parte das regras conspiratórias cumpridas mesmo em democracia.

Durante a clandestinidade, tinha sido responsável pela margem sul. Quantas vezes, o António não me apontava para este ou aquele prédio surgido na febre do betão e me dizia: olha, aqui havia um pinheiro onde eu costumava pregar um aviso para a confirmação da realização de um encontro clandestino. A seguir a 1962, teve problemas pois advogou a passagem a formas superiores de luta contra o fascismo (luta armada) e foi integrado no rol dos que se tiveram de se autocriticarem por desvio de esquerda. E foi, por um triz, que a Pide não o apanhou numa casa cheia, até ao teto, com rolos de dinamite.

Tornou-se crítico da direcção e sobretudo do despotismo magestático e estalinista de Cunhal. Foi a alma inspiradora da Terceira Via que agregou muita gente, o máximo de gente que uma dissidência no PCP jamais aglutinou. Teve os seus passos e a sua casa, vigiados por fiéis da direcção. Outros vigilantes tinham sucedido aos pides para vigiarem os movimentos e as relações do António. Acompanhei-o nesse projecto. Criticou-me quando abandonei as hostes partidárias por não estar para aturar insultos e suspeições sempre que defendia a liberdade de se apresentarem teses alternativas ao Congresso ou o voto secreto contra o sagrado voto de mão levantada, sobretudo não aguentei mais a companhia de dirigentes que me convocavam à Sede para inquéritos policiais sobre as minhas relações e informações. Ele achava que o património do PCP não podia ficar entregue aos estalinistas, eu entendia que aquele estalinismo era congénito. Mas, embora mais tarde que eu, também acabou por lhe chegar a hora de dizer basta e bater com a porta.

Não quis acompanhar a caminhada da maior parte dos terceiras vias que foram até ao PS. Idem quanto aos grupos que levaram até ao Bloco de Esquerda. Nisso, mantivemo-nos sempre no mesmo barco.

Fora do PCP, recusando apoios de novos mandarins no PS, aos 55 anos de idade, o António meteu-se no mercado de trabalho para sobreviver. Passei a vê-lo menos vezes. Trabalhava que nem desalmado numa agência de composição gráfica para ganhar a bucha. As vezes que o via, perguntava-lhe quando passava a escrito o muito que aquela memória tinha armazenado. Ria-se e dizia que não tinha tempo.

Um lamentável equívoco não me permitiu acompanhar o António à sua última morada. Uma notícia de jornal dizia que o corpo sairia de Benfica e afinal o funeral partiu de Belém.

Resta-me a memória do António Graça e a saudade de o ouvir e de lhe dar um abraço. "


Publicado por José Pacheco Pereira em 09:03 AM | Comentários (0)

outubro 21, 2003

NOTAS AUTO-BIOGRÁFICAS - Maria Machado Castelhano Pulquério

Transcrevo do História e Ciència , o relato autobiográfico de Maria Machado Castelhano Pulquério, militante comunista na clandestinidade.

"Notas sobre a minha vida na clandestinidade - Maria Machado Castelhano Pulquério (Odivelas, 7 de Outubro de 2003)

Vale de Vargo é uma aldeia do concelho de Serpa na margem esquerda do Guadiana, quase na fronteira com Espanha. São daí os meus pais e foi aí que eu nasci, em 1949.
Na aldeia quase todas as pessoas eram trabalhadores assalariados sem terra. Durante o ano havia muitos dias e muitas semanas sem trabalho e isso era imediatamente a fome. Lembro-me duma manifestação, à qual se juntou toda a nossa família, em que as pessoas levavam bandeiras pretas e gritavam temos fome, temos fome.Quando o trabalho faltava muitas pessoas iam pelos campos para comerem a fruta que encontrassem.
Esta insustentável situação só se mantinha com a GNR. Volta não volta ouvia os meus comentarem a prisão de vizinhos. Receávamos que mais tarde ou mais cedo também levassem o meu pai. Foi o que acabou por acontecer. A nossa casa estava entre aquelas que a GNR "visitava" de cada vez que havia protestos dos trabalhadores agrícolas. Eu e as minhas irmãs, como muitas outras crianças de Vale do Vargo, crescemos no medo da GNR.
Tinha 8 anos quando os meus pais tiveram de passar à clandestinidade. Foram para local desconhecido que depois soube ser o Barreiro. Levaram a minha irmã mais velha porque já tinha terminado a instrução primária e a mais nova porque ainda não chegara à idade da escola.
Três anos depois, aos 11 anos, passei eu também à clandestinidade mas, apesar de me terem dito que era uma vida muito difícil e não podia fazer a vida das outras crianças, a clandestinidade para mim vinha acompanhada da alegria de ir viver com os meus pais e as minhas irmãs. No entanto, com a minha chegada deu-se o regresso da irmã mais nova (Maria José) para frequentar a escola e poucos meses depois partiu a mais velha (Luísa Basto) para a União Soviética onde foi estudar e depois terminou um curso superior de canto.
Ajudava os meus pais a imprimir o Avante, O Militante, panfletos, em papel bíblia muito fininho para os seus leitores o poderem esconder facilmente da PIDE.
Era um trabalho feito nas casas que habitávamos e os meus pais alugavam com nomes falsos. Usávamos umas impressoras primitivas, em que colocávamos letra a letra, as letrinhas de chumbo até completarmos os artigos e as páginas e comprimíamos contra elas manualmente, o papel e a tinta, com um pesado rolo metálico forrado de flanela. Muito primitivo mas saia bem. O quebra-cabeças era não deixar passar as insidiosas gralhas!
Vivíamos no receio de os vizinhos se aperceberem do ruído por isso o trabalho era acompanhado pela telefonia de goelas abertas. E quando um dia uma folha do Avante se escapou por debaixo do estore e se expôs à vista da vizinhança? Podia obrigar a uma fuga precipitada mas felizmente ninguém terá dado por isso antes de a descobrirmos ali.
A vida era muito complicada e rodeada de perigos. O mais difícil era parecer que levávamos uma vida normal. O meu pai tinha de entrar e sair de casa a tais horas e de tal maneira que o vissem sair do emprego e chegar do trabalho e não o vissem reentrar em casa nem dessem pela presença dele.
Em 1966 o PCP propôs aos meus pais que eu fosse tirar um curso político em Moscovo durante um ano. Tinha 17 anos de idade, cinco de clandestinidade e estar fechada em casa naquela idade... Jovens menos resistentes tiveram graves problemas de saúde mental.
Fui com gosto.
Atravessei a fronteira "a salto" por Trás-os-Montes na direcção de Bragança, de mão em mão, guiada pelo aparelho clandestino do partido. Aconteceu um episódio inesquecível. A certa altura fui levada, a pé e de carro, de olhos fechados, para uma casa clandestina algures nos arredores do Porto e quem encontro lá? Um casal com um filho loirinho de três anos. Só que a mulher era a minha tia Luzia, que me vira pela última vez com 9 anos e não podia me reconhecer. Ali ninguém sabia quem eu era. Foi um acaso. Quem organizou a minha partida não sabia nem podia saber que caminhos levaria. Quem me levava daqui para ali não sabia quem eu era, nem donde vinha. Cheguei à casa da minha tia que não sabia nem devia saber quem ia passar pela sua casa.
Com os pseudónimos e todas as regras de compartimentação pareceu-me que não me podia denunciar. Devo ter ficado com um ar demasiado apreensivo porque a minha tia perguntava-me o que se passava. Depois observou um caderno que eu levava com exercícios, composições e outros elementos de estudo- estudo que fazia em casa de meus pais com livros que o "camarada controleiro" nos levava de mês a mês e único convívio que tínhamos sem disfarces.
A minha tia a certa altura exclamou: "mas eu conheço esta letra". Conhecia-a, claro, das cartas que eu lhe escrevia e lhe chegavam pelos circuitos do partido. Então foi aí que eu a abracei como sobrinha!
Em Vichniki, a 20 quilómetros de Moscovo, na Escola Central de Konsomol (organização da juventude comunista da União Soviética) estudei Economia Política, História do Movimento Operário e Comunista Internacional, Filosofia (o materialismo-dialéctico e história das correntes filosóficas) além do Russo.
Uns trezentos jovens, rapazes e raparigas de todo o mundo. Europeus, asiáticos, africanos incluindo das colónias portuguesas, da América Latina.
À Escola já tinham chegado o "Carlos" que era Raimundo e a "Ana" que era Mariana. Em Moscovo conheci outros portugueses e pude estar com a minha irmã Luísa.
Tínhamos uma bolsa equivalente ao salário de um operário, com que pagávamos a comida, transportes, espectáculos e comprámos algumas coisas para nós. Comprámos um gira-discos e uma colecção de discos de boa música, da barroca à moderna. A cultura era em geral muito acessível.
Deram-nos um bilhete de identidade que nos permitia movimentar livremente em Moscovo e arredores. Com os companheiros portugueses e muitas vezes com a nossa grande amiga Galina Verskovskaya, nossa intérprete, durante esse ano vi dezenas de filmes, peças de teatro, concertos na "Tchekovskaya Zal", com David e Igor Oistrak, com Sviatoslav Richter e quase todo o programa de Ópera e bailado do Teatro Bolshoi.
Eu, que nunca tinha ido ao cinema, quanto mais à ópera ou a um concerto da Orquestra Sinfónica de Moscovo!
E tínhamos diariamente ali à mão, para passeios, festas, namoros, cantares, e discussões políticas, dezenas de jovens das mais variadas línguas, liberdades, clandestinidades e guerrilhas. Já nossos amigos.
Parecia-me o paraíso.
Claro que não ficámos a saber tudo nem sobre a História nem sobre a vida dos muitos povos da URSS. Nem das questões ligadas à Liberdade por que tanto lutávamos em Portugal. Mas isso é outra história que não cabe aqui agora e que não sendo a que nos era oferecida lá também não é a dos que sempre odiaram o socialismo pelo que ele tinha de melhor.
Voltei a Portugal em 1968 não sem combinarmos, eu e o "Carlos", juntarmo-nos em Portugal. Casar não é o termo próprio da clandestinidade mas foi isso que decidimos. Numa data, hora e local aprazado encontrei-me com ele e fomos viver para o apartamento, clandestino claro, que ele tinha alugado, no Bairro da Beneficiência em Lisboa.
Aqui o "controleiro" era outro, um assim grande, forte e muito alto que tratávamos por tu e por João. Quando dois anos depois foi preso ficámos a saber que o João era o Ângelo Veloso. No partido todos se tratavam por tu, e por "amigo" em vez de camarada para que nem as paredes ouvissem.
Eu colaborava na organização do que mais tarde em 1970 se viria a chamar ARA, a Acção Revolucionária Armada. Colaborei na criação de um laboratório, no reconhecimento de objectivos e particularmente, com todas as "companheiras", na "defesa da casa".
As mulheres acabavam quase sempre secundarizadas na política porque, por razões de defesa, só um em cada casa podia ter ligações e contactos com outros camaradas.
Em seis anos mudámos seis vezes de casa. Em Lisboa e arredores. Alugar casa, comprar mobília, ou algo parecido, e depois mudar de uma para outra sem deixar rasto era uma arte e um... tormento. A partir do segundo ano com um bebé, a minha filha Leonor. O segundo filho, José Alexandre, a última criança a nascer na clandestinidade, só chegou nas vésperas do 25 de Abril de 74.
Nunca fui presa. Escapei por pouco porque a PIDE assaltou a casa dos meus pais dois meses depois de eu ter ido viver com o meu marido. A minha irmã Maria José com 14 anos foi libertada pouco tempo depois mas o meu pai, José Pulquério, ficou preso e a minha mãe, Úrsula Machado, quatro, mas as torturas deixaram-na com a saúde muito abalada para o resto da vida.
Ter filhos não atrapalhava. Pelo contrário ajudava. E muito. A suportar o isolamento e a dar-nos uma nova vida. O que nos angustiava era termos de nos separar dos filhos aos sete anos. Não era possível viver na clandestinidade e cada vez que tínhamos de fugir e mudar de casa matricular os filhos numa nova escola sem dizer de que escola vinham. Os sete anos era o tormento para a família. Os filhos partiam ou para as famílias que raramente tinham condições para os ter ou mais habitualmente para a União Soviética.
Uma vida sob tensão mas em geral uma vida muito... ia dizer agradável mas talvez não seja bem o termo, talvez antes muito realizada.
Dos sustos o maior foi quando a PIDE pôs nos jornais e na televisão a fotografia do meu marido, de Jaime Serra, Francisco Miguel e Ângelo de Sousa da ARA, de Carlos Antunes das Brigadas Revolucionárias e Joaquim Simões da LUAR.
Apesar dos disfarces, óculos, barba, nomes diferentes, não sabíamos se os vizinhos o podiam identificar. Visitei nesse dia a minha vizinha, a Sra D. Irene, pessoa idosa a viver só, (no apartamento ao lado do nosso, que ainda hoje habitamos) excelente senhora, muito nossa amiga, professora no Convento de Odivelas. Venerava Salazar: um santo!
Queria observar a sua reacção. Mandou-me entrar e sentar ao seu lado. Lia a nota da PIDE com as fotografias escarrapachadas no Diário de Notícias e comentava, olhe estes terroristas. Este é operário, quer ser ministro. E este!
Um estudante universitário misturado com eles. Enganado!
Depois de lhe pedir um raminho de salsa voltei para casa mais descansada.
Depois veio a revolução dos cravos, a democracia e a liberdade. E a nossa vida passou a ser como a dos outros portugueses.

Publicado por José Pacheco Pereira em 06:54 PM | Comentários (0)

ARA - Página pessoal de Raimundo Narciso

Raimundo Narciso tem uma página pessoal na Internet que inclui não só excertos do seu livro memorialístico sobre a ARA, como outra documentação sobre esta organização armada do PCP.

Publicado por José Pacheco Pereira em 06:49 PM | Comentários (1)

NOVA BIOGRAFIA DE HÔ CHI MINH

Foi publicada em França uma nova biografia de Hô Chi Minh, de autoria de Pierre Brocheux, Hô Chi Minh. Du Révolutionnaire à l'Icône , Paris , Payot, 2003. Brocheux, um especialista da Indochina, utiliza abundante bibliografia e fontes em vietnamita.

Publicado por José Pacheco Pereira em 05:23 PM | Comentários (1)

outubro 19, 2003

MORTE DE FERRER CORREIA

Morreu Ferrer Correia, um dos juristas e académicos que aderiu ao MUD no imediato pós-guerra. Na sua necrologia no Público, faz-se referência ao seu

"percurso coerente de defesa dos ideiais republicanos e académicos. Aluno brilhante, doutorou-se aos 27 anos com uma tese sobre o "Erro e interpretação na teoria do negócio jurídico" que lhe granjeou prestígio a nível internacional. As convicções políticas, contudo, haviam de lhe atrasar a carreira académica: em 1945, com outros mestres da Faculdade de Direito, como Manuel de Andrade, Teixeira Ribeiro e Eduardo Correia, aderiu ao Movimento de Unidade Democrática, o que lhe valeu ter de esperar dois anos pela abertura do concurso para Professor Extraordinário da instituição. "

Publicado por José Pacheco Pereira em 09:26 AM | Comentários (0)

outubro 11, 2003

HOMENAGEM A ANTÓNIO LOPES CARDOSO


Realizou-se no Museu da República e da Resistência uma homenagem a António Lopes Cardoso, em que participou o Presidente da República. O relato dessa homenagem encontra-se no Público de 11 de Outubro de 2003.

Uma pequena biografia de António Lopes Cardoso encontra-se aqui.

Publicado por José Pacheco Pereira em 01:14 PM | Comentários (0)

O “TEMPO DE ÁLVARO CUNHAL” (VI JORNADAS HISTÓRICAS DE SEIA)

Vão-se realizar, nos dias 12 a 14 de Novembro, em Seia, as VI Jornadas Históricas de Seia, subordinadas ao tema:

O TEMPO DE ÁLVARO CUNHAL.
SOCIEDADE, POLÍTICA E CULTURA. SITUAÇÃO E OPOSIÇÃO.

Dia 12
9h30
Recepção aos participantes e entrega de documentação

10h
Sessão de abertura

10h30
Apresentação:
"Caminhos políticos e culturais: da Primeira República ao 25 de Abril, do Modernismo ao Neo-Realismo"
por Luís Reis Torgal (Professora da Faculdade de Letras da Universidade de Coimbra)

11h
"Bento Jesus Caraça nas coordenadas teórico-políticas do seu tempo"
por António Pedro Pita (Professor da Faculdade de Letras da Universidade de Coimbra)

11h40
Debate coordenado por Luís Reis Torgal

Almoço

14h30
Recomeço dos trabalhos

14h35
"O ciclo histórico do Neo-Realismo e a autarcia do Estado Novo (1937-1959)
por Luís Augusto Costa Dias (Investigador da Biblioteca Nacional de Lisboa)

15h15
"Música de intervenção e Lopes Graça"
por Teresa Cascudo (Professora da Universidade de La Rioja-Espanha)

15h45
Pausa para café

16h
"A arte dos regimes totalitários: breves considerações"
por Nuno Rosmaninho Rolo (Professor da Universidade de Aveiro)

16h40
Debate coordenado por L. Reis Torgal

Dia 13
10h00
Início dos trabalhos

10h05
"Comunistas e republicanos 'revilharistas' na luta contra a ditadura (1927-1939)
por Luís Farinha (director adjunto da revista História)

10h45
"Álvaro Cunhal e a criação cultural"
por Odete Santos (Deputada do PCP)

11h15
pausa para café

11h30
"O devir histórico e Abel Salazar e Álvaro Cunhal"
por Norberto Cunha (Professor da Universidade do Minho)

12h10
Debate coordenado por L. Reis Torgal

Almoço

14h30
Início dos trabalhos

14h35
"Álvaro Cunhal e a 'refundação' do PCP. Notas sobre a organização dos nos 40 (sic)"
por Fernando Rosas (Professor da Faculdade de Ciências Sociais e Humanas da Universidade Nova de Lisboa)

15h15
"Os primeiros anos 60 ea viragem do PCP"
por João Madeira (Escola Secundária Padre António Macedo - Santo André)

15h45
Debate coordenado por L. Reis Torgal

16h20
Beberete

21h30
Projecção do filme de J. Fonseca e Costa Cinco Dias e Cinco Noites
seguido de debate

dia 14
9h30
Início dos trabalhos

9h35
"Os anos de aprendizagem de Álvaro Cunhal (1931-1939)
por João Arsénio Nunes (Assistente do Instituto Superior de Ciências do Trabalho e da Empresa - Lisboa)

10h15
Tema a confirmar
por José Pacheco Pereira (Deputado no Parlamento Europeu)

11h20
Debate coordenado por L. Reis Torgal

12h
Encerramento das VI Jornadas Históricas

(Informação de Paulo Agostinho)

Publicado por José Pacheco Pereira em 12:56 PM | Comentários (0)

outubro 06, 2003

NOTAS BIOGRÁFICAS - João Manuel da Costa Feijão

(1945 – 15/9/2003)

Licenciado em história, funcionário do PCP. Activista associativo, participa nas lutas estudantis dos anos sessenta, altura de que datam os seus primeiros contactos com o PCP, embora só se tivesse filiado depois do 25 de Abril de 1974. Esteve em Angola como cooperante.

No PCP foi membro do CL de Lisboa, “colaborador” do CC, um cargo de grande confiança política, e tinha a responsabilidade do Gabinete de Estudos Sociais, que inclui o arquivo do partido. Era, na prática, à data da sua morte, o “historiador oficial” do PCP, tendo publicado dezenas de notas históricas quer no Avante!, quer no Militante.

Avante!, 18/9/2003

(ver nota pessoal nos EsC 17/9/2003)


Alguns artigos de Costa Feijão:


"Bento Gonçalves e o reformisno", O Militante, Ano 71, Série IV, 263, Março/Abril 2003

“1941 - Renascem os prelos do PCP”, Avante!, 21/8/2003,4

“1943 - Saber avançar saber recuar”, Avante!, 31/7/2003

“A greve da mala”, Avante!, 3/7/2003

“A manif no Largo Conde do Pombeiro” , Avante!

“Algarve - Matrículas da miséria” , Avante!

“As Comunas de Lisboa” , Avante!

“As pedras voadoras” , Avante!

“Cabeças rachadas em Rio Tinto” , Avante!

“Do Maranhão a Moscovo”, Avante!, 24/7/2003

“Fados na Amadora” , Avante!

“Lutas nas marinhas do sal”, Avante!, 22/5/2003

“Marianismos salazarentos” , Avante!

“Memória do Oeste”, Avante! , 28/8/2003

“Os baldios para o povo” , Avante!

“Os prelos clandestinos de "O Corticeiro”, Avante!, 17/7/2003

“Os primeiros presos comunistas”, Avante! , 4/9/2003

“Raízes da Reforma Agrária” , Avante!

“Recordando as lutas operárias às portas de Abril” , Avante!

“Reorganização da FJCP – 1934-1935” , Avante!

“Sementes de searas vermelhas” , Avante!

“Subterrâneos da Liberdade” , Avante!

“Teias de exploração - 1939-1949” , Avante!

“Uma Conferência Camponesa”, Avante! , 7-8-2003

Publicado por José Pacheco Pereira em 11:14 PM

outubro 04, 2003

NOTAS BIOGRÁFICAS - António Braz Perfeito Flamino

(1920 – Sintra, 28/8/2003)

Bombeiro sapador aposentado. Membro do PCP, pertenceu ao Comité Local de Setúbal (1940) . Depois do 25 de Abril estava organizado em Almargem do Bispo (Sintra). Segundo o Avante!, “procurou sempre passar os valores e ideais do Partido”.

FONTE: Avante!, 18/9/2003

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outubro 02, 2003

NOTAS BIOGRÁFICAS - Domingos da Costa Gomes

(Chaves, Janeiro 1921 - Julho 2003)

Advogado.

Entrou em Novembro de 1943 para a organização juvenil do PCP , depois para o MUDJ

PCP no Porto

Advogado dos presos políticos

Membro do Movimento da Paz e da Comissão Nacional da Paz

22-29/6/1955 - Dirigiu a delegação do Movimento da Paz à Assembleia Mundial da Paz em Helsínquia.

9/11/1955 – Preso, julgado no Plenário, libertado em 28/7/1956

1958 – Em colaboração com Joaquim Pires Jorge organiza um aparelho de fronteira por onde passaram vários dirigentes em missão a França e à URSS. Entre esses conta-se Álvaro Cunhal, que transportou a Paris, via Barcelona.

Como nasceu, se constituiu e se organizou um tal "aparelho de fronteira" que se manteve em funcionamento, sem falhas, durante 16 anos?
Durante o mes de Fevereiro de 1958 transportei o camarada Octávio Pato do Porto para Lisboa onde ele ia, em nome do Secretariado do Partido, convidar o Coronel Ribeiro de Carvalho para figurar como candidato da esquerda a Presidência da República, já que Cunha Leal tinha declarado no dia 30 de Janeiro, num comício que teve lugar no Coliseu dos Recreios do Porto, que não aceitava ser candidato. 0 Coronel Ribeiro de Carvalho era originário de Chaves e meu particular amigo.
Durante a viagem que, por questões de segurança, decorreu de noite, falei a Octávio Pato nas possibilidades que eu tinha de ajudar a montar um "aparelho de fronteira". Pouco tempo depois apareceu-me em Chaves o camarada Joaquim Pires Jorge com quem eu realizara diversas missões de responsabilidade e que me conhecia bastante bem.
Durante largas horas houve entre nés uma ampla troca de impressões através das quais foi nascendo a futura estrutura do "aparelho de fronteira". Pires Jorge regressou ao sul certamente para transmitir aos restantes membros da Direcção do Partido as conclusões a que chegáramos e corn sugestões para corrigir este ou aquele pormenor.
Em novo encontro, que tivemos em Chaves pouco depois, ficou decidido instalar o "aparelho de fronteira" com a passagem da fronteira em Travancas corn a ajuda de António Maldonado e da esposa Fernando Alves, pessoas as quais me ligavam sólidos laços de amizade, que eu sabia serem inteligentes, corajosos, honradíssimos e com prática de passagem na fronteira através do pequeno contrabando que ali se fazia.
Pires Jorge quis conhecer o casa e do contacto entre todos ficou decidido que eles prestariam a sua preciosa ajuda no funcionamento futuro do "aparelho". Por todos foi realçado que a funcionamento do "aparelho" exigia muita disciplina a implicava certos perigos. De tudo isso assumiu a casal a responsabilidade respectiva
.”

(Domingos da Costa Gomes , “Criação e actuação de um “aparelho” de fronteira” , Militante, 243, Nov.-Dez. 1999)

Julho 1964 – A PIDE pede à DGS a sua proibição de entrada em Espanha.

Agosto 1964 - Preso novamente , evadiu-se. Atravessou clandestinamente a Espanha e foi para França. Teve dificuldades em arranjar trabalho e deslocou-se à Suiça e Bélgica. Trabalhou como tradutor do Conselho Mundial da Paz.

8/5/1966 – Vai para o Canadá (Montreal) com a mulher e uma filha. No Canadá teve múltiplos ofícios, incluindo serralheiro, professor, enfermeiro, agente de seguros, empregado de supermercado, etc.

Prosseguiu o trabalho político no Canadá onde presidiu ao Movimento Democrático Português de Montreal, junto com Rui Cunha Viana. Colaborou na imprensa , em particular no Luso.Canadiano dirigido por Henrique Tavares Belo.

10/12/1968 – Sessão comemorativa dos 20 Anos da Declaração dos Direitos do Homem em Montreal

1969 - Eleito Presidente do Portuguese Canadian Congress, organização de professores de Toronto

Julho 1970 – Regressa a Portugal e retoma o seu trabalho como advogado.

Depois do 25 de Abril foi dirigente concelhio de Chaves do PCP e candidato em várias eleições

1989 – Colaboração regular no Semanário Transmontano

Activista da regionalização, publicou Regionalização de Trás-os-Montes, Porto, Campo das Letras, 2001

FONTES :

PIDE/DGS, Processo 106/55, NT. 5116

Tribunal da Boa Hora , 1º J, Pr. 15579/59

Avante! , 17/7/2003

Semanário Transmontano, 17/7/2003

Domingos da Costa Gomes , “Criação e actuação de um “aparelho” de fronteira” , Militante, 243, Nov.-Dez. 1999

Domingos da Costa Gomes , “Um episódio simples” , Avante!, 8/3/2001


ANEXO - Escolástica Aristotélica (Avante! , 30/12/2000)

"Quando se medita sobre o que se passou na ex-União Soviética e nos países do Leste europeu chega-se à conclusão de que Estaline e os seus apoiantes se esqueceram do materialismo dialéctico e caíram em formas disfarçadas da escolástica aristotélica, criando dogmas e anulando conquistas que a humanidade tinha conseguido com a Revolução Francesa, como sejam violações no campo da Liberdade, da Igualdade e da Fraternidade, num regresso a práticas e comportamentos que a Teologia utilizou na Idade Média. Revendo Heráclito encontram-se as primeiras formulações da dialéctica: a luta entre contrários que gera transformações em que tudo nasce, cresce e morre, em que cada coisa contém em si aquilo que a nega. Mas as leis da dialéctica só aqueles que estiverem atentos aos fenómenos são capazes de as entender.
(...) Também as práticas estalinistas criaram dogmas que não poderiam ser nem violados nem esquecidos cuja violação foi fortemente reprimida, desrespeitando o princípio proclamado por Karl Marx de que a teoria não é um dogma mas um guia para a acção.
(…) Mas, com deformações graves, foi esquecido o materialismo dialéctico e em seu lugar criado um falso marxismo-leninismo, que, na URSS, Estaline e os dirigentes que o apoiavam e seguiam, utilizaram largamente novas formas de escolástica aristotélica, que se espalhou na prática dos partidos comunistas nos países capitalistas e nos países do Leste Europeu o que tudo culminou com a dissolução da URSS e no regresso ao campo do capitalismo.
Os erros cometidos por esta prática não foram, ainda, corrigidos.
Trava-se hoje, nas vésperas do XVI Congresso, uma espécie de luta entre os chamados ortodoxos e os renovadores. Há que evitar que uma tal luta deixe de ser civil1zada e que seja, pelo contrário, criadora de inovações necessárias, dada a actual situação no mundo com novas conquistas da ciência e da
tecnologia.
Com o bom senso que tem revelado nas suas actuações, Carlos Carvalhas pode contribuir para que a luta que se trava entre a tese que é representada pelos chamados ortodoxos e a antítese que é representada pelos chamados renovadores não redunde em confusão e em sectarismo mútuo e possa vir a resolver-se dialecticamente nuna síntese criadora que polarize e junte as partes positivas da tese e da antítese após e através de uma discussão franca c aberta, com elevação do nível ideológico. Um certo obreirismo minimiza o papel que os intelectuais desempenharam na formação do marxismo-leninismo e que terão que continuar na sua modernização.
Durante a dureza da luta contra o salazarismo tinham muita importância quadros de luta que fossem bons organizadores. Mas só isso não chegou, como hoje não chega.
A sombra tutelar de Aristóteles influiu e ainda influi na mentalidade de muitos dirigentes comunistas e na mentalidade e na formação de outros dirigentes e quadros de luta.
S. Tomás de Aquino e os teólogos que assimilaram e seguiram ideias e princípios de Aristóteles, através das regras da Escolástica, largamente utilizadas quer por elementos da Inquisição e dos Tribunais do Santo Ofício quer por governantes, conseguiram travar o progresso durante séculos.
A prática da escolástica aristotélica perdura, quer nas ideias quer na prática.
O salto em qualidade terá que ser dado, mais tarde ou mais cedo, e será óptimo que o seja já no XVI Congresso expurgando dele quaisquer vestígios da Escolástica para que se revista da importância necessária neste princípio de milénio; há que restabelecer, de modo claro e inequívoco, o marxismo-leninismo, na sua total pureza. Se isso não for feito, o XVI Congresso do PCP não passará de uma espécie de adiamento."
.

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outubro 01, 2003

NOTAS BIOGRÁFICAS - Emília Guerreiro Geraldo Gomes

(1919 - Lisboa, 19/8/2003)

"Antifascista de longa data", inscrita no PCP logo a seguir ao 25 de Abril.

Avante! 4-9-2003

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setembro 25, 2003

SOBRE JOAQUIM SANTOS SIMÕES

Um artigo de António Valdemar intitulado "Santos Simões: memória viva" no Diário de Notícias de 25 de Setembro de 2003, refere-se a sua actividade na oposição:

"Entre os sobreviventes desse tempo de luta destaca-se Joaquim Santos Simões, memória viva (e incómoda) de empenhamento cívico e cultural primeiro em Coimbra e desde 1957 em Guimarães e na restante área do distrito de Braga. Custou-lhe prisões na PIDE, livros apreendidos pela PIDE, expulsão da função pública.

Apesar de tudo e conjuntamente com o exercício profissional do ensino de matemáticas, desenvolveu (embora limitado aos condicionalismos impostos no salazarismo) notável acção no Teatro de Estudantes da Universidade de Coimbra (TEUC), como director, encenador , ensaiador e actor; no Cine-Clube de Guimarães, no Grupo Musical Ritmo Louco, na instalação duma Biblioteca Gulbenkian, em Guimarães; na criação e direcção ao longo de 36 anos do Teatro de Ensaio Raul Brandão e de 1990 até hoje, em sucessivas reeleições, na presidência da Sociedade Martins Sarmento. Parte do muito do que realizou encontra-se em dois livros da sua autoria: Sete Anos de Luta contra o Fascismo _ Academia de Coimbra 1944-1951; e Braga, Grito da Liberdade _ História Possível de Meio Século de Resistência.
Constituem o depoimento singular de uma personalidade não menos singular que, nas últimas décadas, ocupa lugar de significativa evidência, que merece ser distinguida numa homenagem regional e nacional. Constitui, também, um exemplo a seguir por outras figuras ainda vivas que deveriam registar testemunhos e recolher e publicar documentos que correm o risco de se perder. E a História faz-se com o auxílio destes elementos imprescindíveis."

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setembro 17, 2003

MORTE DE J. M. COSTA FEIJÃO

Faleceu inesperadamente , no início da semana, J.M. Costa Feijão, um dos responsáveis pelos arquivos do PCP e autor das notas regulares sobre a história do partido publicadas no Avante! (ver bibliografia incompleta nos Estudos). Sobre Costa Feijão publicar-se-á em breve uma nota mais completa.

Tive ocasião, ainda há bem pouco tempo, de encontrar Costa Feijão no Barreiro , por ocasião do aniversário da greve de 1943, e falamos sobre a abertura dos arquivos do PCP. Falamos sobre o que lá se encontra e o que falta, e sobre a questão controversa da abertura dos arquivos do PCP à investigação. Foi uma conversa cordial e que abria caminho a uma colaboração futura. Infelizmente ficou truncada pela morte súbita de Costa Feijão

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JOSÉ LUÍS NUNES

Sobre José Luís Nunes, activista estudantil, advogado de presos políticos, membro da CEUD, e fundador do PS , falecido a 10 de Setembro, veja-se necrologia no Diário de Notícias de 11/9/2003.

Publicado por José Pacheco Pereira em 03:21 PM | Comentários (0)

setembro 07, 2003

NOTAS BIOGRÁFICAS - José Maria Barge

(1911 – Espinho, 25/8/2003)

Padeiro, ligado ao PCP desde os anos trinta. Preso em 1935, esteve nas cadeias de Caxias, Coimbra e Porto.
Depois do 25 de Abril fez parte das listas da CDU e era membro da CF de Espinho.

Fonte: Avante ! , 4-9-2003

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agosto 22, 2003

NOTAS BIOGRÁFICAS - Júlio José Cristo Luz

(Sesimbra, 1921 – Lisboa, 21/7/2003)

Caixeiro viajante, militante do PCP na clandestinidade na freguesia de Cruz Quebrada / Dafundo. Depois do 25 de Abril continuou a militar na área da sua residência.

Fonte: Avante!, 14/8/2003

Publicado por José Pacheco Pereira em 04:42 PM | Comentários (0)

agosto 20, 2003

NOTAS BIOGRÁFICAS - Francisco Dias da Costa

( Évora, 1923 - Tavira , 8/8/2003)

Advogado e escritor. Ligado ao PCP desde o fim da década de 40. Militante do MUDJ foi preso em 1947. Participou na campanha eleitoral de Norton de Matos em 1949. É preso de novo em 1955. Activista da campanha de Humberto Delgado em 1958. Residente no Algarve desde 1959, actuou a partir daí nos meios locais da oposição. Em 1970 fez uma viagem por vários países socialistas de que resultou uma memória intitulada No mundo dos lilases: breves notas de viagem à Checoslováquia, à União Soviética e à Polónia passando pelas Alemanhas, 1970
Em 1973 apresenta uma tese com o título de O Povo português a caminho da Democracia ao III Congresso da Oposição Democrática.
Depois do 25 de Abril foi membro do Conselho Português para a Paz e Cooperação e da União de Resistentes Antifascistas Portugueses. Era membro da organização do PCP de Tavira.
Dias da Costa era autor de uma larga bibliografia que incluía poesia, textos sobre temas algarvios. Entre os livros que publicou inclui-se Canto da longa madrugada: para os heróis proibidos (1978); Concerto em sol maior (1979 ); Anamnese da esperança e outros poemas (1981).; A meditação da esperança: poemas. (1988); Maravilhoso Guadiana: as grandezas, as misérias, o mistério (1991); O outro lado: poemas (1995) ; Floridas na pedra: a hidrografia do Vascão e a Serra do Caldeirão ou Mu: o homem e o meio (1996) ; As apóstrofes e outras páginas: poemas (1997).
O seu último livro foi Incomoda Memória (2003).

Fontes:

Avante!, 14/8/2003 ;

Imprensa local algarvia, Agosto 2003

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agosto 17, 2003

TESTEMUNHO

De Paulo Varela Gomes no Cristóvão-de-Moura sobre sua mãe Maria Eugénia:

"Numa qualquer manifestação do final dos anos de 1960, a minha mãe acompanhou-nos vestida (como sempre) com um comprido casaco de gola alta na qual recolhia os cabelos. Descia ela a rua com as minhas irmãs abraçadas, ainda pequenas, uma de cada lado. Quando a polícia de choque carregou, ela susteve o ímpeto de fuga das minhas irmãs que queriam seguir a pequena multidão em correria desenfreada rua abaixo. Disse-lhes: "Meninas, não se foge à polícia...". As minhas irmãs lembram-se que se curvava quando os cassetetes dos polícias a atingiam na cabeça, mas que nunca apressou o passo. Chegou a casa, tirou o casacão comprido. Tinha a cabeça em sangue, o cabelo e as costas empapados. Levou três pontos. "

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agosto 08, 2003

DENÚNCIA DO AVANTE! DE JOÃO PULIDO VALENTE E MANUEL CLARO EM 1964

O Avante! , 349, de Dezembro de 1964, denúncia a presença em Portugal de João Pulido Valente e Manuel Claro, ex-militantes do PCP , agora pertencendo à FAP e ao CMLP. Esta denúncia era grave em situação de clandestinidade, dado que a PIDE ficava a saber que ambos estavam no interior de Portugal e não no estrangeiro. João Pulido Valente é preso pouco depois.
O PCP veio mais tarde de forma indirecta a admitir que foi um "erro" a publicação desta nota. O facto de de isto ter acontecido revela o grau de conflitualidade que a partir de 1964 marcou as relações do PCP com os novos grupos de extrema-esquerda e vice-versa

Publicado por José Pacheco Pereira em 03:36 PM | Comentários (0)

agosto 06, 2003

UMA HISTÓRIA DE JOÃO PULIDO VALENTE DE 1958

(Parte adaptada do texto inédito do volume III da biografia de Cunhal, sem as notas.)

João Pulido Valente, então militante do PCP, teve um papel muito importante nas tentativas de levar Cunha Leal a candidatar-se à Presidência da República em 1958. Por ironia da história, Cunha Leal, um dos poucos anticomunistas consistentes da oposição portuguesa, era então o candidato desejado pelo PCP. O partido fazia, através de uma organização de frente, a Comissão Cívica Eleitoral (CCE) , tudo para o convencer a candidatar-se. Cunha Leal avançava e recuava, dizia que sim, não e talvez, gerando uma processo muito tumultuoso. João Pulido Valente, que era um dos médicos de Cunha Leal, funcionava como um dos intermediários entre o PCP (via “cívica”) com Cunha Leal. Embora Cunha Leal estivesse a atravessar um período de doença e tivesse feito uma intervenção cirúrgica, tornava-se obvio que usava a doença como pretexto.

No dia 15 de Abril de 1958 , Cunha Leal anuncia o “não” definitivo , deixando os comunistas sem candidato face à candidatura “independente” de Delgado que se avolumava. Os elementos da CCE reunidos na Seara Nova são informados pelo filho de Cunha Leal que este estava “impossibilitado” por doença de aceitar a candidatura. João Pulido Valente, ficou furioso e saiu da reunião e foi a casa de Cunha Leal de surpresa. Chegado lá viu que ele estava de boa saúde e que a doença servia de pretexto para a recusa . Volta à Seara Nova e , ainda mais furioso, diz que é tudo mentira e Cunha Leal estava a engana-los . Três dias depois , Cunha Leal mandou comunicar à República que o seu estado de saúde se agravara e que o médico proibira-o de receber visitas ao mesmo tempo que o aconselhara a desistência da candidatura senão “podia por em risco a sua vida

Jogando uma última cartada, a CCE insiste que "não tendo conhecimento oficial da desistência” (…) vai diligenciar obter daquele ilustre homem público a sua opinião definitiva sobre este ponto fundamental". Cunha Leal ficou furioso, porque percebeu que a CCE punha publicamente em dúvida a veracidade dos seus motivos e escreveu à República

"Acho a nota de um atrevimento extraordinário, porque tendo o meu médico afirmado que o meu estado de saúde não me permitia empenhar-me na luta eleitoral e, em face disso, tendo o meu filho transmitido a minha disposição de não me candidatar, haja pessoas que tenham a ousadia de, apesar da minha doença, pretenderem a minha afirmação pessoal, o que significa pôr em dúvida as afirmações de um médico e de meu filho, e é um atrevimento de que não julgava que houvesse pessoas em Portugal capazes de o cometer."

Acabou aqui a candidatura de Cunha Leal que veio a apoiar Delgado. O PCP vai apoiar Arlindo Vicente, o "candidato de recurso", para depois , no último minuto, apoiar Delgado.

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agosto 05, 2003

BIOGRAFIAS - MORTE DE JOÃO PULIDO VALENTE

Notícia da Lusa (enviada por J.M.Lopes Cordeiro)

Faleceu João Pulido Valente, militante anti-fascista e fundador da UDP

O médico João Pulido Valente, militante anti-fascista e fundador da União Democrática Popular (UDP), faleceu hoje, com 77 anos, vítima de doença prolongada.

João Pulido Valente foi militante do Partido Comunista (PCP) até 1964, quando por divergências políticas saiu, criando com outros dissidentes a Frente de Acção Popular (FAP) e o Comité Marxista-Leninista Português.

Perseguido pelo regime, fugiu para a Argélia, mas logo regressou a Portugal clandestinamente, sendo detido pela PIDE (Polícia Internacional e Defesa do Estado) e condenado por um tribunal a 12 anos de cadeia. No 25 de Abril de 1974 foi libertado.

João Pulido Valente exerceu funções desde 1975 no Hospital Curry Cabral, e actualmente estava reformado.

O médico encontra-se em câmara ardente no Centro de Santa Joana Princesa, em Lisboa, e será terça-feira cremado pelas 16:00 no Cemitério do Alto do São João (dado por confirmar).

Lusa/Fim

Sobre João Pulido Valente vejam-se as notícias necrológicas do Público e do Diário de Notícias .

Em breve se acrescentarão novos elementos biográficos para a compreeensão do papel de João Pulido Valente no movimento comunista português quer no PCP , quer no CMLP / FAP e noutras organizações.

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agosto 02, 2003

NOTAS BIOGRÁFICAS - Jacinto Ramos Martins

(Alpiarça, 30/4/1917- Lisboa, 17/72003)

Empregado de escritório, contabilista e escritor, membro do PCP desde 1935. Foi preso várias vezes , a última das quais em 20 de Janeiro de 1959, sendo libertado apenas em 21 de Julho de 1964. Dessa prisão deixou um depoimento escrito sobre as condições prisionais. O Avante! descreve-o como “sempre um lutador antifascista consequente, tendo passado mais de cinco anos nos calabouços da PIDE, frente a qual nunca se vergou” .
Depois do 25 de Abril esteve ligado ao Sector de Serviços e Hotelaria da ORL


Fontes :

Avante! , 31/7/2003

Entrevista ao Diário de Lisboa, 27/5/1974

Repressão / ... [ilegível] de Janeiro, foi preso no emprego, o democrata Jacinto Martins, 4 Fevereiro 1959

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julho 30, 2003

NOTAS BIOGRÁFICAS - José Mendes

(Marinha Grande, 17-12-1906 – Julho 2003)


Trabalhou desde os sete anos na fábrica Carlos Galo, sendo depois vidreiro de profissão na Joaquim Ferreira, tendo atingido a categoria de oficial de garrafas, cargo em que foi reformado. Participante activo no movimento do 18 de Janeiro de 1934, com funções de comando no grupo que assaltou o posto da GNR. Preso foi condenado a quatro anos de cadeia e deportado para Angra do Heroísmo. Era simpatizante do PCP , tendo aderido na sua estadia em Angra. Amnistiado em 1936, regressou à Marinha Grande onde a sua casa nas Trutas serviu de ponto de apoio na clandestinidade.

Fotografia tirada em grupo na Fortaleza de S. João Batista, Janeiro 1936

Avante!, 24-7-2003

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julho 29, 2003

NOTAS BIOGRÁFICAS - Inácio Ministro

(Terrugem – Sintra , 1908-2003)



Inácio Ministro , estofador de automóveis , entrou para o PCP na década de quarenta . Sofreu oito prisões por pequenos períodos de tempo , por incidentes com “vanguardistas” , pela sua militância no SVI , participação na greve da Ford no Natal de 1942 , etc. Foi igualmente preso em 2 de Dezembro de 1944 na vaga de prisões de que resultou a morte de Ferreira Marquês na PIDE , Trabalhou no partido com José Gregório / “Alberto” , Manuel Guedes / “Santos” , Soeiro Pereira Gomes /”Vaz” e principalmente com Manuel Rodrigues da Silva / “Almeida” que foi seu controleiro durante mais tempo .
Participando em tarefas de apoio à direcção do partido , comprou um carro em nome de Amílcar Augusto Gil , um Opel Olympia , que pertencia ao partido . Teria sido este o primeiro carro que o PCP adquiriu . Realizou vários transportes de clandestinos , incluindo militantes espanhóis em trânsito por Portugal .
Por volta de 1947 , ou príncipios de 1948 , participou numa tentativa de fuga de António Guerra , um militante do 18 de Janeiro de 1934 , organizada por Piteira Santos . Guerra , no entanto , no último momento , recusou-se a fugir e os pormenores dessa tentativa permanecem obscuros . Guerra morreria um ano depois .
Após uma prisão resultante da denúncia de um transporte clandestino , Inácio Ministro emigra para o México e posteriormente para Angola (1954) e Leopoldville no Congo Belga (1955-6) . No Congo contacta com Sidónio Muralha e Aníbal Bizarro , que para aí tinham emigrado .
Após o seu regresso a Portugal manteve a militância no PCP na sua área de residência .

Fontes :

Depoimento feito ao autor em Novembro 1999 na sua casa de Sintra

Necrologia em Avante ! , 10-4-2003

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julho 18, 2003

NOTAS BIOGRÁFICAS - Francisco Duarte Sacavém

(Caneças – Loures, 1915 -10/5/2003)

Pseudónimos : “Loureiro”, “Louro”, “Neto”

Empregado bancário (no Banco Espírito Santo), lugar que abandona em 1938 para passar à clandestinidade. Militante do PCP desde 1934, do CC desde 1936 e do Secretariado desde 1938. Faz parte do CR de Lisboa até 1939, como coordenador da agitação e responsável da distribuição da imprensa nas cinco zonas de Lisboa.

Segundo alguns testemunhos, teria sugerido a Bento Gonçalves a possibilidade de “roubar” 500.000$00 do banco para o partido, hipótese que Gonçalves rejeitou. ”Pavel” informava, em 1938, a IC de que se tratava de um “camarada activo, fiel ao partido e disciplinado. Goza da confiança entre os camaradas”. “Ficamos com boa impressão do seu trabalho.”, anota Blagoeva.

Passa à clandestinidade em 1938, vivendo em Amiais de Baixo (Santarém) mantendo-se nessa condição até 1943. Membro do Secretariado à data da “reorganização” (junto com Vasco de Carvalho) , foi duramente atacado como responsável do “grupelho provocatório” . Depois de durante algum tempo colaborar com Vasco de Carvalho na resistência à “reorganização”, acabou por abandonar a direcção do partido devido às críticas e pressões dos “reorganizadores”. A atitude ambígua de Sacavém, não evitou a sua expulsão em 1941, ratificada em III Congresso em 1943.

Devido a ter-se afastado do chamado “grupelho”, a atitude da nova direcção do PCP foi mais conciliatória com Sacavém do que com Vasco de Carvalho. Sacavém manteve-se até ao 25 de Abril nas franjas do partido, participando nas suas iniciativas “unitárias”. Isso levou-o a ser preso em 1953 , em conjunto com os membros do grupo que esperava Maria Lamas.

Depois do 25 de Abril voltou ao PCP onde militava no Centro de trabalho de Caneças, terra de sua naturalidade.


Fontes:

Avante! , 29/5/2003

Avante!, 3, Outubro 1941 (expulsão)

[Blagoeva] , Informação - Secreto, 1/9/1938 (Arquivos da IC)

(O C.C. do PCP (SPIC) ),O Menino da Mata e o seu Cäo "Piloto", (Lisboa) ,Colecçäo (Azul), (Novembro 1941)

Duarte [Álvaro Cunhal] A Actividade do Grupelho Provocatório, Avante!, s.l., 1944

I Congresso do Partido Comunista Português – Resoluções, Lisboa, Editorial Avante, 1943

Francisco Ferreira , Entrevista ao autor

José Pacheco Pereira, Álvaro Cunhal - Uma Biografia Política, Vol. II , Lisboa, Círculo de Leitores, 2001


Processos no ANTT – PIDE/DGS


Processo: SC SPS 854 (NT 4299)

Processo: SC RGP 21425

Processo: SC PC 117/53 (NT 5087)

Processo: DEL P PI 28599 (NT 3896)

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julho 13, 2003

NOTAS BIOGRÁFICAS - Policarpo Marcelino Gonçalves

(Pernes, 1904-15/6/2003)

Moleiro em Pernes, terra da sua naturalidade, onde tinha um moinho. Militante do PCP desde a década de quarenta, desenvolveu grande actividade clandestina na região sob direcção de Soeiro Pereira Gomes. No seu moinho estiveram Soeiro Pereira Gomes, Álvaro Cunhal, Pires Jorge e Guilherme da Costa Carvalho. Durante a estadia de Soeiro em Pernes foi aí escrito e editado o jornal clandestino Ribatejo que se publicou, utilizando o nome do MUNAF, de Novembro de 1945 até 1952.
Tornou-se uma figura local “muito prestigiada, modesta e respeitada” no dizer do Avante! tendo participado em várias cerimónias em homenagem a Soeiro.

Fontes :

Avante !, 10/7/2003

Policarpo Marcelino Gonçalves, Alguns Apontamentos sobre as Recordações da Minha Vida, Pernes, 1997.

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julho 03, 2003

NOTAS BIOGRÁFICAS - Gracinda da Costa Vaz

(1926-28/6/2003)

Militante do PCP desde a clandestinidade. Membro da organização de freguesia do Feijó.

Avante !, 10/7/2003

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julho 01, 2003

50 ANOS DE VIDA LITERÁRIA DE URBANO TAVARES RODRIGUES

A propósito dos cinquenta anos de vida literária de Urbano Tavares Rodrigues realizam-se uma série de iniciativas e homenagens por todo o país. Em Fevereiro, houve uma exposição bio-bibliográfica sobre o escritor em Évora, organizada pela Câmara Municipal de Évora . Nessa exposição estiveram expostas "mais de uma centena de fotografias do espólio pessoal de Urbano Tavares Rodrigues que ilustram várias fases e facetas da sua vida. As fotos apresentam o escritor entre a família, amigos e figuras públicas. Do acervo em exposição constam também livros do autor, algumas edições especiais, inclusivamente traduções em línguas estrangeiras, diversos ensaios e alguns manuscritos." ( PNN - agencianoticias.com )

Durante a primeira semana de Julho é feita uma homenagem a Urbano na Cooperativa Árvore, no Porto. O programa, segundo o Jornal de Notícias de 1/7/2003, inclui:

"Hoje, José Manuel Mendes lerá e comentará paginas do escritor, que estará presente para trocar impressões. O Coro Madrigália interpretará canções escolhidas pelo homenageado.
Amanhã, a obra de Urbano tavares Rodrigues, como professor, será abordada por Batista-Bastos, Helena Buescu e Luís Adriano Carlos.
Depois de amanhã, Isabel Pires de Lima e Maria João Reynaud falam sobre a ficção de Urbano.
Finalmente, na sexta-feira, um debate encerra a homenagem. Presentes Mário Soares, Freitas do Amaral, Miguel Veiga, José Barata Moura e Urbano Tavares Rodrigues. O tema é "O intelectual empenhado no limiar do limiar do século XXI".

Publicado por José Pacheco Pereira em 08:01 PM | Comentários (1)

NOTAS BIOGRÁFICAS - Carlos Nascimento

(Lisboa, ? – Junho 2003)

Operário fundidor, militante do PCP “há longos anos” e activista operário antes do 25 de Abril. Desenvolveu a sua actividade em Setúbal.

Fonte : Avante! , 26/6/2003

Publicado por José Pacheco Pereira em 07:46 PM | Comentários (0)

C.M. DE COIMBRA COMPRA CASA DE JOÃO JOSÉ COCHOFEL


“A Casa do Arco, em Coimbra, que pertencia aos herdeiros do poeta João José Cochofel, passam, após restauro, a edificio sede da futura Casa da Escrita, por decisão da Câmara daquela cidade, que adquiriu o edificio por 750 mil euros. 0 objectivo é fazer ali um local destinado ao acolhimento de escritores e obras literária, a instalação de uma biblioteca, urna fonoteca, bem corno palco da diversos acontecimentos culturais.(…) . Recorde-se que pela casa de Cochofel passaram, dos anos 40 ao 25 de Abril de 1974, numerosos escritores e artistas amigos de João José Cochofel, nomeadamente José Gomes Ferreira, Fernando Lopes Graça, Carlos de Oliveira, Augusto Abelaira e Eduardo Lourenço, que ali conviveram com o proprietário em tertúlias de que há relatos na literatura memorialista portuguesa.”

(Jornal de Letras , 25/6/2003)

Publicado por José Pacheco Pereira em 07:33 PM | Comentários (0)

junho 22, 2003

NOTAS BIOGRÁFICAS - António João Caeiro

(Aldeia Justa – Grândola, 1927-31/5/2003)

Militante do PCP desde a década de quarenta, participou na luta pelas oito horas de trabalho (1961-2) o que o levou à prisão. Posteriormente emigrou para França, continuando ligado ao PCP. Regressou depois do 25 de Abril continuando a militar na organização de Grândola.

Fonte: Avante ! , 18-6-2003

Publicado por José Pacheco Pereira em 07:11 PM | Comentários (0)

junho 14, 2003

NOTAS BIOGRÁFICAS - António Maria Candeias

(Grândola , 1935 – 19/3/2003)

Empregado dos Caminhos de Ferro, “desde muito novo participou em actividades do Partido ". Trabalhou posteriormente no Sindicato dos Bancários do Sul e Ilhas, em Lisboa, e foi delegado sindical do Sindicato dos Trabalhadores do Comércio.
Reformado em 1994 militava na Organização da Freguesia do Alto de Seixalinho .

Fontes : Avante ! , 30-4-2003

Publicado por José Pacheco Pereira em 11:05 PM | Comentários (0)

junho 08, 2003

MOVIMENTO COMUNISTA INTERNACIONAL - MEIR VILNER


Uma breve biografia de Meir Vilner encontra-se no jornal Haaretz . Vilner foi um dirigente histórico do PC de Israel , e era o último sobrevivente dos signatários da Declaração de Independência de Israel .

Publicado por José Pacheco Pereira em 11:23 AM | Comentários (0)

maio 28, 2003

MOVIMENTO COMUNISTA INTERNACIONAL - WALTER SISULU

Duas biografias de Walter Sisulu , um dirigente nacionalista sul-africano , próximo do PC Sul Africano recentemente falecido . Uma "oficial" , de responsabilidade do ANC , e outra do African History .

Publicado por José Pacheco Pereira em 11:11 AM | Comentários (0)

maio 27, 2003

CINQUENTENÁRIO DA MORTE DE STALINE

No ano em que se comemora o cinquentenário da morte de Staline é interessante lembrar alguns aspectos do que foi o estalinismo no PCP . O artigo recente de João Madeira , referido na bibliografia , acrescenta pouco ao que já se sabe do estalinismo no PCP , de que o seu livro Os Engenheiros de Almas . O Partido Comunista e os Intelectuais (dos Anos Trinta a Inicios de Sessenta) é o estudo mais completo . O poema que publicamos junto , de autoria de um "jovem português" não identificado ( "José Didopro" ) , é um exemplo típico do culto de personalidade a Staline e circulou entre funcionários e militantes do PCP entre 1954 e 1955 . Na versão que conhecemos dactilografada uma palavra é ilegível .


Adeus , camarada Staline !

Ó Sol que nos abandonas , após tantos dias nos iluminares !
Ó estrela do Kremlin que empalideces , após tanto tempo rubra !
Adeus , camarada Staline !
Milhões e milhões de homens gemeram de dor ao receber ....... [ilegível ] .
Milhões e milhões se cobriram de luto .
Adeus , camarada Staline !
O funeral passa
A vermelha praça negro se torna .
Todas as praças do mundo se tornam negras .
Adeus , camarada Staline !
Cortejo simples , grandioso , tal como o homem.
Homem ! Mais que Deus !
Vejo-te , como tantos
E como tantos choro .
As lágrimas correm-me ,
Que são gotas no largo oceano jorrado dos olhos dos povos .
Pagam-te o amor com amor
Ó mais odiado e amado dos mortais !
Adeus , camarada Staline !
Nunca serás esquecido !
O caminho que nos indicaste será seguido
Tu que foste sempre um exemplo de modéstia , da ciência !
Só tu confessaste erros ,
Mas só de ti aprendemos
Adeus , camarada Staline !
Na tua doutrina oremos
Por ela as mãos daremos
E o mundo revolveremos
Para que haja Paz !

9 de Março de 1953

José Didopro

Publicado por José Pacheco Pereira em 11:03 AM | Comentários (0)

maio 25, 2003

NOTAS BIOGRÁFICAS - Artur Batista Vieira Bastos

Empregado do Comércio e, depois de 1924, patrão (comerciante?). activista, mutualista e associativo , faz parte da direcção do Montepio Aliança, e como delegado do cofre de assistência dos Caixeiros Portugueses, pertenceU ao Conselho federal da Federação portuguesa dos empregados do comércio. Colaborou em Era Nova entre 1919 e 1921.
Fundador do PCP participou nas suas reuniões de formação tendo feito parte do centro comunista de Lisboa em 1922. EM 1923 participa na conferência de 4 de Maio e por ter apoiado Rates é “expulso” pelo grupo de Caetano de Sousa. Nesse mesmo ano é delegado ao I Congresso para a Comissão central do PCP, mas não chega a tomar posse (?). Após 1924, não se conhecem actividades no partido.

Publicado por José Pacheco Pereira em 10:41 PM | Comentários (0)

NOTAS BIOGRÁFICAS - Raúl Batista

Metalúrgico (torneiro de metal).
Editor em 1912 do Jornal Germinal de Setúbal. Preso em 1919, foi signatário do primeiro manifesto da Federação Maximalista. EM 1921 fez parte da Comissão Geral de Educação e Propaganda do PCP e, na crise do partido de 1923, apoia o grupo de Rates. Participa no I Congresso do PCP em 1923, de que permanece activista em 1924.
Como activista sindical fez parte da comissão técnica do Sindicato Unitário das Classes Metalúrgicas de Lisboa.

Publicado por José Pacheco Pereira em 10:30 PM | Comentários (0)

NOTAS BIOGRÁFICAS - Carlos de Araújo

Arsenalista do Exército, militante sindical. Membro fundador do P.C.P., um dos principais organizadores do C.C. de Lisboa, foi a figura central do primeiro grande conflito com a C.G.T. A sua defesa das posições do partido, quando membro da U.S.O. de Lisboa, levou-o à irradiação da C.G.T. e posteriormente ao impedimento da sua participação no III Congresso Operário, para que tinha sido mandatado pela Associação dos Correeiros. Tornou-se então um dos mais críticos membros do partido face à dominação anarco-sindicalista da C.G.T.. O seu papel no PCP, principalmente na organização de Lisboa, foi fundamental em todo o período da I República. Foi membro da direcção do C.C. de Lisboa, em 1921, da Comissão Municipal Comunista em 1922, e da Federação Comunal de Lisboa em 1924. Em 1923, participou na conferencia de 4 de Março, mas apoiou Rates, o que lhe valeu ser expulso por C. de Sousa. Foi delegado do I Congresso pela Comuna Delescluz. Em 1925-6 liga-se à Esquerda Democrática, abandonando o partido e , posteriormente ao 28 de Maio , adere à União Nacional.

Publicado por José Pacheco Pereira em 10:24 PM | Comentários (0)

NOTAS BIOGRÁFICAS - João José Gomes

Notícia necrológica de João José Gomes , oposicionista , activista das campanhas eleitorais desde os anos cinquenta e fundador do PS .

Publicado por José Pacheco Pereira em 11:00 AM | Comentários (0)

NOTAS BIOGRÁFICAS - José Carlos Ary dos Santos

Página sobre José Carlos Ary dos Santos , poeta , declamador , militante do PCP .

Publicado por José Pacheco Pereira em 10:54 AM | Comentários (1)

maio 24, 2003

NOTAS BIOGRÁFICAS - Álvaro Duarte Cerdeira


Carregador e descarregador do Porto, fora deportado do Brasil em 1919. Durante a sua estadia no Brasil participara como delegado no Congresso Internacional Anarquista Sul Americano e fora membro fundador do P.C. Brasileiro, de que tinha o n.º 44. Em seguida à sua deportação esteve preso e depois de libertado ligou-se à F.M.P.. Fundador do P.C.P. no Porto fez parte dos corpos directivos do C.C. do Porto e da Comissão Municipal Comunista. Ainda em 1921 é protagonista de um grave conflito pela liderança da Associação de Classe dos carregadores e Descarregadores do Porto, defrontando uma maioria anarco-sindicalista. Em 1923 faz parte da Comissão Executiva do C.C. de Lisboa (Secção do P.C.P), organização liderada pelo grupo de Caetano de Sousa.
Desconhece-se a sua actividade posterior, embora apareça em 1929 como colaborador de O Proletário, sediado em Meknes, em Marrocos.

Publicado por José Pacheco Pereira em 10:20 PM | Comentários (0)