Secção: Estudos

julho 15, 2005

Júlia Coutinho - JOSÉ DIAS COELHO. A COERÊNCIA DO SER E DO FAZER

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«Não chegou a adquirir fama o nome de José Dias Coelho […] e as histórias da arte, se não forem muito minuciosas, ignorá-lo-ão»

(J-A França, Diário de Lisboa de 04-02-1977)

1 - Um estudo recente sobre a Escultura Portuguesa ligada à escola de Lisboa 1 revela-nos serem os anos quarenta/cinquenta os “menos amados” pelas críticas da época e actual. Alerta-nos para a premência do estudo das motivações que têm ignorado e omitido as obras e os nomes desses escultores e faz eco, ainda, do sentimento de alguns deles, ainda vivos, que dizem não se reconhecer numa historiografia que genericamente os apelida de “estatuários” e os vota ao esquecimento. 2

Reconhecendo a importância de um estudo aprofundado – que não este –, importa salientar que este silêncio tem dois grupos de causas, ambos enraizados na sociedade político-cultural vigente. No primeiro grupo incluímos o ensino anacrónico - artístico, pedagógico e curricular - ministrado na Escola de Belas Artes de Lisboa e a inexistência de ateliers e galerias. No segundo temos a censura e a repressão impostas pelo regime e a inexistência de uma crítica isenta. Esta, quando não situacionista, era exercida pelos próprios artistas (J Pomar, L Freitas, F Azevedo, F Lemos, J-A França) gerando fenómenos parciais em função de grupos ou promoções que acabaram por tornar-se numa "tremenda prática portuguesa: a omissão" 3 para além dos regimes políticos, exercida em função de lobbies dominantes.

Hoje, à distância de meio século e três décadas após Abril, quando o sentido de justiça faz mais sentido e da arte se fez História não deixa de ser preocupante que essa omissão continue. Alguns artistas precisamente os que não tiveram escolha, os que não pactuaram nem beneficiaram de encomendas estatais mercê de uma ética assumida com prejuízo das próprias carreiras, serão ignorados. Não lhes assiste o direito à Memória. E aqui incluímos José Dias Coelho.

2 - Se procurarmos na sua obra o conceito romântico de originalidade que acentua a unicidade e irrepetibilidade largamente defendido pelos artistas da primeira geração do modernismo português, não o encontraremos. Percebe-se a ausência dessa ambição que, sejamos claros, era já um anacronismo no período que viu nascer a maioria da sua produção: anos quarenta e cinquenta.

Mas se não podemos considerá-lo original também não podemos vê-lo sob conceitos academizantes associando-o ao exercício da mimesis e ligando-o à prática da Escola de Lisboa onde a escultura foi a última das artes a ser dotada de ensino erudito e a ortodoxia formal limitava os artistas à reprodução invariável dos modelos antigos. As obras de Dias Coelho desmentem-no.

Tão pouco podemos atribuir-lhe uma lógica conforme aos conceitos naturalistas dominantes na comunidade artística oficial, alheada dos movimentos da arte além fronteiras e fiel aos mestres intestinos de fins do século.
Aos artistas, segundo Luigi Pareyson, colocam-se duas maneiras de visualizar ou reflectir a arte que os antecede: ou a encaram “na sua perfeição dinâmica e na sua operativa exemplaridade [geradoras] da possibilidade de uma operação (…) original (…) de uma imitação criadora; ou podem limitar-se a vê-la na sua “extrínseca e imóvel perfeição, e então a forma decai para fórmula, o modelo para módulo, o estilo para cunho, a obra para estereótipo e não aparece senão a estéril repetição”.4 Este não é o caso de José Dias Coelho.

E por não raro depararmos com alguns radicalismos voltamos a Pareyson para afirmar que o dilema entre uma “genialidade artística” ou o “servilismo da repetição” é demasiado peremptório correndo-se o risco de remeter “para o inerte reino da imitação tudo quanto não se inclua nos cumes raríssimos (…) de uma prepotente inovação (…) e perder o critério para distinguir a imitação criadora e inovadora da imitação repetitiva e reprodutiva”. 4 Daqui enferma muita da crítica e da historiografia artística portuguesa.

Sem rupturas morfológicas a escultura de Dias Coelho reflecte o ecletismo de quem necessariamente procura uma plasticidade própria em torno das mais diversificadas fontes. Inconformista, ele persegue ideários cívicos e estéticos de acordo com o momento histórico que se vive e as concepções humanistas de Bento de Jesus Caraça (1901-1948). Colocando a tónica no Homem, Caraça definiu valores éticos e culturais que influíram toda uma geração e subjazeram ao ideário dos artistas que então procuravam, por caminhos comuns, uma singularidade pessoal.

Aderente do neo-realismo, o movimento que melhor enformou desta ideologia totalizante - pese embora um estudo aprofundado nas artes plásticas esteja por fazer -, a verdade é que as suas obras não reflectem a iconografia que se convencionou associar-lhe. Com uma ideologia comum que as Exposições Gerais de Artes Plásticas traduzem, nem sempre aos artistas as motivações iconográficas se lhes equivalem o que deita por terra certa argumentação de um fazer estritamente direccionado ou arregimentado.
Movendo-se num universo realista ou refugiando-se num verismo lírico muito seu, Dias Coelho tem no desenho a sua expressão mais constante o que “não deixa de se revestir de particular importância – na medida em que, entre nós, o escultor rarissimamente desenha ou procura”, como assinalou Pomar.

De notar que lhe foi atribuida pelos seus pares uma 3ª medalha de escultura num dos salões anuais da SNBA (Primavera, 1949) o que atesta o reconhecimento de um percurso de pesquisa e de liberdade criadora: ”Dias Coelho está a entrar num caminho seu, de teimosa procura e simplificação fecunda. Simplificação que não significa eliminar dificuldades, mas constatá-las e vencê-las através de persistente e inteligente trabalho o mais das vezes silencioso e sem alardes” – palavras que o perfilam na demanda da sua plasticidade. (J. Pomar, Vértice, Junho 1950)

Artista moderno e não conformista, reconheçamos a Dias Coelho um sentido de pesquisa e de inovação sempre perseguido e nunca abdicado, mesmo quando as contingências de uma vivência clandestina o obrigaram a um dificílimo exercício do fazer. Conhecem-se duas pequenas esculturas de 1958, duas “maternidades,” em terracota, uma das quais oferece ao médico que acompanha o nascimento da sua filha Margarida. Em plena clandestinidade.

3 - O conjunto de obras escolhidas para esta exposição, não sendo absolutamente representativo da produção de Dias Coelho, dá-nos uma visão abrangente dos géneros e temáticas que povoaram o seu universo. Num total de 31 peças em que apenas duas são esculturas, reúnem-se aqui praticamente todos os géneros, temas e materiais por si trabalhados, divididos por cinco núcleos: Retrato e Caricatura; Pintura e Desenho; Imagens de Pinhel; Clandestinidade; Escultura e Cerâmica.

Como género artístico, o Retrato assume um lugar único no contexto geral da sua obra seja em desenho, pintura, modelagem ou caricatura. Proliferam os retratos que se conhecem da família, dos amigos, de colegas e de personalidades da vida cultural portuguesa como Isabel Aboim Inglês, Alves Redol ou Fernando Namora.

A característica que mais ressalta deste conjunto de obras é que praticamente todas correspondem à fase mais juvenil do artista, sendo muitas delas anteriores à sua entrada em Belas Artes (1942). Veja-se, por exemplo, a “Cabeça de Rapaz” (1938), cópia de uma gravura renascentista, que corresponde aos seus 15 anos Apenas os retratos de Margarida e de Teresa (1957), feitos na clandestinidade, se demarcam cronologicamente dos restantes que não ultrapassam a primeira metade da década de quarenta: os retratos de Fernando (1940), Natália (1941), pai (1942) correspondem aos seus 17, 18 e 19 anos de idade. Contudo, pese embora a pouca idade de Coelho, é notória a sua capacidade na percepção do essencial, a grande economia de meios e o domínio absoluto do traço. Especial destaque nos merece o retrato da mãe, denotando um sentido de composição apurado por onde perpassa já uma assimilação cubista no tratamento das massas e um domínio do claro-escuro denunciador de um fazer escultórico. Idêntico tratamento tem a “Mulher Grávida” que apenas a composição dos panejamentos sugere, conferindo uma solidez que um traço expressionista tende a afastar da idealização.

De uma maneira geral o autor não oculta as suas influências. Adopta com frequência o irrealismo russo e o lirismo eslavo, principalmente o irrealismo de um Chagall, a linearidade clássica de um certo Picasso, ou a beleza poética e despojada de Matisse, esta sempre mais conseguida no traço que na cor. Veja-se o belo prato de cerâmica onde o motivo da maternidade (omnipresente na sua obra) é tratado num compromisso entre o classicismo de Picasso e a onírica delicadeza gráfica de Chagall. Quanto ao seu traçado, à sua linha firme e despojada, essa vai de Picasso a Matisse; do primeiro detectam-se vestígios, por exemplo, nas cabeças mais clássicas, de perfil grego (Par Abraçado) enquanto a sensualidade de Matisse perpassa no ondulado dos corpos. As linhas circulares envolvem as duas figuras unindo-as num espaço uterino e protector.

Das obras expostas, “Casal com Duas Crianças” (1952) - um dos poucos óleos que se lhe conhecem -, é a que mais impressiona pelo lirismo temático, pela composição e pela qualidade plástica. Lembrando Van Gogh e Vlaminck na delimitação dos espaços a que o arrojo da árvore cezanneana confere dinamismo, a composição apresenta um ritmo centrífugo que nos é dado pela distribuição espacial e pela pincelada. Uma discreta noção de vórtice com epicentro no casal oferece-nos a visão intimista e feliz em que o autor se revia, num momento em que tentava formar a sua própria família.

Nas duas peças escultóricas encontramos as temáticas que se lhe impõem e o artista persegue desde que conhecera Margarida: a “Maternidade” e a “Família”. Nelas encontramos já uma proposta pessoal do autor, bem conseguida sobretudo na primeira, onde é notória a procura constante duma simplicidade formal aliada à plenitude e sensualidade volumétricas que a modelação, a que sempre recorre, acentua.

As duas obras do núcleo Clandestinidade correspondem a uma fase determinada do seu fazer militante, onde a temática neo-realista está presente. Trata-se de um fazer em função de causa públicas. O estudo para o desenho “Morte de Catarina” assinala o assassinato de Catarina Eufémia pela GNR, em Baleizão (1954).
Já “Prisioneiros Políticos” um desenho extremamente bem conseguido, ilustrou milhares de panfletos e serviu de bandeira na angariação de proventos para auxílio aos presos políticos e às suas famílias que Salazar e a PIDE mantinham indefinidamente nas prisões. Talvez seja a sua obra mais divulgada, apesar de circular anónima.

Pinhel, a sua terra bem-amada, não podia deixar de estar presente na obra de Dias Coelho. Ele que se orgulhava das suas origens beirãs e aqui regressava com frequência, deixou imortalizados, como vemos, os mais emblemáticos recantos da cidade. É precisamente na sua “Paisagem com Castelo” que melhor podemos apreciar o quanto bebeu da lição cubista. Curioso ainda o cartaz para as Festas da Cidade, (seria interessante averiguar da data) onde não faltam os principais ex-libris pinhelenses.


«Há quem tombe por um rio / Impetuoso e comum.
Alcântara dos tiros cegos / Alcântara sessenta e um

(Pedro Alvim in Notícias do Bloqueio déc. 60)

4 - José Dias Coelho tinha 38 anos quando foi morto (1961). Dividido entre a Arte e a Política optara por esta, o que significava, então, passar a viver na clandestinidade. Tomara essa decisão seis anos antes (1955). Com todas as contingências inerentes. Já na sua ausência, a 10ª Exposição Geral de Artes Plásticas (1956) mostrara a derradeira participação pública deste artista que, corajosamente, abdicara de uma carreira promissora, da sua identidade e da própria liberdade pessoal para, anonimamente, combater pela liberdade de todos. A força anímica, acreditamos, adveio-lhe de ter consigo a mulher e a filha, esse reduto familiar que lhe era fundamental.

Talvez não tenha deixado uma Obra. Não viveu o suficiente para isso. Mas tem direito à Memória. Por generosidade e modéstia de carácter nunca pensou em termos de carreira. Não fomentou exposições individuais, não procurou sucesso pessoal. Colocou sempre os objectivos colectivos acima de quaisquer outros. A sua arte ficou dispersa pela família, pelos amigos, pelos camaradas, por todos os que amava. Fazia-a por prazer. Oferecia-a a quem a sabia apreciar. Era a sua forma de afecto. Era aquele “pedaço” de si “que se quer dar” - de que nos fala nos poemas.

É ainda de afectos que falam os seus retratos. Mais do que uma simples representação eles traduzem o seu desejo de suspender o tempo, tornar presente a ausência, perdurar os afectos para além do tempo. Fixá-los numa imagem «viva». Porque a sobrevivência se consegue pelos elos afectivos. Que induzem a diálogos interiores. Que constroem uma cadeia colectiva de outros afectos. E de valores. Valores e Afectos que se pretendem imunes à morte. Intemporais.

1 – Aida Sousa Dias, O Corpo Feminino na Escultura dos Anos 50 em Portugal, FBAUL, 2000, p.10 e seg.
2 _ José-Augusto França, A Arte em Portugal no Século XX, p. 260 e seg.
3 _ J F Pereira, Reflexões sobre as Teorias da Escultura Portuguesa in ARTETEORIA N 2, 2001, p 17-18
4 _ Luigi Pareyson, Os Problemas da Estética, ed. Martins Fontes, S Paulo, Brasil, 1997, p. 137-138

Publicado por José Pacheco Pereira em 06:10 PM | Comentários (0) | TrackBack

junho 19, 2005

José Pacheco Pereira - CUNHAL E GALVÃO ENTRE ASSASSINOS, LADRÕES E VIOLADORES

José Pacheco Pereira, "Cunhal e Galvão entre assassinos, ladrões e violadores", Público, 14/6/2005

Cunhal e Galvão entre assassinos, ladrões e violadores

(Fragmento do III volume da biografia de Álvaro Cunhal ainda inédito, simplificado e sem notas)

Em 29 de Agosto de 1952, Cunhal é transferido para a enfermaria da Penitenciária, onde vai permanecer até à sua ida para Peniche. Esta mudança faz terminar na prática o regime rigoroso de isolamento. Embora Cunhal pudesse alegar doença., as suas cólicas, a sua astenia, a verdade é que esta transferência era um acto deliberado para suavizar a pena de Cunhal. A situação de Cunhal era agora a de “preso doente, com baixa à enfermaria prisional, por falta de enfermaria em Peniche “.

A enfermaria da Penitenciária era (e é) um edifício nas traseiras da “estrela”, rodeado por um pequeno jardim, e do qual se domina não só a cadeia, como se pode ver a rua em frente. No seu interior há um longo corredor ladeado pelas celas individuais, mas o seu aspecto e abertura ao exterior nada tem em comum com o espaço fechado e claustrofóbico da Penitenciária. A luz entra normalmente e o aspecto cuidado da enfermaria contrasta com a sujidade pegajosa dos braços da “estrela”. A transferência devia ter parecido a Cunhal uma passagem para o paraíso.

O que essencialmente mudou indo para a enfermaria, foi o fim do isolamento. A ida para a enfermaria, “depois de muitas reclamações”, permitiu-lhe contactar com “dezenas, se não centenas “ de presos. Embora Cunhal lá estivesse cerca de um ano, na enfermaria a permanência média era de uma ou duas semanas e os presos não acamados podiam frequentar o “passeio”, um pequeno jardim limítrofe ao pavilhão. O “passeio” permitia um olhar sobre a liberdade único na cadeia:


O passeio da enfermaria era o único lugar donde, para Ia dos telhados, dos armazéns, dos muros e das guaritas das sentinelas, se viam, a uns cento e tal metros, do outro lado da rua, casas da cidade. Os pátios afunilados nos triângulos asfaltados entre as seis alas em estrela e o arco circundante dos edifícios das oficinas tinham o céu como único horizonte para là da cadeia. O passeio da enfermaria era uma abertura para o exterior, a visão tentadora de um espaço de liberdade.

O “passeio” permitia também ver nessa liberdade o reverso da privação sexual dos presos, porque das janelas em frente se podiam ver excepcionalmente… mulheres.

Nesse local de maior liberdade, Cunhal pode agora conviver com outros presos. Em Outubro de 1953, chega à enfermaria da Penitenciária, transferido de Peniche, o capitão Henrique Galvão. Galvão iniciou a sua queda em 1949 quando apresentou na Assembleia Nacional um relatório condenando a colonização em Angola. Em 1951, apoiou a candidatura de Quintão Meireles, colocando-se pela primeira vez do lado da oposição, embora mantendo o seu violento anticomunismo. Preso em 1952, por envolvimento numa conspiração que começara a preparar dentro da própria candidatura de Meireles, foi condenado a três anos de prisão maior.

Galvão tinha uma efectiva liberdade de movimentos e cumplicidades, que Cunhal nunca teve dentro da cadeia, e recebia quem queria. Na cadeia, Galvão, “beneficiando de um regime prisional pouco atento”, escreveu e divulgou, principalmente no Brasil, uma série de artigos muito hostis contra o regime. Escreveu igualmente um romance considerado “injurioso” e incitando à rebelião militar contra Salazar. Mais do que isso: conseguiu, com apoio de um estudante preso e cumplicidades no interior da cadeia, escrever vários panfletos e reproduzi-los num duplicador existente na Penitenciária, fazendo-os sair para distribuição no exterior. Segundo Mário Soares, o chefe dos guardas que colaborava com Galvão, veio a suicidar-se depois de descoberto.

A fúria da PIDE e dos elementos do regime que acusava, denunciando escândalos, compadrios e corrupções, foi enorme. A “benevolência” de que beneficiaria na cadeia motivou a repetição de incidentes entre os Ministérios da Justiça e Interior, assim como a queda em desgraça do director da cadeia. Cunhal aliás refere, sem associar o caso a Galvão, o fim de um breve clima de reformas no tratamento dos presos. Julgado e condenado a uma nova pena muito pesada, Galvão foi então transferido para Caxias e depois para Peniche. Após sete anos de prisão, fugiu, em 1959, do Hospital de Santa Maria.

Durante cerca de um ano, há agora dois presos ilustres na mesma cadeia, vindos de dois mundos muito diferentes e com concepções muito distintas da vida. O modo como se relacionaram, nos breves contactos que podiam ter, é controverso. Há testemunhos contraditórios sobre a atitude de Cunhal face a Galvão, afirmando alguns que Cunhal apreciava a coragem de Galvão e o respeitava na cadeia. Como sempre acontece com o olhar de Cunhal, depende da altura em que os formulou, do julgamento político que fazia sobre a personagem Galvão numa época dada. Ora, em 1953, Cunhal só podia ver Galvão com enorme suspeição, não só devido ao seu passado no regime de Salazar e ao seu anticomunismo militante, mas também pela sua colaboração com a candidatura Meireles, atacada pelos comunistas, entre outras coisas, por “colaborar” com dissidentes do regime.

Do que não restam dúvidas é que o tratamento que Cunhal dá a um Henrique Galvão, retratado ficcionalmente por “Manuel Tiago” como o “Capitão”, é profundamente hostil. Também o “Capitão” fora enviado para a Enfermaria Prisional devido aos “inconvenientes da manutenção de presos políticos em cadeias comuns”. Mas o “Capitão” não era personagem recomendável:

“O Catalão e o Capitão contavam as suas proezas. A bem dizer, do Capitão não se podia falar propriamente de proezas. Os roubos e fraudes tinham sido muitos e vultosos. Desfalques, abusos de confiança, assinaturas falsas, cheques sem cobertura, Quantias elevadas. Tudo só porém por processos demasiado conhecidos e rotineiros para darem reputação e prestigio.

Para Cunhal, na pele de “Manuel Tiago”, a figura do “Capitão” servia também para se demarcar no comportamento face aos presos comuns. Fundamental na experiência prisional de Cunhal foi o facto de ter partilhado o seu espaço carcerário com presos comuns. Cunhal descreve o impacto da chegada de um grupo de presos políticos a uma Penitenciária cheia de criminosos, quase todos oriundos dos grupos sociais mais marginalizados da sociedade:

“A situação dos três políticos do terceiro varan¬dim da ala C prolongava se já há meses sem alte¬ração. Os presos sabiam disso, mas habituados a castigos e a situações complicadas comentavam pouco. Além do mais não apreciavam políticos. Os políticos, quando em casos raros iam para ali, não eram obrigados ao uniforme e não tinham número a marcá los. “

Esse aspecto de diferenciação social e consequente distanciação era acentuado pelo comportamento de Galvão. Cunhal anota que “um que por lá tinha passado (…) ao ser lhe concedi¬do passeio com os outros presos, não falava a ninguém e nem sequer dava os bons dias “. Galvão era sobranceiro para com os presos comuns e várias vezes protestou por ter que partilhar a enfermaria com presos tuberculosos e que considerava “loucos”. Cunhal assume a atitude completamente distinta de

não tomar uma posição de soberba por ser o único preso que ali estava vestido à civil. Todos os outros estavam com as fardetas, com o barrete e o número nas costas. O facto de estar vestido com a minha roupa não prejudicou de nenhuma forma o falar com eles. Não estava com o preconceito de quem não tinha nada a ver com aqueles homens, de quem é um preso politico e por isso não convive com os presos comuns. Procurei falar com eles como se o crime que tivessem cometido não influísse no trato. (…) Eu não lhes falava de cima para baixo e procurava que eles não me falassem de baixo para cima”

Durante a estadia de Cunhal na Penitenciária, a maioria dos seus companheiros presos eram homicidas, ladrões, violadores. Cunhal retrata essa população prisional no seu livro, descrevendo os tipos mais ou menos distintos dos diferentes criminosos. Como a polícia, Cunhal trata-os pelos números ou pelas alcunhas: é o “Jardineiro”, o “Velhote”, o “Falua”, o “Serpentina”, ou então os nomes plebeus em que o nome pouco se distingue da alcunha: o Garino, o Parrama, o Virgolino. Na sua maioria são camponeses, ou de origem camponesa. As suas histórias e os seus crimes ou são narrados de uma vez só ou então surgem á medida que boatos ou confidências avulsas as revelam originando personagens completas.

Cunhal não é indiferente a este mundo complexo e violento, tem por ele um evidente fascínio. Evocando a “ sua longa experiência na Penitenciária, onde conviveu com "assassinos, ladrões, violado¬res" sempre repetiu que a sua culpabilidade é essencialmente social, que foram "levados pelo meio social a infringir a lei»:

"Nos quase oito anos que passei na Penitenciária de Lisboa estive sete anos isolado numa ceia, sem qualquer contacto com outros presos, e um ano em regime celular mas com uma ou duas horas por dia ao ar livre com outros presos. Conheci muito de perto dezenas, se não mesmo centenas de presos de delito comum. Encontrei casos de grande riqueza humana e, inclusivamente, de generosa solidariedade. E gente que não deixou de o ser embora, por uma razão ou por outra, por uma ou outra determinante, social ou individual, tenha cometido um crime.

Havia entre eles "muitas boas pessoas» e ele próprio não se considerava " melhor que eles". Afirmou muitas vezes, quer falando da sua experiência prisional, quer do contacto que teve no meio clandestino, por exemplo com contrabandistas e passadores, a sua “confiança em valores existentes em cada ser humano, mesmo que (…) se trate de seres humanos responsáveis por crimes graves

Independentemente de se saber se o comportamento individual na prisão dos presos comuns lhe transmitiu uma forte impressão, o que escreve sobre eles emana de um ponto de vista fortemente rousseauneano, optimista sobre a natureza humana, que é um aspecto da esperança comunista ainda muito intenso nos anos trinta, os anos do “homem novo”.

Para conhecer cada homem que ali está não basta dizer matou, roubou, assaltou, burlou, violou. Havia quem dissesse que não há crimes mas criminosos. Muitos que praticaram crimes poderiam ter passado a vida inteira sem os praticar


Educado numa época onde teorias como as de Lombroso ainda tinham grande circulação, Cunhal considerava que “como comunista (...) não poderia deixar de ter confiança no ser humano “ e acreditar nas virtudes humanas mesmo dos mais cruéis criminosos. Falando dos homicidas distingue os “casos de ferocidade tocando o horror e a loucura a casos reveladores de aprumo cívico e mesmo coragem moral.”. Esse fascínio pelos criminosos comuns suscitava perplexidade nalguns dos seus companheiros comunistas.

Quando Cunhal se volta para as histórias concretas dos criminosos com quem convive, ele não deixa de as interpretar segundo um sistema rígido de valores ideológicos. Há uma enorme ambivalência nas histórias de crime contadas por Cunhal, e que ele insiste sempre terem um fundamento verídico ou serem inclusive transcrições de histórias reais. Nelas os “bons” e os “maus “ não dependem do crime cometido, mas do contexto social e do carácter dos que o cometem. Os “bons” são aqueles que tiveram uma forte motivação social para o cometimento do crime, ou que o fizeram num puro acto de revolta em que pesam as condições sociais. Os “maus” criminosos são os que actuaram por puro interesse próprio, ou traindo os seus próximos, ou que na prisão colaboram com a policia e com os guardas. Ou seja, os “bons” criminosos são quase protocomunistas sem o saberem, os “maus” são PIDEs em potência sabendo-o.

Na análise das condições sociais que geraram os “bons” criminosos – quase todos aliás, porque é da natureza humana que sejam bons – Cunhal enuncia uma análise mais próxima do anarquismo do que do comunismo, justificando o “banditismo social”. Cunhal, talvez sem se aperceber, aproxima-se aqui dos pontos de vista pré-marxistas do pai Avelino na sua ficção , retratando crimes ao acaso, suscitados pela injustiça social.

A história de Garino, que Cunhal já contara a Petrova como verdadeira, é típica do mundo mediterrânico, e tanto podia ser alentejana como andaluza ou siciliana. Ela retrata o paradigma do bandido social, o Robin Hood que rouba aos ricos para dar aos pobres:

Passara-se num daqueles prolongados períodos de desemprego e fame que varriam o Alentejo dos latifúndios. Os trabalhadores faziam concentrações, iam as Câmaras exigir trabalho, protestavam contra o governo. A única resposta eram as cargas da GNR, a ida apressada de brigadas da PIDE, espancamentos e prisões. O desemprego ficava na mesma. Na mesma também a fome negra.

Então o Garino jogou mais forte. Com dois ou três jovens amigos do seu antigo grupo de assaltos às mercearias, realizou um plano audacioso. Primeiro foram de noite ao estábulo de um ricaço e trouxeram de lá dois machos corpulentos que arrearam como puderam. Depois foram a um monte que antes tinham vigiado para apurar das existências. Porta rebentada, foi só tirar e carregar. Alguns sacos de trigo, outros de batatas e feijão e ainda o que havia numa salgadeira que estava fornecida. E ai vão eles, as aldeias e casas dispersas distribuir aquela riqueza.”


Para Cunhal a verdadeira bondade destes homens, a chave do ethos da Estrela de Seis Pontas, está na sucessiva série de gestos de solidariedade que Cunhal descreve como tendo origem nos presos comuns dirigidos a ele, preso político. O laço entre estes homens e Cunhal vem da “camaradagem”, qualidade que une os comunistas com todos os que são “desinteressados”, que são motivados por um ideal altruísta:

Um camarada significa muito na vida; significa tudo. Até no delinquente comum existe o sentimento de camaradagem, do respeito pelo homem desinteressado. Ele sabe que a luta travada pelos comunistas representa mais do que as coisas do dia de hoje, mais do que o dinheiro, mais do que a comida.

É esta união pelo “desinteresse”, pelo altruísmo, que faz somar na ficção de Cunhal, gestos sobre gestos de reconhecimento, como se, naqueles criminosos existisse um resto da reverência popular para com aqueles por quem os comunistas lutam. Retrata-se assim uma revolta dos presos comuns com o longo isolamento do “político”

Então? arriscou em voz baixa. 0 Político ainda lá está? (...) Continua isolado?
Sim respondeu o Parrana. Só o Virgolino lhe pode levar o rancho. Não permitem que ninguém lá vá. Além do Virgolino ninguém mais lhe viu a cara.
0 Augusto abanou a cabeça.
É de mais. Há já mais de dois anos que o têm ali fechado. É de mais.
Mais de três anos corrigiu o Parrana
“.

É a eles que Cunhal atribui os únicos contactos humanos que quebraram a dureza da sua incomunicabilidade e que ajudaram a suporta-la. Um deles foi o lançamento de tomates para a sua cela, episódio que contou a Petrova

Quem sabe que teria sido de Cunhal na incomunicabilidade, se certa vez não tivessem lançado um tomate às grades da cela, e que se esborrachou contra as ferrugentas traves, es¬correndo pela parede suja? Outro tomate penetrou através das grades e caiu lhe directamente nas mãos (?), depois um mais e outro ainda... Os delinquentes comuns trabalhavam na horta e isso re¬presentava um presente deles a Cunhal. Lançaram tomates pa¬ra o terceiro andar.”

Ou uma leitura em voz alta

“Depois, um deles colocou se debaixo da janela e começou a ler em voz alta. Os delinquentes comuns podiam receber jornais e livros. Cunhal passou então, a não estar isolado do mundo; uma voz fanhosa, rouca, transmitia até Cunhal o eco da luta dos seus camaradas em companhia dos quais, ombro a ombro, passou a vida.”

Ou uma “troca de rancho”

“0 Virgolino era o único a ver o comunista iso¬lado lá em cima numa cela do terceiro varandim da ala C quando lhe levava o rancho. Não gostava de falar nisso. Tinha recomendações expressas para nada dizer e assim fazia. Abria excepção falando com o Parrana pois tinha confiança nele. Fora o Parrana quem lhe dissera da vinda da PIDE, quan¬do anos atrás trouxera para ali os três comunistas. O certo é que lá em cima no terceiro varandim o último dos três continuava isolado e nada recebia de fora.
0 Parrana pensou, pensou e falou ao Virgolino.
0 homem já deve estar enjoado do que lhe levas há tantos anos. Se tu metesses na lata do ran¬cho outra coísa, eu de vez em quando dava do meu comer,
Nem penses! reagiu o Virgolino. 0 Guar¬da vê tudo. Não quero sarilhos.
0 Parrana continuou a pensar e o Virgolino aca¬bou também por pensar. Demorou mais de um mês a decidir se, mas acabou por fazê lo.
Assim uma vez trocou o rancho destinado ao isolado no terceiro varandim por bacalhau com batatas oferecido pelo Parrana. Foi uma vez. Tudo correu bem. Depois ambos acharam natural ter cor¬rido o risco. E ficaram tão reconfortados com o próprio acto que de quando em quando voltaram a repeti lo.”


Ou o gesto do transmontano Gonçalo oferecendo-lhe abrigo

Transmontano como o Augusto, o Gonçalo conversava com ele quando a ocasião se oferecia. Os casos eram semelhantes. Ambos vítimas de graves e revoltantes injustiças. Ambos involuntariamente envolvidos em situações que os levaram à cadeia por culpa de outros, não por culpa própria. Um morto num caso, um ferido grave no outro. A sociedade ou aqueles que aela mandam, de res¬ponsáveis tornam se acusadores. Fazem a lei e condenam.
Tenho andado a ver se falo contigo disse o Gonçalo ao Augusto quando nessa manhã o encontrou. Saio para a semana e lembrei me de ver contigo uma coisa.
Pensara muito naquilo. A ideia não o largava. Respeitava ao político isolado na ala C.
Sabes bem o que são as nossas serranias e as nossas aldeias. Ali ninguém dava com ele. Eu deixo te a minha direcção. Se conseguires um dia falar lhe, diz lhe que, quando sair, se me procurar, poderá viver por lá o tempo que quiser. Temos pouco, mas não lhe faltará nada.
0 Augusto tinha uma noção mais realista das coisas. Primeiro não sabia se alguma vez poderia transmitir a oferta. Depois não lhe parecia que o homem, se viesse a ser libertado, fosse refugiar se nas montanhas. Não quis entretanto desfazer a ilusão.
Está tranquilo. Se tiver ocasião, farei o que pedes.
0 Gonçalo saiu em liberdade pouco tempo depois. Nunca soube se o Augusto conseguiu ou não passar a mensagem. De qualquer forma é de presumir que durante muito tempo, lá por aldeias ser¬ranas de Trás-os-Montes, se sentisse intimamente estimulado pela oferta que fizera. É também de admitir que alimentasse a esperança de algum dia lhe bater à porta o comunista desconhecido há lon¬gos anos isolado na ala C”.

O carácter didáctico destes textos, sempre com uma lição sobre a natureza humana e a luta politica, torna-os estereotipados. Eles geraram-se na imaginação do seu autor e não custa perceber Cunhal prisioneiro, ligado como a um estranho cordão umbilical, com os seus companheiros de prisão, que lhe transmitia os ténues sinais de uma relação humana reconfortante. O isolamento é propício à efabulação e à idealização e, mais do que tudo, Cunhal desejava ver sinais do seu mundo, no momento em que mais afastado dele se encontrava

Num certo sentido é este o elo que funda a ficção da Estrela de Seis Pontas com a de Até Amanhã Camaradas, Cinco Dias Cinco Noites, e com o resto da obra ficcional de Cunhal – uma solidariedade telúrica, que representa uma visão do mundo na qual, do mesmo modo que a revolta é da natureza humana, a solidariedade entre os revoltados é o mais forte sentimento que une os homens. Cunhal descreve sempre de forma mais afectiva este sentimento do que outros, como por exemplo, o amor. Quando o amor não é descrito como uma forma superior de solidariedade, ele aparece sempre menorizado a esta partilha, a única que ele pensa ser verdadeiramente desinteressada. Mesmo nos seus textos políticos, a começar pelo que maior sucesso teve no imaginário comunista, o Se Fores Preso Camarada, é a solidariedade e a fé na humanidade que ela pressupõe, a ultima ratio para a conduta de cada um.

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abril 22, 2004

LYON DE CASTRO, PITEIRA SANTOS, A "LER" E O PCP

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Coloco em linha, para arquivo, os dois artigos que escrevi sob este título no Público.

Lyon de Castro, Piteira Santos, o "Ler" e o PCP (1)
Por JOSÉ PACHECO PEREIRA
Quinta-feira, 15 de Abril de 2004

Após a prisão de Álvaro Cunhal e de Militão Ribeiro em 1949, o PCP entra naquilo que mais tarde vem a ser descrito como um "desvio sectário" e que durou até 1955. A caracterização é branda: o PCP inicia um processo de implosão sobre si próprio, de purgas e expulsões em série e de isolamento político, abandonando a política "unitária" que tinha sido forjada desde 1943 no Munaf (Movimento Nacional Antifascista) e no MUD (Movimento de Unidade Democrática ).

O processo tem duas componentes causais: uma, a nova orientação do movimento comunista depois de 1947, com a "guerra fria" nascente, e que implicava um retorno a uma linha confrontacional entre comunistas e os seus antigos aliados da "frente popular"; outra, de carácter nacional, a repressão da PIDE contra o PCP, que o colocou quase no limite da desaparição.

Os homens-chave deste processo são Júlio Fogaça, José Gregório, Pires Jorge, Pedro Soares, mas a viragem tinha começado já no tempo de Cunhal e Militão Ribeiro. Fora do PCP, o homem-chave de toda esta história o arqui-inimigo "antipartido", foi Fernando Piteira Santos. Sem ele e sem a sua acção, não se compreende o que se passou, porque é nele que o PCP vai concentrar a demarcação com aquilo a que chama a "acção antipartido". O palco de todo este confronto político e ideológico é a "frente cultural", a sua polarização faz-se à volta do jornal "Ler", criado por Francisco Lyon de Castro, mas, na prática, dirigido e orientado por Piteira Santos.

No início da década de 50, Piteira tinha acabado de ser expulso do PCP, num processo cujos contornos formais são pouco conhecidos. Membro do partido desde a década de 30, fora o grande organizador do Bloco Académico Anti-Fascista (BAAF), organização frentista por onde passaram muitos dos membros da "nova geração" que tinha em Álvaro Cunhal um dos seus representantes e, em breve, um dos seus mentores. O estilo de Piteira é já bem patente na actuação do BAAF, com a tentativa de utilizar eventos culturais e personalidades da nossa literatura, como Gil Vicente, para um proselitismo político-cultural. As suas excepcionais qualidades de agregar pessoas e os seus extensos contactos e amizades vieram a ter um papel decisivo na reanimação do "Diabo", e na colocação do jornal no centro da fase inicial da "reorganização do PCP". Mais do que Cunhal, que ainda hesitava sobre quem apoiar, foi Piteira que o chamou a uma colaboração mais regular ao "Diabo" e lhe "encomendou" alguns famosos artigos em defesa do Pacto Germano-Soviético.

Com a estabilização da nova direcção do PCP depois da "reorganização", por volta de 1943, Piteira assumiu importantes funções no comité central (CC) do PCP, estando à frente dos contactos do Munaf e com o aparelho militar do partido, acompanhando a evolução do golpismo oposicionista do "reviralho".

Preso em 1945, com outros membros do CC, Piteira prestou declarações à polícia, como fizeram todos. Foram sancionados por isso duas vezes, a segunda das quais conhecendo o PCP os autos de perguntas integrais, mas, na maioria dos casos, essas sanções eram pouco importantes. Mais tarde, as declarações de Piteira foram contra ele usadas, de forma dúplice porque permaneceram no partido como funcionários membros, como Joaquim Campino, que tinham feito idênticas declarações. Era evidente que o ataque a Piteira tinha razões políticas, o combate às suas ideias frentistas, numa altura em que o PCP se fechava sobre si próprio. O partido iniciou então uma duríssima campanha contra Piteira, privada e pública, apontando-o como "traidor".

Foi neste contexto que Francisco Lyon de Castro, antigo membro do PCP nos anos 30 e expulso no final da década, deu emprego a Piteira Santos na sua nova editora Europa-América. O projecto Europa-América era ele próprio fruto de um activismo político do seu fundador. O nome da editora traduzia a aliança gerada pela guerra e pela esperança de um novo mundo que a vitória contra o nazismo abria. Ao convidar Piteira Santos para dirigir a editora, Lyon de Castro sabia que isso iria agravar as tensões com o partido. Na mesma altura, Lyon de Castro e Piteira Santos, assim como Mário Soares foram condenados como "titistas". Este era aliás o nome do filho de Lyon de Castro, Tito.

Quando Lyon de Castro e Piteira tomam a iniciativa de criar um novo jornal, utilizando o artifício que permitia que os boletins bibliográficos não fossem à censura, e a existência do título "Ler" na propriedade do irmão de Lyon de Castro, o PCP levou ao paroxismo a sua campanha e o PCP reagiu com uma enorme violência verbal à criação do "Ler". O partido via o jornal como uma espécie de iniciativa paralela de criar um outro partido comunista ou de servir de instrumento organizado e de influência contra a direcção do PCP. Se tivermos em conta o que acontecera com o "Diabo", em 1939-40, o receio não era tão paranóico como hoje parece. Piteira sabia o que queria e o modo como orientou o "Ler" mostra uma clara intencionalidade política contra a então direcção partidária na clandestinidade.LYON DE CASTRO, PITEIRA SANTOS, O "LER" E O PCP (2)
Por JOSÉ PACHECO PEREIRA
Quinta-feira, 22 de Abril de 2004

O isolamento político do PCP, de 1950 a 1955, foi total. Rompendo desde 1949 com a "unidade", depois da campanha de Norton de Matos, o PCP tinha apenas um porta voz "legal", o Movimento Nacional Democrático (MND) e uma organização da juventude, o Movimento de Unidade Democrática Juvenil (MUDJ). O MND não conseguiu nunca ultrapassar a área de influência do PCP. O MUDJ era muito activo nas escolas, mas não ultrapassava a sua função de dar "massa de manobra" às acções para-legais do partido. É também nesta altura que se consolida um grupo de "companheiros da estrada" do PCP, activistas da oposição, simpatizantes do PCP, que aceitavam a sua direcção e que actuavam nos "movimentos" que o partido criava. Entre esses "movimentos", o mais significativo era o da "paz", mas também a sua organização dependia directamente do MND e do PCP. Os "companheiros da estrada", os mais relevantes dos quais eram Maria Lamas e Rui Luís Gomes, eram muitas vezes mais sectários e ortodoxos do que os comunistas.

Neste ambiente, e no momento em que a linha partidária era a de maior sectarismo, a orientação do "Ler" contrapunha-se à do partido. Piteira Santos abria o "Ler" até às fronteiras dos escritores do regime, defendendo a mais ampla aliança possível, na tradição "frentista" dos anos 40. Através dos seus conteúdos, o "Ler" escapou também ao neo-realismo mais ortodoxo, em áreas como a pintura, abandonando o cânone figurativo. Na sua curta existência, terminada pela censura, o jornal demonstrava como, na altura mais dura da guerra fria, era possível uma convivência cultural, que alargava o campo da oposição. O "Ler" não era um jornal do regime como o PCP chegou a dizer, mas um jornal da oposição em que colaboravam intelectuais próximos do regime. Se alguém saía reforçado era sempre a oposição.

O secretariado do PCP responde ao "Ler" com uma série de pressões públicas e privadas, para o isolar e impedir a todo o custo que os intelectuais comunistas nele colaborassem. De imediato, aceitaram os ditames partidários Maria Lamas e António José Saraiva, que iria ser com Óscar Lopes, instrumental na tentativa de "pôr na ordem" a revista cultural "Vértice", outra frente do conflito. Mas Mário Dionísio, José João Cochofel e Lopes Graça continuaram a escrever no "Ler", desafiando o partido. Esta atitude motivou uma série de cartas formais, enviadas em nome do PCP, exigindo-lhes o abandono imediato da colaboração no "Ler". Manuel Campos Lima (em relação a Dionísio e Cochofel) e Fogaça (para Lopes Graça) assinavam essas cartas dizendo-lhes, em substância, que escrever no "Ler" era não só incompatível com a sua condição de comunistas como de "intelectuais progressistas". Nenhum aceitou a chantagem e todos foram consequentemente afastados do partido, embora haja dúvidas sobre se existiram actos formais de expulsão, ou apenas cortes de relações partidárias.

A purga de escritores, que atingiu por outros motivos, igualmente Manuel da Fonseca, mereceu o apoio implícito de Cunhal. O seu texto, enviado da cadeia, com o pseudónimo de "António Vale", e parcialmente publicado na "Vértice", era escrito contra Mário Dionísio e Lopes Graça. Cunhal revela-se bastante informado do que se passa, por isso o seu texto só pode significar o apoio às medidas da direcção partidária. Mais tarde, Cunhal veio a fazer uma autocrítica nos textos que publicou no seu livro sobre estética, arte e sociedade, depois do 25 de Abril, do seu dogmatísmo estético e político.

Os homens envolvidos neste episódio, Lyon de Castro e Piteira Santos, conhecerão, no futuro, momentos de aproximação e afastamento do partido, mas nunca mais voltarão ao PCP. Cochofel afastou-se e Mário Dionísio, mesmo repetidamente instado pela direcção para voltar ao partido, inclusive por Cunhal, nunca mais regressou. O mesmo não aconteceu com Lopes Graça, que regressou ao partido. Dos que defendiam a linha sectária do PCP, Manuel Campos Lima morreu comunista e Óscar Lopes permanece no partido. Ironicamente, António José Saraiva acabou ele próprio por sair do partido em conflito, nos anos sessenta, merecendo uma condenação pública do PCP e de Cunhal às suas ideias.

Este episódio político-cultural, do início dos anos cinquenta, sobre o qual haverá mais detalhes inéditos no terceiro volume da biografia de Cunhal que estou a preparar, mostra como na história da oposição portuguesa existe mais complexidade e variedade do que se pensa. E isso deve-se a homens como Lyon de Castro, na sua incessante procura do lugar de dissidência (como depois do 25 de Abril fez, publicando os livros de ruptura de Vital Moreira e Zita Seabra, e as publicações soviéticas da "perestroika"); como Piteira Santos, na sua incessante procura de uma "unidade", sempre mais vasta do que o PCP desejava; como Mário Dionísio, incessantemente fiel ao seu "pathos" de criador, e à liberdade intelectual. Para estes homens, o "Ler", foi uma afirmação de coragem.

Publicado por José Pacheco Pereira em 04:33 PM | Comentários (1)

julho 28, 2003

J. M. Leal da Silva - FOTOS DA GREVE DE 1943 (Excerto)

A primeira (e a mais conhecida) fotografia da “Greve de 1943”


(...)
2.1. Sem dúvida que a fotografia da Fig. 1 é a mais significativa e a mais divulgada, pelas razões já referidas.

Fig. 1

Tem um lugar garantido na História de Portugal no sec. XX e até da história dos conflitos laborais europeus e merece, por isso, todos os encómios. Por idêntica razão também deveria merecer uma maior atenção e respeito. A sua referência de origem atribui-lhe uma data (28/7/43) e uma legenda (“A polícia obrigando as famílias dos operários grevistas a abandonar as imediações das fábricas.”). Nesta, nenhuma referência ao Barreiro! Veja-se agora, sem a preocupação de esgotar o tema, pois existem certamente outras reproduções ou utilizações da mesma fotografia que escaparam a esta listagem, como o mesmo documento vai ser apresentado num conjunto de fontes que se reputa significativo e que sucessivamente a vão reproduzir desde a sua primeira divulgação pública, posterior a 1974:

(a) Na publicação 60 Anos ao Serviço do Povo e da Pátria, da Editora Avante, Lisboa, 1981, pag. 65, está referenciada como “Barreiro, Julho de 1943: a polícia expulsa das fábricas as mulheres dos operários em greve”.

(b) Em FERNANDO ROSAS, O Estado Novo (1926-1974) , 7º Volume da História de Portugal publicada sob a direcção de JOSÉ MATTOSO, Círculo de Leitores, s.l., 1994, pag 356, a legenda é a seguinte: “Forças da GNR dispersando uma concentração das mulheres dos operários grevistas do Barreiro em Julho de 1943. Fonte: Fototeca Palácio Foz, Arquivo O Século”. Ao Autor não é indiferente o comportamento revolucionário das mulheres de Alcântara, pelo que, na pag. 358 da obra citada, transcreve parcialmente o parágrafo da reportagem de “O Século” que atrás (ponto 1.5) se referiu.

(c) Em ARMANDO SOUSA TEIXEIRA, A Fábrica e a Luta em Construção – Barreiro: Uma História de Trabalho Resistência e Luta – Parte II - 1946 / 62, edições Avante, Lisboa, 1999, a Fig. 1 está reproduzida na parte superior da contracapa e é identificada, na pag. 6 da obra, como: “Repressão sobre mulheres corticeiras em greve”. Não referindo directamente o Barreiro, esta legenda induz essa localização, quer através do objecto geral da própria obra, quer pela referência a “mulheres corticeiras”, certamente uma hipótese de trabalho que resulta do desenrolar da greve de 1943 no Barreiro, mas que não encontra qualquer conforto por parte da fonte original.

(d) Em JOÃO CARLOS OLIVEIRA, Movimento Operário Durante a II Guerra Mundial – Luta e Repressão no Barreiro, História (Nova Série), XXI, 18 (Outubro 1999), pp. 58 a 66, é dada a pag. 62 com a legenda “Famílias de operários grevistas são obrigadas pela polícia a retirar das imediações das fábricas da CUF”, que praticamente reproduz a legenda original, apenas resultando induzida a referência ao Barreiro pelo título do próprio artigo. Saliente-se que, para além de uma cuidada análise das greves de 1942, 1943 e 1944, obviamente dentro dos limites de extensão do próprio artigo (mas que o Autor tem recentemente desenvolvido numa série de oportunos textos em publicação no Jornal do Barreiro) esta fonte é a única que reproduz a fotografia da Fig. 1 sem a recortar na sua parte superior – o que, como se verá, tem alguma importância. Este artigo tem ainda a particularidade assinalável de ser, a conhecimento do signatário desta resenha, a primeira fonte a reproduzir todas as restantes fotografias relativas à CUF (Figs. 2, 3 e 4), com adequada menção da sua origem.

(e) Em JOAQUIM VIEIRA, Portugal Século XX – Crónica em Imagens – 1940-1950 (5º volume), pag 170, é apresentada como “As forças de segurança expulsam familiares de grevistas das imediações de fábricas da CUF, no Barreiro, ocupadas e paralizadas pelos seus operários.”, identificando-lhe a origem (bem como das outras fotografias próximas) na pag. 215 do mesmo volume. Deve aliás registar-se que na pag. 240 do último volume da série (o 10º), publicado já em 2001, a “corrigenda da 1ª edição” se lhe refere mencionando: “Pag: 170 / Coluna: Legenda inferior / Onde se lê: no Barreiro / Deve ler-se : em Alcântara (Lisboa)”.

(f) Num comentário anónimo publicado a pag. 3 do Jornal do Barreiro, de 25/8/2000, sob o título interrogador Afinal onde foi?, dá-se conta, reproduzindo-a, de que a mesma fotografia foi encontrada, no painel “Repressão nas Ruas” duma exposição sobre repressão e perseguição política então patente no Forte de Peniche, com a surpreendente legenda: “Agressões protagonizadas pela GNR sobre transeuntes na Marinha Grande. Década 30”. E o anónimo comentador conclui, com razão abundante: “Essa mesma fotografia tem sido divulgada como “repressão da GNR, no Barreiro, nos anos 40”. Afinal onde foi? Que se apure a verdade. A palavra aos historiadores.” Este repto, que revela o interesse existente quanto à questão, deu lugar a uma oportuna resposta por parte de FERNANDO ALEGRIA DA MOTA, como leitor do Jornal do Barreiro, resposta essa que, pelo seu interesse, adiante se retomará.

(g) Ainda mais recentemente, no capítulo 6º (A viragem da guerra: as greves) da obra de JOSÉ PACHECO PEREIRA, Alvaro Cunhal – Uma Biografia Política; Volume 2: «Duarte»., o Dirigente Clandestino (1941-1949), ed. Temas e Debates, Lisboa, 2001, a legenda que lhe vem aposta, na pag 260, é “GNR carrega sobre as mulheres no Barreiro”. Ao Autor não passa despercebido o valor intrínseco do documento, que lhe merece a seguinte análise, a pags. 259/260: “Data provavelmente desse dia a mais conhecida fotografia da greve e talvez a mais expressiva de qualquer movimento social operário durante a ditadura, na qual se vê um grupo de GNR a carregar sobre mulheres e crianças no Barreiro. As mulheres ainda jovens, de avental e com a chita dos vestidos dos pobres, olham para trás para o guarda que levanta a espingarda para dar uma coronhada, sem qualquer medo. A mulher da frente leva na mão um filho e quase não corre, anda apenas mais depressa.”. Ainda na mesma obra são reproduzidas as outras três fotografias de “O Século” que à greve e aos dias 28 e 29 de Julho de 1943 se referem, sem mais indicações que as legendas respectivas, e volta a ser parcialmente transcrita, no texto, a referência, já acima citada (ponto 1.5.) da reportagem do mesmo jornal quanto à intervenção activa das mulheres de Lisboa.

(h) Finalmente, e como uma das razões já invocadas para a oportunidade destas linhas, a já tão celebrada fotografia da Fig. 1 é reportada a 1943 na série cronológica constante da exposição “Elementos do Passado Industrial Barreirense”, que, em Maio último, a Câmara Municipal do Barreiro inaugurou nas Reservas Museológicas Visitáveis, tendo aí a seguinte legenda: “Agressões da GNR sobre familiares dos grevistas da CUF”, e registando como fonte imediata a publicação referenciada em (a), supra. Ainda que esta legenda não o mencione, a natureza da exposição e o reporte referido àquela referência antecedente, sem qualquer salvaguarda quanto ao local, volta a induzir o Barreiro como localização. Aliás, como se verá, a identificação como GNR da força repressora que a fotografia exibe havia já sido posta em causa, quando desta mostra. A própria divulgação desta interessante exposição na imprensa diária vai determinar a mais recente publicação que se conhece da mesma fotografia, com muito má qualidade e com uma legenda que se situa apenas no contexto da exposição e não no que o documento significa, a pag. 10 da edição de Lisboa do “Jornal de Notícias” de 18 de Maio de 2002.

2.2. Apresentada a fotografia da Fig. 1, tal como tem sido até hoje divulgada, afasta-se liminarmente a suposta localização na Marinha Grande e nos “anos 30”, que revela uma lamentável falta de rigor e um total desconformidade com a sua origem. Tem-se por assente que a fotografia respeita à greve de 1943 e que se reporta a instalações da CUF, mas muito do que se encontra nas variadas legendas que lhe foram atribuídas e que atrás se referiram, incluindo a alusão a uma localização que se tornou tradicional (Barreiro), carece de apoio na fonte original.

2.3. Começa-se por questionar a identificação da força repressora, quase geralmente apontada como sendo a GNR. Cabe tal mérito e prioridade ao já referido leitor do JB, FERNANDO ALEGRIA DA MOTA, quando, respondendo ao repto “Afinal onde foi?” lançado na edição deste jornal, de 25/8/2000, levantou certeiramente a questão em carta-resposta publicada na edição do mesmo, de 8/9/2000, pag. 4, e da qual, com a devida vénia, se destaca o contributo seguinte: “A foto sempre foi apresentada em muitas publicações como sendo do Barreiro.Não é facilmente decifrável o local onde foi feita, embora a roupagem das mulheres e crianças, bem como o ambiente envolvente, tenha muito mais do Barreiro do que da Marinha Grande. A ser no Barreiro, a foto deve ter sido feita nos anos 40, julgo mais certo 42 ou 45, aquando das grandes greves que então aqui se registaram. Mais interessante é que a carga das forças policiais é atribuída à GNR quando são agentes da PSP que estão a actuar, força que então policiava o Barreiro só tendo sido substituída pela GNR depois destas greves. É fácil reparar nas diferenças: A GNR usava polainas. A PSP usava calça completa. Os bonés, embora semelhantes, não são iguais. O fecho dos cinturões é diferente, tendo a GNR, ainda hoje, um escudo próprio. No que respeita ao armamento exibido, ambas [as] forças policiais usavam o mesmo modelo, ao que presumo Mauser mod. 37 ou a Mauser Vergueiro. Ainda devem existir pessoas vivas que tenham presenciado os acontecimentos e que possam esclarecer devidamente a foto.” [tem-se que a referência a 45 foi gralha ou má leitura, e que o referido leitor talvez quizesse escrever 43]. Ou seja: se são importantes as dúvidas deste leitor quanto à localização, é também certeiro o reconhecimento, pela farda, de que as forças repressoras então fotografadas são da PSP e não da GNR, estendendo-se os argumentos de identificação às restantes fotografias da série. Porém, sendo importante para marcar leituras incorrectas nas sucessivas apresentações dessas fotos, já que as legendas originais não referem a GNR, tal argumento não fornece, só por si, um critério decisivo quanto à localização. De facto, o policiamento do Barreiro urbano era até então “titulado” pela PSP e assim, muito embora tenham acorrido ao Barreiro efectivos da GNR para integrar as forças da repressão (e vieram para ficar, como se viu e sentiu...), os acontecimentos representados com presença da PSP poder-se-iam desenvolver tanto no Barreiro urbano como em Lisboa. Tempos depois, com a entrega de todo o Barreiro à acção da GNR destacada, já não se diria certamente o mesmo...

2.5. Aprofundando a indagação, percorreu-se atentamente o campo fotografado na Fig.1, inclusive para tentar identificar onde, no Barreiro, teria tido lugar o acontecimento registado. Não se tendo conseguido respostas satisfatórias, a atenção fixou-se em dois elementos que a fotografia apresenta: o poste metálico cilíndrico que se evidencia junto à esquina, e o candeeiro de ferro fundido, com um globo de vidro de desenho característico, que se desenha no fundo, “do outro lado da rua em frente”. Quanto ao primeiro, a identificação pode ser facilitada quando o desenvolvimento vertical do mesmo se observa na fotografia sem recorte superior, como consta da reprodução publicada no artigo de JOÃO CARLOS OLIVEIRA e aqui se retoma. É o que também ressalta da ampliação do canto superior direito da fotografia, que se dá como Fig.1-1. E assim não só se confirma ser aquele um poste metálico cilíndrico, como facilmente se reconhecem os troços de diferente secção, da base para o topo, que o identificam com os que a Carris então usava e ainda hoje usa para suspender o condutor aéreo.


Fig. 1-1 (foto a incluir posteriormente)
Ampliação do canto superior direito da Fig.1,
mostrando... o poste da Carris e o candeeiro
da iluminação pública.!

Ora, ao que se sabe, tais postes não existiram nem tinham razão de existir no Barreiro, em 1943, pelo que o indício se torna revelador.. Como se verá, numa outra fotografia tirada pela mesma reportagem fotográfica e no mesmo dia (Fig.2), surge um outro poste da Carris, este até com o número bem à vista!

2.6. Quanto ao candeeiro de ferro fundido, que a Fig. 1-1 também mostra, é de e modelo próximo ao que a Câmara Municipal de Lisboa ainda hoje usa em diversos localizações urbanas, embora com diferente globo (por exemplo, no Largo Dr. José de Figueiredo, às Janelas Verdes). Dir-se-á que no Parque Catarina Eufêmia, no Barreiro, existem também candeeiros desses. Constata-se porém que, com construção e globo como estes, em nenhuma outra localização urbana ou fotografia antiga os reconhecemos no Barreiro, e que este indício, mesmo que se possa conceder como não determinante, vai articular-se com os restantes... e é mais um elemento a ter em conta.

2.7. Ficava assim estabelecido todo um “inventário de rua” que decisivamente justificava uma procura de localização em Lisboa, já que no Barreiro se não tinha conseguido encontrar nem localização, nem resposta para os indícios reconhecidos. Procurava-se um entroncamento urbano, em T, próximo de um dos estabelecimentos industriais da CUF e do traçado de uma linha de “eléctricos”, compatível com o perímetro que a reportagem de “O Século” atribuíu à presença activa das mulheres familiares dos operários em greve no dia 28 de Julho de 1943. Na haste do T, sem ser visível o outro lado da rua, havia, em 1943, um pavimento em empedrado irregular e um passeio em pedra de espelho, cortado transversalmente por uma descarga de caleira, idêntica às que em Lisboa se encontram, uma parede (fachada) que se prolonga até quase junto à esquina, em que se abre a porta que acoberta o fotógrafo, e ainda, junto à esquina, um poste metálico da Carris e uma árvore. Ao fundo, ao longo da “barra do T”, um muro alto, com paineis, acompanha um passeio “do outro lado”, com árvores que em 1943 eram ainda “tenras” e com um candeeiro de iluminação pública em ferro fundido, encobrindo parcialmente edificações tipo armazém ou oficina.

2.8. Estabelecido todo este “caderno de encargos”, não foi muito difícil chegar à Travessa do Baluarte, que desemboca na Avenida 24 de Julho e que precisamente limita, do seu lado nascente (que se não vê na foto), um dos históricos estabelecimentos fabris da CUF na zona de Alcântara de Lisboa e que era a “Fábrica Sol”. Todos os condimentos lá estão, como se pode ver das Figs. 1-2, 1-3 e 1-4. Ao longo da Avenida 24 de Julho corre o mesmo muro com motivos iguais aos da foto de 1943 e com árvores ainda tenras ou com cepos bem visíveis no lugar das árvores que provavelmente testemunharam os acontecimentos de 1943. Na Travessa, por sua vez, mantém-se o mesmo passeio, com a mesma linha de escoamento e o mesmo empedrado que, em 2000, antes da reparação entretanto efectuada, dava interessantes indicações (que se fotografaram) para uma possível interpretação cronológica das diversas modificações, num verdadeiro exercício de “arqueologia urbana”. É mais que evidente o poste da Carris , que hoje tem o número A 843, e a árvore da esquina ou a sua sucessora. O portão de correr na fachada do lado nascente da Travessa é posterior aos acontecimentos e substituiu a porta que “albergou” o repórter fotográfico de “O


Fig. 1-2 (foto a incluir posteriormente)

O entroncamento da Travessa do Baluarte com a Av. 24 de Julho,
em Lisboa, na actualidade. No passeio fronteiro da Avenida são visíveis os cepos de árvores anteriores.

Fig. 1-3 (foto a incluir posteriormente)

(cronologicamente anterior à Fig. 1-2)
A travessa do Baluarte no ano 2000, antes das obras no passeio
da direita, em que se vê o portão de correr e a “porta gémea”;
à esquerda o edifício que era da Fábrica Sol

Fig. 1-4 (foto a incluir posteriormente)

O edifício que era da Fábrica Sol, em foto actual tirada do passeio Sul da Av. 24 de Julho, em frente da Travessa do Baluarte, vendo-se o poste da Carris nº A 843, na esquina do lado esquerdo da mesma

Século”, em 1943, e que, no entanto, tem rigorosa reprodução numa porta gémea que ainda hoje subsiste, mais para dentro da Travessa. A proximidade da Fábrica Sol e a linha de eléctrico na Avenida 24 de Julho, que constitui a “barra do T”, são situações claramente mantidas. Falta o candeeiro de ferro fundido, substituído entretanto por outro suporte de iluminação, e sobeja a sinalização vertical de trânsito que, em 1943, obviamente não existia.

2.9. Aponta-se assim para ter sido aí, na Travessa do Baluarte, freguesia dos Prazeres, em Lisboa – e não no Barreiro – que, a 28 de Julho de 1943, se passou o que a bem conhecida fotografia da Fig. 1 regista.

Publicado por José Pacheco Pereira em 10:46 AM | Comentários (1)

julho 10, 2003

PAULO GUINOTE – A REVOLUÇÃO DE OUTUBRO (NOVEMBRO) DE 1917 NOS JORNAIS PORTUGUESES : A SURPRESA ANUNCIADA

Nota - Excerto de um estudo de Paulo Guinote sobre o impacto da Revolução Russa na opinião publicada em Portugal em 1917-18, trabalho esse desenvolvido num seminário do Mestrado de História do século XX da FCSH da Universidade Nova. O trabalho permanece praticamente inédito e a publicação deste excerto foi autorizada pelo autor

"EM PETROGRADO, OS MAXIMALISTAS AGITAM-SE"
(Diário de Notícias, 8/Nov/17, 1)

"Mais um Movimento Revolucionario na Russia"
(Seculo, 9/Nov/17, 2)

"PETROGRADO NAS MÃOS DOS MAXIMALISTAS"
(Diário de Notícias, 9/Nov/17, 1)

"A situação na Russia
A Revolução Maximalista"
(Republica, 10/Nov/17, 1)

"A RUSSIA PEDE A PAZ"
(Diário de Notícias- Funchal, 11/Nov/17, 1)


Quer pela sua natureza, quer pela sua relativa previsibilidade, os acontecimentos revolucionários de Outubro (Novembro no Ocidente), ocuparam um espaço mais reduzido nos títulos dos periódicos portugueses do que a deposição do Czar em Fevereiro. Por um lado, em Fevereiro, apesar de algumas dúvidas iniciais, os factos pareciam apontar para um reforço da posição dos Aliados, por outro, a surpresa de Outubro era apenas relativa, não constituindo um fenómeno absolutamente imprevisto.

As características da insurreição maximalista contra o Governo Provisório de Kerensky eram conhecidas a priori, assim como as suas motivaçes e objectivos - negociar a paz com os Impéérios Centrais e proceder a um radical e perigoso, mas ainda não muito bem compreendido, programa de reorganização económico-social da nação russa. O debate que a indesejada, mas aparentemente inevitável, tomada do poder pelos bolcheviques estava em condições de suscitar, centrava-se nas suas possibilidades de permanência e nas capacidades de realinhamento e reagrupamento de todos aqueles que se lhe opunham e pretendiam restaurar um poder firme na Rússia. Lateralmente, não em termos de debate, mas mais de constatação progressiva, surgiram também os comentários sobre as consequências internas e externas das medidas que o novo poder executivo ia implementando com acentuada rapidez num império russo em acelerada desagregação.

Quanto ao primeiro ponto, a esperança de vida do novo regime não aparentava sinais particularmente animadores. As diversas frentes de oposição aos maximalistas, se não se tinham entendido nos tempos anteriores de maneira a evitar a nova movimentação revolucionária, pelo menos pareciam apostados em a abafar de forma rápida. Disso dariam prova os títulos do Diário de Notícias nas semanas seguintes. De entre as quase três dezenas de títulos principais incluídos nas edições que se sucederam dos primeiros dias de Novembro até final do ano, cerca de metade retrataram a situação como sendo de resultado imprevisível ou desfavorável para os maximalistas. Enquanto apenas cerca de 5 ou 6 davam conta de sucessos para os novos senhores de Petrogrado, a maior parte dos restantes títulos estavam relacionados com as negociações de paz entre a Rússia e a Alemanha.

O noticiário sobre o alastramento da guerra civil no Diário de Notícias foi quase diário e os títulos sucederam-se de forma pouco favorável à estabilidade do novo poder:

"Kerenski marcha sobre Petrogrado" (12/Nov)

"Os Maximalistas Começam a Perder Terreno" (13/Nov)

"Na Russia, Kaledine Propõe-se Restaurar a Monarquia" (21/Nov)

"Na Russia, os Ingleses e Japoneses Auxiliam a Contra-Revolução" (15/Dez)

"Petrogrado Saqueada pelas Tropas" (17/Dez)

"Na Russia a Guerra Civil Continua Encarniçada" (19/Dez)

"A Ukrania Aceita a Guerra com os Maximalistas" (22/Dez)

Contra isto, apenas as referências a vitórias maximalistas em recontros com as forças de Kerensky (18/Dez) e com os Cossacos (16/Dez), e o anúncio de vitória nas eleições (1/Dez), permitiram algumas expectativas mais favoráveis.

No Seculo, embora o assunto não merecesse tanto destaque em termos de monopolização dos principais títulos de primeira página, a sensação transmitida não era muito diversa. Aqui, era em Kerensky que se depositavam as esperançças. No dia 12, na segunda página, perguntava-se se "Kerensky vae dominar, pelas armas, a revolta?". No dia seguinte, declarava-se que "O GOLPE MAXIMALISTA Parece que Falhar Completamente". Nos dias seguintes, procurar-se-ia tranquilizar a opinião pública. "Parece Estar, de Facto, Restabelecido o Governo de Kerensky" (Seculo, 14/Nov/17, 2). No entanto, isso não acontecia e, dois dias depois, é que "Parece que, efectivamente, Kerensky vencerá ". O poder continuava com os maximalistas e, assim, a situção na Rússia passava por "angustiosa" (18/Nov, 2), de "catastrofe" (25/Nov, 2), "tragica" (26/Nov, 1), "de mal a peor" (27/Nov e 1/Dez, 1), de "derrocada" (15/Dez, 2) ou "cada vez mais embaraçada" (16/Dez, 2).

Os evolucionistas do Republica não andavam muito longe deste tipo de vocabulário, apenas introduzindo a anteceder os comentários e noticiários sobre a Rússia, o título de "No Vulcão Russo" (12, 13, 14, 16, 30/Nov e 6 e 16/Dez). Quanto ao resto, cruzavam-se interrogações sobre o futuro da Rússia e dos seus principais dirigentes, do presente e dum passado mais ou menos proximo:


"Para Onde Vai a Russia ?" (14/Nov, 3)

"KERENSKY ? LENINE ? NICOLAU II ?" (16/Nov, 1)

"Na Russia
A GUERRA CIVIL
Quem vence ?" (17/Nov, 1)

"DUKHONINE ? LENINE ?
Quem Ganhar a Nova Partida ?" (6/Dez, 3)


A Lucta, por seu lado, optaria por ignorar praticamente por completo nos seus títulos mais destacados a reviravolta do poder a Leste, enquanto O Mundo também evitava títulos particularmente dramáticos. Pelo lado dos Democráticos, só A Manhã se pronunciaria com maior detalhe, expressando as dúvidas gerais:

"Da Russia, [é] ponto claro, que o maximalismo derrubou o governo e obrigou o Parlamento a pôr ponto final. O Soviet Central põs-se ao lado da nova revolução. Houve pouco sangue e, em facil triunfo, o Soviet cantou vitoria em toda a Russia. Isto é simples. Que é feito do governo ? Está preso. Que é feito de Kerensky ? Não está ainda bem patente se conseguiu evadir-se. Incontestavel é que a vitoria dos maximalistas foi em Petrogrado, Moscou e Cronstad. Que pensa o resto da grande Russia do triunfo das esquerdas ? Vamos para a paz em separado ? - Tudo o leva a crer..." (A Manhã, 12/Nov/17, 1)

Os acontecimentos eram negativos, havia que os combater, mas não parecia ser medida muito acertada publicitá-los exageradamente. Os jornais mais informativos mostravam-se, desta forma, bastante mais expressivos do que os periódicos com uma conotação política mais claramente definida. Na província, os títulos tambem eram menos lestos a surgir do que em Fevereiro e os artigos de opinião em quantidade bem menor. Do lado dos monárquicos, a previsão também ese mostrava pouco animadora quanto à resistência dos novos líderes revolucionários:


"Temos, pois, os Soviets no poleiro e manda Lenine ! Mais um heroe de barro, que a multidão, eterna criança, amanhã ha de rachar de meio a meio e atirar para o caixote do lixo.
São favas contadas !" (O Liberal, 10/Nov/17, 2)

O Mundo não andaria muito afastado desta leitura. Quanto à transitoriedade do poder maximalista, por uma rara ocasião, os monárquicos tradicionalistas e os republicanos democráticos, coincidiam nas suas análises e previsões.


"E desta crise provocada pelos que não se contentavam com a Republica democratica, que iria realizando gradualmente as reformas sociais, sairá por certo o ditador que sufocar em sangue as manifestações e organizar violentamente o Estado, com os meios liberticidas constuindo um edificio novo, que ser necessario destruir outra vez.” (O Mundo, 22/Nov/17, 1)

Para Brito Camacho, era a própria Rússia que via a sua desarticulação consumada, sendo duvidoso que qualquer poder que, eventualmente, viesse a substituir os maximalistas, pudesse reconstituir a unidade perdida.


"Se ao menos a Russia conservasse a sua unidade nacional; aquela violenta, despotica e arbitraria, que o czarismo mantinha, tornou-se culpad[a] dos maiores crimes politicos !
Mas não; a Russia é um grande, imenso organismo que se desarticulou, e quer-nos parecer que não será possivel, já agora, restitui-lo á primitiva forma, isto é, dar-lhe a unidade que tinha, embora essa unidade fosse de todo o ponto artificial." (A Lucta, 27/Nov/17, 1)

O único factor positivo da revolução bolchevique para a imprensa republicana parecia ser a recomposição, forçada pelas circunstâncias, das fileiras que se opunham à acção dos bolcheviques, principalmente na questão da guerra e da paz. Passam a ser comuns, de novo, as associações entre os nomes de Kerensky e Korniloff, agora, em algumas situações, também relacionados com Kaledine, o novo etman dos Cossacos.

Embora a verdade dos factos não fosse propriamente essa, os boatos espalhados na imprensa internacional chegavam a Portugal, em segunda ou terceira via, mesmo através do respeitado Diário de Noticias:


"Londres, 14 - Dizem de Stockolmo, em data de ontem, ás 16 horas, que a agencia telegrafica da Finlandia noticia que o sr. Kerenski é actualmente senhor de Petrogrado que está quase toda em seu poder.
Moscow é a sede do governo provisorio.
Os jornais russos e finlandeses anunciam o proximo fim do movimento «bolchevik».
Toda a Russia, à excepção duma pequena parte de Petrogrado, está agora nas mãos do governo.
O general Kaledine, «etman» dos cosacos, é ditador no sul da Russia e as ordens do governo são assinadas por Kerenski, Kornilof e Kaledine." (Diário de Notícias, 15/Nov/17;1)

Esta união, que no plano da acção concreta nunca chegou verdadeiramentwe a existir, parecia assegurar que o sucesso bolchevique seria um fenómeno efémero. Mesmo Rosa Luxemburgo, em carta à sua amiga Martha Rosenbaum, apesar do seu entusiamo, não acalentava muitas expectativas quanto à duração da experiência que se vivia na Rússia:


"Há mais ou menos uma semana que todos os meus pensamentos estão, naturalmente, em Petersburgo. Todas as manhãs e todas as noites agarro com impaciência os jornais que me chegam, mas as notícias que trazem são infelizmente escassas e contraditorias. Convém não contar com um êxito duradouro [dos revolucionários russos], mas em todo o caso a tentativa de tomar o poder na Rússia é, já em si, uma bofetada em plena face dos nossos sociais-democratas e de toda a sonolenta Internacional." (Luxemburgo, 1976, 267)

Mas, ao defenderem princípios pacifistas e ao serem normalmente considerados como agentes ao serviço dos alemães, os chefes maximalistas tinham outro perigo a recear e com o qual a imprensa acenava insistentemente: a intervenção dos Aliados no seu território como forma de pressão sobre o novo executivo russo.
O Japão, a Inglaterra e os Estados Unidos perfilavam-se como os agentes de tal intervenção. Em 30 de Novembro, no Republica, à pergunta se "A ENTENTE VAI INTERVIR" no vulcão russo, "Diz-se que sim". Vladivostock parecia ser um dos pontos preferidos para a intervenção. Em 13 de Dezembro, o Diário de Noticias afirma que serão os japoneses a entrar em acção, enquanto a 16, na opinião do Seculo, parecem ser os norte-americanos os protagonistas. Ao mesmo tempo, as notícias sobre a guerra civil alastram, com o anúncio do separatismo da Ucrânia, da Crimeia e a revolta armada dos Cossacos. A Rússia parecia entregue a uma desordem sem fim. Não faltava mesmo quem atribuisse aos maximalistas intenções de restauração da Monarquia, sublinhando as semelhanças entre os extremos aparentemente opostos (O Mundo, 23/Nov/17, 1) e chamando contra-revolucionárias às intenções de Lenine:


"Produziram-se nas ultimas semanas graves acontecimentos susceptiveis de modificar a situação internacional, quer sob o ponto de vista militar, quer sob o ponto de vista politico.
Na Russia, um movimento contra-revolucionario chefiado por Lenine, o «patriota» ao serviço da Alemanha, veiu lançar uma pertubação ainda mais profunda na grave anarquia que já reinava em todo o territorio moscovita." (Distrito d'Aveiro, 25/Nov/17, 1)

Nas páginas d' O Trafaria, as palavras eram semelhantes. Lenine, agente alemão, encabeçava um movimento contra-revolucionário que se destinava a vender os interesses russos às potências centrais. Em virtude disso, e perante a permanência dos bolcheviques no poder, aparentemente em condições de resistir às oposições internas e externas, restava, em Março de 1918, utilizar o exemplo russo da única maneira em que ainda podia ser algo útil para consumo interno: como forma de exemplificar o que o pacifismo e as excessivas pretensões sociais dos revolucionários mais exaltados podiam provocar. Seria essa, afinal, a lição a extrair da evolução do que fora o "cataclysmo russo" (A Verdade, 12/Dez/17, 1):


"Operarios de Portugal olhai a lição russa ! Cautela ! Não é a primeira vez que o inimigo faz dos grandes principios um uso, pelos seus efeitos, análogo ao dos gases asfixiantes das granadas peçonhentas. Cautela ! Ha sugestões que matam e a russa é uma delas ! (...) Operários de Portugal, olhai a lição russa ! Há sugestões que matam e a maximalista é uma delas.” (A Fronteira, 3/Mar/18, 1)

Publicado por José Pacheco Pereira em 10:54 PM | Comentários (0)

maio 25, 2003

José Manuel Lopes Cordeiro - ORIGENS DO PCP NO PORTO

José Manuel Lopes Cordeiro , "As Origens do PCP no Porto" , Público , 11 de Março de 2001


Como foi amplamente noticiado, comemorou-se na semana passada o octogésimo aniversário da fundação do Partido Comunista Português, ocorrida em Lisboa, a 6 de Março de 1921. O maior ou menor desenvolvimento que essas abordagens históricas registaram não contemplou, tanto quanto tivemos oportunidade de constatar, o processo que conduziu à formação do PCP no Porto, razão pela
qual a iremos abordar nesta "Memória da Cidade".
Uma das raras fontes disponíveis para se conhecer um pouco da história do PCP no Porto deve-se a José da Silva, operário sapateiro, que foi um dos protagonistas desse processo. Esse relato autobiográfico deu origem a um livro, em dois volumes, publicado no início dos anos 70 por uma das mais curiosas editoras portuguesas, a Livraria Júlio Brandão, de V. N. de Famalicão. As origens do PCP no Porto remontam a meados de 1920 quando, numa agitada reunião efectuada no Centro Comunista Libertário - com sede na Rua de Entreparedes, nº 33 -, vários dos presentes abandonaram a sala, no seguimento de uma acalorada discussão em que os dois grupos em que, entretanto, os presentes se tinham dividido se injuriavam mutuamente. À frente do grupo que abandonara a reunião encontrava-se o operário Manuel Ferreira Torres, manufactor de calçado, um ex-simpatizante anarquista que se tinha entusiasmado com a revolução russa de 1917, e que, no Porto, era o mais entusiasta difusor do jornal "Bandeira Vermelha", publicado em Lisboa pela Federação Maximalista Portuguesa.
No seguimento dessa reunião, constituiu-se nesse ano de 1920, e em torno de Manuel Ferreira Torres, um núcleo de operários que formou o primeiro agrupamento de carácter marxista, o qual adoptou a denominação de Centro Comunista do Porto. Dois anos mais tarde, em Dezembro de 1922, alguns sindicalistas do Porto, que, no III Congresso Operário Nacional, realizado em Outubro desse ano na Covilhã, se tinham manifestado a favor da Internacional Sindical Vermelha (ISV), foram contactados por Abílio A. Lima, do sindicato dos arsenalistas de marinha, de Lisboa, informando-os de que os simpatizantes da ISV da capital se tinham associado num agrupamento denominado "Núcleo Sindicalista Revolucionário" (NSR), cujos objectivos eram os de levar os seus membros a constituírem "fracções sindicais" de partidários da ISV dentro dos sindicatos onde dominassem os libertários.
Abílio A. Lima trazia também como missão encontrar no Porto, no seio dos "sindicalistas revolucionários", alguém que se dispusesse a desempenhar as funções de correspondente de um novo jornal, denominado "A Internacional", que se iria publicar em Lisboa -cujo primeiro número sairá a 3 de Novembro de 1923 -, com o objectivo de divulgar os princípios sindicalistas da ISV. A tarefa irá recair sobre José da Silva, que, em simultâneo, passou a desempenhar também o cargo de secretário-geral do NSR, entretanto constituído, com sede na Rua do Bonjardim.

A PRIMEIRA ORGANIZAÇÃO PARTIDÁRIA

Entretanto, em meados de 1921, no seguimento da dissolução da Federação Maximalista em Dezembro de 1920 e da posterior fundação do PCP, Manuel Ferreira Torres iniciará um processo que desembocará na criação da primeira organização partidária comunista na Cidade Invicta, a qual substituirá o Centro Comunista do Porto. Entre os elementos que a constituíam, para além de Manuel Ferreira Torres e José da Silva, contavam-se Salvaterra Júnior, cinzelador de profissão e "apreciado poeta" (de acordo com José da Silva), que, no I Congresso do PCP, em Novembro de 1923, será eleito para o Comité Central, Henrique Fernandes, alfaiate, Aurélio da Cunha Guimarães, comerciante, Domingos Ferreira Fontes, pintor, Aníbal Barbosa Cardoso, empregado comercial, e Apolino Aragão, entre outros.
Este primeiro núcleo de comunistas portuenses irá revelar-se, contudo, incapaz de manter entre si a necessária unidade e coesão, pelo que, ainda de acordo com José da Silva, a breve prazo surgem insanáveis divergências, motivadas por diferentes interpretações sobre a orientação a seguir. Estas diziam respeito à aplicação das resoluções adoptadas no IV Congresso da Internacional Comunista (IC), onde uma delegação do PCP tinha participado, e do qual tinha regressado com fortes intuitos "depuradores". Aliás, uma situação idêntica registou-se em Lisboa, pelo que foi necessário convocar uma conferência de militantes, realizada em 4 de Março de 1923, da qual saiu um novo Comité Central, que, de depuração em depuração, acabou por suspender a actividade do PCP até à intervenção da IC. Entretanto, os militantes que tinham sido "depurados", dirigidos por José Carlos Rates, darão continuidade ao trabalho, reconstituindo o partido.
Em Agosto de 1923, perante esta situação, Jules Humbert-Droz - o delegado que a IC tinha enviado a Portugal para resolver os problemas da sua Secção Portuguesa - decide apoiar o grupo de Rates e convocar um congresso constitutivo do PCP para Novembro desse ano. A influência de Droz irá ser decisiva, nomeadamente no apoio a Rates, o que, mais tarde, mereceu a Bento Gonçalves a apreciação de que formavam um "duo irresponsável e grotesco", e que, "com uma acertada vigilância de classe, não era difícil fixá-los como oportunistas sem vergonha". Nesse congresso, em que os militantes do Porto foram representados por Salvaterra Júnior e Aurélio da Cunha Guimarães, são aplicadas várias sanções - desde a suspensão até à irradiação -, sendo particularmente afectada a Comuna do Porto, dado que a Américo Antelo, António Sales, Apolino Aragão, Domingos Ferreira Fontes e Aníbal Barbosa Cardoso irá ser aplicada a pena de suspensão, e a Henrique Fernandes a irradiação do partido.
Após o I Congresso, a organização do PCP no Porto ficou sob a responsabilidade de Manuel Ferreira Torres, embora extremamente debilitada. Como refere José da Silva, sua simpatia e prestígio "não eram o bastante para fazer andar para a frente a organização comunista do Porto", salientando, entre outros aspectos, que "nunca se tentou dar ao partido uma sede", sendo "quase sempre o local escolhido para troca de impressões o café 'Águia d'Ouro', e era mesmo aí que, de vez em quando, se redigia uma notícia para os jornais destinada aos seus filiados". Valerá ao PCP o prestígio e a influência entretanto adquiridos por José da Silva - que, em Dezembro de 1923, tinha sido eleito secretário-geral do Sindicato dos Manufactores de Calçado, que, assim, foi conquistado para a orientação do sindicalismo revolucionário. Em meados de 1924, numa reunião dos filiados no NSR, José da Silva propõe a sua integração nas fileiras do PCP, que é aceite, ao mesmo tempo que aquele era dissolvido. "E foi assim que o PCP, de uma assentada, foi reforçado com cerca de setenta novos membros, 95 por cento dos quais eram operários", ressalta José da Silva.

PAREDES-MEIAS COM O CAPITAL

A primeira consequência da entrada dos sindicalistas revolucionários para o PCP foi a debandada de Manuel Ferreira Torres e do seu grupo de amigos, que José da Silva explica pelo facto de, verdadeiramente, nunca terem sido comunistas, e estarem "ainda muito presos à cepa de que eram oriundos - o anarquismo". À frente do PCP no Porto, José da Silva irá imprimir-lhe uma nova orientação, mais actuante, tanto no domínio sindical como no político. A direcção era agora composta por António de Carvalho, operário alfaiate, Anastácio Gonçalves Ramos, metalúrgico, António Nunes, chefe de armazém, e José Moutinho, empregado de escritório.
No entanto, dispunha ainda de um número reduzido de membros que pagavam uma quota mensal de um escudo - o que impossibilitava a resolução de um velho problema, o da inexistência de uma sede, dado não haver receitas suficientes para assegurar o respectivo aluguer. Só existia uma solução, o de aumentar o número de filiados, tarefa que foi resolutamente levada a efeito, e, em menos de dois meses, o PCP portuense contava com 400 militantes, possibilitando o aluguer de uma sala para a primeira sede do partido, nas traseiras do segundo andar do nº 69 da Avenida dos Aliados, num prédio cuja frontaria era ocupada pelo Banco Espírito Santo. A reorganização do PCP portuense contou ainda com um outro momento alto, na Primavera de 1925, com a criação do seu primeiro órgão regional, o mensário "A Bandeira Vermelha".
Não obstante ter registado inúmeras dificuldades nos anos de 1925 e de 1926, a organização portuense do PCP conheceu um razoável desenvolvimento. Em breve, a sede da Avenida dos Aliados mostrou-se insuficiente para as necessidades partidárias, pelo que foi necessário alugar novas instalações, um segundo andar do nº 196 da Rua de Trás, onde se situava a entrada, mas cuja frente dava para a Torre dos Clérigos.
O 2º Congresso do PCP, realizado em 29 e 30 de Maio de 1926 - nos dias seguintes à revolta militar que abrirá caminho ao regime do Estado Novo -, contou com a participação de sete delegados portuenses - José da Silva, António de Carvalho, Anastácio Ramos, Manuel João, Moreira Gomes, Saint Martin e José Moutinho - e, entre várias resoluções, louvou o trabalho político e sindical realizado pelo Comité Regional do Norte, tendo José da Silva presidido à Segunda Sessão dos trabalhos. No entanto, o PCP saiu desse congresso sem uma clara orientação para fazer face à situação resultante do golpe militar do 28 de Maio, o que conduziu à sua participação em várias tentativas de "putshs" contra a ditadura militar que se tinha instalado no país, organizados pelos diversos sectores republicanos.
É o caso do frustrado golpe do 3 de Fevereiro de 1927, no Porto, que contou com a contribuição de 200 militantes do PCP, no seguimento do qual a sua sede foi encerrada, parte dos seus membros foi presa, tendo os dirigentes locais sido obrigados a dispersarem-se pela província ou forçados a emigrar. A partir de então, a actividade do PCP no Porto e no país praticamente desaparece. Será necessário aguardar por 1929, para Bento Gonçalves encetar uma profunda reorganização. Mas essa é já uma outra história.

(Reproduzido com autorização do autor )

Publicado por José Pacheco Pereira em 10:28 PM | Comentários (1)