dezembro 11, 2005
ACTIVIDADES DA OPOSIÇÃO DURANTE A CAMPANHA ELEITORAL DE NOVEMBRO 1957
Da esquerda para a direita: x (Mário Sacramento?); Manuel João da Palma Carlos; Câmara Reys; x ("Lília da Fonseca"?); Manuel Sertório.
(Colocada igualmente em ÁLVARO CUNHAL - UMA BIOGRAFIA POLÍTICA)
outubro 31, 2005
FOTOGRAFIAS (INÉDITAS?) DE FUZILAMENTOS NA GUERRA CIVIL ESPANHOLA
2ª VERSÃO ACTUALIZADA
2ª VERSÃO ACTUALIZADA

Algumas estão legendadas à mão em português, como a série que retrata a prisão, interrogatório e fuzilamento de "comunistas" em Llerena, na Estremadura, perto de Badajoz. Sabe-se que Llerena foi tomada pelos nacionalistas em princípios de Agosto de 1936 e que, logo a seguir, houve centenas de fuzilamentos. É provável que estas fotos testemunhem esses fuzilamentos de 5 e 6 de Agosto. Como neste mesmo período de tempo, o jornalista português Mário Neves se encontrava na região e foi uma das raras testemunhas do chamado "massacre de Badajoz", é provável que estas fotografias tenham sido por ele tiradas ou trazidas.
Depois da publicação, em Março de 2005, da primeira versão desta nota, recebi vários pedidos vindos de Espanha e em particular da região de Llerena, incluindo da Asociación para la Recuperación de la Memoria Histórica de Extremadura, que trabalha na identificação de cadáveres nas fossas comuns encontradas nos últimos anos. Em anexo, publico aqui toda a série de fotografias, quinze no total, com algumas duplicações, esperando ser útil para identificar pessoas e eventos, assim como as legendas originais nalgumas delas.
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Legenda:"Aviºoes três motores alemães em Tallada" (ou Tallata?) (*)
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Legenda: "Tropas de Marrocos da coluna Castejon"
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Legenda:"Interrogatório de dois comunistas"
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Legenda: "Fuzilamento de comunistas em Llerena"
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Legenda:"Comunistas formados para o fuzilamento"
(*) La fotografia que dice "Aviões três motores alemães em Tallada" (ou Tallata?) es Tablada, aérodromo de Sevilla.
(Manuel P. Ron)
julho 15, 2005
Júlia Coutinho - JOSÉ DIAS COELHO. A COERÊNCIA DO SER E DO FAZER
«Não chegou a adquirir fama o nome de José Dias Coelho […] e as histórias da arte, se não forem muito minuciosas, ignorá-lo-ão»
(J-A França, Diário de Lisboa de 04-02-1977)
1 - Um estudo recente sobre a Escultura Portuguesa ligada à escola de Lisboa 1 revela-nos serem os anos quarenta/cinquenta os “menos amados” pelas críticas da época e actual. Alerta-nos para a premência do estudo das motivações que têm ignorado e omitido as obras e os nomes desses escultores e faz eco, ainda, do sentimento de alguns deles, ainda vivos, que dizem não se reconhecer numa historiografia que genericamente os apelida de “estatuários” e os vota ao esquecimento. 2
Reconhecendo a importância de um estudo aprofundado – que não este –, importa salientar que este silêncio tem dois grupos de causas, ambos enraizados na sociedade político-cultural vigente. No primeiro grupo incluímos o ensino anacrónico - artístico, pedagógico e curricular - ministrado na Escola de Belas Artes de Lisboa e a inexistência de ateliers e galerias. No segundo temos a censura e a repressão impostas pelo regime e a inexistência de uma crítica isenta. Esta, quando não situacionista, era exercida pelos próprios artistas (J Pomar, L Freitas, F Azevedo, F Lemos, J-A França) gerando fenómenos parciais em função de grupos ou promoções que acabaram por tornar-se numa "tremenda prática portuguesa: a omissão" 3 para além dos regimes políticos, exercida em função de lobbies dominantes.
Hoje, à distância de meio século e três décadas após Abril, quando o sentido de justiça faz mais sentido e da arte se fez História não deixa de ser preocupante que essa omissão continue. Alguns artistas precisamente os que não tiveram escolha, os que não pactuaram nem beneficiaram de encomendas estatais mercê de uma ética assumida com prejuízo das próprias carreiras, serão ignorados. Não lhes assiste o direito à Memória. E aqui incluímos José Dias Coelho.
2 - Se procurarmos na sua obra o conceito romântico de originalidade que acentua a unicidade e irrepetibilidade largamente defendido pelos artistas da primeira geração do modernismo português, não o encontraremos. Percebe-se a ausência dessa ambição que, sejamos claros, era já um anacronismo no período que viu nascer a maioria da sua produção: anos quarenta e cinquenta.
Mas se não podemos considerá-lo original também não podemos vê-lo sob conceitos academizantes associando-o ao exercício da mimesis e ligando-o à prática da Escola de Lisboa onde a escultura foi a última das artes a ser dotada de ensino erudito e a ortodoxia formal limitava os artistas à reprodução invariável dos modelos antigos. As obras de Dias Coelho desmentem-no.
Tão pouco podemos atribuir-lhe uma lógica conforme aos conceitos naturalistas dominantes na comunidade artística oficial, alheada dos movimentos da arte além fronteiras e fiel aos mestres intestinos de fins do século.
Aos artistas, segundo Luigi Pareyson, colocam-se duas maneiras de visualizar ou reflectir a arte que os antecede: ou a encaram “na sua perfeição dinâmica e na sua operativa exemplaridade [geradoras] da possibilidade de uma operação (…) original (…) de uma imitação criadora; ou podem limitar-se a vê-la na sua “extrínseca e imóvel perfeição, e então a forma decai para fórmula, o modelo para módulo, o estilo para cunho, a obra para estereótipo e não aparece senão a estéril repetição”.4 Este não é o caso de José Dias Coelho.
E por não raro depararmos com alguns radicalismos voltamos a Pareyson para afirmar que o dilema entre uma “genialidade artística” ou o “servilismo da repetição” é demasiado peremptório correndo-se o risco de remeter “para o inerte reino da imitação tudo quanto não se inclua nos cumes raríssimos (…) de uma prepotente inovação (…) e perder o critério para distinguir a imitação criadora e inovadora da imitação repetitiva e reprodutiva”. 4 Daqui enferma muita da crítica e da historiografia artística portuguesa.
Sem rupturas morfológicas a escultura de Dias Coelho reflecte o ecletismo de quem necessariamente procura uma plasticidade própria em torno das mais diversificadas fontes. Inconformista, ele persegue ideários cívicos e estéticos de acordo com o momento histórico que se vive e as concepções humanistas de Bento de Jesus Caraça (1901-1948). Colocando a tónica no Homem, Caraça definiu valores éticos e culturais que influíram toda uma geração e subjazeram ao ideário dos artistas que então procuravam, por caminhos comuns, uma singularidade pessoal.
Aderente do neo-realismo, o movimento que melhor enformou desta ideologia totalizante - pese embora um estudo aprofundado nas artes plásticas esteja por fazer -, a verdade é que as suas obras não reflectem a iconografia que se convencionou associar-lhe. Com uma ideologia comum que as Exposições Gerais de Artes Plásticas traduzem, nem sempre aos artistas as motivações iconográficas se lhes equivalem o que deita por terra certa argumentação de um fazer estritamente direccionado ou arregimentado.
Movendo-se num universo realista ou refugiando-se num verismo lírico muito seu, Dias Coelho tem no desenho a sua expressão mais constante o que “não deixa de se revestir de particular importância – na medida em que, entre nós, o escultor rarissimamente desenha ou procura”, como assinalou Pomar.
De notar que lhe foi atribuida pelos seus pares uma 3ª medalha de escultura num dos salões anuais da SNBA (Primavera, 1949) o que atesta o reconhecimento de um percurso de pesquisa e de liberdade criadora: ”Dias Coelho está a entrar num caminho seu, de teimosa procura e simplificação fecunda. Simplificação que não significa eliminar dificuldades, mas constatá-las e vencê-las através de persistente e inteligente trabalho o mais das vezes silencioso e sem alardes” – palavras que o perfilam na demanda da sua plasticidade. (J. Pomar, Vértice, Junho 1950)
Artista moderno e não conformista, reconheçamos a Dias Coelho um sentido de pesquisa e de inovação sempre perseguido e nunca abdicado, mesmo quando as contingências de uma vivência clandestina o obrigaram a um dificílimo exercício do fazer. Conhecem-se duas pequenas esculturas de 1958, duas “maternidades,” em terracota, uma das quais oferece ao médico que acompanha o nascimento da sua filha Margarida. Em plena clandestinidade.
3 - O conjunto de obras escolhidas para esta exposição, não sendo absolutamente representativo da produção de Dias Coelho, dá-nos uma visão abrangente dos géneros e temáticas que povoaram o seu universo. Num total de 31 peças em que apenas duas são esculturas, reúnem-se aqui praticamente todos os géneros, temas e materiais por si trabalhados, divididos por cinco núcleos: Retrato e Caricatura; Pintura e Desenho; Imagens de Pinhel; Clandestinidade; Escultura e Cerâmica.
Como género artístico, o Retrato assume um lugar único no contexto geral da sua obra seja em desenho, pintura, modelagem ou caricatura. Proliferam os retratos que se conhecem da família, dos amigos, de colegas e de personalidades da vida cultural portuguesa como Isabel Aboim Inglês, Alves Redol ou Fernando Namora.
A característica que mais ressalta deste conjunto de obras é que praticamente todas correspondem à fase mais juvenil do artista, sendo muitas delas anteriores à sua entrada em Belas Artes (1942). Veja-se, por exemplo, a “Cabeça de Rapaz” (1938), cópia de uma gravura renascentista, que corresponde aos seus 15 anos Apenas os retratos de Margarida e de Teresa (1957), feitos na clandestinidade, se demarcam cronologicamente dos restantes que não ultrapassam a primeira metade da década de quarenta: os retratos de Fernando (1940), Natália (1941), pai (1942) correspondem aos seus 17, 18 e 19 anos de idade. Contudo, pese embora a pouca idade de Coelho, é notória a sua capacidade na percepção do essencial, a grande economia de meios e o domínio absoluto do traço. Especial destaque nos merece o retrato da mãe, denotando um sentido de composição apurado por onde perpassa já uma assimilação cubista no tratamento das massas e um domínio do claro-escuro denunciador de um fazer escultórico. Idêntico tratamento tem a “Mulher Grávida” que apenas a composição dos panejamentos sugere, conferindo uma solidez que um traço expressionista tende a afastar da idealização.
De uma maneira geral o autor não oculta as suas influências. Adopta com frequência o irrealismo russo e o lirismo eslavo, principalmente o irrealismo de um Chagall, a linearidade clássica de um certo Picasso, ou a beleza poética e despojada de Matisse, esta sempre mais conseguida no traço que na cor. Veja-se o belo prato de cerâmica onde o motivo da maternidade (omnipresente na sua obra) é tratado num compromisso entre o classicismo de Picasso e a onírica delicadeza gráfica de Chagall. Quanto ao seu traçado, à sua linha firme e despojada, essa vai de Picasso a Matisse; do primeiro detectam-se vestígios, por exemplo, nas cabeças mais clássicas, de perfil grego (Par Abraçado) enquanto a sensualidade de Matisse perpassa no ondulado dos corpos. As linhas circulares envolvem as duas figuras unindo-as num espaço uterino e protector.
Das obras expostas, “Casal com Duas Crianças” (1952) - um dos poucos óleos que se lhe conhecem -, é a que mais impressiona pelo lirismo temático, pela composição e pela qualidade plástica. Lembrando Van Gogh e Vlaminck na delimitação dos espaços a que o arrojo da árvore cezanneana confere dinamismo, a composição apresenta um ritmo centrífugo que nos é dado pela distribuição espacial e pela pincelada. Uma discreta noção de vórtice com epicentro no casal oferece-nos a visão intimista e feliz em que o autor se revia, num momento em que tentava formar a sua própria família.
Nas duas peças escultóricas encontramos as temáticas que se lhe impõem e o artista persegue desde que conhecera Margarida: a “Maternidade” e a “Família”. Nelas encontramos já uma proposta pessoal do autor, bem conseguida sobretudo na primeira, onde é notória a procura constante duma simplicidade formal aliada à plenitude e sensualidade volumétricas que a modelação, a que sempre recorre, acentua.
As duas obras do núcleo Clandestinidade correspondem a uma fase determinada do seu fazer militante, onde a temática neo-realista está presente. Trata-se de um fazer em função de causa públicas. O estudo para o desenho “Morte de Catarina” assinala o assassinato de Catarina Eufémia pela GNR, em Baleizão (1954).
Já “Prisioneiros Políticos” um desenho extremamente bem conseguido, ilustrou milhares de panfletos e serviu de bandeira na angariação de proventos para auxílio aos presos políticos e às suas famílias que Salazar e a PIDE mantinham indefinidamente nas prisões. Talvez seja a sua obra mais divulgada, apesar de circular anónima.
Pinhel, a sua terra bem-amada, não podia deixar de estar presente na obra de Dias Coelho. Ele que se orgulhava das suas origens beirãs e aqui regressava com frequência, deixou imortalizados, como vemos, os mais emblemáticos recantos da cidade. É precisamente na sua “Paisagem com Castelo” que melhor podemos apreciar o quanto bebeu da lição cubista. Curioso ainda o cartaz para as Festas da Cidade, (seria interessante averiguar da data) onde não faltam os principais ex-libris pinhelenses.
«Há quem tombe por um rio / Impetuoso e comum.
Alcântara dos tiros cegos / Alcântara sessenta e um.»
(Pedro Alvim in Notícias do Bloqueio déc. 60)
4 - José Dias Coelho tinha 38 anos quando foi morto (1961). Dividido entre a Arte e a Política optara por esta, o que significava, então, passar a viver na clandestinidade. Tomara essa decisão seis anos antes (1955). Com todas as contingências inerentes. Já na sua ausência, a 10ª Exposição Geral de Artes Plásticas (1956) mostrara a derradeira participação pública deste artista que, corajosamente, abdicara de uma carreira promissora, da sua identidade e da própria liberdade pessoal para, anonimamente, combater pela liberdade de todos. A força anímica, acreditamos, adveio-lhe de ter consigo a mulher e a filha, esse reduto familiar que lhe era fundamental.
Talvez não tenha deixado uma Obra. Não viveu o suficiente para isso. Mas tem direito à Memória. Por generosidade e modéstia de carácter nunca pensou em termos de carreira. Não fomentou exposições individuais, não procurou sucesso pessoal. Colocou sempre os objectivos colectivos acima de quaisquer outros. A sua arte ficou dispersa pela família, pelos amigos, pelos camaradas, por todos os que amava. Fazia-a por prazer. Oferecia-a a quem a sabia apreciar. Era a sua forma de afecto. Era aquele “pedaço” de si “que se quer dar” - de que nos fala nos poemas.
É ainda de afectos que falam os seus retratos. Mais do que uma simples representação eles traduzem o seu desejo de suspender o tempo, tornar presente a ausência, perdurar os afectos para além do tempo. Fixá-los numa imagem «viva». Porque a sobrevivência se consegue pelos elos afectivos. Que induzem a diálogos interiores. Que constroem uma cadeia colectiva de outros afectos. E de valores. Valores e Afectos que se pretendem imunes à morte. Intemporais.
1 – Aida Sousa Dias, O Corpo Feminino na Escultura dos Anos 50 em Portugal, FBAUL, 2000, p.10 e seg.
2 _ José-Augusto França, A Arte em Portugal no Século XX, p. 260 e seg.
3 _ J F Pereira, Reflexões sobre as Teorias da Escultura Portuguesa in ARTETEORIA N 2, 2001, p 17-18
4 _ Luigi Pareyson, Os Problemas da Estética, ed. Martins Fontes, S Paulo, Brasil, 1997, p. 137-138
maio 13, 2004
IDENTIFICADO O AUTOR DO DESENHO DE NATAL

“Este desenho é da autoria de João Abel Manta e foi editado pela Comissão do MUD Juvenil da Escola de Belas Artes de Lisboa de que o autor fazia parte.
Impulsionada por José Dias Coelho, aquela Comissão esteve activa fundamentalmente entre 1946/1952 e dela fizeram parte nomes como João Abel Manta, Rolando Sá Nogueira, Lima de Freitas, Alice Jorge, Bartolomeu Cid, António Alfredo, Margarida Tengarrinha, Raul Hestnes Ferreira, Augusto Sobral, Francisco Castro Rodrigues e muitos outros.
O original foi oferecido pelo autor ao seu grande amigo Dias Coelho e este, ao entrar para a clandestinidade em finais de 1955, ofereceu-a a uma pessoa amiga que ainda hoje o conserva.
João Abel viria a ser preso pela Pide em 1948.!"
Obrigado.
maio 12, 2004
CARIMBOS USADOS PELA DELEGAÇÃO DO PCP EM MADRID (1937-8)

fevereiro 02, 2004
FOTO DE PRISÃO - FORTALEZA DE ANGRA DO HEROÍSMO (1936)

Foto tirada na Fortaleza de S. João Batista em Angra do Heroísmo, Açores , provavelmente em 1936. O preso à direita é Manuel João da Palma Carlos, a quem pertencia o original da foto, que pode ter sido destruído no incêndio que o vitimou. Os outros dois presos não estão identificados.
janeiro 14, 2004
AUTOCOLANTES POLÍTICOS
Os autocolantes foram um dos instrumentos de propaganda política que mais se desenvolveram depois do 25 de Abril, utilizados em particular pelos grupos mais à esquerda , pelo PCP, pelas organizações de extrema-esquerda, e pelos "movimentos de base". Existem coleções de autocolantes no Centro de Documentação 25 de Abril, e na Biblioteca Nacional, sendo que alguns exemplos da colecção da Biblioteca são acessíveis em linha. Existe igualmente uma colecção privada com cerca de 350 exemplares em linha.
Manuel Gálvez, coleccionador de autocolantes políticos e animador de uma página dedicada ao coleccionismo político, organizou uma exposição em Saragoça sobre “Prensa clandestina en Aragón durante el franquismo”.. Existe igualmente em linha uma página de Chorche Paniello sobre os autocolantes na história.
dezembro 30, 2003
CARICATURAS ANTI-PORTUGUESAS NA IMPRENSA INDIANA DOS ANOS CINQUENTA


dezembro 20, 2003
DESENHO ANTI-SALAZARISTA (NATAL 1947)

outubro 26, 2003
TIPOGRAFIA CLANDESTINA

outubro 12, 2003
CARTAZ COMUNISTA CONTRA ENVIO DE ALIMENTOS PARA A HUNGRIA EM 1956

julho 28, 2003
J. M. Leal da Silva - FOTOS DA GREVE DE 1943 (Excerto)
A primeira (e a mais conhecida) fotografia da “Greve de 1943”
(...)
2.1. Sem dúvida que a fotografia da Fig. 1 é a mais significativa e a mais divulgada, pelas razões já referidas.
Fig. 1
Tem um lugar garantido na História de Portugal no sec. XX e até da história dos conflitos laborais europeus e merece, por isso, todos os encómios. Por idêntica razão também deveria merecer uma maior atenção e respeito. A sua referência de origem atribui-lhe uma data (28/7/43) e uma legenda (“A polícia obrigando as famílias dos operários grevistas a abandonar as imediações das fábricas.”). Nesta, nenhuma referência ao Barreiro! Veja-se agora, sem a preocupação de esgotar o tema, pois existem certamente outras reproduções ou utilizações da mesma fotografia que escaparam a esta listagem, como o mesmo documento vai ser apresentado num conjunto de fontes que se reputa significativo e que sucessivamente a vão reproduzir desde a sua primeira divulgação pública, posterior a 1974:
(a) Na publicação 60 Anos ao Serviço do Povo e da Pátria, da Editora Avante, Lisboa, 1981, pag. 65, está referenciada como “Barreiro, Julho de 1943: a polícia expulsa das fábricas as mulheres dos operários em greve”.
(b) Em FERNANDO ROSAS, O Estado Novo (1926-1974) , 7º Volume da História de Portugal publicada sob a direcção de JOSÉ MATTOSO, Círculo de Leitores, s.l., 1994, pag 356, a legenda é a seguinte: “Forças da GNR dispersando uma concentração das mulheres dos operários grevistas do Barreiro em Julho de 1943. Fonte: Fototeca Palácio Foz, Arquivo O Século”. Ao Autor não é indiferente o comportamento revolucionário das mulheres de Alcântara, pelo que, na pag. 358 da obra citada, transcreve parcialmente o parágrafo da reportagem de “O Século” que atrás (ponto 1.5) se referiu.
(c) Em ARMANDO SOUSA TEIXEIRA, A Fábrica e a Luta em Construção – Barreiro: Uma História de Trabalho Resistência e Luta – Parte II - 1946 / 62, edições Avante, Lisboa, 1999, a Fig. 1 está reproduzida na parte superior da contracapa e é identificada, na pag. 6 da obra, como: “Repressão sobre mulheres corticeiras em greve”. Não referindo directamente o Barreiro, esta legenda induz essa localização, quer através do objecto geral da própria obra, quer pela referência a “mulheres corticeiras”, certamente uma hipótese de trabalho que resulta do desenrolar da greve de 1943 no Barreiro, mas que não encontra qualquer conforto por parte da fonte original.
(d) Em JOÃO CARLOS OLIVEIRA, Movimento Operário Durante a II Guerra Mundial – Luta e Repressão no Barreiro, História (Nova Série), XXI, 18 (Outubro 1999), pp. 58 a 66, é dada a pag. 62 com a legenda “Famílias de operários grevistas são obrigadas pela polícia a retirar das imediações das fábricas da CUF”, que praticamente reproduz a legenda original, apenas resultando induzida a referência ao Barreiro pelo título do próprio artigo. Saliente-se que, para além de uma cuidada análise das greves de 1942, 1943 e 1944, obviamente dentro dos limites de extensão do próprio artigo (mas que o Autor tem recentemente desenvolvido numa série de oportunos textos em publicação no Jornal do Barreiro) esta fonte é a única que reproduz a fotografia da Fig. 1 sem a recortar na sua parte superior – o que, como se verá, tem alguma importância. Este artigo tem ainda a particularidade assinalável de ser, a conhecimento do signatário desta resenha, a primeira fonte a reproduzir todas as restantes fotografias relativas à CUF (Figs. 2, 3 e 4), com adequada menção da sua origem.
(e) Em JOAQUIM VIEIRA, Portugal Século XX – Crónica em Imagens – 1940-1950 (5º volume), pag 170, é apresentada como “As forças de segurança expulsam familiares de grevistas das imediações de fábricas da CUF, no Barreiro, ocupadas e paralizadas pelos seus operários.”, identificando-lhe a origem (bem como das outras fotografias próximas) na pag. 215 do mesmo volume. Deve aliás registar-se que na pag. 240 do último volume da série (o 10º), publicado já em 2001, a “corrigenda da 1ª edição” se lhe refere mencionando: “Pag: 170 / Coluna: Legenda inferior / Onde se lê: no Barreiro / Deve ler-se : em Alcântara (Lisboa)”.
(f) Num comentário anónimo publicado a pag. 3 do Jornal do Barreiro, de 25/8/2000, sob o título interrogador Afinal onde foi?, dá-se conta, reproduzindo-a, de que a mesma fotografia foi encontrada, no painel “Repressão nas Ruas” duma exposição sobre repressão e perseguição política então patente no Forte de Peniche, com a surpreendente legenda: “Agressões protagonizadas pela GNR sobre transeuntes na Marinha Grande. Década 30”. E o anónimo comentador conclui, com razão abundante: “Essa mesma fotografia tem sido divulgada como “repressão da GNR, no Barreiro, nos anos 40”. Afinal onde foi? Que se apure a verdade. A palavra aos historiadores.” Este repto, que revela o interesse existente quanto à questão, deu lugar a uma oportuna resposta por parte de FERNANDO ALEGRIA DA MOTA, como leitor do Jornal do Barreiro, resposta essa que, pelo seu interesse, adiante se retomará.
(g) Ainda mais recentemente, no capítulo 6º (A viragem da guerra: as greves) da obra de JOSÉ PACHECO PEREIRA, Alvaro Cunhal – Uma Biografia Política; Volume 2: «Duarte»., o Dirigente Clandestino (1941-1949), ed. Temas e Debates, Lisboa, 2001, a legenda que lhe vem aposta, na pag 260, é “GNR carrega sobre as mulheres no Barreiro”. Ao Autor não passa despercebido o valor intrínseco do documento, que lhe merece a seguinte análise, a pags. 259/260: “Data provavelmente desse dia a mais conhecida fotografia da greve e talvez a mais expressiva de qualquer movimento social operário durante a ditadura, na qual se vê um grupo de GNR a carregar sobre mulheres e crianças no Barreiro. As mulheres ainda jovens, de avental e com a chita dos vestidos dos pobres, olham para trás para o guarda que levanta a espingarda para dar uma coronhada, sem qualquer medo. A mulher da frente leva na mão um filho e quase não corre, anda apenas mais depressa.”. Ainda na mesma obra são reproduzidas as outras três fotografias de “O Século” que à greve e aos dias 28 e 29 de Julho de 1943 se referem, sem mais indicações que as legendas respectivas, e volta a ser parcialmente transcrita, no texto, a referência, já acima citada (ponto 1.5.) da reportagem do mesmo jornal quanto à intervenção activa das mulheres de Lisboa.
(h) Finalmente, e como uma das razões já invocadas para a oportunidade destas linhas, a já tão celebrada fotografia da Fig. 1 é reportada a 1943 na série cronológica constante da exposição “Elementos do Passado Industrial Barreirense”, que, em Maio último, a Câmara Municipal do Barreiro inaugurou nas Reservas Museológicas Visitáveis, tendo aí a seguinte legenda: “Agressões da GNR sobre familiares dos grevistas da CUF”, e registando como fonte imediata a publicação referenciada em (a), supra. Ainda que esta legenda não o mencione, a natureza da exposição e o reporte referido àquela referência antecedente, sem qualquer salvaguarda quanto ao local, volta a induzir o Barreiro como localização. Aliás, como se verá, a identificação como GNR da força repressora que a fotografia exibe havia já sido posta em causa, quando desta mostra. A própria divulgação desta interessante exposição na imprensa diária vai determinar a mais recente publicação que se conhece da mesma fotografia, com muito má qualidade e com uma legenda que se situa apenas no contexto da exposição e não no que o documento significa, a pag. 10 da edição de Lisboa do “Jornal de Notícias” de 18 de Maio de 2002.
2.2. Apresentada a fotografia da Fig. 1, tal como tem sido até hoje divulgada, afasta-se liminarmente a suposta localização na Marinha Grande e nos “anos 30”, que revela uma lamentável falta de rigor e um total desconformidade com a sua origem. Tem-se por assente que a fotografia respeita à greve de 1943 e que se reporta a instalações da CUF, mas muito do que se encontra nas variadas legendas que lhe foram atribuídas e que atrás se referiram, incluindo a alusão a uma localização que se tornou tradicional (Barreiro), carece de apoio na fonte original.
2.3. Começa-se por questionar a identificação da força repressora, quase geralmente apontada como sendo a GNR. Cabe tal mérito e prioridade ao já referido leitor do JB, FERNANDO ALEGRIA DA MOTA, quando, respondendo ao repto “Afinal onde foi?” lançado na edição deste jornal, de 25/8/2000, levantou certeiramente a questão em carta-resposta publicada na edição do mesmo, de 8/9/2000, pag. 4, e da qual, com a devida vénia, se destaca o contributo seguinte: “A foto sempre foi apresentada em muitas publicações como sendo do Barreiro.Não é facilmente decifrável o local onde foi feita, embora a roupagem das mulheres e crianças, bem como o ambiente envolvente, tenha muito mais do Barreiro do que da Marinha Grande. A ser no Barreiro, a foto deve ter sido feita nos anos 40, julgo mais certo 42 ou 45, aquando das grandes greves que então aqui se registaram. Mais interessante é que a carga das forças policiais é atribuída à GNR quando são agentes da PSP que estão a actuar, força que então policiava o Barreiro só tendo sido substituída pela GNR depois destas greves. É fácil reparar nas diferenças: A GNR usava polainas. A PSP usava calça completa. Os bonés, embora semelhantes, não são iguais. O fecho dos cinturões é diferente, tendo a GNR, ainda hoje, um escudo próprio. No que respeita ao armamento exibido, ambas [as] forças policiais usavam o mesmo modelo, ao que presumo Mauser mod. 37 ou a Mauser Vergueiro. Ainda devem existir pessoas vivas que tenham presenciado os acontecimentos e que possam esclarecer devidamente a foto.” [tem-se que a referência a 45 foi gralha ou má leitura, e que o referido leitor talvez quizesse escrever 43]. Ou seja: se são importantes as dúvidas deste leitor quanto à localização, é também certeiro o reconhecimento, pela farda, de que as forças repressoras então fotografadas são da PSP e não da GNR, estendendo-se os argumentos de identificação às restantes fotografias da série. Porém, sendo importante para marcar leituras incorrectas nas sucessivas apresentações dessas fotos, já que as legendas originais não referem a GNR, tal argumento não fornece, só por si, um critério decisivo quanto à localização. De facto, o policiamento do Barreiro urbano era até então “titulado” pela PSP e assim, muito embora tenham acorrido ao Barreiro efectivos da GNR para integrar as forças da repressão (e vieram para ficar, como se viu e sentiu...), os acontecimentos representados com presença da PSP poder-se-iam desenvolver tanto no Barreiro urbano como em Lisboa. Tempos depois, com a entrega de todo o Barreiro à acção da GNR destacada, já não se diria certamente o mesmo...
2.5. Aprofundando a indagação, percorreu-se atentamente o campo fotografado na Fig.1, inclusive para tentar identificar onde, no Barreiro, teria tido lugar o acontecimento registado. Não se tendo conseguido respostas satisfatórias, a atenção fixou-se em dois elementos que a fotografia apresenta: o poste metálico cilíndrico que se evidencia junto à esquina, e o candeeiro de ferro fundido, com um globo de vidro de desenho característico, que se desenha no fundo, “do outro lado da rua em frente”. Quanto ao primeiro, a identificação pode ser facilitada quando o desenvolvimento vertical do mesmo se observa na fotografia sem recorte superior, como consta da reprodução publicada no artigo de JOÃO CARLOS OLIVEIRA e aqui se retoma. É o que também ressalta da ampliação do canto superior direito da fotografia, que se dá como Fig.1-1. E assim não só se confirma ser aquele um poste metálico cilíndrico, como facilmente se reconhecem os troços de diferente secção, da base para o topo, que o identificam com os que a Carris então usava e ainda hoje usa para suspender o condutor aéreo.
Fig. 1-1 (foto a incluir posteriormente)
Ampliação do canto superior direito da Fig.1,
mostrando... o poste da Carris e o candeeiro
da iluminação pública.!
Ora, ao que se sabe, tais postes não existiram nem tinham razão de existir no Barreiro, em 1943, pelo que o indício se torna revelador.. Como se verá, numa outra fotografia tirada pela mesma reportagem fotográfica e no mesmo dia (Fig.2), surge um outro poste da Carris, este até com o número bem à vista!
2.6. Quanto ao candeeiro de ferro fundido, que a Fig. 1-1 também mostra, é de e modelo próximo ao que a Câmara Municipal de Lisboa ainda hoje usa em diversos localizações urbanas, embora com diferente globo (por exemplo, no Largo Dr. José de Figueiredo, às Janelas Verdes). Dir-se-á que no Parque Catarina Eufêmia, no Barreiro, existem também candeeiros desses. Constata-se porém que, com construção e globo como estes, em nenhuma outra localização urbana ou fotografia antiga os reconhecemos no Barreiro, e que este indício, mesmo que se possa conceder como não determinante, vai articular-se com os restantes... e é mais um elemento a ter em conta.
2.7. Ficava assim estabelecido todo um “inventário de rua” que decisivamente justificava uma procura de localização em Lisboa, já que no Barreiro se não tinha conseguido encontrar nem localização, nem resposta para os indícios reconhecidos. Procurava-se um entroncamento urbano, em T, próximo de um dos estabelecimentos industriais da CUF e do traçado de uma linha de “eléctricos”, compatível com o perímetro que a reportagem de “O Século” atribuíu à presença activa das mulheres familiares dos operários em greve no dia 28 de Julho de 1943. Na haste do T, sem ser visível o outro lado da rua, havia, em 1943, um pavimento em empedrado irregular e um passeio em pedra de espelho, cortado transversalmente por uma descarga de caleira, idêntica às que em Lisboa se encontram, uma parede (fachada) que se prolonga até quase junto à esquina, em que se abre a porta que acoberta o fotógrafo, e ainda, junto à esquina, um poste metálico da Carris e uma árvore. Ao fundo, ao longo da “barra do T”, um muro alto, com paineis, acompanha um passeio “do outro lado”, com árvores que em 1943 eram ainda “tenras” e com um candeeiro de iluminação pública em ferro fundido, encobrindo parcialmente edificações tipo armazém ou oficina.
2.8. Estabelecido todo este “caderno de encargos”, não foi muito difícil chegar à Travessa do Baluarte, que desemboca na Avenida 24 de Julho e que precisamente limita, do seu lado nascente (que se não vê na foto), um dos históricos estabelecimentos fabris da CUF na zona de Alcântara de Lisboa e que era a “Fábrica Sol”. Todos os condimentos lá estão, como se pode ver das Figs. 1-2, 1-3 e 1-4. Ao longo da Avenida 24 de Julho corre o mesmo muro com motivos iguais aos da foto de 1943 e com árvores ainda tenras ou com cepos bem visíveis no lugar das árvores que provavelmente testemunharam os acontecimentos de 1943. Na Travessa, por sua vez, mantém-se o mesmo passeio, com a mesma linha de escoamento e o mesmo empedrado que, em 2000, antes da reparação entretanto efectuada, dava interessantes indicações (que se fotografaram) para uma possível interpretação cronológica das diversas modificações, num verdadeiro exercício de “arqueologia urbana”. É mais que evidente o poste da Carris , que hoje tem o número A 843, e a árvore da esquina ou a sua sucessora. O portão de correr na fachada do lado nascente da Travessa é posterior aos acontecimentos e substituiu a porta que “albergou” o repórter fotográfico de “O
Fig. 1-2 (foto a incluir posteriormente)
O entroncamento da Travessa do Baluarte com a Av. 24 de Julho,
em Lisboa, na actualidade. No passeio fronteiro da Avenida são visíveis os cepos de árvores anteriores.
Fig. 1-3 (foto a incluir posteriormente)
(cronologicamente anterior à Fig. 1-2)
A travessa do Baluarte no ano 2000, antes das obras no passeio
da direita, em que se vê o portão de correr e a “porta gémea”;
à esquerda o edifício que era da Fábrica Sol
Fig. 1-4 (foto a incluir posteriormente)
O edifício que era da Fábrica Sol, em foto actual tirada do passeio Sul da Av. 24 de Julho, em frente da Travessa do Baluarte, vendo-se o poste da Carris nº A 843, na esquina do lado esquerdo da mesma
Século”, em 1943, e que, no entanto, tem rigorosa reprodução numa porta gémea que ainda hoje subsiste, mais para dentro da Travessa. A proximidade da Fábrica Sol e a linha de eléctrico na Avenida 24 de Julho, que constitui a “barra do T”, são situações claramente mantidas. Falta o candeeiro de ferro fundido, substituído entretanto por outro suporte de iluminação, e sobeja a sinalização vertical de trânsito que, em 1943, obviamente não existia.
2.9. Aponta-se assim para ter sido aí, na Travessa do Baluarte, freguesia dos Prazeres, em Lisboa – e não no Barreiro – que, a 28 de Julho de 1943, se passou o que a bem conhecida fotografia da Fig. 1 regista.