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Índice
Editorial
Arquivos, Bibliotecas, Fundos: 10 textos
Bibliografia: 86 textos
Biografias / Vidas: 138 textos
Colóquios , conferências, debates: 15 textos
Estudos: 6 textos
Estudos locais: 2 textos
Extrema-esquerda - História: 10 textos
Fontes: 7 textos
Iconografia: 12 textos
Movimento comunista internacional: 11 textos
Notas: 5 textos
Notas de investigação: 1 textos
Organizações - PCP: 3 textos
Recensões críticas: 3 textos
Repressão: 7 textos
Revista Estudos sobre o Comunismo: 3 textos
Vários: 17 textos
dezembro 2005
novembro 2005
outubro 2005
setembro 2005
agosto 2005
julho 2005
junho 2005
maio 2005
abril 2005
março 2005
fevereiro 2005
dezembro 2004
novembro 2004
outubro 2004
agosto 2004
julho 2004
junho 2004
maio 2004
abril 2004
março 2004
fevereiro 2004
janeiro 2004
dezembro 2003
novembro 2003
outubro 2003
setembro 2003
agosto 2003
julho 2003
junho 2003
maio 2003
janeiro 2003
*
* COMEMORAÇÕES DO CENTENÁRIO DE FERNANDO LOPES-GRAÇA
* NOTÍCIAS E MATERIAIS ASSOCIADOS AO CENTENÁRIO DE RUY LUÍS GOMES
* ACTIVIDADES DA OPOSIÇÃO DURANTE A CAMPANHA ELEITORAL DE NOVEMBRO 1957
* ÁLVARO CUNHAL - BIOGRAFIA POLÍTICA
* CENTENÁRIO DO NASCIMENTO DE RUY LUIS GOMES
* SELO COMEMORATIVO DE ÁLVARO CUNHAL
*
III VOLUME SOBRE OS ANOS DA PRISÃO (1949-1960)
* SÉRIE TELEVISIVA ATÉ AMANHÃ CAMARADAS EM DVD
* Annals of Communism
* Archivo Guerra y Exilio
* Arquivo Edgard Leuenroth
* Arquivo Nacional da Torre de Tombo
* Asociación de Amigos de las Brigadas Internacionales
* Asociación para el Estudio de los Exilios y Migraciones Ibéricos Contemporáneos
* Biblioteca Victor Serge (Moscovo)
* Bibliothèque de documentation internationale contemporaine (BDIC)
* British Library
* CEIP León Trotsky
* Centre des Archives Communistes en Belgique
* Center for the Study of Political Graphics
* Centre d’Estudis sobre les Èpoques Franquista i Democràtica
* CENTRE D'ETUDES ET DE RECHERCHES SUR LES MIGRATIONS IBERIQUES
* Centre d'Etudes et de Recherches sur les Mouvements Trotskyste et Révolutionnaires Internationaux
* Centre d'Histoire et de Sociologie des Gauches
* Centre International de Recherches sur l'Anarchisme (CIRA)
* Centro de Documentação 25 de Abril
* Centro de Documentación e Investigación de la Cultura de Izquierdas en Argentina
* Centro de Estudios y Documentación de las Brigadas Internacionales
* Chapters in the History of Communist and Socialism
* Cold War International History Project
* Collectif des centres de documentation en histoire ouvrière et sociale
* Commonwealth and Latin American Archives Project - Political Archives
* Communist Chronicles
* Communist History Network
* Conservatoire des mémoires étudiantes et universitaires (CME)
* Contemporary Portuguese Political History
* Correntes Artísticas e Movimentos Intelectuais
* Dictionary of Labour Biography
* Documents on American Radicalism
* Ephemera Society of America
* Estudios sobre la historia del movimiento comunista en España
* Fondación Andreu Nin
* Fondation Gabriel Péri
* Fondation Pierre Besnard
* Fondazioni Istituto Gramsci
* Friedrich-Ebert-Stiftung
* Fundação Astrojildo Pereira
* Fundação Mário Soares
* Fundación de Investigaciones Marxistas
* Fundación Salvador Segui
* Gosudarstvennaia Obshchestvenno-Politicheskaia Biblioteka
* Gramsci e o Brasil
* Guerra Civil Espanhola
* GUIA DA HISTÓRIA DAS ESQUERDAS BRASILEIRAS
* História e Ciência
* Historian’s of American Communism
* History Journals Guide
* Hoover Institution
* Institut d'histoire du temps présent
* Internacional Situacionista - Arquivos
* International Association of Labour History Institutions
* International Institute of Social History
* International Newsletter of Communist Studies
* Jahrbuch für Historische Kommunismusforschung
* Kate Sharpley Library
* Library of Congress
* London School of Economics - Biblioteca
* Maitron
* Marx Memorial Library
* Marxists Internet Archive
* National Archives and Records Administration (NARA)
* L'OFFICE UNIVERSITAIRE DE RECHERCHE SOCIALISTE (L'OURS)
* Parallel History Project on NATO and the Warsaw Pact
* PC da África do Sul
* PC do Japão
* People's History Museum
* PORBASE - Pesquisa bibliográfica
* Popular Movements Internet Resources
* Public Record Office
* Red de Archivos Historicos de Comisiones Obreras
* Society for the Study of Labour History
* Socio[B]logue
* Stalin-Era Research and Archives Project
* TrotskyanaNet
* Twentieth Century Latin American Pamphlets
* University of California- Berkeley – Biblioteca
* Vidas Lusófonas
* WorkLab - International Association of Labour Museums
* Working Class Movement Library
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novembro 11, 2005
SÉRIE TELEVISIVA ATÉ AMANHÃ CAMARADAS EM DVD
Um DVD com a série Até Amanhã, Camaradas, realizada por Joaquim Leitão para a SIC), vai ser posta à venda. Os quatro discos incluem também cenas cortadas, entrevistas com a equipa e uma entrevista com Álvaro Cunhal, em cuja obra se baseia a série.
julho 13, 2005
julho 11, 2005
SISTEMA DE COMENTÁRIOS ENCERRADO
O sistema de comentários está a ser encerrado devido ao ataque de lixo, casinos, roletas, jogos e outras coisas, que está a invadir as mensagens. Quem desejar colocar comentários pode utilizar o endereço de correio electrónico.
junho 22, 2005
PARA A HISTÓRIA DA COMISSÃO PORTUGUESA PARA AS RELAÇÕES CULTURAIS EUROPEIAS
Realizou-se na Fundação Luso Americana para o Desenvolvimento, em colaboração com o Centro Nacional de Cultura, o colóquio
A CULTURA PROMOVE A LIBERDADE? - A importância da Comissão Portuguesa para as Relações Culturais Europeias no final do Salazarismo e no Marcelismo, 1965-1974
21 de Junho de 2005
P R O G R A M A:
História do Congresso para a Liberdade da Cultura e da sua sucessora,
a Associação Internacional para a Liberdade da Cultura
15h00 – Abertura
Dr. Guilherme d’Oliveira Martins, Presidente do Centro Nacional de Cultura
15h10 – As origens da Comissão Portuguesa para as Relações Culturais Europeias; comparação com a Comissão Espanhola.
Roselyne Chenu, ex-responsável do programa Europeu da Associação Internacional para a Liberdade da Cultura.
15h40 - A importância da Comissão Portuguesa para as Relações Culturais Europeias no final do Salazarismo e no Marcelismo, 1965-1974.
Dr. João Bénard da Costa, Ex-Secretário-Geral da Comissão Portuguesa.
16h10 – A comissão Portuguesa para as Relações Culturais Europeias – uma análise histórica.
Doutor Nicolau Andresen Leitão, Instituto de Ciências Sociais, Universidade de Lisboa.
16h30 – Coffee break
17h00 – Testemunhos:
João Bénard da Costa
Nuno Teotónio Pereira
João Salgueiro
Mário Murteira
João Cravinho
Manuel Lucena
José Pacheco Pereira
José Medeiros Ferreira
18h00 – Síntese
Dr. João Bénard da Costa, Presidente da Cinemateca Portuguesa.
18h15 – Encerramento
Dr. Rui Machete, Presidente da FLAD.
abril 28, 2005
IDENTIFICAR TEXTOS ANÓNIMOS
Eu explico a necessidade: trabalhando nos meus estudos com textos quase exclusivamente anónimos – artigos da imprensa clandestina, relatórios, etc. – ser-me-ia útil poder precisar ou ter uma indicação de probabilidade de autoria. Como muitos dos autores desses textos – Bento Gonçalves e Cunhal por exemplo – são autores de muitos textos publicados com o seu nome, seria interessante poder identificar textos anónimos. Um exemplo: saber se foi Cunhal que escreveu no Avante! dos anos trinta um artigo sobre o aborto na URSS ou resolver a controvérsia sobre o relatório atribuído a Bento Gonçalves ( ou feito por “Pável”?) apresentado em 1935 à Internacional.
março 28, 2005
António Nabo - REPRESENTAÇÕES DO PRESENTE NO PCP DE MONTEMOR-O-NOVO
O nosso objectivo aquando da publicação do texto foi revelar um pouco do partido em Montemor, um concelho que foi fortemente marcado pelo PCP durante décadas."
PCP – Retratos do Partido, ontem, hoje e amanhã
O PCP é, só por si, um partido diferente dos outros. É diferente na idade, - foi fundado em 1921 -, é diferente na forma como pretende chegar ao poder – pela revolução e não necessariamente pelos votos -, é diferente na militância – uma vez comunista de verdade, para sempre comunista -, é diferente na atitude – é o único partido que se assume contra o capitalismo ao afirmar que este não é o fim da história e que a humanidade pode superá-lo, organizando um outro sistema onde não exista a exploração do homem pelo homem.
O momento actual não tem sido propício ao PCP. O partido não consegue suster a derrapagem dos votos. Nas últimas legislativas, a coligação com os verdes obteve o seu pior resultado de sempre, ao eleger apenas 12 deputados em 6 distritos, Lisboa, Setúbal, Porto, Santarém, Évora e Beja, todos os restantes distritos já não têm nenhum representante do PCP na Assembleia da República. Nas últimas eleições autárquicas as perdas de presidências de Câmaras deixaram marcas profundas, face ao que se passou em Évora e em Lisboa. As referências exteriores praticamente não existem, depois da queda do Muro de Berlim e do descalabro da União Soviética. Resta Cuba, a esperança chinesa e a Festa do Avante que continua a chamar um mar de gente.
Face a este cenário desfavorável, e sendo Montemor a praça mais forte do PCP em todo o Alentejo, a Folha foi falar com os representantes da concelhia do PCP- António Gervásio, Alexandre Pirata, Vatalina Roque e Maria Lourença -, para saber o que se passa na da vida deste partido.
O contexto
Gorbachev ficará para a História com o homem que acabou com a União Soviética, o que só por si constituiu o maior golpe que os partidos comunistas sofreram ao longo de toda a sua existência. Mas a vida e a sociedade soviética já denotavam algum mal-estar entre a população, o que era um indício de que algo de grave estava próximo de acontecer. Alvin Toffler, prevê a queda do sistema, mas é incapaz que prever o tempo em que tal irá acontecer, ao afirmar que “o socialismo chocou com o futuro” .
Todavia, esta não é a versão dos acontecimentos aceite pelo PCP. Para António Gervásio, o Partido Comunista da União Soviética degradou-se, abandonou a luta pela construção do socialismo. A “perestoika” foi um processo contra-revolucionário, atrás de si, tinha a contra-revolução. Quanto mais avançava a “perestroika” mais os chefes imperialistas esfregavam as mãos de contentes, mais se afundava o socialismo.
Ao longo dos anos, já desde a era de Brezhnev, eles - o mundo ocidental - foram degradando a produção, a produtividade e a própria sociedade, criando as condições para que o povo saísse para a rua. Em 19 de Agosto de 1991, essas forças saíram para a rua e triunfaram.
Por isso é importante questionar como é visto o último secretário geral do PC soviético pelo comunistas portugueses. António Gervásio não hesitou ao responder que a História irá dar a conhecer como se desmoronou o socialismo. Gorbachev deveria estar ao serviço de outras forças, forças anti-comunistas que entregaram o poder. Alguém acredita que num dia Gorbachev é o Secretário-Geral do PC Soviético e no dia seguinte assina a sua ilegalização e entrega o socialismo às foças do imperialismo. Não é um homem sério, é um homem que está ao serviço de alguma coisa que não é o socialismo. Por que é que ele, no ano seguinte, vai para a América e é eleito o homem do século XX que transformou o mundo.
Cuba, aparece assim como uma das últimas bandeiras onde o socialismo resiste, desde a revolução encetada por Fidel Castro, em 1959. Contudo, o que se irá passar quando este mítico dirigente morrer, será que o país tem capacidade de manter o rumo socialista? Será que Castro tem sucessor à altura? António Gervásio refere que Cuba há mais de 40 anos que está cercada, mas até agora ainda não caiu, e não se espera que vá cair. No plano da saúde são hoje dos países mais evoluídos do mundo, mas sofrem um bloqueio económico fortíssimo por parte dos americanos.
Todos os dirigentes têm sucessores. Não se pense que caindo Fidel que cai o socialismo em Cuba. O povo cubano é um povo aberto, onde não há racismo, onde o partido grita pelo povo. Eles têm consciência que se um dia perdem o poder são esmagados. Será mau para aquele povo que o comunismo caia, mas a luta não para.
Vitalina Roque, que já esteve em Cuba, não hesita em comentar que os cubanos comparam a vida que têm com a vida dos outros povos da América Latina e não com a vida dos EUA.
Na queda dos regimes comunistas existem imagens que impressionam: quando o Muro de Berlim caiu, as pessoas foram todas no mesmo sentido, do mundo socialista, para o mundo capitalista.
Alexandre Pirata - É verdade. Mas isso foi como a impulsão de um prédio, só se faz ruir os alicerces, e ele cai sobre si próprio. E aqui foi um trabalho dos monopólios e do imperialismo ao longo de muitos anos, e quando conseguiram minar os alicerces todos, o sistema caiu sobre si. Eu que viva lá os seis anos mais felizes da minha vida, ainda hoje me interrogo. Como é que é possível? Um país daqueles, com um aparente domínio de tudo, como é que é possível se entregarem, se venderem. Estes dez anos de retrocesso aqui vão representar umas dezenas largas de anos para repor o que se andou para trás.
Face à situação que hoje se vive no mundo, onde a globalização é uma realidade, e a União Europeia faz parte do nosso dia-a-dia, questiona-se se o PCP ainda faz falta à sociedade portuguesa?
A. Gervásio - Se não existisse o PCP não teríamos derrubado o fascismo em 1974, nem a Revolução de Abril teria triunfado, porque existia um luta revolucionária que foi organizada, dirigida e influenciada pelo PCP. Não houve nenhuma luta económica ou social que não tivesse a mão do PCP. O nosso povo pode agradecer ao PCP ter conquistado a liberdade em 1974.
Hoje o PCP não está fora do contexto, a vida provou que cada vez faz mais falta às classes trabalhadoras, um partido revolucionário. Esta palavra não deve assustar ninguém, revolucionar é transformar a vida, é avançar para um mundo novo e melhor.
Agora, há partidos que se auto-destruiram, que degeneraram, mesmo aqueles que estavam no poder socialista, como a queda do PC italiano, a desagregação do PC francês, a morte do PC espanhol. As forças que combatem os partidos comunistas conseguiram penetrar. Pode pensar-se que o comunismo caiu na União Soviética porque o modelo era um modelo estatizado. Tudo isso é mentira, quando se vai analisar a situação, verifica-se que a contra-revolução não começou por baixo, mas por cima. A queda dos regimes socialistas trouxe muitas ameaças à humanidade, mais desemprego, mais fome, mais guerras, há mais esmagamentos de povos e de países. Isso não seria possível se existisse o campo socialista.
A conquista do poder
Todavia, apesar do que os seus dirigentes afirmam, as eleições indicam que o país se está a afastar do PCP, pelo que A. Gervásio afirma que não é essa a baliza para se avaliar a força do PCP. Não quero avaliar a força do PCP na base de votos, porque essa é uma análise errada. Nós não somos um partido eleitoralista. Consideramos que a frente eleitoral institucional é importante, mas não é a decisiva. A decisiva é a luta de massas, a luta social, os problemas sociais e a nossa força no movimento social, nas empresas e, nos sindicatos. Essa é a luta determinante.
Por que nós não somos um partido que aceitamos o sistema, tal como é, nós forçamos as fronteiras do sistema. Todos os outros partidos são partidos do sistema, não passam daqui, não querem transformar a sociedade, não querem que a exploração do homem pelo homem acabe. Nós pensamos sempre que a sociedade deve acabar com a exploração do homem pelo homem, achamos que essa situação não é necessária. O nosso objectivo é a transformação da sociedade, conduzindo a luta nesse caminho.
Como é que chega ao poder? Pela revolução ou pelos votos? Depende, muitos têm chegado por votos. Allende, chegou ao poder pelos votos, mas o imperialismo derrubou-o. Nós derrubámos a ditadura fascista, sem que tenha sido preciso um golpe muito forte. Podíamos ter passado para o socialismo, estivemos à beirinha. Mas podem-se sempre criar resultados eleitorais, de alianças de forças democráticas, que alteram o poder, sem necessidade de convulsões violentas.
Nas últimas eleições o PCP teve o pior resultado de sempre. Elegeu 12 deputados e 8 pertencem a Lisboa e a Setúbal. Do ponto de vista da realidade democrática, onde o poder do povo se expressa através do voto, ainda se pode afirmar que o PCP continua a ser um partido nacional?
A. Gervásio - O PCP faz falta, o povo não terá a defesa dos seus interesses se não houver um PCP mais forte. Não devem ter medo do PCP, o PCP não é um papão, tudo isso são fantasias, isso não é verdade, pelo contrário, o PCP é um partido aberto. Se forem às listas do Partido podem encontrar muita gente que não pertence ao partido. Nas listas da CDU, metade não pertence ao partido. Sozinhos não construímos uma vida melhor, é com todos, com todos os que querem o progresso. Por isso estamos a trabalhar para um PCP mais forte, não é para servir os comunistas é para servir o país.
Eu gostava de sublinhar que nós não subestimamos a luta eleitoral institucional. É importante para o nosso povo transmitir a nossa mensagem, a nossa influência, mas não a consideramos a decisiva, por isso não abandonamos as outras. Neste momento, damos prioridade à luta social contra esta política que arrasta o país para uma ruína completa.
A nossa mensagem não passa pela comunicação social, porque eles isolam-nos, silenciam-nos, deturpam. Assim temos muito mais dificuldade em transmitir a nossa mensagem através dos meios oficiais, daí termos que utilizar os nossos meios, mas não têm a mesma eficácia.
A influência da PCP
O PCP sempre teve uma influência muito significativa no Alentejo, devido principalmente à forma como nesta região estava implantada a posse da terra. Um reduzido número de pessoas detinha a grande maioria das terras e um grande universo de pessoas não tinha mais do que a sua força de braços para poder sobreviver.
Montemor, não fugiu a esta situação e foi, ao longo dos quase 50 anos de ditadura, uma localidade onde a luta de classes se desenvolveu de forma contínua, mesmo quando tudo parecia perdido, e as forças governamentais provocavam sérios golpes na estrutura local, como aconteceu aquando da morte de Germano Vidigal, havia sempre alguém que tinha a coragem de se levantar.
Hoje com a diminuição de votos e de influência o Alentejo parece estar está a voltar as costas ao PCP? A. Gervásio não vê a situação com a mesma perspectiva e afirma que não está, e vamos a ver, se houver lutas quem é que lá está. As lutas que existem nas questões da saúde, do emprego, do ambiente, dos problemas vivos do nosso povo, quem é que lá está? Não é o CDS, podem estar alguns socialistas, mas os militantes comunistas estão lá.
Alexandre Pirata comenta que, o nosso principal eleitorado são aquelas pessoas que passaram toda a sua vida com ocupações agrícolas e a sua perda também nos leva alguns votos, mas a segunda causa são os meios de comunicação ao dispor de cada força política. Ora nós não temos a possibilidade de ter o mesmo acesso à televisão e à rádio, e são esses meios que formam a opinião.
A abstenção é hoje um problema para todos os partidos e uma situação reveladora do desinteresse de uma faixa importante da população que sistematicamente não vota. Vitalina Roque os jovens são muito críticos e têm muito pouca confiança nos políticos. Temos que reconhecer que existem muitos políticos que desiludiram completamente o que torna natural que muitos jovens se abstenham. Nós vemos os jovens de aqui participar nas actividades proporcionadas, mas depois não votam.
Alterar o actual cenário da abstenção é uma tarefa enorme que não se consegue de um dia para o outro. Vitalina Roque acha que a situação só se pode alterar com a possibilidade de participar. Nós temos uma quantidade de gente nova nas listas da CDU para as autarquias. Começa a notar-se uma nova vontade de participar e um maior interesse por estas questões.
As autarquias comunistas
Uma das áreas onde o PCP tem marcado mais influência em termos de poder é a área autárquica. Que diferenças têm as autarquias comunistas das outras?
A. Gervásio comenta que se se for ao Norte e se se fizer uma visita às autarquias do PS ou do PSD ou CDS nota logo as diferenças: nos contactos com as populações, na solução dos problemas do saneamento básico, no apoio às estruturas, por que nós existimos para servir as populações, não é para servir lobbies, grupos da construção civil ou outros.
Repare, em Évora, ganhou o Partido Socialista, os comunistas já não puderam ter um pavilhão na Feira de S. João. Em Grândola, também ganharam os socialistas e os comunistas também já não puderam ter um pavilhão na Feira.
Para Vitalina Roque, que fez parte do anterior executivo camarário, uma das diferenças, nos primeiros anos de poder local democrático, foi a preocupação com as questões básicas essenciais. Actualmente, a maior parte destes problemas estão resolvidos, por quase todo o país, por isso nessas questões já não existem muitas diferenças. Mas existe uma diferença que nós, nomeadamente aqui no concelho, tentamos implementar que é a participação das populações, e que se traduz numa gestão participada que me parece não acontece noutras autarquias lideradas por outras forças políticas. Nas autarquias da CDU uma outra diferença é a descentralização das câmaras para as freguesias.
Maria Lourença acrescenta que o que distingue os comunistas é a forma de chegar às pessoas, é querer que as pessoas sejam elas próprias. Esta é a nossa maneira de estar, e é esta a nossa diferença, que se traduz numa vontade de transformar a sociedade.
Alexandre Pirata, actual presidente da junta de freguesia de Nossa Senhora da Vila, afirma que um outro aspecto que também define a gestão participada da CDU é a forma de gerir os interesses da população, de toda a população e não fazer qualquer tipo de discriminação sobre cores políticas. Depois de sermos eleitos servimos os interesses de toda a população. Outro aspecto a referir é a entrega total dos nossos eleitos à gestão autárquica.
Mesmo assim, apesar das vantagens e diferenças positivas aqui apontadas, nas últimas eleições o número de Câmaras do PCP diminuiu. A. Pirata justifica, ao apontar várias causas, tais como, perdemos algumas por erros nossos, da nossa gestão e também por questões partidárias. Por exemplo, em Évora, não fomos capazes de aguentar aquele embate.
A. Gervásio alarga a análise ao afirmar que o Alentejo sofre as transformações mais profundas de toda a sua história. Nunca o Alentejo sofreu a desertificação que está a sofrer hoje. A população activa desapareceu do Alentejo, já não existe actividade produtiva, as terras estão cercadas de arame farpado, de coutadas e não dão emprego. O eleitorado que votava PCP já cá não está, e isso reflecte-se na votação do PCP. Hoje o eleitorado é outro e algum eleitorado que tem vindo, não se identifica com a esquerda.
Por outro lado, nalguns sítios onde o caciquismo de direita tem mais força a abstenção ainda é maior, na Madeira, onde está o Jardim, por exemplo, é a região onde a abstenção é mais alta.
O que seria da oposição em Portugal se não houvesse um partido comunista? o que da seria da Assembleia da República? Mesmo quando não estão no poder, quem é que mais diplomas propõe, que mais trabalho de casa faz, quem mais se empenha em todos os órgãos políticos onde está.
E sempre tem estado, infelizmente, na oposição, com excepção do período logo a seguir ao 25 de Abril, isso mostra que nós, mesmo quando não estão criadas as condições de acesso ao poder, o nosso trabalho é importantíssimo na oposição, pelo menos para impedir que se criem situações políticas contra os trabalhadores, contra os direitos dos cidadãos, em privilégio de um estrato da sociedade que não são aqueles que mais produzem e que mais a representam no seu todo.
A Reforma Agrária
A Reforma Agrária é, sem dúvida, a maior bandeira do PCP. O impacto deste processo no Alentejo foi enorme, embora de curta duração. O que é que falhou na Reforma Agrária?
AG – A Reforma Agrária não falhou, o que falhou foi um governo de esquerda, falhou um governo democrático avançado.
Como é que chegava a esse governo?
AG – Se os militares de Abril não se tivessem vendido ao partido socialista – alguns deles.
A Reforma Agrária foi legítima?
AG - Foi, principalmente para esta região. Repare, eu tenho um conceito de legitimidade, talvez diferente do seu.
Quando se deu o processo revolucionário, o comportamento dos grandes proprietários foi despedir tudo, deixar de dar trabalho, deixar de produzir, fugir para outras regiões e até para Espanha.
Então os trabalhadores colocaram-se perante a questão: que fazer? Não há trabalho, as terras estão incultas e abandonadas. Por essa razão o partido promoveu a primeira conferência dos trabalhadores agrícolas do sul, em 9 de Fevereiro de 1975, para discutir esta situação: que fazer perante esta situação e este comportamento contra-revolucionário que se estava a opor à Revolução de Abril.
A decisão foi: avançar para as terras incultas. Mas igualmente propor uma nova lei. Aqui o Partido Socialista e Mário Soares foram aqueles que mais bloquearam a saída da Lei. Em meados de 1975 havia meio milhão de hectares ocupados, embora ainda não existisse lei, depois com a saída da lei são ocupados mais meio milhão.
Isto para dizer que o processo revolucionário é legítimo, por isso a Reforma Agrária foi legítima, e só não avançou com base na lei porque não houve um governo democrático. Se os agrários dão trabalho e produzem, não se teria avançado assim. O comportamento dos grandes proprietários, que é a classe mais retrógrada da sociedade, foi de arrogância. Por outro lado, aqui em Montemor, na Quinta dos Pretos, ninguém a ocupou, ele trabalhava a terra e misturava-se com o pessoal.
A.P. – Ao longo do processo da Reforma Agrária também houve falhas, porque foi um processo sobre o qual não havia experiência e muitas vezes foi necessário aprender à custa dos próprios erros, mas estes foram erros de percurso, não erros de princípio.
Esta foi a conquista de Abril que regionalmente mais impacto teve no Alentejo. Foi com base na Reforma Agrária que as populações das aldeias, dos lugarejos, de toda a região do Alentejo se desenvolveram tendo, ao longo dos 10 ou 15 anos, aumentado exponencialmente o seu nível de vida. Para muitos deles foi a única possibilidade de poder adquirir a sua casa, de poder adquirir bens de consumo necessários, o seu carro, a sua mobília. Do ponto de vista social foi o acontecimento mais importante do último século, a partir do qual a população veio a ter as melhores condições de vida de sempre e a garantia de estabilidade laboral, coisa que nunca tinha tido antes e que nunca mais veio a ter, com o termo da Reforma Agrária.
Ainda relativamente à questão da legitimidade eu acho que foi completamente legítima a partida para as terras e o direito que trabalhadores tinham de que essas terras fossem colocadas a produzir em prol das sociedades locais.
Por outro lado, a Reforma Agrária, foi uma mina para muitos agrários que, no início, limparam as dívidas que tinham perante a banca, com tudo hipotecado. Por outro lado, com o seu termo, veio a indemnização de 60 milhões de contos distribuídos ao latifúndio, para o tempo que não tiveram as terras na sua posse. Foi como que a lotaria que lhes saiu nestes 10 anos de Reforma Agrária. Como é lógico eles não o reconhecem, mas é a realidade.
O desenvolvimento do Alentejo
O Alentejo tem futuro? E esse futuro passa pela Agricultura?
A.P. – A agricultura é o sector económico estratégico para esta região. A própria estrutura agrária daqui e o papel que pode ter no desenvolvimento económico desta região é indispensável. O progresso passará necessariamente pelo desenvolvimento sustentado da agricultura.
O que é necessário é partir para uma agricultura sustentada de aproveitamento do solo agrícola, com rotações de culturas. Jamais pudemos pensar num futuro melhor para esta região sem colocar nos primeiros lugares o sector agrícola. Por que é impossível que o sector fabril abandone, de um dia para o outro, a faixa litoral, onde está instalado e onde tem escoamento com custos mais baixos, para criar aqui implantação.
Que ninguém tenha ilusões que conseguiremos, nos próximos anos trazer para aqui indústrias, porque não é só a localização e as vias de acesso, são também os hábitos e as mentalidades das populações. Vendas Novas conseguiu prosperar nesta área porque já tem estes hábitos enraizados, tem 50 anos de indústria!
O PCP está em crise?
Confrontados com a questão sobre se o PCP está em crise, quer em crise política, ideológica ou crise de direcção, António Gervásio responde directamente que não e que a Festa do Avante foi a maior demonstração de que o partido não está em crise.
Todavia, novamente, um grupo de destacados dirigentes comunistas têm vindo para a praça pública contestar a actual direcção.
A.G – Esta questão dos chamados reformistas ou renovadores tem tido o apoio da comunicação social. Estes membros do partido defendem uma outra teoria, de que o partido deveria deixar de ser marxista-leninista, defendendo um outro funcionamento, um outro método de eleição dos seus órgãos dirigentes, uma concepção que consiste em alterar toda a matriz ideológica, de classe, todos os princípios e apresentam-se à opinião pública como vitimas de perseguição e de delito de opinião, num partido onde sempre houve as opiniões mais disparatadas e nunca ninguém foi sancionado por ter opiniões diferentes. Todos têm direito a ter a sua opinião e a defende-la, desde que não entrem em trabalho fraccionário, foi sempre assim e será assim. Agora, este grupo tem um trabalho fraccionário organizado dentro do PCP.
Por que razão os renovadores têm pressa em realizar um novo Congresso, quando o último foi há dois anos e prazo para a realização do próximo está definido nos estatutos do partido?
A.G. – Em primeiro lugar para ganhar tempo e para a gente se entreter com estas coisas e poderem ter a esperança de mudar alguma coisa. No último Congresso já puseram as opiniões deles, bateram-se ali por elas, mas foram rejeitadas. Em 1300 delegados não chegaram a 100 os que se abstiveram e votaram a favor. Isto não tem impacto dentro do partido, mas faz mal e nas últimas eleições fomos prejudicados por isso.
As pessoas não sabem como é que funciona o PCP e pensam que não se pode ter opiniões diferentes. Claro que pode e têm o direito de ter, que está assegurado nos estatutos.
A.P. – Mais uma vez, nesta questão, os órgãos de comunicação social, fazedores de opinião, e os grandes grupos económicos, dão sobre esta questão uma imagem que pode vir a debilitar o partido, dando voz a este pequeno grupo e não a todo o trabalho de luta do partido, de organização nas fábricas, nos campos, na Assembleia da República.
Em todos os lados onde está presente a actividade do partido, não há uma palavra na comunicação social e só é dada ênfase a estes, como se eles representassem alguma coisa. Para quem esteja menos informado politicamente, pensa que é aquele o clima que se vive dentro do partido. Não é verdade nem nunca foi. É muito forçado chamar a isto uma crise, a imagem que se transporta para o exterior aparenta uma crise, mas na prática, a vida do partido é do mais normal que pode haver.
A sociedade em que hoje vivemos, é uma desilusão, principalmente para quem viveu toda a vida ligado ao PCP, com uma visão de sociedade própria do PCP?
A.G. - Não, não é. Quando olho para o meu partido vejo que o XVI Congresso trouxe uma fornada de jovens para o partido, mas todos com a consciência do seu papel, da sua responsabilidade. Olhando para a sociedade, vejo-a por isso com uma certa alegria.
Mas acha essa sociedade próxima do socialismo ou cada vez mais afastada?
A.G - Nessa perspectiva não. Vamos ter anos duros e negros pela nossa frente, lutas muito duras, por que o imperialismo está livre, faz o que quer, atreve-se a destruir países, o que parece impossível. No nosso país, ou no mundo, não vejo grandes perspectivas. A luta vai-se agudizar, a História não anda para trás, às vezes anda aos ziguezagues, mas sempre caminhando para a frente.
Hoje, o capitalismo tem uma capacidade de alienar as pessoas para o consumismo, para uma vida fácil, para o dia-a-dia, onde não se pensa em nada. O que se vê é uma desumanização da própria sociedade, onde cada um quer é ter um bom carro, e não pensa nas questões sociais, na solidariedade.
A História é uma luta de classes?
A.P. – É isso mesmo. A história é uma luta de classe e terá sempre a pressão de um lado e do outro. Haverá sempre uma força dominante. Neste nosso mundo é o dinheiro, é ele que manda, que impõe ao poder político a sua vontade. Um equilíbrio raramente haverá.
No livro “Até Amanhã Camaradas”, Rosa diz a Vaz, “temos que fazer um mundo novo”, esse continua a ser um objectivo do PCP?
AG – Exactamente, se não, não fazia sentido sacrificar tanto a nossa vida familiar, profissional, se não tivéssemos essa perspectiva. Não será já no nosso tempo. Muitos queriam ver derrubar o fascismo, não viram, mas outros viram. Eu já não vejo o socialismo no meu país, mas tenho a certeza que é para aí que a Humanidade caminha.
A Humanidade não precisa de homens a explorar outros homens, não precisamos disso, queremos outra vida sem ser explorados, uma vida melhor, cada vez trabalhar menos mas produzindo mais, com novas tecnologias. Eu não luto por uma sociedade burguesa, não espero que os capitalistas se democratizem e vão ceder mais regalias e mais direitos aos trabalhadores. É preciso transformar esta sociedade, para acabar com os erros a que hoje assistimos.
Estas são as minhas convicções políticas, assentes na história da vida.
A.M. Santos Nabo
antonio.nabo@sapo.pt
Novembro, 2002
março 10, 2005
ACTUALIZAÇÃO DAS LIGAÇÕES
Em curso, com novas entradas e retirada das desactualizadas.
fevereiro 05, 2005
SÉRIE TELEVISIVA BASEADA NO LIVRO "ATÉ AMANHÃ CAMARADAS" DE ÁLVARO CUNHAL
Passou na SIC,no mês de Janeiro de 2005, a série televisiva "Até Amanhã, Camaradas" realizada por Joaquim Leitão.
No jornal Público de 28 de Janeiro Carlos Câmara Lemos e Miguel Madeira entrevistam o realizador sobre o filme e a colaboração de Álvaro Cunhal na sua feitura. Em anexo reproduzem-se quatro testemunhos de clandestinos ( Carlos Costa, Francisco Melo, Joaquim Gomes e Sofia Ferreira) sobre a série.
"Até Amanhã, Camaradas" Vista por Joaquim Leitão: "A Série Está ao Nível do Melhor Que Se Faz na Europa"
Por CARLOS CÂMARA LEME (TEXTO) E MIGUEL MADEIRA (FOTO)
Sexta-feira, 28 de Janeiro de 2005
"Até Amanhã, Camaradas", a série a partir da obra de Manuel Tiago, pseudónimo de Álvaro Cunhal, é uma aposta de Tino Navarro. É a maior série de televisão portuguesa de sempre. O produtor da MGN optou por uma série de seis episódios de 50 minutos, num total de 300 minutos, devido à complexidade do romance que envolve 140 personagens. Numa primeira fase, a série, filmada em película, esteve nas mãos do realizador Luís Filipe Rocha, autor do argumento, mas o produtor acabou por entregar o projecto a Joaquim Leitão. O realizador de "Adão e Eva", "Inferno" ou "Tentação" leu o romance "três, quatro vezes" e encontrou-se com Álvaro Cunhal. Hoje e amanhã a SIC vai transmitir os seis episódios da série, às 23h15 e 22h30, três em cada dia.
PÚBLICO - Quando agarrou este projecto já tinha um argumento escrito pelo realizador Luís Filipe Rocha. Isso criou-lhe obstáculos à realização da série ou não?
JOAQUIM LEITÃO - Quando aceitei fazer a série já foi no pressuposto que havia uma janela temporal possível para realizar o projecto. Mesmo que quisesse fazer alterações era impossível. Por isso segui o argumento até porque conhecia bastante bem o livro. O guião respeitava o livro no fundamental, estava perante um bom argumento.
P. - Mas não teve receio nenhum?
R. - Não, foi uma decisão ponderada, não tomei a decisão de ânimo leve nem quanto a aceitar o argumento nem quanto às condições de produção - que eu queria ter a certeza que as teria para fazer a série tal como imaginava. Mas é evidente que sou eu a realizar, e parte de mim está ali na maneira como concebo a vida e o cinema.
P. - Quantas vezes é que leu "Até Amanhã Camaradas"?
R. - Umas três, quatro vezes. Primeiro por curiosidade, depois porque à semelhança de outras pessoas li-o com a ideia de um dia talvez adaptá-lo e desde que me meti neste projecto, já com outros olhos, li-o com uma atenção aos detalhes, às pequenas coisas...
P. - Quantas vezes falou com Álvaro Cunhal sobre o que estava a fazer?
R. - Falei duas vezes por telefone e estive com ele uma vez, pessoalmente.
P. - Em que medida essas conversas foram úteis para si? Ele deu-lhe algumas indicações? Discutiram muito?
R. - Não. As conversas com ele foram muito práticas. Havia certo detalhes sobre as quais eu tinha dúvidas...
P. -... por exemplo?
R. - Logo no princípio havia uma cena em que o Vaz passava por diversos sítios e que, em certa altura, encontrava-se com uma pessoa a quem só dizia uma palavra, cujo significado eu não compreendia. Depois da conversa com Álvaro Cunhal percebi que, para que aquilo se tornasse claro, tinha que fazer muito mais coisas que ninguém, a não ser um círculo muito restrito de pessoas, é que perceberia. E ele sugeriu-me que era melhor não pôr.
P. - Foi fácil a conversa com ele?
R. - Foi, foi... E com todas com todas as pessoas ligadas ao partido. Não tenho razões de queixa: tudo o que perguntei foi-me respondido com a maior das franquezas até para captar o sentimento que as pessoas tinham na altura. Para mim, o essencial disto em termos emocionais era fazer uma opção: ou se fazia uma coisa muito sofrida ou então uma coisa que era a ideia que eu tinha - a vida daquelas pessoas era difícil, dura, mas era uma vida entusiasmante.
P. - Perdura um mistério quanto ao livro ou melhor quanto a uma personagem do livro. O Vaz, o homem da bicicleta, é o próprio Álvaro Cunhal ou não? O escritor Urbano Tavares Rodrigues disse que era uma mistura de Vaz e Ramos...
R. - A essa questão, não posso responder e nem eu sequer a pus nunca até porque isso só me condicionava... Se isso não é evidente da leitura do livro porquê forçar essa via? O que toda a gente me dizia é que as personagens são inspiradas em combinações de várias pessoas. É óbvio que a primeira intuição é ligar o Vaz a Álvaro Cunhal, mas isso é pegar nas coisas muito pela rama...
P. -... e não só a um herói, é um livro muito coral...
R. - Exactamente! Há personagens que vão ganhando força e presença num determinado momento, outras aparecem outras. A única pessoa que podia responder ao mistério era Álvaro Cunhal, mas é uma coisa que não tem grande interesse.
P. - Quais foram os momentos mais difíceis de dar? Os intimistas, as reuniões clandestinas, os encontros, a escolha das paisagens, ou, por exemplo a greve que exige uma maior movimentação mas também mais cuidados para não se cair no fácil?
R. - Havia duas coisas que a leitura do argumento punha como dificuldades: uma é que há muitas reuniões de clandestinidade em que em que as pessoas falam numa linguagem cifrada - e os actores ultrapassaram esse problema com paixão - enquanto que, na questão da greve, a dificuldade era reconstituir um entusiasmo que não é muito bem controlado por cada um de nós. E acho que se conseguiu fazer passar bem para o espectador as duas coisas.
P. - À escala portuguesa, esta é a maior série de sempre. Acha que pode ser uma mudança no audiovisual português ou é apenas um caso isolado?
R. - Também não sei responder a essa pergunta. Só espero que não seja um caso isolado mas um exemplo para que apareceram mais séries feitas por outros realizadores. Mas acho que esta série se for passada daqui a dez anos continuará a funcionar, independentemente da opinião que se tenha dela. Esta série está ao nível do melhor que se faz na produção europeia.
P. - O facto da série ir para o ar em plena campanha eleitoral não terá consequências políticas ao nível no voto no PCP?
R. - É outra pergunta que não sei responder. Até porque a decisão de passar nesta altura não foi minha. O que não dizer que não haja um lado empolgante desta série que tem a ver com a luta do PCP. Agora se isso passará para a actualidade não sei. Veremos... [risos]
Quatro Testemunhos
Sexta-feira, 28 de Janeiro de 2005
Estão umbilicalmente ligados à clandestinidade e viveram de perto algumas das situações descritas em "Até Amanhã Camaradas" (ed. Avante!). Visionaram a série e deram os seus testemunhos ao PÚBLICO.
Carlos Costa
Militante do PCP, participou na fuga de Peniche e esteve na clandestinidade, 76 anos
O livro reflecte de uma forma muito especial a história do país e até a derrota que se estava a reflectir na Europa do Nazismo pelo Exército Vermelho. A série apanha muito bem essa atmosfera. É muito rigorosa e cuidadosa, em particular no olhar que dá do esforço físico e moral dos funcionários clandestinos do partido. Os problemas que o livro podia pôr - sobretudo os pormenores de síntese - são bem ultrapassados. Quanto à vida na clandestinidade e o ar de chumbo que se vivia então é, também, muito bem dado. A escolha dos sítios deve igualmente ter dado um trabalho monstruoso - encontrar uma fábrica de juta, ainda a funcionar, é uma coisa magnífica.
Francisco Melo
Primeiro editor de "Até Amanhã Camaradas" (Edições Avante!), militante do PCP desde 1963, 60 anos
Como editor penso que a adaptação de "Até Amanhã Camaradas", obra publicada em finais de 1974, segue com fidelidade o argumento e os diálogos devidos a Luís Filipe Rocha com aprovação do autor do romance. Não ignorando a especificidade das linguagens literária e fílmico-televisiva, a minha opinião é que o realizador Joaquim leitão e a sua equipa souberam utilizar de maneira criativa esta última para nos darem uma nova obra de arte que não trai, muito pelo contrário, as características essenciais daquela que lhe deu origem. E isto aplica-se à reconstituição quer política quer humana dos personagens desta gesta histórica dos comunistas portugueses de meados dos anos 40 do século XIX.
Joaquim Gomes
Militante do PCP desde 1932, esteve na clandestinidade desde 1953 até ao 25 de Abril, 87 anos
Quem viveu na clandestinidade, quem esteve preso nas prisões fascistas, quem participou ou dirigiu lutas por melhores condições de vida dos trabalhadores ou dos camponeses, a série surpreendeu-me pelo realismo que dá. As lutas do Ribatejo, descritas na série, são dadas de uma forma fantástica. Não ficando tudo elucidado do que foi o fascismo, a série dá bem o que era a repressão da polícia política mas também a luta do PCP durante todo o tempo em que fascismo existiu.
Sofia Ferreira
Militante do PCP, desde 1944, e na clandestinidade desde 1946 (eleita para o Comité Central em 1957) 82 anos
Não sendo uma personagem parte do romance, é um período muito difícil para o partido. A vida dos funcionários, os seus meios de transporte eram adequados àquela época até porque os meios financeiros eram poucos. O ambiente de conjunto está bem dado pelas reuniões de clandestinidade, pelas relações entre os funcionários e os comités locais. O filme para mim está muito fiel num aspecto, que é o espírito de sacrifício dos camaradas - o Vaz punha até em segundo lugar o seu estado de saúde pelas actividades do partido. Gostei muito da série e sobretudo como é dada a parte repressiva das prisões, o comportamento dos quadros, uns mais duros outros mais fracos, como da reorganização depois da greve. Apreciei, também, muito o papel das mulheres.
novembro 27, 2004
LISTA DE AUTORES CENSURADOS NO NOTÍCIAS DA AMADORA
No blogue de João Tunes, Água Lisa publica-se LEMBRANDO A CENSURA, uma nota listando os autores censurados no jornal O Noticias da Amadora antes de 25 de Abril. Reproduz-se a nota em seguida:
LEMBRANDO A CENSURA
O Noticias da Amadora, semanário que, durante o fascismo e sob direcção de Orlando Gonçalves, representou uma voz de ampla difusão alternativa de opiniões discordantes, foi particularmente castigado pela Censura.
Pela colaboração naquele Semanário, passou muita gente do jornalismo, da crítica e da opinião antifascista.
Segundo se lê no último número deste periódico, é feito o apanhado da acção da Censura contra ele. O lápis azul dos censores, entre 1958 e 1974, cortou ou retalhou, 2.776 artigos ou notícias (2.108 tiveram cortes parciais, 668 foram cortados na íntegra). 502 autores e autoras viram escritos seus objecto da sanha censória.
Curioso é também lembrar o ranking dos autores e das autoras mais visados pela censura (com mais de 5 artigos censurados):
1º) Orlando Gonçalves – Censurado em 111 artigos,
2º) Correia da Fonseca – em 58,
3º) Soeiro Sarmento – em 49,
4º) João Tunes – em 26,
4º) Orlando César – em 26,
6º) Molarinho Jacinto – em 25,
7º) António dos Santos – em 24,
8º) António Caeiro – em 23,
9º) Sérgio Ribeiro – em 20,
10º) A-da-Maya – 17,
10º) José Freire Antunes – em 17,
12º) Fernando Dacosta – em 16,
12º) Joaquim Assunção Leal – em 16,
14º) Afonso Cautela – em 15,
14º) Arlindo Mota – em 15,
14º) Eufrázio Filipe – em 15,
14º) Manuel Azevedo – em 15,
18º) Antunes da Silva – em 13,
18º) Deodato dos Santos – em 13,
20º) Alice Nicolau – em 12,
20º) Eduardo Olímpio – em 12,
20º) Torres Rodrigues – em 12,
23º) Joaquim Benite – em 11,
23º) Manuel Geraldo – em 11,
23º) Manuel João Gomes – em 11,
23º) Rui Pires – em 11,
23º) Torquato da Luz – em 11,
28º) António Amaral – em 10,
28º) Eugénio Rosa – em 10,
28º) Helena Neves – em 10,
28º) Muradali Mamadhusen – em 10,
32º) Carlos Carvalhas – em 9,
32º) José Antunes Ribeiro – em 9,
34º) Afonso Praça – em 8,
34º) Agostinho Chaves Gonçalves – em 8,
34º) Francisco Marcelo Curto – em 8,
34º) J.J. Magalhães dos Santos – em 8,
34º) João Paulo Guerra – em 8,
39º) Arnaldo Pereira – em 7,
39º) Luís Ganhão – em 7,
39º) Raul Calado – em 7,
39º) Tito Lívio – em 7,
43º) A. Krusse Afallo – em 6,
43º) Alexandre Silva – em 6,
43º) António Rico – em 6,
43º) Fernando Marrazes – em 6,
43º) Fernando Sequeira – em 6,
43º) José João Louro – em 6,
43º) Lauro António – em 6,
43º) Leopoldo Gonçalves – em 6,
43º) M.F. Tavares Sousa – em 6,
43º) Mário Rodrigues – em 6,
43º) Vítor Ângelo – em 6.
maio 10, 2004
Rui Silva - A PIDE E UMA EXPOSIÇÃO NO LICEU GIL VICENTE NOS ANOS SESSENTA
"Estávamos nos idos anos de sessenta e frequentava o Liceu Nacional de Gil Vicente, em Lisboa.
Fazia parte da JEC ( Juventude Escolar Católica), núcleo do Gil Vicente.
A JEC era uma estrutura com alguma implantação no meio liceal e, se bem que vocacionada para a componente religiosa, não descurava a vivência do meio social em que se inseria.
Atentos que estávamos ao dia a dia, quer no domínio nacional ( a guerra colonial tudo sorvia), quer no domínio internacional ( o “Vietname” estava a matar, a África colonial inglesa, belga, francesa estava a ferver, a Argélia em ebulição, etc.), resolvemos fazer uma exposição sobre os malefícios das guerras, ajudados pelos padres de Religião e Moral afectados à JEC e, constando de textos da nossa autoria e de fotos que órgãos de informação nacionais e internacionais publicavam.
Naturalmente que a guerra nas colónias portuguesas era abordada, entre as outras, sem qualquer destaque especial.
A muito custo e, com muito trabalho lá foi inaugurada a exposição, na salão anexo à biblioteca, com o acordo e beneplácito do Reitor.
Não sei porquê nem porque não, os organizadores da exposição ( entre os quais eu, os meus colegas e os padres da JEC), fomos no dia seguinte chamados à presença do Reitor que, lamentando a decisão, nos pedia para retirar imediatamente a exposição, pois aquela não agradava à PIDE.
A exposição morria assim à nascença.
A PIDE era, sem dúvida, uma organização bem oleada, com olhos e ouvidos em todo o lugar.
A sua “dedicação” à coisa pública, melhor seria dizer ao Estado Novo, era absoluta.
Juntamente com o outro braço “intelectual” do Regime, a Censura, zelavam pela “Segurança e pelos Bons Costumes” da sociedade (deles).
É uma vivência pessoal, sem nenhum outro valor que não seja o de lembrar que a PIDE existiu e que fazia coisas que hoje nos fazem sorrir ( a quem a sentiu) e duvidar a quem nasceu depois da sua “morte”.
O que contei não foi protagonizado por “perigosos agitadores subversivos” ou por utópicos “pacifistas”. Eram apenas rapazes portugueses que mostravam aos colegas uma realidade, com a qual, como cristãos e católicos, não concordavam.
O nosso “erro” foi demonstrar publicamente que não concordávamos e, por isso, seríamos um mau exemplo. "
(Rui Silva)
abril 04, 2004
APELO A FAVOR DE H-NET
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março 28, 2004
Nuno Guerreiro - BANDA DESENHADA ANTI-COMUNISTA

"Aqui lhe envio um link que presumo irá apreciar: a versão on-line, na íntegra, de uma edição da revista de comics americana "Treasure Chest" intitulada Godless Communism. Uma verdadeira delícia, perfeitamente enquadrada na pop-culture americana do início dos anos 60, ainda fortemente influenciada pelos valores e pela estética dos "fifties". Ainda por cima com uma nota introdutória assinada por J. Edgar Hoover. "
(Nuno Guerreiro)
outubro 26, 2003
TIPOGRAFIA CLANDESTINA

agosto 22, 2003
SOBRE A TORTURA
Nota enviada pelos Avatares do Desejo sobre a tortura:
"Estando o tema do corpo/dor/sofrimento entre as minhas preocupações académicas, queria apenas partilhar com os Estudos sobre o comunismo algumas contribuições de ordem teórica advindas de algumas leituras recentes que julgo poderem ser pertinentes:
Scarry, Ellen, 1985, The Body in Pain, Oxford University Press, Oxford.
Scarry ilustra assim o paradoxo do exercício da tortura por um poder político:
The physical pain is so incontestably real that it seems to confer its quality of "incontestable reality" on that power that has brought into being. It is, of course, precisely because the reality of that power is so highly contestable, the regime so unstable, that torture is being used.
Reflecte sobre a ideia de traição nas confissões sob tortura a partir da ideia que dor extrema conduz ao unmaking of the world:
What is meant by "seeing stars" is that the contents of consciousness are, during those moments, obliterated, that the name of one's child, the memory of a friend's face, are all absent. But the nature of this "absence" is not illuminated by the word "betrayal." One cannot betray or be false to something that has ceased to exist and, in the most literal way possible, the created world of thought and feeling, all the psychological and mental content that constitutes both one's self and one's world, and that gives rise to and is in turn made possible by language, ceases to exist.
...
The confession is one crucial demonstration of this absent world, but there are others. "
julho 01, 2003
C.M. DE COIMBRA COMPRA CASA DE JOÃO JOSÉ COCHOFEL
“A Casa do Arco, em Coimbra, que pertencia aos herdeiros do poeta João José Cochofel, passam, após restauro, a edificio sede da futura Casa da Escrita, por decisão da Câmara daquela cidade, que adquiriu o edificio por 750 mil euros. 0 objectivo é fazer ali um local destinado ao acolhimento de escritores e obras literária, a instalação de uma biblioteca, urna fonoteca, bem corno palco da diversos acontecimentos culturais.(…) . Recorde-se que pela casa de Cochofel passaram, dos anos 40 ao 25 de Abril de 1974, numerosos escritores e artistas amigos de João José Cochofel, nomeadamente José Gomes Ferreira, Fernando Lopes Graça, Carlos de Oliveira, Augusto Abelaira e Eduardo Lourenço, que ali conviveram com o proprietário em tertúlias de que há relatos na literatura memorialista portuguesa.”
(Jornal de Letras , 25/6/2003)
junho 28, 2003
PORTUGUESES NA CASA INTERNACIONAL DA CRIANÇA DE IVANOVO
A RTP passou no seu noticiário de 28 de Junho de 2003 uma reportagem sobre a Interdom (Internacionalny Dom , Casa Internacional) escola fundada em 1933 em Ivanovo , a cerca de 400 quilómetros de Moscovo, para acolher os filhos dos militantes comunistas que, ou ficaram órfãos ou tiveram que abandonar os pais envolvidos na vida clandestina ou que estavam presos.
Nessa reportagem refere-se que 12 crianças portuguesas estiveram na escola, entre os quais os filhos de Jaime Serra, José e Maria (que foi professora da escola) , Joaquim Carvalho, e Luís Carlos Machado Lagarto (“Carlos Oliveira”) . No Museu da escola encontra-se uma carta de Álvaro Cunhal que visitou Ivanovo, de Fevereiro de 1974, agradecendo o papel da instituição no apoio aos comunistas portugueses na clandestinidade.
Um filme intitulado “Os filhos de Ivanovo” de autoria de José Serra , um antigo aluno que aí esteve dos sete aos treze anos , produzido pela produtora Duvideo , está a ser realizado por Ivan Dias. O filme já está vendido à televisão pública da Finlândia (Yle Teema) e poderá vir também a ser exibido em Portugal. Nesse filme colabora o violinista Manuel Rocha, da Brigada Vítor Jara, que também estudou música na antiga URSS.
maio 25, 2003
ADVOGADOS COMUNISTAS ANTES DO 25 DE ABRIL
Avelino Pereira colocou-me a seguinte questão :
“Li a sua página sobre os estudos sobre o comunismo, e gostaria de aproveitar a disponibilidade para perguntas para suscitar uma dúvida que me assolou aquando da leitura do 2º volume da sua biografia de Alvaro Cunhal. Refere-se, no livro, a intervenção do Dr. Palma Carlos como advogado dos comunistas que eram acusados pelo regime. Como advogado dos arguidos, com intervenção no processo, presumo. Mas alude-se ainda que o Dr. Palma Carlos comunicava ao Dr. Alvaro Cunhal o que do autos ressaltava sobre o comportamento dos arguidos durante interrogatório. Parece por isso, que por um lado, o Dr. Palma Carlos assumia a defesa de arguidos, e que, ao mesmo tempo, denunciava ao Partido o comportamento desconforme com as suas normas. Ora, isto seria um comportamento incompreensível da parte de um advogado. Será que poderia esclarecer como se processavam as relações entre o Partido, e os advogados que obtinha para a defesa dos seus militantes, nomeadamente no que se refere aos deveres de sigilo destes ? “
Enviei-lhe em e-mail a seguinte resposta :
“Os advogados do PCP que acompanhavam os processos políticos eram em primeiro lugar militantes do PCP e só depois advogados no sentido formal do termo . Isso tem sentido na época e pareceria bizarro a qualquer membro da oposição que fosse de outro modo . O mesmo procedimento tinham os advogados da oposição que não eram do PCP mas que divulgavam pelos canais que possuíam as informações que consideravam relevantes no âmbito da luta política em curso . O que se passava é que ninguém considerava legítimo todo o processo da "justiça" do regime , que era completamente iníquio , com declarações obtidas sob tortura e procedimentos legais inaceitáveis numa democracia .
Os Tribunais Plenários , que substituíram os Tribunais Militares , no julgamento dos opositores ao regime , viviam das declarações obtidas sob tortura e dos testemunhos dos PIDEs que a praticavam . Conhecem-se cenas absurdas ocorridas em pleno julgamento , que mostravam o grau de politização dos juízes , que actuavam como funcionários do regime .”
Avelino Pereira autorizou-me a divulgação desta correspondência e acrescentou o seguinte :
“A questão no entanto, prende-se não propriamente com a justeza do processo, cujas iniquidades são conhecidas, mas antes como se colocariam os advogados, face aos interesses em jogo no processo penal. O Dr. Palma Carlos era, ao que sei, tido como um excelente advogado, com reputação intocável. Como poderia então acusar os seus clientes, de comportamentos impróprios no interrogatório ? Como poderiam estes aceitar ser defendidos por alguem que sabiam iria transmitir os seus " pecados " ( todo o homem tem pecados ) aos chefes do Partido ? Isto, em boa verdade, nada tem a ver com a justeza do processo. Nos dias de hoje, sobretudo para alguem que não viveu os tempos anteriores à revolução, é tudo dificilmente compreensível “
Comentário
Eu próprio tive ocasião de discutir esta questão com o o dr. Palma Carlos em entrevistas que lhe fiz nos últimos dois anos antes de falecer . O conhecimento dos autos de perguntas era um elemento crucial da informação que o PCP necessitava para julgar o comportamento dos seus militantes e identificar as quebras de segurança que poderiam afectar a sua organização . Por isso , essas informações circulavam , insisto , não apenas vindas dos advogados que eram comunistas , mas em todos os advogados da oposição que defendiam os presos polítcos . O pressuposto de legitimidade dessa prática vinha de se considerar que quando um preso atravessasse o limiar do que era considerado “traição” – uma colaboração sistemática e voluntária com a PIDE para além da fraqueza das declarações sob tortura – nenhum advogado da oposição defenderia esse preso.
Isto não significa que não tenha havido casos em que determinadas declarações de há muito conhecidas , tenham sido divulgadas posteriormente no âmbito de ataques políticos a personalidades que o PCP queria marginalizar na oposição , depois de terem sido expulsas do partido . Foi o caso de Fernando Piteira Santos , cujas declarações de 1945 que tinham dado origem a uma sanção leve em 1946 , foram depois utilizadas na intensa campanha que o PCP conduziu contra ele depois de 1949-1950 . O partido tinha cópias dos autos de perguntas que divulgou selectivamente .
Acresce que para muitos presos os advogados não eram vistos como “advogados” no sentido de que a sua intervenção iria ter qualquer influência na “defesa” . A ideia de que houvesse “defesa” no sentido estritamente jurídico , particularmente nos casos de funcionários , era-lhes de todo alheia . A verdadeira defesa era a que o próprio fazia na tradição comunista , com um discurso de teor político , do género dos publicados pelo PCP no volume A Defesa Acusa . O advogado era muitas vezes o camarada político ou o correlegionário de luta , fosse comunista ou oposicionista , e o elo que o preso tinha com o partido .